Saturday, July 30, 2005

Kurt Weill

Nos anos 60, um dos autores teatrais mais encenados no Brasil era Bertolt Brecht. Uma das melhores peças que eu vi quando garoto foi o Círculo de Giz do Brecht. Depois o Zé Celso montou Na Selva das Cidades e foi uma revolução na cabeça da todos nós.
Muitos anos mais tarde, quando eu já estava casado com a Angela, o amigo dela e irmão do Zé Celso, Luiz Antonio Martinez Correa, montou um espetáculo genial com canções de Brecht e Kurt Weill.

Desde então, além de Brecht eu gosto de Kurt Weill.

Kurt Weill só viveu 50 anos, 1900-1950. Fugindo dos nazistas, chegou a New York em 1935 e aqui virou um grande sucesso na Broadway. Brecht anda meio esquecido, as peças dele quase não são encenadas, mas a música de Weill, tanto do período alemão quanto do americano, é cada vez mais ouvida.



De Kurt Weill:

Teresa Stratas, Havanna-Lied
Ute Lemper, Je ne t'aime pas
Alabama Song, London Sinfonietta




Weill é mais conhecido pela Ópera dos Três Vinténs que compôs com Brecht (e inspirou a Ópera do Malandro de Chico Buarque).
Esta é a Suíte para sopros da Ópera dos Três Vinténs pela London Sinfonietta.
Abertura
Balada de Mackie Messer (Mac the Knife)
Canção "Ao invés de"
Balada da Boa Vida
Canção de Polly
Tango-balada
Canção dos canhões
Final




A canção americana mais famosa de Kurt Weill é September Song.
Seguem a letra, de Maxwell Anderson, e várias interpretações.

SEPTEMBER SONG
Maxwell Anderson / Kurt Weill. ©1938

When I was a young man courting the girls
I played me a waiting game.
If a maid refused me with tossing curls
I'd let the old earth take a couple of twirls
And I'd ply her with tears instead of pearls
And as time came around, she came my way
As time came around, she came
But it's a long, long while from May to December
And the days grow short when you reach September.
The autumn weather turns the leaves to flame
And I haven't got the time for the waiting game.
Oh, the days dwindle down to precious few;
September, November.
And these few precious days I'll spend with you.
These precious days I'll spend with you.

Frank Sinatra
Ella Fitzgerald
Lotte Lenya (a mulher de Kurt Weill)
Lou Reed
Ben Webster, sax
Jimmy Durante





Um bando de roqueiros se juntou no disco Lost in the Stars para gravar canções de Kurt Weill. A gravação aí em cima de September Song por Lou Reed está nesse disco.
Ouça mais três faixas desse CD:

Tom Waits, What keeps mankind alive
Charlie Haden, Speak Low
Carla Bley, Phil Woods, Lost in the Stars


Speak Low virou um jazz standard gravado por grandes músicos:

Chet Baker
Gato Barbieri
Bill Evans
Ella Fitzgerald e Joe Pass
Billie Holiday (num horrendo remix dançante, ainda não achei a versão original. Apesar do arranjo medonho ela é sempre genial)

Kurt Weill e Lotte Lenya

Além da música popular, Kurt Weill compôs música erudita.

Concerto para violino e sopros, The London Sinfonietta:

Andante
Noturno
Allegro

Thursday, July 28, 2005

Leonard Bernstein, 1944

Um dos lugares mais bonitos de New York é onde está enterrado o maestro Leonard Bernstein. Fica no cemitério Green-Wood, um dos mais antigos da cidade. Bernstein está em cima de uma colina no ponto mais alto do Brooklyn. De lá se vê ao longe a estátua da Liberdade.
É muito simples, apenas uma placa na grama: Leonard Berstein, 1918-1990. Há um banco de pedra entre dois pequenos ciprestes. E só. Os coveiros dizem que Bernstein de vez em quando é visto sentado no banco, cantarolando.

Túmulo de Bernstein, visto do banco de pedra

De Bernstein, New York, New York do musical On the Town.

Deitar na grama no Central Park, olhando o céu de um fim de tarde de verão, com aviões passando lá no alto, balões coloridos voando, a Lua crescente a despontar, e ouvir a suíte de West Side Story de Bernstein num concerto ao ar livre da New York Philarmonic. Nada mais gostoso nesta cidade.
Ouça o prólogo da suite.

Bernstein e Copland, 1945

Um dos boatos oficiais de New York é que Bernstein era gay, não muito enrustido. Assim como seu amigo e mentor, o compositor Aaron Copland. O que importa é que eles estão entre os dois maiores compositores americanos do século XX e contribuiram para popularizar a música de qualidade neste país.
De Copland, com Bernstein e a New York Philarmonic, Fanfarra para um Homem Comum.

Copland e Bernstein,

Wednesday, July 27, 2005



Devo a Lúcia Guimarães ter conhecido Osvaldo Golijov, o compositor argentino que entrevistamos juntos numa série de programas culturais da IBM.
Além de ser encantador, Golijov é gênio. A família dele é de judeus da Europa Oriental que emigraram para a Argentina. Osvaldo nos contou que cresceu ouvindo o avô dele cantar música religiosa em hebraico. Juntou essa raiz ao tango de Piazzola e aos ritmos afrobrasileiros na Paixão Segundo São Marcos, que escreveu como parte das comemorações dos 250 anos da morte de Bach. Ter visto e ouvido essa obra-prima é uma das melhores experiências que eu tive aqui em New York. A solista é a brasileira Luciana Souza. O coral é venezuelano, a Schola Cantorum de Caracas. A Paixão voltará a ser apresentada aqui em fevereiro do ano que vem. Se você estiver pensando em vir, não perca. Será no Rose Theatre, a nova sala do Lincoln Center Jazz Festival.
Ouça a Agonia de Jesus, com Luciana Souza e o coral venezuelano. O cubano Reynaldo González Fernández faz a voz de São Marcos. No palco, um capoeirista brasileiro faz a figura de Jesus.
O trecho é aquele em que Jesus diz: Abba (pai), afasta de mim este cálice.

Osvaldo Golijov

Coral Schola Cantorum de Caracas

Sunday, July 24, 2005

Paul Cézanne, Mont Sainte Victoire

... olhar aquele quadro era como ouvir uma música muito próxima ao silêncio, como ser muito lentamente possuído pela melancolia e a felicidade. Compreendeu num instante que era assim como ele deveria tocar o piano, igual que havia pintado aquele homem: com gratidão e pudor, com sabedoria e inocência, como sabendo tudo e ignorando tudo, com a delicadeza e o medo com que alguém se atreve pela primeira vez a uma carícia, a uma necessária palavra. As cores, diluídas na água e na distância, desenhavam sobre o espaço branco uma montanha violeta, uma planura de ligeiras manchas verdes que pareciam árvores ou sombras de árvores na penumbra de uma tarde de verão, um caminho perdendo-se pelas encostas...

Antonio Muñoz Molina, O Inverno em Lisboa, cap. XVI.

Eric Satie, Gymnopédies, I, II, III , Aldo Ciccolini, piano

Saturday, July 23, 2005




Além de gravar suas próprias canções, o compositor e cantor Léo Ferré (1916-1993) se dedicou a musicar a obra dos grandes poetas franceses, começando pelas Flores do Mal de Baudelaire. Estas são algumas das faixas do primeiro disco dele (são dois), de 1967, acompanhadas das minhas traduções.

Spleen

À une Malabaraise

L'étranger

Le soleil

L'albatros

À une passante

Le flacon

Abel et Caïn

La géante

Les bijoux

La musique

La beauté

Recueillement

Le vert paradis (Moesta et errabunda)



Friday, July 22, 2005



Eu era apaixonado pela Françoise Hardy. Quando ela estourou em 1962 com Tous les Garçons et les Filles de Mon Age as meninas pediam para eu tirar a letra e traduzir...
Depois não acompanhei mais a carreira dela. De repente me deu saudade e fui googlar. E olha só nas duas fotos lá embaixo como amadureceu bem. Ninguém diz que tem 61 anos. Também é cantor o filho, Thomas, dela com o roqueiro Jacques Dutronc - este eu vi em Paris e é genial. O último disco da bela é Tant de Belles Choses.

Com o marido Jacques Dutronc e o filho Thomas

Tous les Garçons et les Filles de mon Age

Françoise Hardy

Tant de Belles Choses

Françoise Hardy



Minha querida Anna Maria me manda canções de Bola de Nieve, o músico cubano (1911-1971) que eu não conhecia. Que delícia. Li por aí que ele foi tolerado pelo Fidel embora fosse gay porque era castrista e discreto. Discreto??

Drume Negrita

La Vie en Rose

Vete de Mi

Babalu

El Manisero

Be Careful, it's My Heart

No Puedo Ser Feliz

Thursday, July 21, 2005



Saudade do Rio em New York. Ella abraça Jobim.

Song of the jet (Samba do avião), Tom Jobim

Quiet nights of quiet stars (Corcovado), Tom Jobim


O encontro do pianista cubano Bebo Valdez e do cigano espanhol El Cigala no CD Lagrimas Negras:

Eu sei que vou te amar, Tom/Vinicius, participação de Caetano Veloso

Vete de Mi, Homero e Virgilio Expósito

Tesouro fotográfico

Françoise Gilot e Pablo Picasso, Robert Capa, PhotoMuse.org

Um bom lugar para visitar em New York é o International Center of Photography. Possui um grande acervo de fotos e faz exposições de qualidade.
O centro acaba de se associar à George Eastman House, um museu de fotos criado em Rochester, no norte do estado, pelo fundador da Kodak.
Os dois criaram o site PhotoMuse.org para botar suas coleções online. Mas, ao contrário de outros sites do gênero, como Corbis e Getty, o acesso é gratuito. E as fotos podem ser baixadas por quem quiser.
Por enquanto o site está em construção e só tem cerca de 1 600 fotos. A meta é botar centenas de milhares de fotos à disposição do público.
Esta é uma pequena amostra do que já está online.

Kennedys em campanha, Robert Capa, New York, PhotoMuse.org

Prisão de travesti em New York, Weegee, anos 40, PhotoMuse.org

Cinema em 3-D, Weegee, New York, 1943, PhotoMuse.org

Andy Warhol, Weegee, 1964, PhotoMuse.org

Modelos de comercial do Calvin Klein, Bruce Webber, 1986, PhotoMuse.org

Wednesday, July 20, 2005

We shall overcome

O iate Clearwater no rio Hudson

Nos anos 60 eu via os Estados Unidos através dos folk singers Peter, Paul and Mary e Pete Seeger. Depois veio a Joan Baez e por fim o Bob Dylan.
Mas até hoje eu tenho um carinho especial pelo Pete Seeger.
Angela e eu tivemos a sorte de ver um concerto dele alguns anos atrás. Aos 86, ele está meio aposentado da música mas continua ativo como ambientalista.

Pete Seeger e seu banjo, anos 40

Seeger foi recrutado para o Partido Comunista pelo próprio pai. Como cantor e compositor, fez parte, ao lado de Woody Guthrie, da Frente Popular nos anos 30 e 40 quando a esquerda tinha forte penetração Estados Unidos.
Foi dos poucos a desafiar a caça às bruxas sob o macartismo, e por isso condenado a 10 anos de prisão, pena depois comutada.
Esteve à frente dos movimentos contra a guerra do Vietnam e pelos direitos civis dos negros.



Mas hoje os cidadãos tanto da cidade quanto do estado de New York amam Pete Seeger como o homem que salvou o rio Hudson.

Seeger teve uma idéia genial. Mandou construir um grande iate, o Clearwater, laboratório flutuante para estudar as águas do rio. Depois de décadas de poluição, o Hudson era um rio morto. O Clearwater é hoje oficialmente chamado de Nau Capitânea do Ambientalismo.
Mais de 400 mil pessoas, principalmente alunos das escolas públicas, já velejaram no iate para aprender noções básicas de preservação da natureza.

Pete Seeger a bordo do Clearwater

E o melhor é que o Hudson foi salvo, porque o movimento fundado por Seeger pressionou o Congresso até aprovar a Lei da Água Limpa, que obrigou as indústrias a pararem de poluir os rios do país.
Hoje é possível pescar e nadar em qualquer ponto do Hudson.

Clearwater sob a ponte George Washington

A atual campanha de Pete Seeger é para fechar a usina nuclear de Indian Point, à beira do Hudson. Um acidente ou ataque terrorista à usina seria uma catástrofe ambiental que obrigaria à evacuação da grande New York num raio de 50 km. Mais de 20 milhões de pessoas teriam que fugir.

No concerto de Pete Seeger, que continua com a mesma voz forte e bom humor contagiante, a idade média do público era de 60 anos - a geração que lutou contra a guerra do Vietnam e ainda tem a esperança de que este país volte a ser a terra da liberdade.

Clearwater e a estátua da Liberdade

Pete Seeger canta We Shall Overcome, Nós Venceremos, um velho spiritual que ele redescobriu e transformou no hino do movimento pelos direitos civis.

Com Arlo Guthrie, filho do genial parceiro Woody Guthrie, Seeger canta uma das canções mais bonitas que compôs, Where have all the flowers gone? , e This Land is my Land, de Woody Guthrie, ao mesmo tempo uma declaração de amor à América e um hino socialista.

Pete Seeger canta sozinho o spiritual negro Swing Low Sweet Chariot.

Concerto de Pete Seeger à beira do Hudson

Tuesday, July 19, 2005

Walt Whitman

Walt Whitman, 1855, gravura para a primeira edição de Leaves of Grass

New York comemora os 150 anos da publicação de Leaves of Grass por seu maior poeta, Walt Whitman.
Com apenas dois anos de diferença, saíram, quase incógnitos, os dois livros de poesia mais fecundos deste século e meio: Leaves of Grass e Les Fleurs du Mal (1857).
Baudelaire e Whitman são antípodas - um amava as mulheres, o outro os homens, um era refinado, burguês e melancólico, o outro simples, proletário e cheio de energia - mas têm em comum, além da quase coincidência de data, o fato de terem publicado um único livro de poesia, ao qual foram acrescentando poemas ao longo da vida.
Baudelaire, dois anos mais novo, morreu muito antes e não há registro de que tenha ouvido falar em Whitman, embora ambos compartilhassem a paixão por Edgar Allan Poe.
Whitman, que ainda viveu mais 25 anos, conheceu Baudelaire através de Oscar Wilde e não gostou.
Campeão do verso livre, Whitman disse que os poemas rimados e de métrica rígida do francês eram "doentios", "matemáticos", "uma máquina, uma escravidão". Wilde, esteta e dandy como Baudelaire, não concordou com o velho mestre.
O poema que segue é o terceiro na série Calamus de Leaves of Grass.


WHOEVER you are holding me now in hand,
Without one thing all will be useless,
I give you fair warning, before you attempt me further,
I am not what you supposed, but far different.
Who is he that would become my follower?
Who would sign himself a candidate for my affections? Are you he?

The way is suspicious—the result slow, uncertain, may-be destructive;
You would have to give up all else—I alone would expect to be your God, sole and exclusive,
Your novitiate would even then be long and exhausting,
The whole past theory of your life, and all conformity to the lives around you, would have to be abandoned;
Therefore release me now, before troubling yourself any further—Let go your hand from my shoulders,
Put me down, and depart on your way.

Or else, only by stealth, in some wood, for trial,
Or back of a rock, in the open air,
(For in any roofed room of a house I emerge not—nor in company,
And in libraries I lie as one dumb, a gawk, or unborn, or dead,)
But just possibly with you on a high hill—first watching lest any person, for miles around, approach unawares,
Or possibly with you sailing at sea, or on the beach of the sea, or some quiet island,
Here to put your lips upon mine I permit you,
With the comrade's long-dwelling kiss, or the new husband's kiss,
For I am the new husband, and I am the comrade.

Or, if you will, thrusting me beneath your clothing,
Where I may feel the throbs of your heart, or rest upon your hip,
Carry me when you go forth over land or sea;
For thus, merely touching you, is enough—is best,
And thus, touching you, would I silently sleep and be carried eternally.

But these leaves conning, you con at peril,
For these leaves, and me, you will not understand,
They will elude you at first, and still more afterward—I will certainly elude you,
Even while you should think you had unquestionably caught me, behold!
Already you see I have escaped from you.

For it is not for what I have put into it that I have written this book,
Nor is it by reading it you will acquire it,
Nor do those know me best who admire me, and vauntingly praise me,
Nor will the candidates for my love, (unless at most a very few,) prove victorious,
Nor will my poems do good only—they will do just as much evil, perhaps more,
For all is useless without that which you may guess at many times and not hit—that which I hinted at,

Therefore release me, and depart on your way.

Walt Whitman, daguerreótipo, 1854

(tradução Jorge Pontual)

Seja você quem for segurando-me na mão,
Sem uma coisa tudo será inútil,
Aviso a tempo, antes que me tente mais,
Eu não sou o que você supôs, mas muito diferente.
Quem é aquele que se tornaria meu seguidor?
Quem se assinaria candidato às minhas afeições? Você é ele?

O caminho é suspicaz - o resultado lento, incerto, talvez destrutivo;
Você teria que desistir de tudo o mais - eu sozinho esperaria ser seu Deus, único e exclusivo,
Seu noviciado seria assim mesmo longo e exaustivo,
Toda a teoria passada da sua vida, e toda a conformidade às vidas ao seu redor, teriam que ser abandonadas;
Portanto solte-me agora, antes de se dar ao trabalho - Tire as mãos dos meus ombros,
Largue-me, e siga o seu caminho.

Ou senão, apenas de leve, nalgum bosque, para tentar,
Ou atrás de uma pedra, ao ar livre,
(Pois em qualquer aposento coberto de uma casa eu não me mostro - nem em companhia,
E em bibliotecas deito como um mudo, um parvo, ou não nascido, ou morto, )
Mas apenas talvez com você numa alta colina - primeiro vigiando para que ninguém, por milhas em torno, se aproxime despercebido,
Ou talvez com você velejando no mar, ou na praia do mar, ou alguma ilha calma,
Aqui botar seus lábios nos meus eu lhe permito,
Com o beijo demorado dos camaradas, ou o beijo do novo marido,
Pois eu sou o novo marido, e eu sou o camarada.

Ou, se quiser, me enfiando sob a sua roupa,
Onde eu possa sentir as batidas do seu coração, ou descansar no seu quadril,
Carregar-me quando atravessar terra ou mar;
Pois assim, apenas tocando você, é o bastante - é o melhor,
E assim, tocando você, eu dormiria em silêncio e seria levado eternamente.

Mas se você enganar estas folhas, corre perigo,
Pois estas folhas, e eu, você não entenderá,
Elas vão lhe escapar de pronto, e ainda mais depois - eu certamente vou lhe escapar,
Mesmo quando você ache que sem dúvida me pegou, cuidado!
Você já pode ver que eu lhe escapei.

Pois não é pelo que pus nele que escrevi este livro,
Nem é ao lê-lo que você irá adquiri-lo,
Nem aqueles que melhor me conhecem e admiram, e me elogiam com alarde,
Nem os candidatos ao meu amor, (a não ser no máximo pouquíssimos) serão vitoriosos,
Nem meus poemas farão só o bem - farão o mal também, talvez mais,
Pois tudo é inútil sem o que você pode ter pensado muitas vezes mas não atingido - o que eu insinuei,

Portanto larga-me, e segue o seu caminho
.

Walt Whitman, 1870

Monday, July 18, 2005

Filosofia (Noel Rosa, 1933)

Luanda Cozetti

O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.

Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Para ninguém zombar de mim.

Não me incomodo
Que você me diga
Que a sociedade
É minha inimiga.
[Hoje] cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo.

Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia.

Luanda Cozetti, Filosofia, Noel Rosa

Seu Jorge

A foto da capa de Cru é de Vik Muniz

Saiu no New York Times neste domingo:

By BEN RATLIFF
Published: July 17, 2005

Seu Jorge
The Brazilian actor who played Knockout Ned in "City of God" and the singing sailor Pelé dos Santos - perpetually breaking into David Bowie tunes with roundabout Portuguese translations - in "The Life Aquatic" has made his second album, "Cru." It's impossibly likable. Mr. Jorge doesn't have the greatest voice - it is deep, droopy, quavery and half-swallowed, and can fall off pitch. But he is one of the few examples of an actor who uses an actor's tools to make a singing performance work, as opposed to just trying to impersonate a good singer. In a samba-funk version of Serge Gainsbourg's "Chatterton," he tries to make his deep voice as raspy as Gainsbourg's, until he has a coughing fit, then turns his voice into a squeak. But it's not just a hipster comedic act, keeping you at a distance: on a few gorgeous ballads by the young songwriter Robertinho Brant, he transmits deeper emotion as if he doesn't care how it sounds - which, of course, makes you need to hear it again. Great production, too: simple, funky where it needs to be, bare-bones to let the ballads get through more clearly. "Cru" appears in the United States (on the Wrasse label) Sept. 6; it's out in Europe already, on the hip French label Naïve and the British label Beleza, and available at http://www.dustygroove.com/.



Seu Jorge, Cotidiano, Chico Buarque; Starman, Life on Mars, Rock n' Roll Suicide, Rebel Rebel, David Bowie/Seu Jorge (do filme The Life Aquatic)

Saturday, July 16, 2005

Guerra e inferno

Otto Dix, A Guerra

Acabo de ver a exposição Guerra e Inferno na Neue Galerie aqui perto de casa. É apenas uma sala pequena mas leva a gente ao inferno da Grande Guerra, 1914-18, o primeiro dos muitos horrores do século XX.
São gravuras de Max Beckmann, Die Hölle (inferno em alemão é feminino) e Otto Dix, Der Krieg (guerra é masculino).
É parte do movimento que entrou para a história como o Expressionismo alemão, obras que mais tarde Hitler mandou queimar como "arte degenerada".
Na série de Beckmann vê-se a Alemanha do fim da primeira guerra, com os comunistas nas ruas tentando fazer a revolução, logo esmagada. Uma das gravuras mostra o assassinato de Rosa Luxemburgo. Outra, a vitória dos valores da ideologia dominante: família e pátria. O Inferno ironiza a aliança da burguesia e dos militares para esmagar a revolução. Beckmann se exilou nos Estados Unidos e morreu em New York em 1950.

Max Beckmann, O Inferno

Na série A Guerra, Otto Dix retrata os horrores da linha de frente onde passou quatro anos como soldado. Tem o mesmo impacto dos Desastres da Guerra de Goya. Talvez ainda maior, quando se percebe que Dix desenha o que vê, sem nenhum exagero. Olha na cara o horror da morte, com ironia. A juventude européia partiu eufórica para a guerra, enaltecida como força de progresso e renovação. Poucos tiveram a coragem de mostrar o que a guerra realmente é. Por isso Dix e Beckmann foram perseguidos pelos nazistas e tiveram suas obras destruídas.

Otto Dix, A Guerra

A Neue Galerie se dedica à arte da Áustria e da Alemanha na primeira metade do século XX. Tem quadros belíssimos de Gustav Klimt, Egon Schiele, Oskar Kokoschka e Paul Klee, móveis e objetos de Joseph Hoffman.

Gustav Klimt, Campo de papoulas

É dos dos períodos mais férteis da cultura européia: Freud, Thomas Mann, Schönberg, os pintores expressionistas, e mais tarde Brecht, Kurt Weill, os diretores de cinema que emigraram para Hollywood - Murnau, Fritz Lang, Lubitsch, Billy Wilder.

Para ouvir:

Kurt Weill, Tango-Balada da Ópera dos Trens Vinténs, London Sinfonietta

Ute Lemper, Alabama Song, Brecht/Weill

Teresa Stratas, Surabaya Johnny, Brecht/Weill

Arnold Schönberg, Noite Transfigurada, Adagio, Herbert Karajan, Filarmônica de Berlim

Pela décima vez (Noel Rosa, 1934)



Jurei não mais amar pela décima vez
Jurei não perdoar o que ela me fez
O costume é a força que fala mais forte do que a natureza
E nos faz dar provas de fraqueza
Joguei meu cigarro no chão e pisei
Sem mais nenhum aquele mesmo apanhei e fumei
Através da fumaça neguei minha raça chorando, a repetir:
Ela é o veneno que eu escolhi pra morrer sem sentir
Senti que o meu coração quis parar
Quando voltei e escutei a vizinhança falar
Que ela só de pirraça seguiu com um praça ficando lá no xadrez
Pela décima vez ela está inocente nem sabe o que fez.

Maria Bethania, Pela décima vez, Songbook Noel

Noel considerava este o seu melhor samba.

Friday, July 15, 2005

Quem dá mais (Noel Rosa, 1931)

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Quem dá mais? Por uma mulata que é diplomada em matéria de samba e de batucada, com as qualidades de moça formosa, fiteira e vaidosa, e muito mentirosa...

Cinco mil réis, duzentos mil réis, um conto de réis! Ninguém dá mais de um conto de réis? O Vasco paga o lote na batata e em vez de barata oferece ao Russinho uma mulata *.

Quem dá mais... Por um violão que toca em falsete, que só não tem braço, fundo e cavalete, pertenceu a dom Pedro, morou no palácio, foi posto no prego por José Bonifácio...

Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos, cinqüenta mil réis! Quem arremata o lote é um judeu, quem garante sou eu, pra vendê-lo pelo dobro no museu...

Quem dá mais... Por um samba feito nas regras da arte, sem introdução e sem segunda parte, só tem estribilho, nasceu no Salgueiro, exprime dois terços do Rio de Janeiro...

Quem dá mais... Quem dá mais de um conto de réis? Quem dá mais... Quem dá mais...

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três! Quanto é que vai ganhar o leiloeiro, que é também brasileiro, que em três lotes vendeu o Brasil inteiro?... Quem dá mais...

* Segundo Omar Jubran, em Noel Pela Primeira Vez (2000), Russinho, jogador de futebol mais popular do Brasil, havia sido premiado com uma barata da Chrysler, como eram chamados os automóveis esportivos na época.


Quem dá mais, Eduardo Dusek, do Songbook Noel de Almir Chediak

Thursday, July 14, 2005

Manuscritos ao luar

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Meu avô francês, André Faure, que eu chamava de Vuvu, era agnóstico. Não acreditava no Bon Dieu, o deus de barba branca cercado de anjos pra quem a mãe dele, que era uma peste, ia rezar todos os dias na igreja.
Mas o Vuvu tinha um sentido profundo do sagrado, que ele encontrava na música. Cresci ouvindo com ele Mozart, Beethoven, Schubert, Brahms. Mas Bach era quem levava o Vuvu mais perto da transcendência - o que muitos chamam Deus.
Há alguns anos, gravei um Milênio para a Globo News, em Harvard, com o musicólogo Christoph Wolff, sobre o livro dele, Johan Sebastian Bach, the learned musician. Um desses livros gostosos de ler e reler, cheio de detalhes inesperados.

Christoph WolffJohan Sebastian Bach

Fiquei sabendo que Bach tinha pavio curto e chegou a passar um mês na prisão por ter dito desaforos a um duque. Atrás das grades, para passar o tempo, ele começou a escrever o Cravo Bem Temperado.
Embora tenha passado a vida fazendo música religiosa, Bach não tinha nada de rígido, era um bon vivant. Wolff achou recibos assinados por ele e mostra que Bach consumia quantidades prodigiosas de café, tabaco, cerveja e álcool.
Depois que a família ia para a cama, ele se trancava sozinho no estúdio com o cachimbo e uma garrafa de cognac e escrevia música até altas horas.
Mas a melhor história é de Bach menino, com 11 ou 12 anos. Ele perdeu os pais cedo e foi criado pelo irmão mais velho, também músico como quase todos na família. O irmão possuía, trancada a sete chaves, uma coleção de partituras raras para cravo às quais o menino, que tocava desde os oito anos, não podia ter acesso. O maço de partituras ficava num armário com portas de grade. Todas as noites o pequeno Sebastian se levantava e ia até a sala copiar as partituras à luz da Lua, enfiando os dedinhos pelas grades para virar as páginas. Mas foi flagrado pelo irmão que confiscou a cópia. Só ao completar 15 anos, em 1700, ele recebeu de volta o caderno que ficou conhecido como os manuscritos ao luar, hoje perdidos.
Aos 15, Bach saiu de casa para estudar música em outra cidade, caminhando mais de 300 quilômetros até lá. Naquela época só quem era rico andava a cavalo ou de carruagem. Pessoas comuns andavam a pé.
Nos 50 anos seguintes, Bach mudou a história da Música, como Newton mudou a da Física. Mas grande parte da obra dele se perdeu por incúria dos herdeiros. A desaparecida Paixão Segundo São Marcos, por exemplo. Pode ser que essas partituras um dia sejam encontradas, como a coleção de obras de Bach e seus filhos que o próprio Wolff descobriu na Ucrânia nos anos 90.
Há pouco mais de um mês foi achada na Alemanha uma ária de Bach para soprano depois de passar três séculos guardada dentro de um livro de poesia, que foi salvo do incêndio da biblioteca de Weimar.



Do belíssimo Bach & Pixinguinha com arranjos de Mário Sève, cravo, e Marcelo Fagerlande, sopro:
Coral da Cantata "Wachet Auf"

Allemande do solo BWV 140


Jean Pierre Rampal, Largo do Concerto para flauta em Sol menor

Ars Rediviva Orchestra, Aria na corda Sol da Suite orquestral n. 3

Isaac Stern, violino, Leonard Bernstein, Adagio do Concerto para violino n.2 em Mi maior

Isaac Stern, violino, Harold Gomberg, oboé, Bernstein, Adagio do Concerto para violino e oboé em Dó menor

John Williams, violão, Gavota da Suíte para alaúde em Mi maior

Friedrich Gulda, piano, Cravo Bem Temperado Vol. 1, Prelúdio em Si bemol maior

Itzhak Perlman, violino, Chacona da Partita n.2 em Ré menor (composta após a morte da primeira mulher de Bach, Maria Barbara)

Gustav Leonhardt, cravo, Fantasia em Dó menor

Neues Bachisches Collegium Musicum Leipzig, A Arte da Fuga, Contraponto 13, Fuga de três temas (última composição de Bach, inacabada, composta sobre as notas equilaventes às letras BACH)

Christa Ludwig, contralto, Erbarme Dich, mein Gott, Paixão Segundo São Mateus (são Pedro pede perdão por ter traído Jesus)

Otto Klemperer, Philarmonia Orchestra and Choir, Coro final da Paixão Segundo São Mateus

Tuesday, July 12, 2005

Little Nemo

Little Nemo in Slumberland, Winsor McCay

Não é o Nemo Nox, não é o Nemo da Disney. É Little Nemo in Slumberland, a história em quadrinhos de Winsor McCay que revolucionou as comic strips. Saiu no jornal New York Herald de 1905 a 1911.
Slumberland, a terra do sono, é New York à noite, por onde a cama de Nemo anda sobre os telhados.

Little Nemo in Slumberland, Winsor McCay

As fotos foram feitas por mim, hoje no fim da tarde, aqui no bairro onde trabalho perto do City Hall, sede da prefeitura, onde ainda tem muita coisa daquela época.

Woolworth Building

Woolworth Building, o mais alto do mundo em 1911

City Hall Park, fonte com iluminação a gás

A música popular da época era o ragtime. Você ouve aqui o rei do ragtime, Scott Joplin, em The Entertainer.

Só mesmo em New York um garoto judeu chamado George Gershwin poderia aprender os rags tocados pelo negro Scott Joplin, tornando-se pianista profissional aos 15 anos e o maior compositor americano do século.

Este rag, composto por Gershwin, reproduzido a partir de um rolo para piano feito por ele em 1916, é intitulado When you want them you can't get them, when you've got them you don't want them.

este fox trot genial, Sweet and Lowdown , título que Woody Allen usou num dos seus melhores filmes, é de 1926.

Imagino Gershwin menino que nem o Little Nemo passando por estas mesmas ruas e se encantando com os primeiros arranha-céus do mundo... E eles ainda estão aqui.

Dor e sofrimento



Recebi este texto do amigo Joaquim Assis. Foi publicado no site da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro, SPCRJ.

Pequeno diário de um doente terminal

15 de Maio / Domingo

Na semana passada, o médico da manhã – o nome, embora na ponta da língua não me vem à cabeça - sugeriu que eu escrevesse para me distrair. Gostei do conselho, provavelmente por conta da simpatia do rapaz, muito mais atencioso que o médico da tarde, sujeito desagradável e sombrio, do qual não me interessa saber nada. Lembrei-me, o médico da manhã chama-se Ademar, doutor Ademar Pertan. Pelo modo de sentar à cabeceira da cama, pelo sorriso franco, pela maneira concentrada como examina, pelo toque suave das mãos, já dá para perceber a pessoa que é. Podia ser meu neto, e me agrada pensar nele assim, como o neto querido que não tive. Sempre me pergunta onde dói e parece que só de ouvir sua voz as dores diminuem, submissas. Cessar, elas não cessam nunca, as dores. Hoje fazem parte de mim, do que eu sou, daquilo que sobrou do que eu era. Sei perfeitamente que o Ademar, como eu, não alimenta qualquer esperança de cura para o meu caso. Justamente por isto é notável o tempo gasto comigo por um homem tão ocupado, com três empregos e um consultório, segundo ele mesmo me disse. No dia seguinte àquela sugestão, ele me trouxe este caderno e a caneta com que escrevo. Mas escrever o quê doutor? - Qualquer coisa, lembranças, desejos, pensamentos, o que lhe der vontade, quando lhe der vontade.

16 de Maio / 2a feira

Odete, minha filha, veio com o marido, ao anoitecer. Trouxeram maçãs e ficaram quarenta minutos. Falou-se pouco. Ela sorriu para mim no meio de um longo silêncio, e fingiu não perceber quando disfarcei a emoção. Escrever realmente me faz bem, embora me canse. Antes pouco do que nada.

18 de Maio / 4a feira

Se não estivesse doente, teria ido cantar no coro, com sempre fiz às quartas-feiras, durante mais de vinte anos. Eu sou tenor e canto bem, cantava. Pensar nisto me causou uma dor fina, aguda, esguia, quase elegante.

19 de Maio / 5a feira

Um pensamento estranho me chegou de madrugada: eu sei sofrer com dor e sei sofrer sem dor, sendo que sem dor é mais doloroso, por ser essencial. Na verdade não é um pensamento, é uma constatação, e nada tem de estranha. Mais tarde, mostrei ao Ademar isto que escrevi acima, e ele gostou. Gostei dele ter gostado e, aproveitando, parei de sofrer, apesar das fortes dores no estômago.

23 de Maio / 2a feira

Enquanto fazia minha higiene matinal, a enfermeira gorda disse ter visto em sua agenda que hoje é o Dia Internacional das Comunicações Sociais. Por que diabo esta mulher resolveu me dizer isso? O fato é que ela me fez pensar, e agora me faz escrever. Nunca fui internacional, sob nenhum ponto de vista, inclusive jamais botei os pés fora do país. Quanto às comunicações sociais, não faço uma idéia precisa do que venham a ser. Dei por mim sorrindo, ao pensar que qualquer conversa durante uma festa pode ser considerada comunicação social. Há muito que eu não sorria espontaneamente. Há anos não sei o que é uma festa. Há quanto tempo me sinto socialmente incomunicável? Tudo isto também dói.

24 de Maio / 3a feira

Doeu quando não me deixaram jogar no time de futebol do colégio. Sobretudo pela explicação dada pelo capitão, na frente dos outros: você é lerdo e medroso. Sempre fui lerdo e medroso desde que me entendo, ou me desentendo, por gente. Minha dúvida é se isto se deve a algo genético ou se foi alguma coisa que me aconteceu, sabe-se lá quando. No berçário? No parto? Na barriga de mamãe? Nem ela e nem papai eram lerdos ou medrosos. É coisa minha.

25 de Maio / 4a feira

Dia de coro. Eu não estarei lá, mas certamente vão ensaiar. Tive um pesadelo horrível esta noite. Eu estava no berço, fascinado por um chocalho multicor, suspenso, oscilante, e ainda não sabia falar. De repente, o rosto de minha mãe baixou sorridente sobre mim, enorme. Eu quis demonstrar minha alegria e com grande esforço consegui pronunciar gu-gu. Era o exato som que eu queria emitir. Imediatamente a mão direita de mamãe varreu o ar junto a meu rosto, pra lá e pra cá, indicador em riste, enquanto ela dizia não, neném, não. Depois, apontou para si mesma e falou: mamã. Eu insisti: gu-gu. Ela insistiu: mamã. Por mais duas vezes a coisa se repetiu, até que eu me rendi e disse mamã, sentindo que algo em mim havia se quebrado para sempre. Acordei suando, apavorado, e toquei a campainha. Veio a enfermeira magra. Eu menti que estava com muita dor. Ela me aplicou morfina e consegui dormir novamente. Posso quase jurar que o pesadelo foi uma lembrança. Eu vivi aquilo. Ou seja, minha memória está se aguçando. Talvez pelo hábito de escrever.

28 de Maio / Sábado

Doeu demais, doutor, quando soube que minha mulher, única pessoa na vida em quem eu confiei totalmente, minha cúmplice, minha amante, meu porto seguro, meu anjo da guarda, havia me traído com um amigo nosso, de uma maneira muito feia que prefiro não comentar aqui. Eu soube com três anos de atraso, numa tarde ensolarada, no meio de um jogo de futebol na televisão. A empregada pegou o envelope na caixa de correio. Havia dentro um bilhete anônimo com letras recortadas de revista, assinado uma amiga, que até hoje desconfio ter sido ela mesma, para se livrar da culpa e ao mesmo tempo se livrar de mim, porque sabia que eu iria embora. Ao ler o bilhete, senti um gosto ruim no cérebro e daquele momento em diante, nada, absolutamente nada, permaneceu no lugar. Eu inclusive. Foi o jeito que encontrei para suportar a dor: mudei o mundo. Mudei as cores, os gostos, os sons, o céu, o mar, a chuva, o vento, mudei a natureza toda. Doeu a traição e, tanto quanto, doeu e assustou saber que tamanha dor podia ser causada, com retardo, por duas pessoas que, na realidade concreta dos fatos, ao me apunhalar - digamos assim para benefício do drama -, nada fizeram diretamente comigo, não me encostaram um dedo. Nem sequer se aproximaram de mim. Que misterioso e arrasador poder é este que uns têm sobre os outros?

02 de Junho / 5a feira

A quem interessar possa, atesto que em certos casos é claramente perceptível a aproximação do fim. É o que está acontecendo comigo. Posso garantir que não viverei o dia de amanhã, três de junho, sexta-feira. Mas hoje ainda estou vivo e tenho algo a dizer, a declarar, a escrever neste caderno quase vazio, dado a mim pelo meu querido doutor Ademar, o qual arrisco classificar de amigo, e a quem, daqui a pouco, entregarei estas poucas páginas escritas. É o seguinte: consegui finalmente a separação completa e perfeita entre dor e sofrimento. Está doendo muito neste momento e, no passado, foram incontáveis as grandes e pequenas dores, do corpo e da alma, cuja lembrança por sua vez também dói. Mas eu nada mais sofro. Da dor, meu caro Ademar, não há vivente que escape. Sofrer, no entanto, agora compreendo, não é obrigatório. Sofre quem assim o deseja. Eu sei: como moribundo sou suspeito para afirmar qualquer coisa. A suspeição é lamentável, porque seria bom que pudessem acreditar. Estou em paz, numa enorme paz que ousarei chamar de felicidade. Uma felicidade de pouca duração, devido às circunstâncias, porém intensa o suficiente para compensar todos os trancos e barrancos com que a ela cheguei.

***

Este pequeno diário escrito ao longo de pouco mais de uma quinzena, me foi entregue por um paciente do Hospital São Francisco, poucas horas antes de sua morte. Digitado por Joaquim Assis, meu amigo, o encaminho à publicação respeitando o desejo do paciente de permanecer incógnito, bem como de ser lido pelo maior número possível de pessoas.

Rio de janeiro. 07 de Junho de 2005

Ademar R. Pertan

Cancerologista

- Texto escrito por Joaquim Assis, cineasta,

- dramaturgo e músico.

A chanchada continua

Oscarito (esq), Zezé Macedo e Afonso Stuart em Esse Milhão é Meu, 1959


Meu amigo Sergio Flaksman acordou com a música na cabeça. Marchinha de carnaval. Carnaval de 59. Veio a letra toda e até a cena da Dircinha Batista cantando numa chanchada da Atlântida. Sergio entrou em contato com o Franklin Martins, nosso colega do Colégio de Aplicação (UFRJ) que tem um ótimo blog de música e política chamado Som na Caixa, e o Franklin desencavou a gravação original que você ouve aqui em primeira mão.
Segue a letra atualíssima, os autores são Valter Levita e Oldemar Magalhães.

Minha Terra Tem Palmeiras

Minha terra tem palmeiras/ minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá./ Tem cachaça, tem mulata/ tem também muita mamata/ mas dá galho se falar (BIS)

Segunda: Tem tubarão à toa/ Mamando pra valer/ Eu também vou/ entrar no jabaculê!!! (BIS)

É isso, curto e grosso. No blog do Franklin tem todo um tesouro de sambas e marchas que comentam a política brasileira. Não sei se serve de consolo ou desespero pensar que afinal o que está acontecendo não tem nada de novo.

POster de Esse Milhão é Meu

Monday, July 11, 2005

night flight over Macondo, by Nemo Nox

Já sei que blog não atualizado, ninguém mais visita... Então vou encher linguiça enquanto não faço o podcast (será que faço?) e continuo a transcrever a tão prometida entrevista do Mandelbrot (parece obra de igreja).
Então lá vai mais uma coleção de fractais pra vocês se distrairem e não ficarem com raiva de mim.
Esse aí de cima me foi graciosamente cedido pelo Nemo Nox, o gênio da Internet brasileira, cuíca do mundo (eu soube dele pela Laura). Nemo Nox criou a imagem, intitulada night flight over Macondo.
Os outros eu peguei por aí.
E para ouvir algo bem anos 60/70, embora o grupo ainda exista, Incredible String Band. A faixa é Worlds They Rise and Fall.
Quase levei meus pais à loucura ouvindo os discos do ISB até furar.

Saturday, July 09, 2005

Podcast

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Baixei o iTunes 4.9 e entrei no mundo do podcasting, por enquanto como ouvinte. Ainda não achei os meus podcasts - queria ouvir mússica clássica, coisa pra coroas feito eu, e até agora só ouvi música barulhenta, muito bla-bla-bla da garotada, mas as possibilidades do podcasting são incríveis. Acho que vou fazer um podcast também, quem sabe. Na lista de brazilian podcasts no iTunes tem apenas 16 e não gostei de nenhum (sou muito chato). O melhorzinho é na verdade de Portugal, O Armário das calças e é engraçado ouvir o sotaque e a gíria dos portugas. Enfim, queridos blogueiros, podcast é um blog com audio, e basta um microfone pra começar. O que é que vocês estão esperando? Tem uma lista um pouquinho maior de 19 podcasts brasileiros no site EuPodo (que nome infame).

Friday, July 08, 2005

Baudelaire e as drogas

Baudelaire, autoretrato sob o efeito do haxixe

Os Paraísos Artificiais de Baudelaire é o melhor estudo que eu conheço sobre o efeito moral e espiritual das drogas, seja o álcool ou os derivados do ópio e da maconha. É a mais profunda e convincente argumentação contra o uso de drogas, escrita há 145 anos por alguém que sabia do que estava falando. Baudelaire usou haxixe quando jovem e tornou-se dependente de um derivado de ópio, o láudano, que usava para aliviar as dores da sífilis. Os trechos que seguem são da conclusão da primeira parte, O Poema do Haxixe.

Aquele que recorre a um veneno para pensar em breve não poderá pensar sem veneno. Dá para imaginar o destino horrível de um homem cuja imaginação paralisada não funciona mais sem o haxixe ou o ópio?

(...) Mas o homem não está tão abandonado, tão privado de meios honestos de ganhar o céu, a ponto de ser obrigado a invocar a farmácia e a feitiçaria; não precisa vender a alma para comprar o paraíso. Que paraíso é esse, comprado ao preço da salvação eterna?

(...) Nós, poetas e filósofos, regeneramos nossa alma pelo trabalho e a contemplação. Pelo exercício assíduo da vontade e a nobreza permanente da intenção, criamos para nosso uso um jardim de verdadeira beleza. Confiantes na palavra de que a fé remove montanhas, realizamos o único milagre que Deus nos concedeu.


Baudelaire

Baudelaire conta uma historinha curiosa sobre Balzac:

Balzac pensava que não há para o homem maior vergonha nem sofrimento mais intenso do que abdicar da vontade. Eu o vi uma vez, numa reunião onde se falava dos efeitos prodigiosos do haxixe. Ele ouvia e questionava com uma atenção e uma vivacidade divertidas. As pessoas que o conheceram sabem que ele deveria estar interessado. Mas a idéia de não controlar seu pensamento o chocava intensamente. Ofeceram-lhe dawamesk (pasta de haxixe); ele examinou, cheirou e devolveu sem provar. A luta entre sua curiosidade quase infantil e sua repugnância pela abdicação era visível no rosto expressivo, de maneira notável. O amor da dignidade venceu. De fato é difícil imaginar o teórico da vontade consentindo em perder uma parcela dessa preciosa substância.

Honoré de Balzac

A morte da imprensa liberal


O cartum mostra como a direita retrata a imprensa liberal: ela usa o escândalo da tortura em Abu Ghraib para atacar Tio Sam pelas costas

Daniel, do Blog do Daniel, sugere que eu escreva sobre a chamada imprensa liberal nos Estados Unidos; lembra que o símbolo dos jornalistas liberais, Dan Rather, fechou com Bush depois de 11 de Setembro (é verdade).
Segundo o jornalista Mark Herstsgaard, citado pelo Daniel, "a maior piada política nos Estados Unidos é que nós temos uma imprensa liberal".

Imprensa liberal é um xingamento inventado no governo Nixon para atacar os jornais e TVs que criticavam a condução da guerra do Vietnam. Na época o ícone do jornalismo era Walter Cronkite, o âncora da rede de TV CBS, que ousou concluir um telejornal dando a opinião dele a favor da retirada das tropas americanas do Vietnam. Segundo a direita, foi exatamente aí que a guerra começou a ser perdida. Uma traição.

Desde então a direita - o partido Republicano, a Coalizão Cristã e grupos de interesse ligados a ambos - passou a usar esse bicho-papão para assustar o americano médio. A imprensa liberal virou o símbolo de tudo que apavora a baixa classe média: drogas, homossexualismo, esquerdismo, adoração pela França, feminismo, multiculturalismo, arte de vanguarda, decadência do patriotismo americano.

Por trás da imprensa liberal estariam as "elites" antiamericanas e globalizantes: bilionários como George Soros e Bill Gates, os astros multimilionários de Hollywood, como Steven Spielberg e Barbara Streisand, os âncoras e magnatas das redes de TV, como Dan Rather e Ted Turner, gente que usa seu poder financeiro para controlar o partido democrata e que teve Bill Clinton como líder.

George W. Bush foi eleito como um "homem do povo", um cowboy autêntico para derrubar essa "cabala de judeus e estrangeiros" que traiu a América profunda. E foi reeleito pelo mesmo motivo, para manter longe do poder os "liberais" como John Kerry e Jane Fonda, mais conhecida como Hanói Jane, a traidora.

O melhor livro político do ano passado foi What's Wrong With Kansas? do jornalista Thomas Frank. Ele mostra que os democratas perderam o poder porque foram derrotados na batalha cultural, deixaram que os republicanos se apoderassem dos valores do americano médio - religião, moralismo, família - para se tornarem o partido do "homem comum" contra o partido das "elites urbanas", os democratas "liberais".

Tiveram tanto sucesso, que o homem comum elegeu e reelegeu Bush, mesmo sabendo que ele tornaria os ricos muitíssimo mais ricos e a classe média muito, mas muito mais pobre. A superestrutura ideológica venceu o interesse econômico desses eleitores. Para eles é Bush quem vai impedir a dissolução dos costumes e desfazer a revolução dos anos 60.

No fundo, é verdade que os jornalistas crucificados como "liberais" não são muito diferentes dos "conservadores", mas por simpatizarem com os democratas viraram os bodes-expiatórios da direita cristã. Estive num subúrbio de Atlanta entrevistando uma família típica, para o Globo Repórter, e o nome de Dan Rather, na época o âncora da CBS que substituiu Cronkite, causava tanto horror quanto Satanás, até pior. Apoiar Bush era só fingimento do tinhoso.

Piadinha dos blogueiros de direita: a cabeça de Dan Rather como troféu, abatido pela Blog Machine

Desde que o escândalo Watergate criou a ficção de que a imprensa seria o Quarto Poder, a direita vem preparando o contraataque, agora consumado. A queda de Dan Rather, apanhado numa armadilha obviamente montada pela direita - documentos falsos "provando" que Bush não prestou o serviço militar - foi uma entre muitas vitórias recentes dos conservadores contra a imprensa liberal. O escândalo anterior no jornal The New York Times, traído por um repórter mentiroso, foi outra. Essa mesma turma está comemorando a prisão da repórter Judy Miller. Serviu, segundo eles, para mostrar que a imprensa liberal não está "acima da lei".

Jornalistas como Mark Hertsgaard, que escreve para um dos poucos órgãos de esquerda, a revista The Nation, que não vende em banca e tem menos de 200 mil assinantes, são minoria neste país, uma honrosa e batalhadora minoria que se refugia na Internet. Mas até na blogosfera a direita ocupou os espaços, assim como no rádio, e foram os blogueiros de direita que derrubaram Dan Rather e quase derrubaram Clinton.

Só que é schadenfreude, rir da desgraça alheia, e rir até da própria desgraça, dizer que a imprensa liberal mereceu sucumbir sob os ataques do governo Bush, ao qual ela já se rendeu. O escândalo da tortura de presos pelos americanos no Afeganistão e no Iraque é um bom exemplo. Foi levantado pela grande imprensa mas já sumiu do noticiário. Acabou o pouquinho de independência que a mídia ainda possuía, o que criou uma situação nova. Como escreveu o jornalista James Pinkerton, "o governo está maior e mais forte do que nunca. A mídia está despedaçada. É uma fórmula perfeita para a estratégia do governo, de dividir para conquistar. O estado pode fechar o punho o quanto quiser, confiante em poder esmagar cada um de nós, um a um a um".

Vão continuar existindo jornalistas como Mark Herstgaard, valorosos paladinos da esquerda. Mas sem acesso à grande imprensa, que atinge as massas, serão apenas vozes clamando no deserto. Ainda vamos chorar a morte da imprensa liberal.

O liberal Dan Rather virou o Ás de paus no baralho dos traidores da América

Thursday, July 07, 2005

Spleen

Baudelaire, Jardin du Luxembourg

Spleen

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.

Un gros meuble à tiroirs encombré de bilans,
De vers, de billets doux, de procès, de romances,
Avec de lourds cheveux roulés dans des quittances,
Cache moins de secrets que mon triste cerveau.
C'est une pyramide, un immense caveau,
Qui contient plus de morts que la fosse commune.
-- Je suis un cimetière abhorré de la lune,
Où comme des remords se traînent de longs vers
Qui s'acharnent toujours sur mes morts les plus chers.
Je suis un vieux boudoir plein de roses fanées,
Où gît tout un fouillis de modes surannées,
Où les pastels plaintifs et les pâles Boucher
Seuls, respirent l'odeur d'un flacon débouché.

Rien n'égale en longueur les boiteuses journées,
Quand sous les lourds flocons des neigeuses années
L'ennui, fruit de la morne incuriosité
Prend les proportions de l'immortalité.
-- Désormais tu n'es plus, ô matière vivante!
Qu'un granit entouré d'une vague épouvante,
Assoupi dans le fond d'un Sahara brumeux
Un vieux sphinx ignoré du monde insoucieux,
Oublié sur la carte, et dont l'humeur farouche
Ne chante qu'aux rayons du soleil qui se couche.

Spleen

São tantas lembranças, que sinto ter mil anos.

Gavetas entupidas de notas e planos,
promissórias, poemas, cobranças, canções,
e mechas de cabelo entre intimações,
guardam menos segredos que o meu triste cérebro.
É uma pirâmide, um gigantesco féretro
mais pesado de mortos que a vala comum.
-- Sou cemitério sem lua, cafarnaum
onde rastejam vermes longos e gulosos
que devoram sempre meus mortos mais saudosos.
Sou um velho boudoir com mofados buquês,
roupas fora de moda sobre os somiês,
onde só as ninfas nos pastéis desbotados
aspiram o odor dos frascos destapados.

Não há nada mais longo que os trôpegos dias
debaixo do inverno das neves mais frias,
quando o tédio, fruto da morna indiferença,
ganha imortalidade e onipresença.
-- Agora não és mais, ó ser superior,
que um granito cercado de um vago pavor,
dormindo no fundo do deserto à socapa,
velha esfinge esquecida, perdida no mapa,
mas que não perde o brio e ainda faz farol,
cantando seus versos à luz do pôr-do-sol.






Spleen no vocabulário do romantismo é sinônimo de melancolia, tédio profundo. A palavra inglesa vem do grego splenikos, o baço, que era considerado pela medicina antiga como uma das sedes dos humores, das emoções. Os românticos fizeram do spleen um estado de espírito. Mas niguém usou tanto a palavra quanto Baudelaire, no título de uma seção de As Flores do Mal, Spleen e Ideal, de quatro poemas, e do livro de poemas em prosa, Spleen de Paris.
Spleen no sentido baudelairano continua em uso na França. O cantor/compositor Léo Ferré tem uma canção chamada Paris-Spleen, que ainda não encontrei, quem tiver por favor mande. Por enquanto vai a versão de Ferré para o grande poema de Baudelaire, L'Invitation au Voyage.

Quixote

Picasso, Don Quixote e Sancho Pança

Revi este desenho maravilhoso do Picasso num blog muito gostoso, o Canoa furada do Marcus. É a imagem querida do Marcus e já foi a minha também - desde pequeno sempre tive uma reprodução que meu avô me deu. Por onde será que anda? Já tem tanto tempo. Trouxe lembranças boas.
Aproveito para desovar mais um texto do meu atual guru, Antonio Muñoz Molina, sobre o Quixote, neste ano em que se comemoram os 400 anos da obra prima de Cervantes. O texto se encaixa no tema da entrevista que Muñoz me deu e que vai ao ar em breve no Milênio da Globo News. O tema é o exílio, e o Quixote, por íncrível que pareça, é um livro exilado dentro da literatura espanhola.

Antonio Muñoz Molina

El Quijote es nuestra novela nacional, nuestra biblia laica, nuestra Eneida, el mejor tesoro que hemos dado al mundo. Ninguna de las muchas tiranias que han asolado nuestro país se ha molestado en proscribir el Quijote. Incluso el negro patriotismo franquista exaltaba la heroicidad militar de Cervantes en la batalla de Lepanto. Pero esa presencia retórica ha sido perfectamente falsa, y no sólo por el efecto intimidatorio que suelen tener las Grandes Obras Maestras de la Humanidad sobre los lectores comunes. En la admirable letanía de nuestro señor don Quijote el gran Ruben Darío reclamaba la liberación del hidalgo y del libro de la cárcel de monumentalismo polvoriento en que los tenían secuestrados. Cervantes y don Quijote eran pretextos para erigir estatuas y proferir discursos, pero no tenían la menor influencia sobre la literatura española, y éste es otro de los malentendidos, otra de las anomalías de nuestra tradicíon... En España, misteriosamente, el único heredero obvio de Cervantes es don Benito Pérez Galdós, el primer heredero que al cabo de tres siglos se molesta en examinar el tesoro insondable que le ha tocado poseer. Así que puede decirse que el Quijote, en España, ha sido un libro casi tan secreto como la Biblia erasmista del siglo XVI, y que la ironía de Cervantes y su invención radical de eso que llamamos la novela pertenecen más a la tradición inglesa que a la española. Cervantes, como habría dicho su enemigo, Lope, resulta ser un peregrino en su patria. Pero es que algunos de los mejores españoles han sido peregrinos y expulsados, traidores a España.

L'Homme de la Mancha, adaptação de Jacques Brel

Jacques Brel

Ouça Jacques Brel no papel de Quixote na adaptação francesa de O Homem de la Mancha, 1969.

O espaço íntimo

Velazquez, Venus

Mais um texto do escritor espanhol Antonio Muñoz Molina (já leram dele o que fala de Hopper, Janelas de Manhattan?) que é o meu próximo entrevistado no Milênio, e deve ir ao ar segunda que vem ou na próxima na Globo News. A entrevista trata do tema do exílio na literatura e na sociedade contemporânea. Este texto, que fala da sensação de entrar no espaço íntimo de um artista, está num ensaio sobre o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, no livro Pura Alegría:

Juan Carlos Onetti

Hay escritores a los que uno admira como se admira un edificio o una estatua, con reverencia, pero sin intimidad: son los escritores que parecen dirigirse a nosostros en público, como si formáramos parte de la multitud que los escucha de um modo no muy distinto a como puede escucharse a un divo de la ópera. Con Onetti ocurre lo contrario: no es sólo que al leerlo tendamos a pensar que esas palabras están escritas únicamente para nosotros, es que sentimos que estamos asistiendo, con impudor, por milagro, a una narración que existiría igual si no la conociera o escuchara nadie.
Intuiciones parecidas pueden encontrarse en la pintura o en la musica: hay canciones, y sinfonías, y cuadros, que se exhiben enfáticamente delante del espectador, que lo halagan, que aspiran descaradamente a seducirlo, a maravillarlo o abrumarlo. Los retratos de Van Dyck, por exemplo, o ciertos sinfonismos montañosos del siglo XIX.

Van Dyk, Frans Sniders

Los reyes y aristócratas ingleses a los que retrataba Van Dyck nos miran desde arriba, desde su jerarquía absoluta, desde su desprecio: cuando es Velázquez quien pinta, un rey que es el dueño del mundo está tan solo y es tan vulnerable o tan digno como un pordiosero o un bufón.

Velazquez, Felipe IV

Velázquez es grande porque respeta y sugiere el secreto humano de sus personajes: nos miran y parece que se están mirando en un espejo, de esa manera en la que uno mira cuando sabe que está solo.

Velazquez, Sebastian de Morra

En la música de Fauré, en las Variaciones Goldberg, en los solos de piano de Bill Evans, en la voz de Bessie Smith o de Dinah Washington, nos parece que estamos sorprendiendo un milagro que no precisaba de nosotros ni de ningún testigo para existir. Esas formas supremas del arte crean a su alrededor como un espacio íntimo, como una campana de cristal en la que es preciso encerrarse a solas para comprenderlas: delimitan el espacio y el tiempo alrededor de ellas mismas.

Velazquez, Baco

Você ouve: de Bach, Variações Goldberg, Keith Jarret; Bill Evans, Alice in Wonderland; Bessie Smith, Summertime; Dinah Washington, T'aint nobody's bizness if I do.

Wednesday, July 06, 2005

Luto

Judith Miller indo para a cadeia

Dia de luto para a liberdade de imprensa. A repórter Judy Miller foi para a cadeia, onde ficará até outubro, por ter se recusado a revelar fontes confidenciais.
As fontes de Judy podem ter cometido um crime, por terem revelado o nome de uma agente da CIA, a espiã Valerie Plame.
Por isso Judy foi convocada a depor. Mas ela se recusou, com o apoio do jornal onde trabalha, o New York Times, porque a proteção da confidencialidade das fontes é um princípio central para a liberdade de imprensa.
Se esse princípio não fosse prezado pelos jornalistas, acima da própria liberdade pessoal, casos como a revelação dos crimes do governo Nixon no escândalo Watergate não teriam acontecido.
A imprensa não teria cumprido seu papel de vigilância sobre o que acontece nos bastidores do governo. Se a fonte dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, que eles apelidaram de Garganta Profunda, corresse o risco de ter sua identidade revelada, não teria falado. Era o segundo homem no FBI, e o nome dele, Mark Felt, só foi revelado quando ele mesmo decidiu sair das sombras.
O caso que levou Judy à cadeia é muito diferente. O nome de Valerie Plame foi divulgado na coluna de um jornalista muito próximo ao governo Bush, Robert Novak, como vingança da Casa Branca porque o marido dela, o diplomata Joseph Wilson, desmascarou o uso por Bush de uma alegação falsa sobre o fornecimento de urânio do Niger ao Iraque.
A carreira de Valerie na CIA acabou porque seu nome foi publicado.
Novak escreveu que duas fontes da Casa Branca lhe deram o nome da espiã. O que é crime.
O departamento de Justiça abriu uma investigação. A Casa Branca fez tudo para atrapalhar. Novak não fala sobre o caso, mas aparentemente não colaborou. O promotor especial, Patrick Fitzgerald, não conseguiu os nomes das duas fontes.
Mas o promotor soube que Judy e um repórter da revista Time, Matthew Cooper, tinham feito entrevistas sobre o caso. A de Judy sequer foi publicada. Assim mesmo os dois foram convocados a depor.
Ambos se negaram a testemunhar, para proteger suas fontes. Mas a revista Time voltou atrás e entregou ao promotor as anotações de Cooper. O repórter anunciou que vai depor porque a fonte o liberou da promessa de confidencialidade.
Judy foi sozinha para trás das grades, como mártir da liberdade de imprensa.
Muitos estados aqui têm leis que dão aos jornalistas o mesmo status dos padres, que não podem ser obrigados a revelar nos tribunais o que ouviram em confissão.
Mas não existe uma lei assim no nível federal. Os juízes federais podem interpretar como quiserem a primeira emenda à Constituição, que garante a liberdade de imprensa. Judy e Cooper levaram o caso até a Suprema Corte, para que essa garantia fundamental, a proteção das fontes, fosse decidida.
Mas a Suprema Corte, numa decisão lamentável e covarde, lavou as mãos e devolveu o caso às instâncias inferiores. Era a última chance de Judy de permanecer em liberdade.
Há rumores não confirmados de que uma das fontes de Novak e dos outros repórteres seria Karl Rove, o principal assessor de Bush. O Zé Dirceu do presidente americano. Se isso for verdade, Rove cometeu um crime grave e tem que ser julgado.
Mas é um absurdo, um atentado à liberdade de imprensa, obrigar repórteres a revelar suas fontes, mesmo que isso permita que um criminoso continue em liberdade. Não pode haver exceção.
Em 2001, entrevistei Judy sobre o livro dela, Germs, que revelou a extensão apavorante do programa de armas biológicas dos Estados Unidos e de outros países. Ela não teria descoberto tanta coisa se não contasse com fontes confidenciais.
No dia seguinte à entrevista, Judy recebeu uma carta com um pó branco, que poderia ser antraz. Teve que fazer todo o tratamento, foi muito estressante. Era um trote, não era antraz, mas foi uma clara ameaça a uma repórter que incomoda.
Fisicamente, Judy parece uma pessoa frágil. Mas a determinação de ir para a cadeia, para preservar um direito básico de todos os jornalistas, mostra que ela é, hoje, a pessoa mais forte do jornalismo dos Estados Unidos, movida por um heroísmo autêntico. O juiz que mandou prendê-la, Thomas Hogan, disse que a prisão vai fazer com que Judy volte atrás e resolva depor. Pode esperar sentado.

Robert Novak na CNN

Robert Novak foi usado pela Casa Branca para detonar a espiã Valerie Plame, o que é crime.
Mas Novak está solto. Já Judy Miller, que talvez saiba quem cometeu o crime, foi para a cadeia, para lutar pelo direito dos jornalistas de terem fontes confidenciais. Dá pra entender?
Nelita e Vinicius

Nelita pediu com toda razão que eu ponha o original dos poemas do Baudelaire antes da tradução. É no mínimo muita pretensão minha, para não dizer sacrilégio, botar a tradução na frente. Fiz isso pensando que de outro modo ninguém leria a tradução... Mas vou fazer o que você pediu, Nelita, e vai ficar melhor. Para retribuir o bom conselho aqui vai a canção que Vinícius escreveu pra você, cantada pelo Carlos Lyra, que fez a música. Só achei essa foto. Se você tiver melhor me mande. Beijão, Jorge

Minha Namorada, Carlos Lyra/Vinícius de Moraes

Tuesday, July 05, 2005

Monumento ao medo



Comentários do crítico de arquitetura do New York Times, Nicolai Ouroussoff, sobre o monstrengo apresentado como projeto da "Torre da Liberdade" a ser construída (se for) onde ficavam as torres do World Trade Center:

"Sombrio, opressivo e mal concebido, o projeto sugere um monumento a uma sociedade que virou as costas a qualquer noção de abertura cultural. É exatamente o tipo de pesadelo que as autoridades garantiram que nunca aconteceria aqui: uma torre inexpugnável reforçada contra o mundo de fora... A Torre da Liberdade encarna um mundo moldado pelo medo... Símbolo ideal de um império fascinado por seu próprio poder".

Luci comentou no 100 Querer, "muita coisa mudou no país de George W. Bush". É Luci, aqui a gente chama o sujeitinho de W (Dubya). Quando as torres foram derrubadas, e a cidade estava vivendo o trauma, 3 mil pessoas viraram pó, aquele horror todo, havia a esperança de que o país ia aprender alguma coisa e a cidade reconstruiria o lugar do ataque como um memorial digno dos mortos e uma mão estendida ao mundo, que no primeiro momento foi tão solidário. Mas W e a corja dele, o lado escuro da força neste país, fizeram tudo errado. Esse projeto (duvido que seja construído) é o monumento que eles merecem, é a cara deles, uma fortaleza, um monumento ao medo e à agressão.

Nick Drake



Alguém aí além da Cora e da minha filha Teca se lembra de Nick Drake? Pois é, nem eu. O cantor/compositor inglês se matou há 31 anos; pouca gente na época conhecia, mas hoje tem um cult following. Me surpreendi no concerto de canções dele no Central Park (Teca me levou) , estava lotado. E as canções são lindas.
Do último disco de Nick Drake, Five Leafs Left, as faixas Saturday sun , Time has told me e The day is gone.

Saturday, July 02, 2005

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Friday, July 01, 2005

Only in New York

Hendrik Goltzius, Hércules Farnese

Robert Mapplethorpe, Derrick Cross


Você terá que vir a New York pra ver a exposição do Guggenheim Museum, Robert Mapplethorpe and the classical tradition. Reúne fotos do gênio americano que morreu em 1992 e estampas flamengas do século XVI emprestadas pelo museu Hermitage de São Petersburgo. Mapplethorpe parodiou o classicismo, usando composições que lembram esculturas gregas de forma transgressora. Os manieristas flamengos também, e eles têm em comum com o fotógrafo a obsessão pelo nu masculino. A exposição dura menos de dois meses e fecha em 24 de agosto. Portanto, corram!
O nyontime faz uma pequena preview pra vocês.

Goltzius, Ícaro

Foto de Mapplethorpe

Mapplethorpe, Apolo Belvedere

Mapplethorpe, Autoretrato

MICO (no New York Times!)

Campeonato de comer cachocrro-quente, foto Richard Perry/The New York Times

O mico não foi só no Fantástico. Adivinhem quem é aquele ali no meio, segurando a salsicha. Saiu no New York Times... Minhas engasgadas e caretas também foram distribuídas worldwide pela Reuters e a APTN. Mico global. É, repórter sofre (mas gosta...). Pelo menos os amigos foram generosos e elogiaram. Laura chegou a dizer que eu estava muito "fino", o que é praticamente impossível nas circunstâncias, me entupindo de cachorro quente. Jurei que nunca mais comeria um hot dog mas na primeira ocasião em que me vi diante de um (oferecido de graça no campeonato) caí de boca. Acho que fiquei viciado, sei lá. O japonês ganhou o campeonato (comeu 49 em 12 minutos) e o meu adversário na eliminatória, o rapper Badlands Booker, perdeu feio (hahaha). Abraços lambuzados de mostarda, Jorge Hotdog Ontime.
www.christopheroriley.com

Christopher O'Riley é um dos melhores da nova geração de pianistas clássicos e fez o crossover para o popular com um disco lindo, True Love Waits, tocando arranjos para composições do Radiohead. Letdown e Exit music estão entre as melhores faixas. O'Riley tem um programa de rádio muito popular, From the Top. Gravou um disco de tangos com o violoncelista Carter Brey que inclui Corcovado, do compositor francês Darius Milhaud, parte da suite Saudades do Brasil. O'Riley foi convidado pela National Public Radio para um programa de uma hora, uma delícia que você ouve aqui.

o pianista Christopher O'Riley