Wednesday, August 31, 2005

Baudelaire aos 34 anos, dois antes de publicar Les Fleurs du Mal, foto Nadar, 1855

Baudelaire morreu em 31 de agosto de 1867 aos 46 anos. Um ano antes, autoexilado em Bruxelas, sofreu um derrame que o deixou mudo e paralizado. Levado a Paris pela mãe, terminou a vida cercado pelos amigos e cópias de suas telas mais queridas: a Olympia de Manet e a Maja Desnuda de Goya. A mulher de Manet visitava-o todos os dias para tocar ao piano peças de Wagner, seu compositor favorito.

Prelúdio de Tristão e Isolda de Wagner, Herbert von Karajan, Filarmônica de Viena


Manet, Olympia - clique na imagem para ampliá-la


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Obsession

Grands bois, vous m'effrayez comme des cathédrales;
Vous hurlez comme l'orgue; et dans nos coeurs maudits,
Chambres d'éternel deuil où vibrent de vieux râles,
Répondent les échos de vos De profundis.

Je te hais, Océan! tes bonds et tes tumultes,
Mon esprit les retrouve en lui; ce rire amer
De l'homme vaincu, plein de sanglots et d'insultes,
Je l'entends dans le rire énorme de la mer.

Comme tu me plairais, ô nuit! sans ces étoiles
Dont la lumière parle un langage connu!
Car je cherche le vide, et le noir, et le nu!

Mais les ténèbres sont elles-mêmes des toiles
Où vivent, jaillissant de mon oeil par milliers,
Des êtres disparus aux regards familiers.



Le Goût du néant

Morne esprit, autrefois amoureux de la lutte,
L'Espoir, dont l'éperon attisait ton ardeur,
Ne veut plus t'enfourcher! Couche-toi sans pudeur,
Vieux cheval dont le pied à chaque obstacle butte.

Résigne-toi, mon coeur; dors ton sommeil de brute.

Esprit vaincu, fourbu! Pour toi, vieux maraudeur,
L'amour n'a plus de goût, non plus que la dispute;
Adieu donc, chants du cuivre et soupirs de la flûte!
Plaisirs, ne tentez plus un coeur sombre et boudeur!

Le Printemps adorable a perdu son odeur!

Et le Temps m'engloutit minute par minute,
Comme la neige immense un corps pris de roideur;
-- Je contemple d'en haut le globe en sa rondeur
Et je n'y cherche plus l'abri d'une cahute.

Avalanche, veux-tu m'emporter dans ta chute?


Goya, Maja Desnuda, clique na imagem para ampliá-la



Obsessão

Selva, me apavoras como as catedrais.
Teu órgão urra e meu coração maldito
Responde a todos os teus ecos sepulcrais,
Câmara de luto vibrando em velho rito.

Mar, eu te odeio! Teu oco, teu tumulto
São meus, bem meus; eu ouço o riso, o esgar
Do homem vencido, o choro, o insulto
Ouço, na gargalhada enorme do mar.

Como eu te amaria, ó noite! sem estrelas
Pra salpicar a fala de lugar comum!
Eu procuro o vazio, o negro, o nu!

Mas esta escuridão também é uma tela.
No meu olho reluz, comigo vem morar,
Daqueles que eu perdi, o querido olhar.


O Gosto do nada

Mente fraca, outrora amiga da luta,
A Esperança, espora do teu ardor,
Não quer mais te montar! Deita-te sem pudor,
Cavalo velho que a cada passo reluta.

Desiste coração; dorme bem, massa bruta.

Ser acabado! Pra ti, velho traidor,
O amor perdeu sabor, e também a disputa;
Adeus, suspiro de flauta, gosto de fruta!
Prazer, não tentes mais um sombrio censor!

A Primavera linda perdeu o odor!

Minuto a minuto, o Tempo me executa,
Como na neve imensa um corpo já sem dor;
Vejo a terra do alto, igual ao condor,
E não procuro mais o abrigo da gruta.

Avalancha, posso ir contigo? Escuta!


Baudelaire, última foto, por Carjat, 1866

Tuesday, August 30, 2005




Por falar em Narciso, não há pensador mais narciso do que Nietzsche. Radicalmente inebriado de si mesmo.
O grande lance de Nietzsche é a ambiguidade. Pode ser lido como Hitler o lia ou, no extremo oposto, como Foucault.
Para a cobertura das Olimpíadas de 84, juntei trechos de Assim Falava Zaratustra para servir de narração numa sequência de imagens de atletas "voando".
Na época, usei uma trilha sonora óbvia, a Ode à Alegria de Beethoven. É melhor o Allegretto da Sétima Sinfonia do mesmo Beethoven, conhecida como A Sinfonia da Dança. Com Leonard Bernstein e a Sinfônica de Boston, última gravação do maestro.





Quem quer aprender a voar, precisa primeiro aprender a ficar de pé e a andar e a subir e dançar: a arte de voar não se aprende voando!

Aquele que ensinar os homens a voar afastará todos os limites, batizará a terra de novo como A Leve.

Quem quer se tornar leve e se transformar em pássaro deve se amar.





O homem é uma corda estendida entre a besta e o Super Homem - uma corda sobre o abismo.
É perigoso passar de um lado ao outro, perigoso ficar no caminho, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.
O que há de grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é que ele é uma passagem e uma queda.





Por trás dos teus pensamentos e teus sentimentos, irmão, há um soberano possante e um sábio desconhecido. Ele mora no teu corpo, é teu corpo.





Há mais razão no teu corpo que na tua melhor sabedoria. Há sempre um pouco de loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.





E mesmo eu, que estou voltado para a vida, acho que as borboletas, as bolhas de sabão e o que se assemelha a elas entre os homens são o que melhor conhece a felicidade.




Ver voar essas alminhas leves, loucas, graciosas e móveis - isso dá a Zaratustra vontade de chorar e cantar.
Eu não poderia acreditar num deus que não soubesse dançar.
Agora sou leve, agora vôo, agora me vejo abaixo de mim mesmo, agora um deus dança através de mim.




Estou agora diante do meu último cume. Tenho diante de mim meu caminho mais duro. Começo minha corrida mais solitária.
Acima da tua cabeça e além do teu coração. Agora a coisa mais doce em ti deve se tornar a mais dura.





Precisas subir andando sobre ti. Mais alto, mais alto até que as estrelas fiquem lá embaixo.





Céu acima de mim, céu puro. Profundo. Abismo de luz. A te contemplar tremo de desejos divinos. Saltar na tua altura - eis o meu abismo. Ensconder-me na tua pureza, eis minha incoência.
Todo a minha vontade é só voar, voar para entrar em ti!





O belo corpo vitorioso em torno do qual tudo se transforma em espelho.
O corpo ágil, o dançarino cujo símbolo é alma feliz consigo mesma.





Toda alegria quer a eternidade, a profunda, profunda eternidade.





Assim fala a sabedoria do pássaro: Não há alto nem baixo. Lança-te para todos os lados, para frente, para trás, homem leve. Não fala mais. Canta.


Caravaggio, Narciso

Há quase 20 anos meu querido amigo amigo Paulo Coelho mostrou a imagem que tinha escolhido para a capa do segundo livro dele, O Alquimista, perguntando o que eu achava. Era o Narciso de Caravaggio. Escolha de bom gosto e intrigante. Afinal, a mensagem de O Alquimista é bem simples: o maior tesouro que se pode encontrar está dentro de si mesmo. Narciso é uma versão bem mais ambígua dessa história. Fascinado com sua própria imagem, Narciso se destrói.
Nem eu nem Paulo poderíamos imaginar que a fábula singela de O Alquimista iria se tornar o maior fenômeno editorial global antes de Harry Potter. Vinte e três milhões de livros vendidos. O livro mais lido no Irã depois do Corão. Livro que mudou a vida do Paulo e, curiosamente, de milhões de leitores.
O novo livro dele, Zahir, está saindo semana que vem aqui nos Estados Unidos, onde O Alquimista já vendeu mais de 2 milhões de exemplares. O New York Times desta terça traz matéria de Alan Riding, dizendo que Paulo, sempre escrevendo em português, criou uma linguagem universal. Narciso que deu certo.

Monday, August 29, 2005

Tapeçaria do Unicórnio

Um dos melhores passeios em New York é visitar os Cloisters, ou claustros, um mosteiro à beira do Hudson ao norte de Manhattan, construído com pedras trazidas de cinco mosteiros franceses, nos anos 30.
A jóia dos Cloisters é a série de tapeçarias A Caçada ao Unicórnio. Tecidas na Bélgica no fim do século XV, são as mais belas e preciosas tapeçarias que chegaram até nós. Foram compradas por um milhão de dólares da família La Rochefoucauld pelo magnata John D. Rockefeller e doadas ao Metropolitan Museum of Art, do qual os Cloisters fazem parte.
Das sete tapeçarias, a mais deslumbrante é O Unicórnio no Cativeiro. Não se sabe exatamente qual é o simbolismo da imagem. O Unicórnio na Idade Média simbolizava Cristo, mas era associado também ao amor casto. Só uma virgem seria capaz de capturar um Unicórnio.
Nenhuma reprodução pode capturar a beleza da tapeçaria, que brilha no escuro (a iluminação é reduzida para não desbotar as cores). É preciso vir a New York para ver o Unicórnio.



Para ouvir, do CD Música de Amor Medieval, do New York's Ensemble for Early Music, Canções de amigo, escritas em galego-português por Martin Codax em 1230. Foram encontradas em 1914. São canções de uma mulher que à beira-mar espera a volta do amado. Terminam assim: "Ay ondas que eu vim ver, se me saberedes dizer porque tarda meu amigo sem mim? Ay ondas que eu vim mirar, se me saberedes contar porque tarda meu amado, sem mim?".
Nossa língua, última flor do Lácio, vem de muito longe...

Thursday, August 25, 2005

Dosso Dossi

Dosso Dossi

Debellis

Delairesse

Falcone



Pellegrino





Perugino

Altdorfer

Cariani

Carracci

Filipino Lippi

Van Dyck

Veneziano

Solari

Perugino

Perugino

Pellegrini





Liberale

Dasaliba

de Predis





Zaganelli

Garofalo

Lorenzo Lotto

Anthonis Mor

Johan Carl Loth















Simone Cantarini









Van Dyck



Tiziano, detalhe











Genga

Van Dyck











Guido Reni

El Greco

Albani

Baglione

Marcantonio Bassetti

Jacopo Chimenti

Pierre e Gilles

Trophime Bigot

Giovanni Boltraffio

Fabri

Ricardo Cinalli

Luca Giordano

Giuseppe Fedi

Antonio Giorgetti

artesanato da Guatemala

Georges de La Tour, Santa Irene cuidando de São Sebastião

Vicente Juan Macip

Vicente Lopez

Bartolomeo Manfredi

santinho brasileiro

Pollaiuolo

François-Guillaume Menageot

Michael Mills

Alessandro del'Orbetto

Gozzoli

Centeno

Centeno

Cima

Cima



Luis de Camões

Há exatamente 410 anos, em 1595, foram publicados os sonetos de Camões, 15 anos depois da morte do poeta. Seguem cinco sonetos, ilustrados por pinturas mais ou menos contemporâneas (clique em cada imagem para ver ampliada), quadros que Camões certamente nunca viu - porque não viajou pela Europa, e sim pelas Índias, mas que têm algo a ver com a arte refinada e lúcida do nosso poeta.
É um atestado da vitalidade da nossa língua poder ler estes poemas como se tivessem sido escritos hoje, sempre tão perfeitos, cheios de inteligência e humanidade.

Como trilha sonora, um trecho das Vésperas da Beata Virgem de Monteverdi, 1610: Nisi Dominus.

Bruegel, A Queda de Ícaro, 1558

Bruegel, Babel, 1563

Soneto 2

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Ticiano, Vênus de Urbino, 1538

Ticiano, Danae, 1514

Soneto 4

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem perde, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Ticiano, Amor Profano, detalhe de Amor Sagrado e Amor Profano, 1514

Caravaggio, Amor, 1601

Soneto 45

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve...) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Bruegel, Ceifadores, 1565

El Greco, Toledo, 1597

Soneto 91

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos; e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Ticiano, Mulher ao espelho, 1515

Ticiano, Bacanal dos Andrianos, 1525


Soneto 142

Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
Se estavam minhas lágrimas criando.
Cantei; mas se me alguém pergunta quando,
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado,
Que o passado por ledo estou julgando.
Fizeram-me cantar, manhosamente,
Contentamentos não, mas confianças;
Cantava, mas já era ao som dos ferros.
De quem me queixarei, que tudo mente?
Meu eu que culpa ponho às esperanças,
Onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

Ticiano, As Três Idades do Homem, 1514
Pipilotti Rist

Essa aí em cima é a artista suíça Pipilotti Rist, fotografada aqui em New York no Times Square. Há alguns anos vi um video dela no antigo Guggenheim do Soho (que virou a loja da Prada). Fascinante, vi várias vezes, tiveram que me arrastar para ir embora. Difícil descrever. São imagens misteriosas, sensuais, e ela canta com uma vozinha aguda, infantil. Só vendo.
Mas dá pra ter uma idéia pelas fotos abaixo, da instalação dela na Bienal de Veneza, chamada Homo Sapiens Sapiens. O video é projetado no teto de uma igreja barroca em Veneza. O público se deita no chão para assistir. O tema é o paraíso terrestre antes da expulsão de Adão e Eva. Só que, em vez deles, aparecem duas mulheres.
O video foi gravado em Minas Gerais. E nós mineiros não sabíamos que nossa terra era o Paraíso, sô... Quer dizer, sabemos mas não espalhamos.
O website da Pipilotti é doidão, vale a pena visitar.
Não achei a Pipilotti cantando, mas aí vai a trilha do video dela que eu vi, Sip my Ocean, a canção Wicked Game de Chris Issac.


Homo sapiens sapiens

Homo sapiens sapiens

Homo sapiens sapiens

Homo sapiens sapiens

Homo sapiens sapiens

Homo sapiens sapiens

Homo sapiens sapiens

Homo sapiens sapiens

Sunday, August 21, 2005

Lacan


Por trás dessa bela paisagem meio chinesa, pintada por André Masson, está o quadro mais escandaloso jamais pintado.
É A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, pintado em Paris em 1866, um ano antes da morte de Baudelaire. Como o pintor e o poeta eram amigos íntimos, pode ser que Baudelaire tenha visto o quadro. Já estava paralítico e mudo, depois do derrame que sofreu em Bruxelas, deitado numa cama e sendo cuidado pela mãe. Mas se viu, deve ter gostado.

A pintura foi encomendada a Courbet por um diplomata turco que colecionava imagens eróticas. Foi pendurada no apartamento dele em Paris, escondida atrás de uma cortina.
Mesmo visto por poucos, tornou-se um dos quadros mais célebres do século XIX.


Gustave Courbet, auto-retrato


Baudelaire por Courbet


O quadro desaparece e é redescoberto depois da II Guerra em Budapest. E quem o adquire? O psicanalista francês Jacques Lacan.
Lacan encomendou ao cunhado André Masson a pintura acima, em madeira, que instalou como porta de correr sobre o quadro de Courbet para escondê-lo. Quando tinha um convidado ilustre, Lacan o convidava a ver a pintura, deslizava a tampa e observava a reação.
Os herdeiros de Lacan doaram A Origem do Mundo ao Museu d'Orsay, onde é hoje o quadro mais popular, só perde para a Gioconda do Louvre.
Se você quiser ver o quadro, clique na tela lá em cima, mas não vá se encandalizar. Só vê quem quer.

Refez-se do susto? Quer ver de novo? Para uma reprodução melhor de A Origem do Mundo, clique aqui.

Jacques Lacan

Friday, August 19, 2005



A Vista de Delft é o chef-d'oeuvre de Vermeer. Para ver a riqueza de detalhes vá ao site Essential Vermeer .
O quadro ficou ainda mais famoso por ter sido usado por Proust como símbolo da transcendência na Arte, no episódio da morte do escritor Bergotte.
Bergotte vai ver o quadro, exposto em Paris, para descobrir o "pequeno muro amarelo" descrito por um crítico como "tão precioso quanto uma pintura chinesa" e que Bergotte não conseguia ver nas reproduções.
Diante do quadro, Bergotte encontra a manchinha amarela e tem uma epifania, a revelação de que toda a obra dele não vale aquela mancha de pintura. O escritor tem um ataque e morre, rolando pelo chão da galeria.
Proust se baseou num episódio real. Ele mesmo foi ver o quadro (e a tal mancha amarela), mas teve uma tonteira forte, sentiu-se mal. Foi a última vez que Prosut saiu de casa, passou o resto da vida na cama.
Os críticos não concordam sobre qual das manchas amarelas no quadro seria a de Bergotte e Proust. A discussão já rendeu vários livros. Há três fortes candidatas. Escolha a sua.









a mancha amarela seria o muro no alto à direita


O fato é que toda a superfície do quadro, cada detalhe, a luminosidade das nuvens, os reflexos na água, o sol brilhando em pequenas centelhas refletidas, a serenidade das figuras humanas, tudo é tão ou mais precioso do que qualquer pintura, chinesa ou não.


.


Vermeer pintou quatro quadros com moças tocando virginal, um instrumento de teclado semelhante ao cravo.
Para ouvir o som do virginal vá ao site Essential Vermeer. Aliás se você quiser passar o resto da vida estudando Vermeer fique nesse site, que é absolutamente exaustivo - e muito bem feito. Foi lá que eu peguei estas reproduções.





O virginal é um instrumento portátil, para ser aberto e tocado, sentado ou de pé, em cima de uma mesa. Um cravo doméstico.



Quando os holandeses contemporâneos de Vermeer vieram para o Brasil, certamente trouxeram virginais e virgens. Se continuaram virgens, é pouco provável. Mas imagino que o cravista Marcelo Fagerland descenda desses virgens, e o cravo dele desses virginais.




Então em homenagem a Vermeer, ao Brasil holandês, às virgens, e à minha amiga Anna Maria que inspirou este post, aí vai Pixinguinha por Marcelo Fagerland no cravo, com Mário Sève no sopro.

Rosa

Lamentos

Carinhoso

Um a zero

E atendendo a pedidos, volta a moça do chapéu vermelho. Lembrando que o quadro tem menos de um palmo de altura. Pertenceu ao genro de Vermeer, daí a suposição, sem provas, de que seria a filha do pintor. Mas o retrato é tão erotizado, que os críticos se perguntam: a moça do chapéu era virgem? Ou...


Thursday, August 18, 2005



Esta era a canção favorita da minha avó española, Maria Teresa Bravo y Balaguer de Faure. Ela botava una mantilla, tocava castañuelas e danzava.

De España vengo, Monserrat Caballé


Antonio Gades

Do filme El Amor Brujo , Antonio Gades e seus dançarinos

Adagio

Como el agua

Canción del tendedero

Tangos de boda

Se pone como una fiera

Alegria

Antonio Gades y sus bailarines
Vicente Amigo

Vicente Amigo

El Mandaíto

Ventanas al alma

De blanco y oro



De Federico Garcia Lorca, trechos de Teoria y Juego del Duende


Manuel Torres, el hombre de mayor cultura en la sangre que he conocido, dijo, escuchando al propio Falla su Nocturno del Generalife: "Todo lo que tiene sonidos negros tiene duende".


Antonio Gades, Cristina Hoyos

Estes sonidos negros son el misterio, las raíces que se clavan en el limo que todos conocemos, que todos ignoramos, perdo de donde nos llega lo que es sustancial en el arte.





El duende es un poder y no un obrar, es un luchar y no un pensar. Yo he oído decir a un viejo maestro guitarrista: "El duende no está en la garganta; el duende sube por dentro desde la planta de los pies".





Para buscar el duende no hay mapa ni ejercicio. Solo se sabe que quema la sangre como un tópico de vidrios, que agota, que rechaza toda la dulce geometría aprendida, que rompe los estilos, que hace que Goya, maestro en los grises, en los platas y en los rosas de la mejor pintura inglesa, pinte con las rodillas y los puños con horribles negros de betún.


Goya


La llegada del duende presupone siempre un cambio radical en todas las formas sobre planos viejos, da sensaciones de frescura totalmente inéditas, con una calidad de rosa recién creada, de milagro, que llega a produzir un entusiasmo caso religioso.

Jardim do Alhambra, Granada, foto Jorge Pontual

Los grandes artistas del sur de España, gitanos o flamencos, ya canten, ya bailen, ya toquen, saben que nos es posible ninguna emoción sin la llegada del duende... En todos los cantos del sur de España la aparición del duende es seguida por sinceros gritos de "Viva Dios!", profundo, humano, tierno grito de una comunicación con Dios por medio de los cinco sentidos, gracias al duende que agita la voz y el cuerpo de la bailarina, evasión real y poética de este mundo.





La virtud mágica del poema consiste en estar siempre enduendado para bautizar con agua oscura a todos los que lo miran, porque con duende es más fácil amar, comprender, y es seguro ser amado, ser comprendido, y esta lucha por la expresión y por la comunicación de la expresión adquiere a veces, en poesía, caracteres mortales.


Joaquin Cortés


Ni en el baile español ni en los toros se diverte nadie; el duende se encarga de hacer sufrir por medio del drama, sobre formas vivas, y prepara las escaleras para una evasión de la realidade que circunda.


Antonio Canales


España es el único país donde la muerte es el espectáculo nacional, donde la muerte toca largos clarines a la llegada de las primaveras, y su arte está siempre regido por un duende agudo que le ha dado su diferencia y su calidad de invención.


Plaza de Toros, Sevilla, foto Jorge Pontual

El duende... Dónde está el duende? Por el arco vacio entra un aire mental que sopra con insistencia sobre las cabezas de los muertos, en busca de nuevos paisajes y acentos ignorados; un aire con olor de saliva de niño, de hierba machacada y velo de medusa que anuncia el constante bautizo de las cosas recién creadas.


Federico García Lorca

Tuesday, August 16, 2005

Vênus

detalhe

Adoração dos magos

detalhe

Concerto campestre

São Jorge

Por-do-sol com São Jorge e o dragão

Auto-retrato



Filósofos

Cavaleiro e escudeiro

Laura





As três idades do homem





Madonna com S. Francisco e S. Liberal

detalhe

A velhice



Judith

O cantor

Madona

Van Gogh, Paris vista do alto


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual


Projet d'un épilogue
pour Les Fleurs du Mal

I

Le coeur content, je suis monté sur la montagne
D’où l’on peut contempler la ville en son ampleur,
Hôpital, lupanar, purgatoire, enfer, bagne,

Où toute énormité fleurit comme une fleur.
Tu sais bien, ô Satan, patron de ma détresse,
Que je n’allais pas là pour répandre un vain pleur;

Mais, comme un vieux paillard d’une vieille maîtresse,
Je voulais m’enivrer de l’énorme catin,
Dont le charme infernal me rajeunit sans cesse.

Que tu dormes encor dans les draps du matin,
Lourde, obscure, enrhumée, ou que tu te pavanes
Dans les voiles du soir passementés d’or fin,

Je t’aime, ô capitale infernale! Courtisanes
Et bandits, tels souvent vous offrez des plaisirs
Que ne comprennent pas les vulgaires profanes.

II

Tranquille comme un sage et doux comme un maudit,
J’ai dit:
Je t’aime, ô ma très belle, ô ma charmante...
Que de fois...
Tes débauches sans soif et tes amours sans âme,
Ton goût de l’infini,
Qui partout, dans le mal lui-même, se proclame...

Tes bombes, tes poignards, tes victoires, tes fêtes,
Tes faubourgs mélancoliques,
Tes hôtels garnis,
Tes jardins pleins de soupirs et d’intrigues,
Tes temples vomissant la prière en musique,
Tes désespoirs d’enfant, tes jeux de vieille folle,
Tes découragements,

Et tes feux d’artifice, éruptions de joie,
Qui font rire le Ciel, muet et ténébreux.

Ton vice vénérable étalé dans la soie,
Et ta vertu risible, au regard malheureux,
Douce, s’extasiant au luxe qu’il déploie.

Tes principes sauvés et tes lois conspuées,
Tes monuments hautains où s’accrochent les brumes,
Tes dômes de métal qu’enflamme le soleil,
Tes reines de Théâtre aux voix enchanteresses,
Tes tocsins, tes canons, orchestre assourdissant,
Tes magiques pavés dressés en forteresses,
Tes petits orateurs, aux enflures baroques
Prêchant l’amour, et puis tes égouts pleins de sang,
S’engouffrant dans l’Enfer comme des Orénoques,
Tes sages, tes bouffons neufs aux vieilles défroques.

Anges revêtus d’or, de pourpre et d’hyacinthe,
Ô vous! soyez témoins que j’ai fait mon devoir
Comme un parfait chimiste et comme une âme sainte.
Car j’ai de chaque chose extrait la quintessence,
Tu m’as donné ta boue et j’en ai fait de l’or.


Van Gogh, Paris vista do alto


Projeto de epílogo
para As Flores do Mal

I

De coração leve subi até o ápice
Da colina, de onde se vê toda a cidade:
Hospital, bordel, purgatório, inferno, cárcere,

Lugar onde prospera toda enormidade.
Sabes bem, Satã, patrono do meu quebranto,
Que lá não ia para chorar saudade

Mas, velho rufião de uma velha amante,
Embriagar-me de ti, enorme messalina,
Do teu charme infernal que me renova tanto!

Quer durmas ainda no torpor matutino,
Lerda, escura. gripada, quer te engalanes
Com os véus da noite, bordados de ouro fino,

Eu te amo, capital infame! Mundanas
E malandros também oferecem prazeres
Inatingíveis pelos vulgares profanos...

II

Calmo como um sábio, doce como um maldito,
Minha charmosa, belíssima, eu te amo.
Tua luxúria sem sede, amores sem alma,
Teu gosto de infinito
Presente em tudo, até no próprio Mal...

Tuas bombas, punhais, vitórias, festivais,
Tuas avenidas melancólicas,
Tuas pensões baratas,

Teus jardins cheios de suspiros e intrigas,
Teus templos que vomitam orações melódicas,
Teu choro infantil, teu riso de velha louca,
Teus desencantos...

Teus fogos de artifício, gozo em chafariz,
Alegrando o céu mudo e tenebroso.

Teu venerável vício, de sobrepeliz,
Tua virtude pífia, de olhar lacrimoso,
Chafurdando no luxo que a faz feliz.

Teus princípios salvos, tuas leis conspurcadas,
Teus monumentos altivos fisgando brumas,
Tuas cúpulas de metal que o sol inflama,
Tuas rainhas do palco, vozes de fada,
Teus dobres de luto, teus canhões trovejantes,
Teu piso mágico erguido em barricada
Tua politicalha de estilo barroco
Pregando o amor, e mais, teus esgotos de sangue
Se engolfando no inferno como um Orenoco,
Teus sábios, novos bufões de velho reboco.

Anjos cobertos de ouro, púrpura e xanto,
Sois testemunhas de que cumpri meu dever,
Como perfeito alquimista, alma de santo
Pois sei de cada coisa extrair o nó.
Me destes tua lama, eu fiz ouro em pó.


Van Gogh, Paris em 14 de julho


Edith Piaf

Paris

Mon Dieu

Belle histoire d'amour

Hymne à l'amour

Les mots d'amour

Milord

Non je ne regrette rien

T'es beau tu sais





Charles Aznavour

Paris au mois d'aout

Trousse chemise

Hier encore

La Bohème

Et pourtant

Il faut savoir

L'amour est comme un jour

She


Monday, August 15, 2005

Odalisca, Dominique Ingres

Le Serpent qui danse

Que j'aime voir, chère indolente,
De ton corps si beau,
Comme une étoffe vacillante,
Miroiter la peau!

Sur ta chevelure profonde
Aux âcres parfums,
Mer odorante et vagabonde
Aux flots bleus et bruns,

Comme un navire qui s'éveille
Au vent du matin,
Mon âme rêveuse appareille
Pour un ciel lointain.

Tes yeux, où rien ne se révèle
De doux ni d'amer,
Sont deux bijoux froids où se mêle
L'or avec le fer.

À te voir marcher en cadence,
Belle d'abandon,
On dirait un serpent qui danse
Au bout d'un bâton.

Sous le fardeau de ta paresse
Ta tête d'enfant
Se balance avec la mollesse
D'un jeune éléphant,

Et ton corps se penche et s'allonge
Comme un fin vaisseau
Qui roule bord sur bord et plonge
Ses vergues dans l'eau.

Comme un flot grossi par la fonte
Des glaciers grondants,
Quand l'eau de ta bouche remonte
Au bord de tes dents,

Je crois boire un vin de Bohême,
Amer et vainqueur,
Un ciel liquide qui parsème
D'étoiles mon coeur!


A Serpente que dança

Quero ver, indolente amada,
Do teu corpo a flor
Como uma seda adamascada
Brilhar furta-cor!

Sobre a profunda cabeleira,
Aragem do sul,
Onda cheirosa, aventureira,
Negra -- e azul,

Acordado pelo primeiro
Vento da manhã,
Logo se apresta meu veleiro
Para Aldebarã.

Teus olhos que nunca anunciam
Bom ou mau agouro
São jóias frias que associam
O ferro e o ouro.

Quem vê teu andar que balança,
Bela de exaustão,
Vê uma serpente que dança
Suspensa ao bastão.

A cabeça cheia de dengo
Parece imitar
De um elefantinho molengo
O bambolear.

Teu corpo sobe e corcoveia
Como um bergantim
Que joga, roda e ondeia
Sobre o mar sem fim.

Brotam de uma infernal geleira,
Da âmbrea fonte,
Águas da tua boca inteira,
E sobem-me à fronte

Como vinho forte, ao bebê-las,
Amargo e loução,
Céu líquido, fonte de estrelas
No meu coração!
Antonello da Messina, Museu do Prado, Madri


Sometimes I feel
like a motherless child
Sometimes I feel
like a motherless child
a long ways from home.

Sometimes I feel
Like it's close at hand
Sometimes I feel
Like the freedom is near
But we're so far from home

Sometimes, sometimes,
Sometimes
So far, so far, so far,
So far Mama from you, so far

Barbara Hendricks , Sometimes I feel like a motherless child



A expressão máxima de felicidade em música. O encontro de Papagena e Papageno na Flauta Mágica de Mozart.

A cena começa com Papageno desesperado por não conseguir encontrar sua amada. Ele prepara uma corda para se enforcar se ela não aparecer. Conta até três e nada acontece. Papageno canta literalmente "Adeus mundo cruel!" (afinal é uma comédia...) mas quando vai se matar aparecem três meninos que lembram a Papageno os sinos mágicos que ele ganhou da Rainha da Noite. Papageno toca os sinos e surge Papagena.
A canção dos dois é...

Ouçam!

Papagena, Papagena, Papagena! (Die Zauberflöte, Finale)

Gottfried Hornik, Papageno, Janet Perry, Papagena, Filarmônica de Berlim, Herbert von Karajan

Sunday, August 14, 2005



O pai espiritual de Baudelaire é Edgar Allan Poe.
Apenas 12 anos separam os dois, mas a descoberta dos contos e poemas de Poe foi uma revelação para o jovem Baudelaire. O poeta de Paris e o poeta de New York nunca se encontraram ou sequer se corresponderam, mas talvez não haja afinidade maior na história da literatura.
Baudelaire encontrou em Poe o seu lado escuro, a lucidez diante do Mal, o mergulho nas profundezas do Inconsciente.
A mãe de Baudelaire foi criada na Inglaterra e ensinou inglês ao filho. Baudelaire traduziu os contos de Poe para o francês e até hoje Poe é mais conhecido e lido na França do que nos Estados Unidos. Eu posso ser suspeito, mas concordo com a opinião de muitos, de que a tradução de Baudelaire é melhor que o original.
Mas Baudelaire não traduziu os poemas de Poe. Achava impossível traduzir poesia.
Em homenagem ao dia dos pais, vou me arriscar a traduzir um poema de Poe, um dos melhores, Um sonho dentro de um sonho, escrito quando Poe tinha 18 anos.

Sonho dentro de um sonho (1827)

Na testa toma o meu beijo!
E, agora que eu te deixo,
Confessar é meu desejo -
Não, não erras ao julgar
Que vivo só a sonhar;
Mas se a esperança voou
Na noite, no dia ou
Numa visão, ou nenhuma,
Não ficaria alguma?
Tudo o que vejo ou sonho
É sonho dentro de um sonho.

Estou de pé frente ao mar
Batendo no quebra-mar
E tenho nas minhas mãos
Areia que sinto em grãos -
Tão poucos! Mas como vão
Por meus dedos para o vão,
E choro em vão - choro em vão!
Ó Deus! como segurar
O que não posso agarrar?
Ó Deus! não posso salvar
Um grão desse cruel mar?
Será o que vejo ou sonho
Um sonho dentro de um sonho?


A Dream Within a Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
This much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

Monumento a Baudelaire, Cemitério Montparnasse

Charles Baudelaire é um caso clássico de complexo de Édipo. O pai, ex-padre e muito mais velho que a mãe, morreu quando o menino estava com seis.
Os dois anos em que teve a mãe só para ele viraram na imaginação do poeta um paraíso de prazer.
Mas a jovem viúva casou-se com um militar, o capitão Aupick, e Charles foi despachado para um colégio interno numa cidade distante.
Aos 21, tornou-se maior e recebeu a herança deixada pelo pai, uma fortuna. Em dois anos, torrou metade, em mulheres, obras de arte, bebida, drogas (haxixe, ópio).
Aupick, já então general, conseguiu que Charles fosse interditado. O poeta voltou a ser menor perante a lei, com um tutor que administrava o que sobrou da herança. Baudelaire recebia uma pequena mesada, com a qual viveu, praticamente na miséria, até morrer aos 46 anos. A herança permaneceu intacta e foi para uma sobrinha qualquer.
Em 1848, quando os revolucionários ergueram barricadas em Paris, o general Aupick comandou a dura repressão ao movimento. Baudelaire, que nunca se interessou por política, foi visto nas ruas gritando: "Temos que fuzilar o General Aupick!"
Só depois que o padrasto morreu, em 1857, Baudelaire finalmente publicou seu livro de poemas, As Flores do Mal.
Quando Baudelaire morreu, a mãe enterrou-o ao lado do general, onde está até hoje, no cemitério Montparnasse. E ela se juntou aos dois, quando morreu, 20 anos depois.

Monumento a Baudelaire, cemitério Montparnasse

Triste andarilha
Charles Baudelaire, tradução, Jorge Pontual

Teu coração, Ágata, costuma voar?
Longe do negro mar da imunda cidade,
Para um outro oceano de esplendor sem par,
Azul, claro, profundo como a virgindade,
Teu coração, Ágata, costuma voar?

O mar, o vasto mar consola nossas dores!
Que demônio deu à fala rouca do mar,
Ao som do imenso órgão dos ventos cantores
Esta missão sublime de nos embalar?
O mar, o vasto mar consola nossas dores!

Seqüestra-me, fragata! leva-me, vagão!
Para longe! Aqui o choro vira lama!
Será de Ágata o triste coração
Que diz: longe das dores, dos crimes, do drama,
Seqüestra-me, fragata, leva-me, vagão?

Como estás longe, paraíso perfumado,
Onde só um amor feliz pode viver,
Onde o que se ama merece ser amado,
Onde a alma se afoga no puro prazer!
Como estás longe, paraíso perfumado!

Mas o paraíso da primeira paixão,
As festas, os buquês, os beijos, as canções,
Violinos vibrando à tarde no verão,
À noite, nos bosquinhos, vinho aos borbotões
-- Mas o paraíso da primeira paixão,

O paraíso infantil do prazer furtivo
Estará mais longe que a Índia e o Nepal?
Pode chamá-lo nosso choro convulsivo
Para ressuscitá-lo com voz de cristal,
O paraíso infantil do prazer furtivo?


Esse "paraíso infantil" está na abertura do filme Édipo Rei de Pasolini, imagens da mãe, Silvana Mangano, brincando com o filho no campo. Para completar o clima, Pasolini usou como fundo musical o adagio do Quinteto para Cordas em Sol Menor de Mozart.

Pasolini com a mãe dele

Saturday, August 13, 2005

Barbara Hendricks

A cantora Barbara Hendricks gravou algumas das canções que Debussy compôs sobre poemas de Verlaine e Baudelaire. Formada pela Julliard em New York, ela se mudou para a Europa há 30 anos. Dedica-se à luta pelos direitos humanos, especialmente dos refugiados, vítimas de guerras entre países e guerras civis. Era muito ligada a Sérgio Vieira de Mello, e cantou na festa de independência de Timor Leste. Uma doce guerreira.

Verlaine e Rimbaud, detalhe, Fantin-Latour

De Verlaine:

Ariettes oubliées
C'est l'extase langoureuse
Il pleure dans mon coeur
L'ombre des arbres dans la rivière
Paysages belges - Chevaux de bois
Aquarelles - Green
Aquarelles - Spleen

Fêtes galantes
En sourdine
Fantoches
Clair de lune


Baudelaire, Fantin-Latour

De Baudelaire:

Le balcon
Harmonie du soir
Le jet d'eau
Recueillement
La mort des amants

Friday, August 12, 2005

Caspar David Friedrich, O Caminhante


A primeira música que botei no nyontime foi a Fantasia do Caminhante de Franz Schubert. Aqui vai a reprise com o caminhante de Friedrich.

Fantasia do Caminhante, Alfred Brendel, piano
Don José mata Carmen com uma punhalada


Existe alguma declaração de amor como a de Don José a Carmen no ato II da ópera de Bizet, a ária A flor que você me jogou?
Se existe eu não conheço.
E Carmen responde: Não! Você não me ama. Se me amasse fugia comigo.
A ária que ela canta é um dos mais belos hinos à liberdade jamais compostos.
Ele resolve voltar ao quartel, ela o expulsa. Ele se despede, "para sempre". Mas na cena seguinte chega o capitão, comandante de Don José, e este é obrigado a ficar com Carmen. A partir daí tudo dá errado. Amor trágico.

Carmen de Carlos Saura, Cristina Hoyos, Antonio Gades

A flor que você me jogou / Não você não me ama, Nicolai Gedda, tenor, Maria Callas, soprano





Caspar David Friedrich é o pintor romântico par excellence. E sendo romântico ele pintou... a Lua... o luar... como nenhum outro pintor.










E como este é um blog romântico, noturno e lunar contemplemos os luares de Friedrich ouvindo outro romântico, Franz Schubert (dá pra acreditar que Schubert morreu com 31 anos?).

No silêncio da noite, Margaret Price, soprano

O pastor na montanha, Margaret Price

À Lua, Matthias Goerne, barítono (poema de Goethe)

À Lua, Matthias Goerne (outra versão de Schubert para o mesmo poema de Goethe)

A proximidade da pessoa amada, Matthias Goerne ("penso em você quando vejo o luar brilhar refletido nos rios", Goethe)

Canção do caminhante noturno, Matthias Goerne (poema de Goethe)

Canção da Noite, Matthias Goerne (poema de Goethe)

Guarda che bianca luna, Cecilia Bartoli, soprano

Boa noite, Dietrich Fischer-Dieskau, barítono

Ao rouxinol (o pássaro que canta à noite), Gundula Janowitz, mezzo soprano

Solidão, Gundula Janowitz, mezzo soprano




Depois de Schubert veio um romântico ainda mais romântico, Robert Schumann.

Noite de Lua, Margaret Price (a mais bela de todas as canções sobre a Lua)


Lua nascendo, Caspar Friedrich

O discípulo de Schumann, Johannes Brahms, foi o último romântico.

A morte é uma noite fresca, Margaret Price





Um romântico do século XX (século passado...): Benjamin Britten

Moonlight, Leonard Bernstein, The Final Concert, Boston Symphony Orchestra




Por fim, a romântica Billie Holiday:

Pedi à Lua





Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Le Gouffre

Pascal avait son gouffre, avec lui se mouvant,
-- Hélas! tout est abîme, -- action, désir, rêve,
Parole! et sur mon poil qui tout droit se relève
Mainte fois de la Peur je sens passer le vent.

En haut, en bas, partout, la profondeur, la grève,
Le silence, l'espace affreux et captivant ...
Sur le fond de mes nuits Dieu de son doigt savant
Dessine un cauchemar multiforme et sans trêve.

J'ai peur du sommeil comme on a peur d'un grand trou,
Tout plein de vague horreur, menant on ne sait où;
Je ne vois qu'infini par toutes les fenêtres,

Et mon esprit, toujours de vertige hanté,
Jalouse du néant l'insensibilité.
-- Ah! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres!



O Abismo

Pascal tinha um abismo que o perseguia.
Para mim, também, tudo é vazio: amor,
Voz, sonho, ação! Sinto o vento do Terror
Passar sobre minha pele que se arrepia.

No alto, embaixo, em volta, fosso e negror,
O silêncio, ausência implacável e fria...
E no oco das minhas noites Deus recria
Um pesadelo imenso, sem forma, sem cor.

Tenho medo do sono, fundo alçapão,
Negras entranhas que não sei para onde vão;
De todas as janelas só vejo o vazio.

Se eu, que conheço a vertigem e o horror,
Ao menos, como o Nada, ignorasse a dor...
-- Ah! Não poder sair deste mundo sombrio!

Thursday, August 11, 2005

Baudelaire au Parc du Luxembourg


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

L'Irremédiable

I

Une Idée, une Forme, un Être
Parti de l'azur et tombé
Dans un Styx bourbeux et plombé
Où nul oeil du Ciel ne pénètre;

Un Ange, imprudent voyageur
Qu'a tenté l'amour du difforme,
Au fond d'un cauchemar énorme
Se débattant comme un nageur,

Et luttant, angoisses funèbres!
Contre un gigantesque remous
Qui va chantant comme les fous
Et pirouettant dans les ténèbres;

Un malheureux ensorcelé
Dans ses tâtonnements futiles,
Pour fuir d'un lieu plein de reptiles,
Cherchant la lumière et la clé;

Un damné descendant sans lampe,
Au bord d'un gouffre dont l'odeur
Trahit l'humide profondeur,
D'éternels escaliers sans rampe,

Où veillent des monstres visqueux
Dont les larges yeux de phosphore
Font une nuit plus noire encore
Et ne rendent visibles qu'eux;

Un navire pris dans le pôle,
Comme en un piège de cristal,
Cherchant par quel détroit fatal
Il est tombé dans cette geôle;

-- Emblèmes nets, tableau parfait
D'une fortune irrémédiable,
Qui donne à penser que le Diable
Fait toujours bien tout ce qu'il fait!


II

Tête-à-tête sombre et limpide
Qu'un coeur devenu son miroir!
Puits de Vérité, clair et noir,
Où tremble une étoile livide,

Un phare ironique, infernal,
Flambeau des grâces sataniques,
Soulagement et gloire uniques,
-- La conscience dans le Mal!



O Irremediável

I

Um Ser, uma Forma, uma Idéia
Que no Estige infernal tombou,
No rio onde jamais entrou
O olhar da divina platéia,

Um anjo que ali se perdeu
Na busca de um amor impossível,
Preso a um pesadelo horrível
Tenta nadar naquele breu,

Luta, inútil agonia,
Contra o imenso turbilhão,
Estrondosa alucinação
Que no abismo rodopia;

Um prisioneiro num porão
Que se descobre de repente
Dentro de um ninho de serpente,
Tateando na escuridão;

À beira de um despenhadeiro,
Alma penada, dor sem fim,
Desce uma escada em trampolim,
Lugar úmido, de mau cheiro,

Onde há monstros a espreitar
De olhos tão fosforescentes
Que até iluminam os dentes
Sempre prontos a atacar;

Um navio preso no gelo,
Numa armadilha de cristal,
Buscando o caminho fatal
Que o trouxe, sem nunca vê-lo.

-- Emblemas, roteiro veraz
De um destino irremediável,
Pois o demônio é confiável,
Faz sempre bem tudo o que faz.

II

Um ser que é seu próprio reflexo;
Límpido e sombrio luar
No fundo de um poço enxergar;
Face a face claro e complexo!

Farol irônico, infernal,
Dádiva do fogo satânico,
Alívio e fim de todo pânico:
-- É a consciência no Mal!
Charles Baudelaire


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

L'Héautontimorouménos

À J.G.F.

Je te frapperai sans colère
Et sans haine, comme un boucher,
Comme Moïse le rocher!
Et je ferai de ta paupière,

Pour abreuver mon Saharah,
Jaillir les eaux de la souffrance.
Mon désir gonflé d'espérance
Sur tes pleurs salés nagera

Comme un vaisseau qui prend le large,
Et dans mon coeur qu'ils soûleront
Tes chers sanglots retentiront
Comme un tambour qui bat la charge!

Ne suis-je pas un faux accord
Dans la divine symphonie,
Grâce à la vorace Ironie
Qui me secoue et qui me mord?

Elle est dans ma voix, la criarde!
C'est tout mon sang ce poison noir!
Je suis le sinistre miroir
Où la mégère se regarde.

Je suis la plaie et le couteau!
Je suis le soufflet et la joue!
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau!

Je suis de mon coeur le vampire,
-- Un de ces grands abandonnés
Au rire éternel condamnés,
Et qui ne peuvent plus sourire!


O carrasco de si mesmo

A J.G.F.

Vou te bater sem me irritar,
Sem ódio, como um açougueiro,
Como Moisés contra o outeiro!
E arrancarei do teu olhar,

Para irrigar os meus saaras,
As águas que brotam da dor.
Esperançoso, o meu amor
Irá nas lágrimas amaras

Para alto mar como um vapor
E o teu soluçar adorado
Meu coração embriagado
Fará bater como um tambor!

Não serei eu um falso acorde
No som do divino coral,
Culpa da ironia fatal
Que me arrebata e que me morde?

Ela distorce a minha voz!
É meu sangue, negro veneno!
E eu sou o espelho obsceno
Onde ela se enxerga, atroz!

Sou a espada e o degolado!
Sou a ferida e o punhal!
Sou a vítima, sou o mal,
Torturador e torturado!

Vampiro do meu coração,
Sou um dos grandes rejeitados
Ao riso eterno condenados
E que nunca mais sorrirão!

Wednesday, August 10, 2005




Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Le Revenant

Comme les anges à l'oeil fauve,
Je reviendrai dans ton alcôve
Et vers toi glisserai sans bruit
Avec les ombres de la nuit;

Et je te donnerai, ma brune,
Des baisers froids comme la lune
Et des caresses de serpent
Autour d'une fosse rampant.

Quand viendra le matin livide,
Tu trouveras ma place vide,
Où jusqu'au soir il fera froid.

Comme d'autres par la tendresse,
Sur ta vie et sur ta jeunesse,
Moi, je veux régner par l'effroi.


Assombração

Anjo dos olhos de pantera,
Eu voltarei à tua espera
E saberei te alcançar
Por entre as sombras do luar;

E te darei, morena nua,
Beijos gelados como a Lua,
Carícias de cobra-coral
Armando seu bote fatal.

Ao nascer o dia sombrio,
Acharás meu lugar vazio
E um frio que é contínua dor.

Como outros pela ternura,
Na tua vida nova e pura,
Quero reinar pelo terror.

Tuesday, August 09, 2005

Rainha da Noite, Flauta Mágica


Ouça as árias da Rainha da Noite de Mozart na ópera Flauta Mágica, as mais difíceis do repertório lírico, na voz de Karin Ott com Herbert von Karajan regendo a Filarmônica de Berlim.

No primeiro ato, a Rainha da Noite pede ao príncipe Tamino que liberte a filha Pamina, sequestrada segundo ela por um demônio chamado Sarastro. Antes, as damas da Rainha deram a Tamino um retrato de Pamina, por quem ele se apaixona perdidamente, e uma flauta mágica com a qual ele parte em busca da amada para libertá-la.

A Flauta Mágica, ato I, cena 4, recitativo e ária

No segundo ato, a Rainha da Noite se desespera ao descobrir que Tamino se tornou um dos iniciados do culto ao Sol, à Razão e à Verdade, comandado por Sarastro. A Rainha encontra a filha Pamina e lhe entrega um punhal para que Pamina mate Sarastro. Mas Pamina ama Sarastro, que é na verdade seu pai. Esta ária é uma das maiores chantagens emocionais da história da Arte.

"Um inferno vingativo pulsa no meu coração,
Morte e desespero flamejam em torno a mim!
Se não matares Sarastro com tua própria mão,
Filha minha nunca mais serás.
(entra aqui um dos trinados mais belos da Música)
Serás repudiada, para sempre abandonada,
Cortada da natureza que nos une,
Se eu não vir Sarastro ser morto por ti!
Deuses da vingança, ouvi esta praga de mãe!"

Com o punhal na mão, dividida entre mãe e pai, Pamina se pergunta, o que fazer? Sarastro, o pai, a surpreende, e ela implora: "Pai, não puna minha mãe! A dor de me perder..."
E ele responde: "Fica tranquila. Verás como eu me vingo da tua mãe."

A Flauta Mágica, ato II, cena 14, ária

Rainha da Noite


Numa única noite de verão, no deserto, a Rainha da Noite abre sua flor ao cair da tarde. Aos primeiros raios do Sol, ela se fecha para sempre.

Rainha da Noite

Monday, August 08, 2005

Passage Jouffroy, Paris


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual


À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!





A uma passante

O alarido da rua me ensurdecia.
Longa, magra, enlutada, altaneira dor,
Ela passou, com um gesto superior,
Balançando os punhos de passamanaria,

Ágil e nobre, no caminhar de vestal.
E eu bebia, como quem mal se agüenta,
No seu olhar, céu negro prenhe de tormenta,
O afeto que fascina e o prazer mortal.

Um raio... e logo o breu! Fugidia beldade,
Cujo olhar me fez renascer de uma só vez,
Só poderei rever-te na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Jamais talvez!
Não sabes onde vou e não sei onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que o sabias!


As Vitrines

Chico Buarque

Gal Costa


Sunday, August 07, 2005

Goya, La maja desnuda


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Chanson d'après-midi

Quoique tes sourcils méchants
Te donnent un air étrange
Qui n'est pas celui d'un ange,
Sorcière aux yeux alléchants,

Je t'adore, ô ma frivole,
Ma terrible passion!
Avec la dévotion
Du prêtre pour son idole.

Le désert et la forêt
Embaument tes tresses rudes,
Ta tête a les attitudes
De l'énigme et du secret.

Sur ta chair le parfum rôde
Comme autour d'un encensoir;
Tu charmes comme le soir,
Nymphe ténébreuse et chaude.

Ah! les philtres les plus forts
Ne valent pas ta paresse,
Et tu connais la caresse
Ou fait revivre les morts!

Tes hanches sont amoureuses
De ton dos et de tes seins,
Et tu ravis les coussins
Par tes poses langoureuses.

Quelquefois, pour apaiser
Ta rage mystérieuse,
Tu prodigues, sérieuse,
La morsure et le baiser;

Tu me déchires, ma brune,
Avec un rire moqueur,
Et puis tu mets sur mon coeur
Ton oeil doux comme la lune.

Sous tes souliers de satin,
Sous tes charmants pieds de soie,
Moi, je mets ma grande joie,
Mon génie et mon destin,

Mon âme par toi guérie,
Par toi, lumière et couleur!
Explosion de chaleur
Dans ma noire Sibérie!





Canção da tarde

A sobrancelha tirana
Dá-lhe um ar bem estranho
Que não tem nada de anjo,
Bruxa de olhar leviano.

Ainda assim, meu encanto,
Minha terrível paixão,
Amo-a com devoção,
Como o padre ama o santo.

A floresta e o deserto
Perfumam a sua trança,
A cabeça faz a dança
Do oculto e do secreto.

Envolve a pele cheirosa
Uma aura de incenso;
Da noite vem seu alento,
Ninfa quente e tenebrosa.

Ah, nem os filtros mais fortes
Valem a sua preguiça,
E você sabe a carícia
Que faz reviver os mortos!

O quadril é o amante
Do seu dorso e dos seus seios
E encanta os travesseiros
Pela pose provocante.

Às vezes, para aplacar
A raiva misteriosa,
Você, dura, generosa,
Põe-se a morder e beijar;

Você ri, morena nua,
De rasgar-me a razão,
E põe no meu coração
Olhos doces como a lua.

Chinelos de cetim fino,
Pés de seda quero ver
A pisar o meu prazer,
Meu gênio e meu destino,

Minha alma que viceja
Só por você, luz e cor!
Pura explosão de calor
Na minha Sibéria negra!


Bellucci

Bellini

El Greco

Tura





Dürer



Ribera

Ribera

Ribera

Rubens







Vittoria

Grão Vasco



Piero de la Francesca

Ribera

Mantegna



Giambellino

Goltzius





Gerrit van Honthorst

Cairo

Moreau

Moreau

Tiziano

Ter Brugghen





Gustave Moreau



Rubens

Moreau







Van Dyck

Georges de La Tour

Carlo Dolci


Perugino

Pierre et Gilles

Pordenone

Buczacki

Regnier

Reni

Ribera

Rubens

Tiziano

Wtewael

Mantegna

Sodoma

Menageot



Guido Reni

Sebastiano del Piombo

Siciolante

Desvallieres

Garofalo

Boltraffio

Francia

Loebig

Ortolano



Boticelli

Rafael

François-Xavier Fabre

Holbein

Michelangelo, detalhe do Juízo Final

Marco Zoppo

Overbeck

Lorenzo Costa

Jan van Scorel

Bronzino

Foppa

Giorgetti

Van Dyck

Gregório Lopes (pintor português)

van Honthorst

Saraceni

Tiziano

Caravaggio

Carracci








Morreu nesta sábado em Cuba o cantor Ibrahim Ferrer, 78 anos, estrela do Buena Vista Social Club.
Ferrer adoeceu ao fim de uma tournée pela Europa.
Ele foi grande sucesso em Cuba nos anos 40 e 50, mas estava trabalhando como engraxate em Havana quando o grupo dos veteranos do són cubano foi reunido por Ry Cooder e Wim Wenders no filme Buena Vista Social Club.
Em 2004, Ferrer ganhou sozinho o Grammy pelo disco Buenos Hermanos.



Com Ibrahim Ferrer:
Dos Gardenias
Silencio (com Omara Portuondo)
Aquellos ojos verdes
Buenos hermanos

Saturday, August 06, 2005

Goya, afresco de San Antonio de la Florida





Enrique Granados, Goyescas, El fandango de Candil, El pelele, Alicia de Larrocha, piano

As anjas de Goya - las ángelas - são quase um segredo. Moram na pequena capela da Ermida de Santo Antonio onde Goya está enterrado. É um museu da prefeitura (ayuntamento) de Madri e talvez por isso não esteja nos guias turísticos com tanto destaque quanto o Museu do Prado e outros, ricos em obras-primas de Goya. É difícil achar a capelinha.

Ermita de San Antonio de la Florida

De tudo que eu e Angela vimos em Madri, nada chega perto. Passamos quase um dia todo lá.

Goya pintou os afrescos que decoram a pequena capela em 1798. Ali, à beira do rio Manzanares, longe do centro da cidade, ficava um lugar de peregrinação com uma imagem milagrosa de Santo Antonio de Pádua. Os madrilenhos eram devotos do santo português.

Goya, O milagre de Santo Antonio de Pádua

O afresco principal, na abóboda, mostra o milagre de Santo Antonio. Um milagre curioso. O pai do santo tinha sido acusado de assassinato. Santo Antonio ressuscitou o assassinado, que exonorou o pai do santo e voltou ao túmulo.

Milagre de Santo Antonio, detalhe

Em torno da cena do milagre, Goya pintou, em vez da Lisboa medieval, a Madri do seu tempo, com majas e majos, jovens que trocam olhares namoradores, e uma série de tipos populares.

Milagre de Santo Antonio, detalhe



Mas o que arrebata o olhar é o cortejo de anjas nas paredes da capela.





São majas, belas madrilenhas, sensuais e faceiras, com asas angelicais.





São elas que cercam o túmulo do pintor, no monumento fúnebre mais festivo e vital que já se viu.







Chrysler Building


Round Midnight

Thelonious Monk
Miles Davis

It begins to tell,
'round midnight, midnight.
I do pretty well, till after sundown,
Suppertime I'm feelin' sad;
But it really gets bad,
'round midnight.

Memories always start 'round midnight
Haven't got the heart to stand those memories,
When my heart is still with you,
And ol' midnight knows it, too.
When a quarrel we had needs mending,
Does it mean that our love is ending.
Darlin' I need you, lately I find
You're out of my heart,
And I'm out of my mind.

Let our hearts take wings'
'round midnight, midnight
Let the angels sing,
for your returning.
Till our love is safe and sound.
And old midnight comes around.
Feelin' sad,
really gets bad
Round, Round, Round Midnight

by Thelonious Monk



Moon over New York


Billie Holiday, What a little moonlight can do





Ella Fitzgerald, Charlie Parker, How high the Moon





Charlie Parker, Miles Davis, A night in Tunisia





Chet Baker, Oh you crazy Moon


Bioluminescence, fractal criado por Wayne Boucon

Seres que brilham no escuro. Ninguém esquece a primeira vez que viu vagalumes. Ou, no mar, os plânctons que emitem uma luz esverdeada quando a água é agitada. No meu caso foi vendo brilhar a espuma na esteira da barca que nos trazia à noite de Paquetá para o Rio.
O livro Acquainted with the Night de Christopher Dewdney está cheio de momentos mágicos, mas o meu favorito é esta citação do filho de Lawrence Durrell, Gerald, onde ele conta sua infância na ilha grega de Corfu:

"Primeiro eram só dois ou três vagalumes flutuando entre as árvores, piscando. Mas aos poucos mais e mais apareceram, até que os olivais ficaram iluminados por um estranho brilho verde. Nunca tínhamso visto tantos vagalumes juntos num lugar só; eles voavam pelas árvores em enxames e cobriam os galhos das oliveiras. Aí, correntes brilhantes de vagalumes voaram sobre a baía, rodopiando sobre a água, e foi então que os botos entraram na baía nadando em fila, balançando de um lado para o outro, os dorsos brilhando como se fossem pintados por tinta fosforecente. No centro da baía eles nadaram em círculo, mergulhando e saltando no ar numa explosão de luz. Com os vagalumes voando em cima e os botos iluminados em baixo, era uma visão fantástica. Podíamos ver as trilhas luminosas dos botos fazendo desenhos brilhantes no fundo do mar, e quando eles saltavam e as gotas de água cor de esmeralda se espalhavam no ar, essa luz se confundia com a fosforescência dos vagalumes. Assistimos a esse espetáculo durante uma hora. Aos poucos os vagalumes voaram de volta aos olivais e os botos partiram para o alto mar, e a baía voltou à escuridão da noite".
Gerald Durrel, Minha Família e Outros Animais


Bioglyph, arte com bactérias bioluminescentes

Friday, August 05, 2005

Supernova

"Nós somos poeira de estrelas, como Joni Mitchell cantou em Woodstock, que ela escreveu depois de ler sobre uma recente descoberta científica. Ela aprendeu que quase todos os átomos que compõem nossos corpos são formas novas de matéria criadas nas forjas violentas, alquímicas, da explosão de antigas estrelas chamadas supernovas. Elas morreram para que nós fossemos feitos."
Christopher Dewdney, Acquainted with the night

Joni Mitchell, Woodstock

Supernova
Adam Elsheimer, Fuga para o Egito, Pinacoteca de Munique

"A Fuga para o Egito (1609) de Adam Elsheimer é talvez o primeira pintura da noite completamente realista na qual a maior parte da tela é dedicada ao céu... As estrelas têm uma bela precisão, e pode-se até reconhecer constelações e a Via Láctea. A pintura traz um encantamento tranquilo e maravilhado que reforça a calma espiritualidade do tema."

Christopher Dewdney, Acquainted with the Night


Fuga para o Egito, detalhe


Hoje é aniversário de 50 anos da morte de Carmen Miranda.
O Film Forum aqui em New York está programando a obra-prima de Busby Berkeley The Gang's All Here com Carmen cantando The Lady in the Tutti Frutti Hat num cenário onde ela parece estar coroada por uma infinidade de bananas.
Carmen chegou aqui em 1939 e foi um sucesso imediato na Broadway, the Brazilian bombshell.
Ela conquistou Hollywood no ano seguinte e morreu 15 anos depois na casa dela em Beverly Hills, mas foi em New York que ela deu o salto para a fama internacional que dura até hoje.

Chica chica boom chic, I like you very much, Mamãe eu quero, Tico tico no fubá, South American way
De Caymmi com o Bando da Lua: O que é que a baiana tem? , A preta do acarajé, Roda pião
De Noel: Tenho um novo amor, Assim sim, O que é que você fazia?, Retiro da saudade (com Francisco Alves)
Caetano Veloso, Disseram que eu voltei americanizada

The Gang's all Here, The Lady in the Tutti-Frutti Hat

Thursday, August 04, 2005



Visita virtual da catedral de Chartres

Mozart, Requiem: Confutatis ; Lacrimosa ; Agnus Dei/Lux Aeterna
Filarmônica de Viena, Karl Böhm

Bioglyph

A bioluminescência, reação bioquímica que faz alguns organismos brilharem no escuro, como os vagalumes e as águas-vivas, atinge uma eficiência de 98% na conversão de energia em luz. Desde que o fenômeno começou a ser estudado, cientistas e engenheiros tentam reproduzi-lo, sem sucesso. Essa "luz fria" é o santo graal da engenharia elétrica.

Christopher Dewdney, Acquainted with the Night


Bioglyph

Estudantes da Universidade de Montana, EUA, usam a bioluminescência de certas bactérias para criar arte. As bactérias são dispostas em tubos de ensaio formando desenhos no escuro. A exposição dessas obras, chamadas Bioglyphs, aconteceu aqui em New York em 2002. Como escreveu o canadense Christopher Dewdney no livro dele sobre a noite (segundo Margaret Atwood, ele muda a maneira de a gente ver a noite), esses seres que brilham no escuro têm algo de sobrenatural.


Bioglyph
Mariposa Atlas

"As mariposas gigantes só vivem algumas semanas e, como as supermodels, comem muito pouco. Na verdade, a maioria sequer tem boca. Vivem só para copular e procriar e não atraem umas às outras pela visão, mas pelo cheiro. Os desenhos opulentos e cores sutis das asas não parecem ter outra função, senão a de nos deslumbrar. As asas são pura invenção, ou talvez a arte de uma civilização extraterrestre - como se perfumes e rios e fumaça magicamente tivessem se transferido para elas. A noite é cheia de maravilhas escondidas, mas as mariposas gigantes que flutuam em torno das luzes nas noites de verão são a mais arrebatadora encarnação da noite. São como talismãs emblemáticos, ainda mais misteriosos por não saberem que retratam a essência da escuridão. Como pode a noite esconder sua beleza mais profunda, mais secreta, no negror? Qual é o propósito de ser fabulosamente bela se não é para atrair outras mariposas? Por que essas mariposas não podem se ver como nós as vemos? Estes são alguns dos enigmas mais profundos da noite, e as respostas são tão fugazes quanto a própria escuridão".

Christopher Dewdney, Acquainted with the Night

Mariposa Luna

Wednesday, August 03, 2005



Joan Baez é outra que envelheceu bem. Fui vê-la num show aqui em New York e fiquei encantado. Sou fã dela desde garoto. O teatro estava lotado de gente da minha idade. Ela contou uma piada ótima:

Três microcirurgiões se encontram. O primeiro diz que recebeu um paciente, um pianista, que tinha tido as mãos esmagadas. Fez uma cirurgia tão perfeita, que o cara estava de novo dando concertos.
O segundo conta que o paciente dele era um maratonista que foi atropelado e teve as pernas cortadas. Mas ele fez um reimplante tão bem feito que o cara voltou a correr e ganhou a Olimpíada.
O terceiro diz que isso não é nada. O paciente dele estava cavalgando quando foi atropelado por um trem. Só sobraram o chapéu de cowboy e o cu do cavalo. E hoje ele é o presidente dos Estados Unidos!

Com vocês, Joan Baez:

Sad Eyed Lady of the Lowlands
Blowing in the Wind
Joe Hill
Long Black Veil
There but for Fortune

Bob Dylan e Joan Baez


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Tristesses de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu'une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d'une main distraite et légère caresse
Avant de s'endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l'azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d'opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.


Tristezas da lua

Esta noite a lua sonha com mais preguiça;
Como a bela deitada em travesseiros cheios,
Antes de dormir, mão distraída e roliça,
Acaricia o leve contorno dos seios.

No dorso de cetim de avalanches suaves,
Morrendo ela se entrega a um lento gozar
E pelas visões brancas de flores e aves
Que sobem para o azul, ela passeia o olhar.

Às vezes, neste mundo, do langor da cama,
Uma furtiva lágrima ela derrama.
Avesso ao sono, um poeta da paixão

Na palma da mão colhe a lágrima clara,
Centelha de arco-íris numa opala rara,
E a põe longe do olhar do sol, no coração.

Pink Floyd, Dark Side of the Moon





O anjo de Bethesda, o anjo das águas, no Central Park.
No final da peça Angels in America de Tony Kushner, quatro personagens se encontram ao pé da fonte e um deles conta a história do anjo que tocou a água de uma fonte em Jerusalém, e a água se tornou milagrosa, curando os doentes. Quando o Milênio chegar, ele diz, todos os que sofrem, no corpo ou no espírito, atravessarão a fonte de Bethesda e serão curados, lavados da dor.




Sarah McLachlan, Angel

Jacques Dutronc como Van Gogh

Jacques Dutronc, o roqueiro francês casado com Françoise Hardy, fez o papel de Van Gogh no filme de Maurice Pialat sobre o pintor.
Ouça algumas faixas de Dutronc:

Il est cinq heures, Paris s'éveille
J'aime les filles
700 millions de chinois
Puisque vous partez en voyage (com Françoise Hardy)

Tuesday, August 02, 2005

Van Gogh, Noite estrelada sobre o rio Ródano

"Tenho uma necessidade terrível de ... religião. Então saio à noite e pinto as estrelas".

"Não sei nada com certeza, a não ser que ver as estrelas me faz sonhar".

Vincent van Gogh

Van Gogh, Noite estrelada

Chopin, três noturnos, Janusz Olejniczak, piano

Noturno em Dó sustenido menor
Noturno em Dó menor
Noturno em Mi menor

Don McLean, Vincent (Starry, Starry Night)