Monday, October 31, 2005

SEM MÚSICA



Infelizmente fui obrigado a tirar do blog toda a música que estava arquivada. Descobri que o cachefly é infinitamente mais caro do que eu estava calculando, inviável. Mantive só as músicas destes últimos posts, portanto aproveitem porque elas também vão dançar, não vou mais arquivar música.

Sunday, October 30, 2005

Maureen Dowd

Genial o artigo da Maureen Dowd na revista do New York Times deste domingo. A coluna dela é sempre a melhor coisa pra ler no jornal. Mas este artigo é imperdível porque em vez de falar de política, o assunto das colunas, ela escreve sobre relações mulher-homem. Por que as mulheres bem sucedidas assustam os homens?
Leia o artigo aqui.
Grupo Corpo, em Lecuona

O Grupo Corpo está fazendo o maior sucesso aqui, como sempre. A primeira parte do espetáculo é Lecuona, com casais dançando ao som de composições do mestre cubano.

Ernesto Lecuona

Ernesto Lecuona (1895-1963) é o maior compositor de Cuba, como George Gershwin é dos Estados Unidos e Villa-Lobos teria sido do Brasil se, como eles, tivesse composto música popular.
Lecuona veio para New York com 21 anos e aqui fez carreira. Compôs trilhas sonoras para filmes de Hollywood, mais de 400 canções em espanhol em inglês, centenas de peças para piano e orquestra. Nos anos 20, fez sucesso à frente do grupo Lecuona Cuban Boys.
Lecuona morreu em Tenerife, ilha espanhola vulcânica no Atlântico, e foi enterrado aqui perto, em Hawthorne.




Lecuona Cuban Boys, Amapola , Ojos negros
Placido Domingo, Andalucia, Noche Azul,
Sempre en mi corazón, Ernesto Lecuona, piano
Adiós a Cuba, Ernesto Lecuona, piano


Grupo Corpo, em Lecuona

Saturday, October 29, 2005

Arielle Dombasle

Já que estamos falando de chanson française, Rosário me pergunta se eu conheço Arielle Dombasle. Who? Graças a São Google e Santa Limewire, em 10 minutos já sei tudo sobre a moça e tenho fotos e música para botar aqui no blog. Milagres da modernidade. Toda ignorância tem jeito, pra quem sabe que é ignorante e tem sede e fome de aprender mais.
Não é que Arielle Dombasle não só existe como é linda, talentosa e inteligente?! E famosérrima na França...

Arielle Dombasle

Tem 47 anos com corpinho de 20, começou a filmar em 1978 com Eric Rohmer, fez um monte de filmes com esse mestre do cinema francês, e acaba de filmar a trilogia Le Genre Humain de Claude Lelouch.

Arielle em Le Genre Humasin de Claude Lelouch

Faz musicais na Opéra Comique em Paris. É ícone dos gays franceses. Cantora lírica, soprano dramático, gravou um disco de árias de ópera em ritmo techno.



O último CD, Amor, amor, é de canções populares em espanhol, incluindo um duo com Julio Iglesias. O pai dela era diplomata. Arielle nasceu nos Estados Unidos, perto de New York, e cresceu no México onde o pai era Embaixador da França.

Arielle no festival de Cannes

E se você ainda não está querendo que ela morra de febre aftosa, lá vai: é casada com o filósofo Bernard-Henri Lévy. Como diz minha amiga: nojenta!

Arielle com o maridão

E tem mais: Arielle também é roteirista e diretora de cinema, já dirigiu dois filmes. Pode?

Com Arielle Dombasle:

Cuando calienta el sol
Amor, amor
Besame mucho
Sentilo battere
Sebben crudele
Libertá
Barbara

Depois de fazer o boeuf bourguignon resolvi curtir música francesa. Achei um pouco de tudo, da grande cantora Barbara aos clássicos Piaf, Aznavour e Brel.
Os chansonniers Brassens, Montand, Moustaki.
Henri Salvador, tão fofo, ainda mais cantado por Caetano.
Françoise Hardy e o marido Jacques Dutronc, românticos.
O escritor absurdista Boris Vian, trompetista e cantor. O duo dele com Magali Noel é hilariante. Henri Salvador e o roqueiro Jacques Higelin gravaram canções de Vian.
Uma pérola: o duo de Dalida e Alain Delon, novinhos. Bons tempos.



Para ouvir:

Henri Salvador, Va te faire cuire un oeuf man (Boris Vian)
Boris Vian e Magali Noel, Fais-moi mal Johnny
Boris Vian (trompete), Que reste-t-il de nos amours
Jacques Higelin, L'âme slave (Boris Vian)

Boris Vian





Jacques Higelin, Luxe, calme et volupté
Françoise Hardy, Tous les garçons et les filles de mon âge
Caetano Veloso, Dans mon île



Dalida e Alain Delon, Paroles, paroles, paroles
Georges Moustaki, Le temps de vivre
Jacques Dutronc, Il est cinq heures Paris s'éveille
Barbara, Perlimpinpin, Ma plus belle histoire d'amour


Barbara
boeuf bourguignon

Estou fazendo desde ontem um boeuf bourguignon - boi borguinhão - para o jantar deste sábado. É um prato francês caseiro e barato, não é coisa de restaurante chic. Coisa da vovó. Aprendi com a Julia Child, num dos livros dela.

Julia Child


Julia Child era muito pândega. Introduziu a cozinha francesa nos EUA nos anos 50, com um programa diário na TV. Fez o programa até morrer ano passado aos 91 anos. Era grande, altíssima e meio curvada - no final MUITO curvada, de dar aflição - sempre com o cabelo arrumado e falando depressa com uma voz aguda, jeito de aristocrata maluquinha.

aprendi a cozinhar com este livro

Uma vez vi Julia Child cozinhando na TV ao lado de Jacques Pépin, que começou como assistente dela e acabou também ficando célebre. Pépin ofereceu a Julia algo que ele fez, ela provou, riu e disse com nonchalance: "É, não está dos piores". Julia Child era sempre hilariante e cheia de energia, dava vontade de cozinhar com ela.

Julie Powell

Um dos maiores fenômenos na blogosfera se deve a Julia Child. Julie Powell, uma jovem secretária daqui de New York, desempregada, resolveu fazer todas as receitas do livro clássico de Julia Child, Mastering the Art of French Cooking. E fez, contando tudo dia-a-dia no blog dela, The Julie/Julia Project. Foi um tal sucesso que o blog virou livro, recém-lançado. Já é um best seller. Que idéia genial. Da primeira vez que tentou o boeuf bourguignon, Julie bebeu (erro tremendo, beber enquanto se cozinha), dormiu, e a carne queimou. Teve que começar de novo no dia seguinte.



Julia Child é terrível porque o lema dela parece ser: pra que simplificar o que você pode complicar? Durante os anos em que ela viveu na França, quando jovem, aprendeu que o segredo da cozinha francesa é trabalho, muito trabalho, o que a minha avó franco-espanhola, a melhor cozinheira que já conheci, chamava de "huile de coude", óleo de cotovelo. Minha avó não tinha empregada e passava o dia na cozinha preparando maravilhas.

caldo de carne

Traindo minha avó e Julia Child ao mesmo tempo, reduzi um pouco o trabalho deste boeuf bourguignon. O certo era ter começado fazendo o caldo de carne, o que leva horas. Primeiro leva-se ao forno brando uma travessa com ossos e um pouco de água. Quando ao fim de uma ou duas horas os restos de carne se soltam dos ossos e o tutano derrete, os ossos são raspados e jogados fora e o resultado, crocante e melado, é levado ao fogo com água, vinho branco, ervas, cebola, alho, por mais uma ou duas horas, até reduzir e ficar um caldo grosso, escuro e gelatinoso. É uma delícia.

é assim que se faz o caldo de carne: com osso

Para minha sorte, uma loja aqui perto vende esse caldo pronto, perfeito, comme il faut , como tem que ser. Então passei a pular esta primeira etapa, economizando algumas horas.
Comecei na tarde de sexta, fritando meio quilo de toucinho cortado em cubinhos, numa frigideira grande (32 cm) e funda, de fundo grosso e chato. Primeiro fogo bem alto, depois baixo, tampado, até a gordura derreter - mas sem deixar queimar. Separei os torresmos e usei a gordura para preparar a carne.



Usei dois quilos de carne de segunda. Aqui vendem como beef stew, carne para cozido, acho que no Brasil seria músculo, patinho ou chã-de-dentro. Custa um quarto do preço do filet mignon. Passei algumas colheres de mostarda tipo Dijon na carne cortada em cubos grandes (5 a 7cm), até os cubos ficarem bem lambuzados de amarelo.
Na gordura bem quente, fui fritando a carne aos poucos (foram quatro vezes, os cubos têm que ficar bem soltos na frigideira para fritar bem), até ficar levemente tostada. Isso "sela" a superfície da carne, preserva os sucos dentro dela.



Julia Child manda deixar a carne, depois de braisée (guisada, refogada), descansar numa panela ou tigela, enquanto se prepara os legumes, mas desta vez fiz diferente porque acho que a carne corre o risco de secar. Então fui botando os cubos marrons no caldo de carne fervendo (usei um litro de caldo e um de água).

vinho pra soltar o fundo da frigideira

Preparei então os legumes na gordura que sobrou na frigideira (se tiver muita, é preciso escorrer quase toda - o fundo estava grudando, joguei um pouco de vinho para soltar). Primeiro, duas cebolas bem grandes picadas fininho. Deixei no fogo alto, mexendo de vez em quando, até ficar transparente - demora. Depois dois punhados de cenoura picadinha e dois de aipo picadinho. Vão servir para tirar o ácido do tomate e do vinho. Poderia ter usado outro legume doce e gostoso, como o funcho.



Por fim, quando a cenoura e o aipo amoleceram, acrescentei à frigideira uma lata de tomate italiano San Marzano, que já vem picado, com o suco. No fogo baixo, tampei a frigideira e deixei refogar bastante.

cocotte

Virei esse molho em cima dos cubos de carne, já no panelão onde eles vão cozinhar - panela pesada de ferro esmaltado, que os franceses chamam de cocotte e os americanos de Dutch oven. Depois, uma garrafa inteira de vinho tinto, um shiraz do Francis Ford Coppola. Serve qualquer bom shiraz, australiano, chileno, é ótimo para cozinhar carne.



Em seguida, os torresmos e os temperos: sal, pimenta do reino, e bouquet garni - um molho de salsa, cebolinha e outras ervas. Usei tomilho e ervas da Provence.
Esse panelão foi para o fogo baixíssimo, destampado, por horas. Deixei umas cinco ou seis horas, mexendo de vez em quando pra não grudar o fundo. O caldo foi reduzindo aos poucos, engrossando, e a carne foi ficando macia.

bouquet garni

No fim tirei o bouquet garni e acrescentei a cebolinha e o champignon. Preparei a cebolinha, daquela branca bem pequena, naquela mesma frigideira, já limpa, com um pouco de água. Ficou no fogo baixo, tampada, um tempão, até quase desmanchar a cebolinha. Claro que antes dá um trabalho danado descascar cada uma - usei três dúzias - e cortar um x na cabeça de cada uma para não se desfazer.
O champignon, daquele branco grande, depois de bem lavado e escovado e enxaguado no suco de limão, é cortado bem fininho.



Acrescentei a cebolinha, já cozida, e o champignon cru, fora do fogo. O calor do molho cozinha o champignon. Mexi tudo muito bem, tampei a cocotte e quando os amigos chegarem é só esquentar e passar a carne para uma travessa bonita. A Julia Child manda passar o molho na peneira e engrossar com manteiga e farinha de trigo, mas acho desnecessário. Pra que complicar?

boeuf bourguignon

Para acompanhar, batatas gratinadas. Descasquei as batatas e cortei em rodelas bem finas. Cozinhei as batatas - dois quilos - em dois litros de leite. Acrescentei ao leite bastante noz moscada ralada, sal, bouquet garni. Baixei o fogo quando o leite ferveu e deixei cozinhar até a batata ficar cozida, mas não mole.
Escorrendo o leite, passei metade das rodelas de batata para uma travessa grande e funda que vai ao forno. Antes, esfreguei alho até sumir, por dentro da travessa, e untei com manteiga.



Cobri as batatas com 200g de creme de leite fresco e 250g de parmesão ralado.
Por cima, despejei o resto da batata escorrida. Por cima de tudo, mais creme de leite com parmesão.
Levei a travessa ao forno médio, tampada (ela tem uma tampa de vidro) por 40 minutos. Na hora de servir vou tirar a tampa para gratinar por cima.
Esta receita é do livro da Patrícia Wells com o chef francês Joel Robuchon. Ela tem a vida que eu pedi a Deus. Mora em Paris e na Provence. O livro dela sobre a cozinha da Provence é ótimo. Mas este com o Joel Robuchon é o melhor.



Aprendi a cozinhar em três livros: o da Julia Child, recomendado por Nelita Leclery, este da Patrícia Wells e o de cozinha italiana da Marcella Hazan, ambos recomendados por Michelle Scheinkman. Com as técnicas que aprendi nesses três livros, que não são só de receitas, e sim manuais detalhados que ensinam tudo, passei a adaptar a comida do Brasil. Os livros de culinária brasileiros que eu tenho não ensinam nada, supõem que a pessoa já saiba tudo. Então pra que livro? O jeito foi aprender a cozinhar para depois reinventar do meu jeito os pratos brasileiros.

Thursday, October 27, 2005




Anna Maria leu no Sintonia Fina do Nelson Mota e me deu o toque: Victoria Abril, atriz de três filmes de Almodóvar (Átame, Tacones Lejanos e Kika) que vive em Paris e trabalha no cinema francês, resolveu virar cantora e gravou um disco de música brasileira, Putcheros do Brasil.
Que diabos quer dizer putcheros? Achei um monte de matérias publicadas nos jornais brasileiros sobre esse disco e fiquei sabendo que a atriz vai ao Brasil em dezembro para uma tournée de lançamento do CD, mas nenhum dos coleguinhas se deu ao trabalho de descobrir o que quer dizer putcheros. Que falta de curiosidade...

Victoria Abril, 46 anos com corpinho de 30

Deu um certo trabalho mas acabei aprendendo que putchero não existe, é palavra inventada para o título deste CD. Soa como puchero, que quer dizer "beicinho". Hacer puchero é "fazer beicinho" como criança manhosa que ameaça chorar - daí a lágrima na capa do disco.
Victoria explica em entrevistas que para cantar Bossa Nova basta fazer beicinho e ter um fio de voz. Ela pode ter um beicinho adorável, mas pela amostra que achei, beicinho só não basta. É engraçadinha, mas daí a dizer que canta Bossa Nova... Só que o marketing dela é tão competente que o disco já está nas paradas de sucesso da Europa e é um dos mais vendidos na França.
Não é à toa que destacaram EROS em vermelho no título Putcheros. Afinal, aos 46 anos Victoria continua sendo uma das atrizes com mais sex appeal no cinema europeu. Segundo Victoria, ela acrescentou o t para criar a palavra putchero de modo a juntar "putch, que é a idéia de um golpe rítmico, e eros, que é o amor". É duro.
Um crítico espanhol que ouviu o disco, o que os colegas brasileiros que enaltecem o CD de Victoria parecem não ter achado necessário, definiu bem: producción basura, produção lixo.



So nice (versão em inglês de Samba de Verão de Marcos e Paulo Sérgio Valle, com trechos num português incompreensível) e, pasmem, Águas de Março (em ritmo de flamenco, duo com a cantora guineense Concha Buika). É dose.

O mais triste é que a maravilhosa Rosinha Passos gravou duas faixas do CD em duo com Victoria. Para quem não conhece Rosa Passos, esta sim a maior cantora de Bossa Nova do momento, aí vai uma pequena seleção para lavar os ouvidos depois de ouvir o beicinho de Victoria.

Rosa Passos:

Chega de saudade
Curare

Ilusão à toa

Wednesday, October 26, 2005

Gumbo para Crica Zahar

Mais uma idéia do Ernesto: contar aqui no blog minhas experiências na cozinha.
Em homenagem a Cristina Zahar, de passagem por aqui, reuni os amigos para um gumbo - e assim também lembramos a querida e tão maltratada New Orleans.
Quem tiver paciência para ler sobre a preparação do gumbo, clique aqui.

E para ouvir, do maior de tantos grandes músicos que nasceram em New Orleans, Louis Armstrong, com Ella Fitzgerald, gravações geniais de I Got Plenty o' Nuttin, It Ain't Necessarily So, Oh Bess, Where's my Bess? e Summertime, de George e Ira Gershwin.

Louis Armstrong

Tuesday, October 25, 2005



Devo a Ernesto Soto ter-me chamado a atenção para o pintor americano Winslow Homer (1836-1910). Há duas grandes exposições da obra dele, uma em Washington, na National Gallery, outra num pequeno museu maravilhoso, o Clark Art Institute em Williamstown, nas montanhas dos Berkshires, oeste de Massachussets, a três horas de New York, um belíssimo passeio. As duas exposições vão até janeiro.



A revista New Yorker desta semana traz um artigo sobre Homer (eu achava que o H era mudo mas errei, é aspirado mesmo). E há um website com 460 trabalhos do artista.
Mais Winslow Homer aqui.

Saturday, October 22, 2005

Joan Didion e John Gregory Dunne

Do livro O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion (pronuncia-se DAI-dion), sobre a morte do marido, o escritor John Gregory Dunne, em dezembro de 2003. A tradução de grief como a dor da perda me foi sugerida por Sérgio Flaksman. É o que mais se aproxima do sentido em inglês.

"A dor da perda, quando vem, não é nada do que esperávamos que fosse. Não foi o que eu senti quando meus pais morreram. (...) A dor da perda é diferente. A dor da perda não tem distância. A dor da perda vem em ondas, paroxismos, apreensões súbitas que enfraquecem os joelhos e cegam os olhos e obliteram o cotidiano da vida. (...) A dor da perda é um lugar que nenhum de nós conhece até chegarmos lá. (...) Nem podemos saber antecipadamente (e aqui está o cerne da diferença entre a dor da perda como o imaginamos e a dor da perda como realmente é) a infindável ausência que se segue, o vazio, o oposto do sentido, a implacável sucessão de momentos durante os quais confrontamos a experiência da própria falta de sentido".


Joan Didion, 2005

Friday, October 21, 2005

Egon Schiele, autorretrato

Abriu hoje na Neue Gallerie de New York uma retrospectiva do austríaco Egon Schiele. Imperdível.
Schiele morreu de gripe espanhola em 1918 aos 28 anos. Vivendo na Viena de Freud, Schiele foi um transgressor desde a adolescência, com uma história de incesto com a irmã mais nova.
Aprendeu desenho e pintura com Gustav Klimt.
Desenhava meninas em poses eróticas e vendia os desenhos para colecionadores de pornografia. Foi preso por isso, em 1912. O juiz queimou um dos desenhos de Schiele no tribunal e o condenou a três semanas de prisão.
A figura dele era exatamente como se vê nos autorretratos, alto, magérrimo, ossudo, extremidades enormes e um rosto permanentemente crispado.
Em 1918, Schiele começou a ser reconhecido e festejado como o maior artista austríaco da nova geração. Durou pouco. A mulher dele, grávida, morreu de gripe. Schiele morreu três dias depois.

Mais Egon Schiele aqui.

Egon Schiele, autorretrato

Thursday, October 20, 2005

James Joyce

Trecho de um texto de Umberto Eco sobre James Joyce (em inglês: A Portrait of the Artist as Bachelor) publicado na coletânea On Literature. O Livro de Kells é um manuscrito irlandês iluminado do século IX.

Livro de Kells

"O Livro de Kells é uma rede florida de formas animais entrelaçadas e estilizadas, de pequenas figuras de monos entre um labirinto de folhagem cobrindo página após página, como se estivesse sempre repetindo os mesmos motivos visuais numa tapeçaria onde - na realidade - cada linha, cada corimbo, representa uma invenção diferente. Tem uma complexidade de formas espirais que vagueiam deliberadamente desatentas a qualquer regra de simetria disciplinada, uma sinfonia de cores delicadas de rosa a amarelo alaranjado, de amarelo limão a vermelho arroxeado. Vemos quadrúpedes, pássaros, galgos brincando com um bico de ganso, figuras humanóides inimagináveis retorcidas como um atleta a cavalo que se contorce com a cabeça entre os joelhos até formar uma letra inicial, figuras tão maleáveis e flexíveis quanto elásticos inseridas entre um emaranhado de linhas entrelaçadas, enfiando as cabeças entre decorações abstratas, se enrolando em torno de letras e se insinuando entre linhas. Enquanto olhamos, a página nunca fica parada, mas parece criar sua própria vida: não há pontos de referência, tudo está misturado com tudo. O Livro de Kells é o produto de uma alucinação sóbria que não precisa de mescalina ou LSD para criar seus abismos, porque representa não o delírio de uma só mente mas o delírio de uma cultura inteira em diálogo consigo mesma, citando outros Evangelhos, outras letras iluminadas, outras histórias.

Livro de Kells

É a vertigem lúcida de uma língua que está tentando redifinir o mundo enquanto se redefine em pleno conhecimento de que, numa era em que isso ainda é incerto, a chave para a revelação do mundo pode ser encontrada não na linha reta mas só no labirinto.
Não é portanto por acidente que tudo isso inspirou Finnegans Wake quando Joyce tentou criar um livro que representasse uma imagem do universo e uma obra escrita para um "leitor ideal sofrendo de uma ideal insônia".


Livro de Kells

O que, então, o Livro de Kells representa? O antigo manuscrito nos fala de um mundo feito de caminhos que se bifurcam em direções opostas, de aventuras da mente e da imaginação que não podem ser descritas. É uma estutura em que cada ponto pode ser conectado a qualquer outro ponto, onde não há pontos ou posições mas apenas linhas que conectam, cada uma das quais pode ser interrompida a qualquer momento porque recomeçará instantaneamente e seguirá a mesma direção. Esta estrutura não tem centro nem periferia. O Livro de Kells é um labirinto. Por isso conseguiu tornar-se na mente excitada de Joyce o modelo daquele livro infinito ainda a ser escrito, para ser lido apenas por um leitor ideal com uma ideal insônia.


Livro de Kells

Ao mesmo tempo o Livro de Kells (com seu descendente, Finnegans Wake) representa o modelo da linguagem humana e, talvez, o modelo do mundo em que vivemos. Talvez estejamos vivendo dentro de um Livro de Kells, enquanto pensamos estar vivendo dentro da Enciclopédia de Diderot. Tanto o Livro de Kells quanto Finnegans Wake são a melhor imagem do universo que a ciência contemporânea nos apresenta. São o modelo de um universo em expansão, talvez finito mas ilimitado, ponto de partida para perguntas infinitas. São livros que nos permitem sentirmo-nos como homens e mulheres do nosso tempo, embora estejamos navegando no mesmo mar perigoso que levou São Brendan a buscar a Ilha Perdida da qual fala cada página do Livro de Kells, ao nos convidar e inspirar a continuarmos nossa busca para finalmente expressar perfeitamente o mundo imperfeito em que vivemos.

James Joyce

Jim, o bacharel, não era de fato incompleto, porque ele vira, embora vagamente, qual era o seu dever e o que ele tinha que entender - que a ambiguidade das nossas línguas, a imperfeição natural dos nossos idiomas, representa não a doença pós-Babélica da qual a humanidade tem que se recuperar, e sim a única oportunidade que Deus deu a Adão, o animal falante. Entender que as línguas humanas são imperfeitas mas ao mesmo tempo capazes de trazer essa forma suprema de imperfeição que chamamos poesia representa a única conclusão de toda busca da perfeição. Babel não foi um acidente, temos vivido na Torre de Babel desde o início. O primeiro diálogo entre Deus e Adão pode bem ter ocorrido em finneganian e é só voltando a Babel, e pegando a única oportunidade que temos, que podemos encontrar a paz e enfrentar o destino da raça humana".


Wednesday, October 19, 2005

Furacão Wilma

Wilma é o furacão mais intenso já registrado no Atlântico, categoria cinco, a mais forte. Não se sabe ainda onde o olho do furacão vai bater em terra firme, mas todo o Caribe, de Cuba e a Flórida à costa do México e da América Central, está em alerta, com previsão de chuvas torrenciais.
Ao mesmo tempo, anuncia-se que este setembro foi o mais quente jamais registrado no planeta desde que as temperaturas começaram a ser medidas. Nos Estados Unidos, apesar dos furacões, o setembro mais quente e seco jamais registrado.

Furacão Wilma

Parece óbvio que o efeito estufa causado pela queima de combustíveis fósseis - petróleo, gás, carvão - já está causando um desastroso aquecimento da atmosfera. A maior intensidade dos furacões é uma das consequências previstas pelos climatologistas. Intensificação de secas, enchentes e outros fenômenos extremos, também.
Mesmo que a humanidade tome consciência e comece a tomar providências, os gases que provocam o efeito estufa, já lançados na atmosfera, vão provocar mais aquecimento pelas próximas décadas. O que se fizer agora - cortar o consumo de gasolina, carvão, petróleo, acabar com as queimadas nas florestas, etc - só terá efeito daqui a 50 anos.
Ano passado gravei um Milênio para a Globo News com Lester Brown, o mais conhecido ambientalista dos Estados Unidos. Ele acredita que o efeito da mudança climática na economia vai levar o mundo industrializado, e os países em desenvolvimento acelerado, como a China, a mudar de modelo energético, porque o atual é insustentável.
Segundo ele o primeiro efeito será, ou já está sendo, a falta de água para a agricultura, o que encarecerá rapidamente o preço dos alimentos. Os lençóis dágua nos Estados Unidos e na China, dois dos maiores produtores de alimentos do mundo, já estão secando. No Brasil, abençoado pelas maiores bacias fluviais do planeta, estamos tendo a pior seca na Amazônia nos últimos 40 anos.
Lester Brown é um optimista, como se escreve em Portugal, mas onde está a liderança política com visão de longo prazo para convencer os países desenvolvidos, e os emergentes, a fazer sacrifícios e mudar radicalmente seu estilo de vida, ou desistir de copiar o modelo ocidental?

Tempestade de poeira na China

Nem aqui nos Estados Unidos, onde o governo está a serviço do setor energético, nem no Brasil, onde tanto se esperava do PT, e onde nada mudou, muito menos na China, que em breve vai tomar o lugar dos Estados Unidos como maior emissor dos gases que causam o efeito estufa, nada indica que essa vontade política venha a surgir.
Será que vamos continuar assistindo impotentes a estes desastres naturais cada vez mais letais, como se fossem obra do destino ou de Deus, sem tomar consciência de que são o preço do nosso conforto, dos nossos carros, aparelhos de ar condicionado, consumo desenfreado, crescimento populacional e econômico sem limites?

Lester Brown

Monday, October 17, 2005

Elizeth, a Divina

Do livro Saturday de Ian McEwan, um dos melhores que li este ano:

"Há esses raros momentos quando músicos tocam algo mais gostoso (sweeter) do que tudo que acharam antes em ensaios ou shows, para lá da mera colaboração ou da competência técnica, quando a expressão deles se torna fácil e graciosa como a amizade ou o amor. É quando eles nos dão um vislumbre do que poderíamos ser, do melhor de nós mesmos, e de um mundo impossível no qual você dá tudo que tem aos outros, mas não perde nada de si mesmo. Lá fora no mundo real há planos detalhados, projetos visionários para poderes pacíficos, todos os conflitos resolvidos, felicidade para todos, para sempre - miragens pelas quais as pessoas estão prontas a morrer e matar. O reino de Cristo na terra, o paraíso dos trabalhadores, o estado islâmico ideal. Mas só na música, e só em raras ocasiões, a cortina realmente se ergue para este sonho de comunidade, que é tentadoramente invocado antes de se esvair com a últimas notas".

Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e Época de Ouro, ao vivo no Teatro João Caetano, Barracão de Luiz Antonio e Oldemar Magalhães

Chão de estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa

Sunday, October 16, 2005



Ótimo, o novo filme de Wim Wenders, Land of Plenty (Terra da Abundância). Pra mim é a primeira grande obra de arte que reflete sobre o que aconteceu com os Estados Unidos depois de 11 de Setembro e a invasão do Iraque.
Wenders estava na estréia aqui. Perguntei a ele como sente o que aconteceu em 9/11. Contou que deixou Nova York na véspera, passou os meses seguintes viajando pelo mundo e ficou impressionado com a solidariedade mundial com o povo americano depois do que aconteceu. E, agora, com o ódio que o mundo sente em relação aos Estados Unidos, depois da invasão do Iraque.
"Eu não posso aceitar que tanta gente tenha morrido em vão. Mas eu quero continuar acreditando que alguma coisa de bom pode sair disso". Nesse ponto ele se calou, ficou com os olhos cheios dágua e a voz embargada. Wim Wenders é um homem sensível, com as emoções à flor da pele, e deve ser por isso que os filmes dele são tão bons.

Wim Wenders

Wenders contou que este filme foi feito a toque de caixa, em 16 dias, a custo baixíssimo, 500 mil dólares. Foi gravado em DV (video digital) e a equipe era toda de jovens - ninguém, exceto Wenders e os atores, tinha feito um longa antes. O roteirista também é extremamente jovem, Michael Meredith. Ele estava com Wenders na estréia e contou que o personagem do veterano do Vietnam que quer se vingar de 11 de Setembro foi inspirado pelo próprio tio de Michael, que viveu isso.

Michelle WilliamsJohn Diehl

O diretor disse que quanto menos se gasta num filme, maior é a liberdade. E por isso neste filme ele se sentiu infinitamente livre. O grande público americano ainda não viu, mas assim mesmo já se encontra na Internet a reação negativa de americanos que viram o filme na Europa, furiosos com o que chamam de "estereótipos esquerdistas".
O fato é que neste filme se vê o que os americanos nunca vêem: a miséria nas ruas da capital do cinema, Los Angeles, que é também a capital da fome na América. Eu mesmo nunca tinha visto, e é impressionante. Se o tão esperado Big One, um superterremoto, devastar Los Angeles como o furacão Katrina destruiu Nova Orleãs, revelando a miséria da população da cidade, o mundo verá o que Wim Wenders mostra neste filme: milhares de pessoas morrendo de fome nas calçadas do centro de Los Angeles.
Land of Plenty é quase um documentário.
São dois personagens: Lana, interpretada por Michelle Williams, americana filha de missionário que cresceu no Terceiro Mundo e volta pra os EUA, e o tio dela, Paul, veterano da guerra do Vietnam, paranóico, que investiga sozinho as sleeper cells, células terroristas escondidas que segundo o governo Bush estão espalhadas pelo país, prontas para dar o bote. Interpretado pelo ator John Diehl, Paul começa como uma caricatura hilariante, e termina como personagem trágico mas redimido da insanidade, pelo amor da sobrinha Lana.



Na cena final, os dois visitam o buraco do World Trade Center para tentar entender o sentido do que aconteceu, sem resposta.
Na estréia, Angela e eu nos sentamos ao lado de Wim Wenders e seus convidados, entre eles Paul Auster e Sam Shepard. Dessas coisas que, fora de festivais de cinema, só acontecem em New York. Os três, Wenders, Shepard e Auster, sem as mulheres, e mais o roteirista Michael Meredith, saíram pelas ruas iluminadas da cidade em direção ao Soho - boys' night out...
A música-tema do filme foi cedida a Wim Wenders pelo compositor Leonard Cohen.

The Land of Plenty, Leonard Cohen

Don't really have the courage
To stand where I must stand,
Don't really have the temperament
To lend a helping hand,
Don’t really know who sent me
To raise my voice and say:
May the lights in
The Land of Plenty
Shine on the truth some day.

I don’t know why I come here
Knowing as I do
What you really think of me,
What I really think of you.
For the millions in a prison
That wealth has set apart.
For the Christ who has not risen
From the caverns of the heart.

For the innermost decision
That we cannot but obey,
For what’s left of our religion,
I lift my voice and pray:
May the lights in
The Land of Plenty
Shine on the truth some day.

I know I said I’d meet you,
I’d meet you at the store,
But I can’t buy it, baby,
I can’t buy it anymore.
And I don’t really know who sent me,
To raise my voice and say:
May the lights in
The Land of Plenty
Shine on the truth some day.

I don’t know why I come here,
knowing as I do,
what you really think of me,
what I really think of you.

For the innermost decision
That we cannot but obey
For what’s left of our religion
I lift my voice and pray:
May the lights in
The Land of Plenty
Shine on the truth some day.


Friday, October 14, 2005

ÊI! Você não sabe que isso aí é ilegal?!

PELO SIM... PELO NÃO...
COMPLEXO X COMPLICADO
SIMPLISMO X SIMPLES

Anna Maria Ribeiro

Estes são dois binômios fundamentais em qualquer planejamento. O intercâmbio de seus termos resulta num terceiro que expressa uma grande verdade: um problema complexo não pode ser encarado com simplismo sob pena de resultar numa grande complicação. É o que estamos observando neste nefasto referendo. Impossível discordar da quase totalidade dos argumentos dos sim e dos não. Todos têm razão e razão sólida. Os contra e os a favor. Quando isto acontece em resposta a uma pergunta é evidente que a pergunta está mal formulada. No mínimo porque aborda somente parte do problema, num simplismo pra lá de perigoso. Como discordar que a proibição de comprar armas legalmente fere os direitos do cidadão? Da mesma forma que estes direitos são feridos quando nem todos são iguais perante a lei; quando nem todos têm direito à educação; quando nem todos são respeitados. Como discordar que é muito perigoso ter uma arma em casa? Da mesma forma é impossível discordar que a quantidade de incidentes e acidentes provocados por tê-las é infinitamente menor que as mortes provocadas por mocinhos e bandidos que certamente não serão tocados pela proibição. Como discordar que é uma violência andar armado? Da mesma forma é impossível discordar que as pessoas estão com medo e que diante da inexistência de uma segurança pública, uma arma lhes dará a ilusória sensação de segurança que os ilusórios poderes públicos não garantem. Como ficamos nós diante de duas posições de uma mesma juíza, experimentada e preparada, que fornece em dois artigos argumentos antagônicos e irrefutáveis? Em resumo, como responder sim ou não? Proponho inverter as posições: nós cidadãos submeteríamos o Congresso e o Governo a alguns referendos, que os fizessem ter melhor comportamento: Vocês querem começar a trabalhar e a dar jeito neste País? SIM ou NÃO? Vocês querem estudar os problemas com a complexidade e a interrelações que existem entre eles? SIM ou NÃO? Vocês querem parar de jogar areia em nossos olhos, com referendos extemporâneos, voltando os de vocês para a origem dos problemas e não para suas conseqüências? SIM ou NÃO? Nunca anulei meu voto, mas não vejo como não fazê-lo agora. Em muitas eleições em que votei no “menos pior” gostaria que me tivesse sido dada a possibilidade de declarar meu voto explicitamente contra todos, assinalando uma opção que deveria existir: nenhum dos acima. O voto nulo é insuficiente e dúbio para expressar a discordância. A irritação e a paixão com que alguns se manifestam pelo Não e pelo Sim, têm a mesma origem, têm a mesma razão. Expressam convicções e sentimentos genuínos, verdadeiros, lícitos. Estamos todos revoltados, desesperançados, desanimados, tristes e que mais sei eu. Sempre achei que o Legislativo é muito mais importante que o Executivo. Se nele víssemos multiplicados os poucos deputados e senadores (independente de partido) que são orientados por valores éticos e com o conhecimento necessário para mudar as coisas, seria possível encontrar a cura para este nosso desânimo. Mas esta multiplicação só se dará se os colocarmos lá. É difícil, eu sei, neste País onde a informação é um luxo de poucos. Mas se com a mesma paixão com que se defende o SIM ou o NÃO, começarmos a divulgar o que sabemos, o que sentimos, quem sabe? Termino com uma frase do médico Miguel Pereira, atual depois de quase 100 anos, e que responde porque devemos nos revoltar, e como sugere o Fritz, providenciar para que “se vayan todos”:

“Por que? Porque a bondade que nunca se excetua não é bondade: - é passividade;

porque a paciência que nunca se esgota não é paciência: - é subserviência;

porque a serenidade que nunca se desmancha não é serenidade: - é indiferença;

porque a tolerância que nunca replica não é tolerância: - é imbecilidade”.

Prof. Miguel Pereira - No discurso da Colação de Grau aos novos Doutores em Medicina - 1916

Gelo cobrindo o Ártico em 1979

Derretimento em 2003. De lá pra cá piorou muito

Gelo derretido dá lucro
Na minha ingenuidade, eu achava que o aquecimento global da atmosfera seria um desastre para todos: inundação das áreas costeiras (uma Nova Orleãs elevada a n), secas e enchentes sem precedentes (exceto o dilúvio bíblico), destruição de espécies, um legado devastador para as futuras gerações.
Mas leio esta semana no New York Times que o derretimento do gelo que cobre o Ártico, já iniciado, é visto como o "lado positivo" do aquecimento global. A capa de gelo está recuando a cada verão. Em 2070 só cobrirá o Pólo Norte propriamente dito. Isso é sinônimo de lucro estupendo para companhias de petróleo e gás natural, navegação, pesca, e outras que vão poder botar as mãos nas riquezas naturais antes inacessíveis por causa do gelo.
O derretimento do gelo nos dois pólos vai elevar os mares e inundar cidades costeiras, mas esse efeito do aquecimento global pode demorar a acontecer. Muito antes disso, a abertura do Ártico à navegação e exploração de recursos naturais trará ganhos excepcionais, a curto prazo. Segundo o serviço de pesquisa geológica dos Estados Unidos, um quarto das reservas ainda não descobertas de petróleo e gás está no Ártico.

Em 2030 só a área próxima ao Polo Norte estará coberta de gelo

Se isso é novidade para mim, certamente não o é para os interessados. Fico pensando se não será esse um dos motivos para o governo Bush ignorar o aquecimento global e rasgar o acordo de Kyoto. Afinal a Casa Branca é hoje um fantoche do setor energético americano, que ditou a lei de energia recentemente aprovada pelo Congresso. E um dos projetos de Bush é abrir a área preservada do Alasca à exploração de petróleo. Somando dois mais dois, é óbvio que o derretimento do Ártico oferece às companhias de petróleo e gás novas áreas, ainda maiores. O Ártico é cinco vezes maior que o mar Mediterrâneo. Se aquecimento global = lucro, por que combatê-lo?
Teoria da conspiração? Pode ser. Afinal a oposição a Kyoto nos Estados Unidos também vem das empresas que exploram o carvão e financiam Bush & Cia. Estas já estão ganhando com o relaxamento das regras que limitavam a poluição do ar, um ganho imediato, enquanto a exploração do Ártico é para as próximas décadas. Mas não deixa de ser inquietante saber que o aquecimento global traz mais lucros para o setor energético.

gelo derretendo na Groenlândiaem laranja, gelo desaparecido na Groenlândia entre 1979 e 2002

Claro que não só os americanos têm a ganhar com o derretimento do Pólo Norte. A Rússia e a Noruega já estão extraindo gás natural em larga escala do mar de Barents. A Noruega é hoje o maior exportador de petróleo do mundo, depois da Arábia Saudita e da Rússia, e a abertura do Ártico só vai aumentar a riqueza dessa pequena e próspera monarquia.
O Canadá aliou-se à Rússia para abrir rotas de navegação graças ao recuo do gelo no verão, com vistas ao transporte marítimo entre os portos de Murmansk, na Rússia, e Churchill, no Canadá, uma viagem de apenas oito dias entre o norte da Eurásia e a América do Norte, já batizada de a Ponte do Ártico.
Mais adiante, quando o derretimento aumentar, será finalmente aberta a mítica Passagem do Noroeste, que tantos exploradores buscaram em vão, ligando o Ártico ao Pacífico pelo estreito de Bering, entre o Alasca e a Sibéria. Com isso, a viagem por mar de Londres a Tóquio, que hoje percorre 24 mil km passando pelo canal do Panamá, será reduzida a apenas 13 600 km, pelo estreito de Bering. Os quebra-gelo serão coisa do passado, mas em compensação o derretimento vai espalhar um número enorme de icebergs pelos mares do Norte. Titanic à vista...

Para a pesca, o derretimento está trazendo lucros, com o acesso dos pesqueiros a águas antes inacessíveis. Espécies marinhas e fluviais já têm seus habitats modificados, algumas sendo extintas e outras, como o salmão, proliferando, promessa de muito sushi. Já os Inuit (os esquimós), que são 150 mil dos 4 milhões de habitantes da região do círculo polar ártico, vêm seu modo de vida ameaçado pelo recuo do gelo e o desaparecimento de espécies que antes caçavam.

Não aguento esse calor...

Como não poderia deixar de ser, a abertura do Ártico mexe com a geopolítica. Os cinco países árticos, Rússia, Canadá, Estados Unidos, Noruega e Dinamarca, preparam-se para a divisão do mar em cinco fatias, de acordo com o tamanho de seu litoral, com a Rússia à frente e a Dinamarca na rabeira.
A divisão terá que ser regida pelo Tratado do Mar e arbitrada por uma comissão da ONU. Há vários critérios em jogo, e as negociaçõers prometem ser muito complicadas. O maior complicador é que a única superpotência, diretamente interessada, não ratificou o tratado nem pretende fazê-lo. Portanto, a rigor Washington não teria que se curvar à decisão da ONU. Isso vai dar rolo.
Os russos já se adiantaram, mandando um navio de pesquisa ao Pólo Norte em agosto, a primeira embarcação a atingir o polo sem precisar de quebra-gelo, sinal de que o derretimento está mesmo muito avançado.
Quem, como eu, achava que o Pólo Norte estava a salvo dos tentáculos globais, também acredita no mais famoso morador do pólo, Papai Noel.

Thursday, October 13, 2005

máscara mortuária de Beethoven

Meu avô materno, André Faure, gostava de muitos compositores: Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Brahms eram os favoritos. Só detestava um: Wagner. E não ouvia ópera. Mas a peça musical que mais o emocionava, às lágrimas, era a Grosse Fuge, a Grande Fuga de Beethoven.

Ele iria gostar de saber que uma bibliotecária acaba de achar perdida numa estante de um seminário da Filadélfia a partitura manuscrita da adptação da Grande Fuga para piano a quatro mãos, com anotações da mão do mestre. É o maior achado em musicologia das últimas décadas. Irá a leilão na Sotheby's e o lance inicial é de 1,5 milhão de dólares.

A Grande Fuga talvez seja a obra musical mais difícil jamais composta. Beethoven ficou furioso quando soube que na estréia o público não entendeu e detestou. Só não vaiaram porque eram fãs de Beethoven. Era o último movimento do quarteto para cordas em Si bemol maior, opus 130. Os músicos convenceram Beethoven a escrever outro movimento final, mais convencional, senão não poderiam mais tocar o quarteto. A Grande Fuga foi editada em separado como opus 133.

Na primeira vez que a ouvi, ainda garoto, fiquei assustado com a aspereza irritante da música. Imediatamente me lembrei do Bolinha tocando violino. Foi preciso crescer e amadurecer para apreciar o que tanto emocionava meu avô.


manuscrito da Grande Fuga de Beethoven


Beethoven adaptou a Grande Fuga para piano a quatro mãos pata torná-la mais palatável. Foi uma das últimas coisas que ele fez, já totalmente surdo. O manuscrito encontrado esta semana é de apenas oito meses antes da morte dele, em 1827. Beethoven morreu com a idade que completo este ano, 57.


Beethoven jovem

Grande Fuga em Si bemol maior, opus 133, Quarteto Budapest

Para apreciar a sonoridade da Grande Fuga recomenda-se o volume máximo. Tire as crianças da sala. E esqueça o Bolinha.

Beethoven aos 53 anos

Wednesday, October 12, 2005



Ed Murrow não tem equivalente no jornalismo brasileiro. Nos Estados Unidos, entre os jornalistas, ele é um mito: o correspondente da rádio CBS que trouxe a Segunda Guerra, e a destruição de Londres pelos ataques nazistas, para dentro de cada lar americano com o som das bombas caindo e uma narração circunspecta, clara e lúcida. Depois disso, foi o inventor do telejornalismo, à frente de programas de análise e entrevistas. Aquele que todo repórter de rádio e TV sonha ser quando crescer.

O grande público não tem idéia de quem foi Ed Murrow, que morreu em 1965 aos 57 anos. Daí a importância do filme recém-lançado Good Night, and Good Luck, dirigido por George Clooney, com David Strathairn no papel de Murrow, e Clooney no de Fred Friendly, mão-direita de Murrow desde os tempos do rádio.

Senador Joe McCarthy. Ao fundo seu assessor Roy Cohn

O filme focaliza o período 1953-54, no auge da caça às bruxas, a perseguição aos suspeitos de simpatizar com o comunismo, conduzida pelo senador Joe McCarthy. O McCarthyismo foi um dos pontos mais baixos da democracia americana e até hoje é sinônimo de perseguição ideológica. Ed Murrow botou no ar em seu programa See it Now, em abril de 54, uma devastadora crítica a McCarthy usando apenas falas do senador e cenas de seus interrogatórios à frente do Comitê sobre Atividades Antiamericanas no Senado.

McCarthy e Roy Cohn

A esquerda e os liberais, que passaram dois anos sendo esmagados por McCarthy, ganharam em Murrow um aliado de centro, não-ideológico, e com grande prestígio e penetração popular. Daí pra frente McCarthy foi ladeira abaixo, até ser afastado do comitê, no fim de 1954. Morreu três anos depois de cirrose. Era alcóolatra e gay enrustido, embora perseguisse também os homossexuais. O principal assessor dele, Roy Cohn, outro enrustido, morreu de AIDS nos anos 80. O papel dele no filme Angels in America foi feito por Al Pacino. O diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que fornecia informações à dupla, também era dessa turma de enrustidos anticomunistas.

Cena do filme

No filme, Murrow e seu time de craques são representados por atores, mas McCarthy é ele mesmo, em filmes da época. É preto e branco, tudo filmado num set que reproduz os estúdios da CBS. Canções de jazz interpretadas pela cantora negra Dianne Reeves servem para costurar e comentar a história. É um filme brilhante, aplaudido no final, o que é raro aqui.

George Clooney no festival de Veneza este ano; ganhou melhor roteiro

George Clooney, o ator, é o único hoje que lembra os grandes astros do passado, Clark Gable, Cary Grant, Gary Cooper: bonito, inteligente, suave, elegante. Surpreende que ao mesmo tempo ele seja um diretor tão ousado. O filme não tem nada de comercial, é uma falação constante, e no entanto prende e emociona do início ao fim pelo trabalho minucioso e profundo dos atores, entre os quais se destaca o sempre ótimo Robert Downey Jr.
David Strathairn como Murrow é de uma intensidade e concentração impressionantes, dizendo tudo no olhar. Candidato sério ao Oscar de melhor ator, prêmio que já conquistou no festival de Veneza com este filme.

David Strathairn, ganhou melhor ator este ano em Veneza

O filme começa e termina com um discurso que Murrow fez ao ser homenageado pela associação dos diretores de rádio e telejornalismo, em 1958, discurso que foi um alerta para os perigos que cercam a televisão e presságio do abismo em que a mídia eletrônica iria mergulhar. O texto completo em inglês está aqui. Traduzo alguns trechos:

Ed Murrow na Segunda Guerra

"Se ainda houver historiadores daqui a 50 ou 100 anos e tiverem sido preservados filmes de uma semana de nossas três redes, eles encontrarão ali gravadas em preto e branco, ou cor, as provas da decadência, escapismo e alheamento da realidade do mundo em que vivemos. "

"Estou inteiramente convencido de que o público americano é mais sensato, contido e mais maduro do que todos os programadores da televisão acreditam. Eles têm medo de controvérsia, mas isto não se baseia em fatos. Tenhos motivos para saber, como muitos de vocês, que quando os fatos de um assunto controvertido são apresentados de modo equilibrado e calmo, o público reconhece o esforço para iluminar, em vez de agitar".

Ed Murrow

"Qual é a resposta? Meramente continuarmos nos nossos ninhos confortáveis, concluindo que cumprimos com nossas obrigações quando o que fazemos é informar o público num tempo mínimo? Ou acreditarmos que a preservação da república é um trabalho de sete dias por semana, exigindo mais consciência, melhores habilidades e mais perseverança?"

"Me assusta o desequilíbrio, o constante empenho em atingir a maior audiência possível a qualquer preço; a ausência de um estudo contínuo do estado da nação. Heywood Brown disse que "nenhum corpo político é saudável até começar a coçar". Gostaria que a televisão produzisse alguma pílula de coceira em vez do interminável eflúvio de tranquilizantes. Pode ser feito. Talvez não seja, mas pode".

Ed Murrow

"Se continuarmos como estamos, protegeremos a mente do público americano de qualquer contato real com um mundo ameaçador que nos cerca. Estamos engajados num grande experimento para descobrir se uma opinião pública livre pode criar e dirigir métodos para administrar os negócios da nação. Podemos falhar. Mas não devemos nos sabotar sem necessidade".

"Somos ricos, gordos, confortáveis e complacentes. Temos uma alergia inata à informação desagradável ou perturbadora. Nossos meios de comunicação de massa refletem isso. Mas a não ser que levantemos nossos gordos excedentes e reconheçamos que a televisão tem sido usada para nos distrair, iludir, divertir e alhear, um dia a televisão e quem a financia, quem assiste e quem trabalha nela, poderão ver tarde demais um quadro totalmente diferente... Se continuarmos assim, a história vai se vingar, e o castigo não demorará a nos alcançar".

Ed Murrow

"Gostaria de ver a televisão refletir de vez em quando as realidades duras, resistentes, do mundo em que vivemos... Para aqueles que dizem que as pessoas não assistiriam, não se interessariam, que são muito complacentes, indiferentes e alienadas, só posso responder: há na opinião deste repórter muitas provas do contrário. Mesmo que estejam certos, o que têm a perder? Porque se estiverem certos, e este instrumento não servir para nada a não ser entreter, divertir e alienar, então o tubo já está falhando e em breve toda a luta estará perdida".

"Este instrumento pode ensinar, pode iluminar, sim, e pode até inspirar. Mas só na medida em que seres humanos estejam decididos a usá-lo para tal. De outro modo, são só fios e luzes numa caixa. Há uma grande batalha, talvez decisiva, a ser travada contra a ignorância, a intolerância e a indiferença. Esta arma, a televisão, pode ser útil. Stonewall Jackson, que sabia algo sobre o uso de armas, teria dito, "quando a guerra chega, é preciso empunhar a espada e jogar fora a bainha". O problema da televisão é que está enferrujando na bainha durante a batalha pela sobrevivência".

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Tuesday, October 11, 2005

Clara e Robert Schumann, medalhão comemorativo do casamento

Fora Bach e a segunda mulher dele, a cantora Ana Magdalena, é difícil achar na história da música um casal tão interessante quanto Clara e Robert Schumann.
Quando eles se conheceram, ela tinha 13 anos e já era virtuose do piano. Ele, com 23, era o aluno mais promissor do pai dela, o professor de piano Friedrich Wieck. Dois anos depois, Schumann se apaixonou por Clara, rompeu o noivado com outra moça e pediu-a em casamento. Wieck recusou. Só cinco anos depois os dois decidiram desafiar o pai de Clara, e se casaram.
Foi em 1840, o ano mais produtivo de Schumann, quando ele compôs 130 lieder, canções que revolucionaram o gênero no qual parecia que Schubert seria insuperável.

Mondnacht (Noite de Lua), Margaret Price, soprano

Widmung (Devoção), Margaret Price

Clara Schumann

Fantasia em Dó maior, Alfred Brendel, piano: I, II e III

Clara, no auge do sucesso, vivia em tournées pela Europa. Robert detestava acompanhá-la, fazendo o papel de marido da estrela. Apesar das viagens, Clara teve oito filhos, dos quais seis sobreviveram. Para se ter uma idéia da época, Jenny e Karl Marx, também alemães, vivendo no exílio, tiveram cinco filhos e só dois vingaram.


Robert Schumann


Quando Schumann finalmente começou a ser reconhecido como grande compositor, na década de 50, era tarde demais. Os sintomas de doença mental já tinham se declarado. Ele ouvia vozes e, constantemente, a nota Lá. Finalmente, em 1854, Schumann decidiu se matar e se jogou no rio Reno. Mas foi salvo. Viveu mais dois anos num hospício, visitado apenas pelo jovem discípulo Johannes Brahms, 23 anos mais novo. Schumann morreu aos 46 anos, em 1856.
Brahms dedicou o resto da vida a cuidar de Clara e seus filhos. Ela continuou a ser a mais famosa pianista da Europa e morreu em 1896. Brahms, logo depois, em 97.

Estudos sinfônicos, n. 12, Alfred Brendel, piano

Clara e Robert Schumann, foto de 1850

Er, der Herrlichste von allen (Ele, o mais glorioso de todos), da série Frauenliebe und Leben (O amor e a vida da mulher), Margaret Price

Esta canção de Schumann pode ser usada como a música para o poema Chuva fina (Metal Rosicler, 11) de Cecília Meireles. O poema se encaixa bem no primeiro tema da canção.

Chuva fina, matutina,
manselinho orvalho quase:
névoa tênue sobre a selva,
pela relva,
desdobrada, etérea gaze.

Chuva fina, matutina,
o pardal de úmidas penas,
a folhagem e a formosa
clara rosa
sonham que és seu sonho, apenas.

Chuva fina, matutina,
pelo sol evaporada,
como sonho pressentida
e esquecida
no clarão da madrugada.

Chuva fina, matutina:
brilham flores, brilham asas,
brilham as telhas das casas
em tuas águas velidas
e em teu silêncio brunidas...

Chuva fina, matutina,
que te foste a outras paragens.
Invisível peregrina,
clara operária divina,
entre límpidas viagens.


Cecília Meireles
Poster soviético

Outro dia escrevendo sobre a lamentável exposição Russia! no Guggenheim de New York comentei que nas artes visuais a única produção russa excepcional aconteceu nas primeiras décadas revolucionárias do século XX, antes dos massacres de Stalin.

Malevich, Suprematismo

Os russos são grandes mesmo é na literatura e na música, nos séculos XIX e XX.
Meu compositor russo favorito é Prokofiev.
A Sinfonia n. 5 composta em 1944, quando os aliados estavam vencendo a guerra contra o nazismo, é uma das obras mais arrebatadoras do século. O segundo movimento tem uma vitalidade, uma euforia tão grandiosa que dá vontade de sair voando.

Sinfonia n. 5 em Mi bemol maior de Serge Prokofiev, Allegro Marcato, Filarmônica de Berlim, Seiji Ozawa.
A escala "heróica", Mi bemol maior, é a mesma da Sinfonia Concertante de Mozart no post abaixo.

Prokofiev por Matisse
Johannes Brahms

Brahms está no extremo oposto ao exibicionismo de hoje em dia, quando todos nós, ou quase todos, nos arvoramos a "criar" e a publicar ou blogar tudo o que vem à cabeça. Brahms passou muitos anos rasgando o que compunha porque julgava não estar à altura do que esperava de si mesmo.

Sinfonia n. 4, Allegro non troppo, New York Philarmonic, Leonard Bernstein


Brahms aos 20 anos, ao conhecer Schumann

Concerto para Violino, Allegro non troppo, Issac Stern violino, Orquestra da Filadélfia, Eugene Ormandy

Quando Brahms era jovem, Schumann anunciou que Brahms seria o novo Beethoven. E foi mesmo, porque o que sobreviveu à sua feroz autocrítica é música transcendental, sublime - e difícil.
Houve época em que era moda falar mal de Brahms. Françoise Sagan, hoje esquecida, escreveu em 1960 Aimez-vous Brahms?, romance best-seller onde a heroína desancava o compositor, símbolo de tudo que era antiquado e tristonho.

Sinfonia n. 1 , Un poco sostenuto - Allegro, Sergiu Celibidache regendo a Orquestra Sinfônica de Milão

Brahms é o compositor da perda. A morte da mãe levou-o a compor o Requiem Alemão, música que olha a morte frente a frente e encontra esperança.

Sagrados são os mortos, do Requiem Alemão, Filarmônica de Viena, Bernard Haitink


Clara Schumann na nota de 100 marcos

A morte é uma noite fresca, Margaret Price, soprano

Não se casou, manteve-se fiel à sua única paixão (platônica), a viúva de Schumann, a pianista Clara Wieck, que divulgava em seus concertos a obra do amigo. Uma ligação que durou 40 anos. Brahms morreu pouco depois de Clara, em 1897, aos 63 anos.

Clara Schumann aos 40 anos; no cinema, Katherine Hepburn e Nastassja Kinski fizeram o papel de Clara


Concerto para piano n. 1 em Ré menor, Allegro maestoso, Orquestra Concertgebouw, Bernard Haitink, Vladimir Ashkenazy, piano


Johannes Brahms

Monday, October 10, 2005



Há 200 anos chegava a New York, fugindo dos credores e da polícia de vários países na Europa, o aventureiro italiano Lorenzo da Ponte, 46 anos, judeu nascido perto de Veneza e convertido com toda a família ao catolicismo para escapar da Inquisição. Antes do bastismo o nome dele era Emanuele Conegliano.
Da Ponte viveu aqui mais 33 anos, na obscuridade, ensinando italiano na Columbia University.
Tentou sem sucesso introduzir em New York a ópera italiana, e morreu na miséria.
Da Ponte só é lembrado pelos libretti que escreveu para três das melhores óperas de Mozart, Le Nozze de Figaro, Don Giovanni e Cosi Fan Tutte. Curiosamente, nas Memórias que escreveu em New York, Da Ponte não dá maior destaque à parceria com Mozart em Viena. Não desconfiou que as três óperas iriam imortalizá-lo.
Concertos na cidade estão homenageando a chegada de Da Ponte há dois séculos. E meu amigo Bob Grossman desenhou uma história em quadrinhos fascinante contando as aventuras de Da Ponte em New York.
O libretto genial de Don Giovanni permitiu a Mozart criar aquela que é sem dúvida a melhor, a mais perfeita de todas as óperas.

De Don Giovanni, regência de Carlo Maria Giulini:

Ah qui me dice mai, Elisabeth Schwarzkopf (Donna Elvira), soprano

Elisabeth SchwarzkopfJoan Sutherland

Madamina, il catalogo è questo, Gisueppe Taddei (Lepporello), barítono

La ci darem' la mano, Eberhard Wächter (Don Giovanni), barítono, Graziela Sciutti (Zerlina), soprano

Ah fuggi il traditor, Joan Sutherland (Donn'Anna), soprano

Or sai chi l'onore, Donn'Anna

Dalla sua pace, Luigi Alva (Don Ottavio), tenor


A estátua do Comendador leva Don Giovanni para o inferno

Don Giovanni, a cenar teco, Gottlob Frick (Commendatore), baixo, Don Giovanni, Leporello

Da quel tremor insolito, Don Giovanni, Leporello, coro

Questo è el fin, tutti.

Lorenzo da Ponte


Estou carregando de música o meu primeiro iPod, um nano de 4G. O meu é pretinho e tão pequeno que dá medo de perder. Pelos meus cálculos vão caber 60 horas de música. Já botei três óperas completas e não sei quantas sinfonias, concertos, canções, uma loucura, e ainda não enchi metade.

Segue, como amostra do que ouço no nano, a belíssima Sinfonia Concertante para Violino e Viola em Mi bemol maior, de Mozart, com Gidon Kremer, violino, Kim Kashkashian, viola, Filarmônica de Viena regida por Nikolaus Harnoncourt:
Allegro maestoso
Andante
Presto

Mi bemol maior é conhecida como a escala "heróica" por causa da terceira sinfonia de Beethoven. Mas observe como, antes dele, Mozart usou esta escala para criar música gloriosa.

Sunday, October 09, 2005

Vancouver

Passei uns dias em Vancouver, Canadá, gravando reportagem para o Fantástico. Uma pesquisa da Economist com executivos escolheu Vancouver como a melhor cidade do mundo. É de fato espetacular, uma cidade muito moderna (tem pouco mais de 100 anos) no meio de florestas de pinheiros e ao lado de montanhas altas cobertas de neve, onde vai acontecer a Olimpíada de inverno de 2010. E na cidade não faz frio no inverno por causa de uma corrente quente do Pacífico, a de Humboldt.
Lá conheci um casal de brasileiros, Christianne Odehnal e Éclilson de Jesus, que dirige uma academia de capoeira, Aché Brasil. Encantadores. Há 15 anos divulgam o Brasil no Canadá fazendo centenas de shows por ano, em escolas principalmente. Mais de um milhão de canadenses já viram os shows deles e muitos foram visitar o Brasil. Trazem capoeiristas do Brasil e alguns até já viraram canadenses. É ótimo ver tanta iniciativa e amor pelo nosso país, sem qualquer apoio oficial (o mais próximo consulado brasileiro fica do outro lado do Canadá, em Toronto).
Canadá: a América do Norte que deu certo.

Saturday, October 08, 2005

Tuesday, October 04, 2005

Poeta olhando cerejeiras


Sempre simpatizei com haiku, aquele poema japonês Zen de três linhas com um total de 17 sílabas, mas nunca tentei escrever. Millor Fernandes é o mestre brasileiro da forma, que ele chama de haicai. Um exemplo do Millor:

Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua.


Hoje leio no Wall Street Journal que os jovens japoneses estão usando o celular para escrever e divulgar outra forma de poema curto, tanka. Vale a pena ler a matéria do WSJ aqui.
Tanka é um poema em cinco linhas com 31 sílabas, distribuídas em 5-7-5-7-7. Em japonês tanka é escrito numa única linha vertical.



Não sei japonês mas, se entendi bem, na ilustração acima cada linha vertical seria um tanka.
Não sabia que tanka é muito mais antigo que haiku. Começou no século VII, ou seja, há 14 séculos.
Haiku tem três séculos, e são só os três primeiros versos do tanka. É um poema mais conciso que se libertou da segunda parte, as duas últimas linhas. Nem haiku, nem tanka têm rimas porque rimar para os japoneses é um recurso fácil demais.
Tradicionalmente, no primeiro dia do ano, os japoneses, a começar pelo Imperador, escrevem tanka sobre o novo ano.

Trinta e seis poetas imortais

Os tradicionalistas estão furiosos com a popularidade do tanka entre os jovens. O tanka se presta ao celular porque os cinco versos curtos cabem na telinha. Isso quebra a linha única vertical. Pior ainda, os jovens não seguem as regras rígidas do tanka tradicional, aprendidas ao longo de muitos anos nas sociedades de escritores de tanka. Acontece que os membros dessas sociedades têm em média 80 anos. Graças ao celular, essa forma tradicional, que estava morrendo, ganhou vida nova.

exemplo de keitai tanka, pelo celular

Hoje há na TV japonesa concursos de keitai tanka, tanka enviado por celular. E em vez de se limitar a imagens convencionais da natureza, como reza a tradição, os novos poemas falam do cotidiano dos jovens.
No Brasil, Paulo Leminski escreveu tanka mas não achei nenhum.
É complicado adaptar a forma para outra língua. As sílabas japonesas são mais concisas do que as nossas. Um tanka é dito em duas respirações, uma para as três primeiras linhas, outra para as duas últimas. Nos Estados Unidos, onde o tanka está ficando popular entre os poetas, muitos abandonam a sequência 5-7-5-7-7, porque o poema fica longo demais para ser um tanka, e em vez disso escreve-se curto-longo-curto-longo-longo, sendo o curto de uma a três sílabas, e o longo de três a cinco.
Ao contrário do haiku, que contem uma única imagem ou idéia, o tanka articula duas ou três imagens ou idéias. É emocional, enquanto o haiku é cerebral.

De brincadeira, tentei meu primeiro tanka. Mandem seus tanka para o nyontime!

Toca o celular
mas eu estou no blogue
não posso atender.
Por estar tão ligado
perdi sua ligação.

Para ouvir: música da corte imperial japonesa (uso esse CD quando a festa já acabou mas tem sempre alguns que não vão embora. É botar o disco e todos saem correndo, é o equivalente musical de uma visita ao dentista)

Monday, October 03, 2005



Passei cinco dias me deliciando com um dos melhores romances que li este ano: On Beauty, da inglesa (30 anos) Zadie Smith. Ela escreve na melhor tradição inglesa - Virginia Woolf, E.M. Forster - com observação precisa da psicologia dos personagens, ouvido perfeito para o diálogo, humor não forçado. Esse livro é a história de um casal, Kiki, negra americana, e Howard, professor inglês de história da arte, casados há 30 anos, com três filhos. Eles vivem numa universidade perto de Boston, e o livro é também uma deliciosa sátira da vida acadêmica americana. Zadie é filha de jamaicana e inglês, então conhece bem o meio multirracial em que os personagens vivem. É raro um romance em que os personagens são tão reais. E ela mora em New York! Quem sabe de repente eu esbarro em Zadie na rua?

Zadie Smith

Frases de uma entrevista de Zadie Smith:

Escrever é uma arte total que envolve seres humanos, sua própria ética pessoal, sua consciência, sua sensibilidade. Essa é uma idéia muito antiquada, mas acho que é verdadeira.

Zadie Smith

A responsabilidade do escritor é contar a verdade. O objetivo é tentar contar a verdade - qualquer espécie de verdade. Pode ser uma verdade muito pequena. Verdade significa não que você lê o livro e pensa, "Ah, sim, é exatamente assim que eu faço o chá". Não é isso. Tem que ser verdade sem generalização, sem clichês, sem simplificação - o que é quase impossível.

Zadie Smith
Retrato de Dostoyevsky na exposição Rússia!

A megaexposição Russia! no museu Guggenheim é uma perda de tempo. Fora uns poucos ícones e um ou outro quadro interessante, como retratos de Tolstoy e Dostoeyvsky, e alguns bons exemplos do horrendo realismo socialista, 99% é lixo. Uma infinidade de quadros acadêmicos sem o menor interesse.
Obviamente o Guggenheim, que há muito deixou de ser museu para virar uma esperta multinacional para enganar estrangeiros otários (como Cesar Maia), está de olho nos bilhões dos novos magnatas russos.
No século XIX, o mercado de arte europeu abastecia os senhores feudais russos, que viviam da expoliação de servos (só uma família possuía 200 mil servos!) e queriam se passar por europeus sofisticados. Hoje a população russa está de novo reduzida à miséria, mas uns poucos oligarcas posam de "capitalistas modernos". O mau gosto desses novos ricos filisteus se reflete na "coleção" apresentada sob o ridículo título desse show, com ponto de exclamação e tudo. Coincidiu com uma feira de arte multimilionária reabrindo o palácio Manège em Moscou, outro festival de ostentação e mau gosto.
Os espertalhões russos, que se locupletaram com a criminosa privatização do estado, agora se dão ares de nobres tzaristas. E os ainda mais espertos mercadores de "arte" promovem exposições como esta para tentar valorizar esse lamentável espólio de imitações baratas da arte européia. Quem eles pensam que enganam?

Kandinsky


Em vez de glorificar o canhestro academicismo russo, o Guggenheim, se estivesse interessado em arte, deveria valorizar mais sua coleção de verdadeiros artistas russos, a vanguarda que revolucionou a pintura no início do século XX. Pelo menos, o museu abriu uma nova galeria para mostrar alguns dos seus maravilhosos Kandinskys.
Kandinsky foi um dos primeiros pintores abstratos e criou uma linguagem visual que procurava provocar emoções semelhantes às da música. Conseguiu.

Malevich

Outro grande artista russo representado por pouquíssimas telas nessa exposição é o abstracionista (ele se intitulava Supremacista) Kasimir Malevich. A obra dele é um tapa na cara do filistinismo que o cerca neste show infeliz. Moral da história: a Rússia não vive apenas um tremendo retrocesso econômico, social e político. Também culturalmente, o país está entregue aos predadores que tentam lucrar com o que há de pior na tradição tão rica dessa grande nação. É mais deprimente do que qualquer romance de Dostoyevsky.

Malevich


Algo de Podre no Reio de George W. (2)

Para acompanhar os escândalos de corrupção no governo Bush, a melhor leitura não é a imprensa chamada "liberal" (The New York Times, The Washington Post, etc) e sim a revista conservadora, assumidamente de direita, Weekly Standard, de propriedade de Rupert Murdoch. Não há espaço aqui para contar os detalhes revelados na matéria de capa do último número da revista, então recomendo aos interessados correr ao website da revista (http://www.weeklystandard.com/) para baixar a matéria Scandal Season, à qual em breve só os assinantes terão acesso.

São 11 páginas, contando como veio à tona um dos muitos casos de corrupção que respingam no ex-líder da maioria na Câmara, o todo-poderoso texano Tom DeLay. O repórter Matthew Continetti conta o que as investigações dos promotores e do Congresso já descobriram sobre a dupla Jack Abramoff e David Safavian.

Abramoff é um dos mais ricos lobistas de Washington, amigo íntimo de Tom DeLay, e está sendo investigado há um ano e meio. Já foi indiciado em pelo menos um caso de fraude contra tribos indígenas que são clientes dele, e vem mais por aí. Safavian, graças à influência de Abramoff, foi nomeado por Bush para chefiar o órgão que supervisiona as compras do governo federal, movimentando 300 bilhões de dólares por ano. Safavian mentiu aos investigadores sobre seus negócios com o amigo lobista, e por isso foi preso em 20 de setembro. Está sendo pressionado a abrir o jogo e contar tudo.

É uma história fascinante nos detalhes, que incluem bocas-livres como uma viagem à Escócia para jogar golfe, a convite do lobista, da qual fizeram parte Safavian e alguns deputados, ao custo de 100 mil dólares. Tom DeLay, entre outras coisas, é acusado de participar de uma dessas viagens, um "presente" que como deputado não poderia aceitar.

David Safavian na capa do Weekly Standard


Mais interessante é outra história envolvendo Abramoff, mas esta é um quebra-cabeças que ainda não vi ser bem contado em nenhum lugar. Juntando os pedaços aqui e ali, o caso é o seguinte:

Jack Abramoff, que tem 41 anos, era um "jovem republicano" nos anos 80, quando Ronald Reagan levou os EUA a darem uma violenta guinada para a direita. Militou no grupo dos "universitários republicanos". Depois tentou sem sucesso ser produtor de cinema em Hollywood e acabou voltando a Washington, nos anos 90, para trabalhar como lobista.

Logo, Abramoff despontou como um lobista de talento, graças a seus contatos no partido republicano, que passou a dominar o Congresso em 1994. Os clientes mais lucrativos de Abramoff eram as tribos indígenas que, por lei, são autorizadas a operar cassinos. Ao longo dos anos, o lobista recebeu mais de 80 milhões de dólares para defender os interesses das tribos. Parte do dinheiro foi parar no financiamento de campanha de deputados e senadores que ajudaram a aprovar leis e emendas favoráveis ao jogo.

Além disso, Abramoff e seu discípulo lobista, David Safavian, 38 anos, conduziram uma bem sucedida campanha para impedir que o Congresso proibisse o jogo pela Internet. Hoje as apostas online movimentam bilhões de dólares.

Os dois tinham outros clientes: o "rebelde" angolano Jonas Sawimbi; ditaduras como o Paquistão e a Malásia; conglomerados russos; Pascal Lissouba, o corrupto ex-presidente da República do Congo; e outros interessados em comprar acesso privilegiado a parlamentares poderosos como Tom DeLay. O sucesso de Abramoff como o mais "conectado" lobista de Washington decolou com a a eleição de Bush em 2000.

Tudo ia muito bem, mas surgiu uma pedra no meio do caminho, que agora ameaça derrubar todo o esquema. Uma história que envolve uma turma de mafiosos pé-dé-chinelo.

Jack Abramoff tem outro amigo dos tempos dos "jovens republicanos", Adam Kidan, de Nova York. Kidan começou no ramo de alimentos e logo se aproximou do mafioso Anthony "Big Tony" Moscatiello, da família Gambino, que trabalha no mesmo ramo e deu uma mãozinha ao jovem amigo. Uma amizade que não foi muito feliz para a mãe de Kidan, Judith Shemtov.

Em 1993, uma turma de mafiosos arrombou a casa de Judith, em Nova York. Alguém deu a eles a informação de que o marido dela, Sami, tinha 200 mil dólares guardados num cofre. Judith estava em casa e foi morta pelos mafiosos, que fugiram sem o dinheiro. Foram presos e estão cumprindo pena. Sami Shemtov, o padrasto de Kidan, acabou processando o enteado por ter lhe tomado 250 mil dólares, mas nunca viu a cor do dinheiro. Depois disso, Kidan investiu numa revenda de colchões, pediu concordata e levou milhões de dólares.

O amigo Jack Abramoff achou um bom negócio para Adam Kidan investir seus milhões: uma empresa da Flórida, a SunCruz, dona de uma frota de 11 barcos-cassino (no estado só é permitido jogar fora do mar territorial). O dono da empresa era o grego Konstantino "Gus" Boulis, um bem-sucedido empresário de Fort Lauderdale, dono de uma rede de lanchonetes, a Miami Subs. Acontece que a lei não permite que um estrangeiro seja dono de navios de bandeira americana. Boulis foi obrigado a vender a SunCruz.

Boulis fez um acordo com o Departamento de Justiça para manter o problema dele em segredo, e foi procurar ajuda em Washington, com o lobista Abramoff. Kidan e Abramoff se associaram em 2000 e compraram a empresa de Boulis, deixando o grego com 10 por cento. Mas não desembolsaram um tostão. Forjaram uma transferência eletrônica de 23 milhões de dólares, com a cumplicidade de Boulis, e assim convenceram dois bancos a emprestar mais 60 milhões para fechar o negócio.

Rapidamente a dupla passou a saquear os cofres da SunCruz. Boulis acabou entrando na justiça contra os dois, apresentando uma lista de gastos absurdos: Abramoff e Kidan recebiam 500 mil dólares por ano, cada um, de salário; compraram uma lancha por 90 mil; uma Mercedez Benz blindada, por 207 mil; um camarote de luxo no estádio de futebol de Washington, para o qual parlamentares eram convidados, por 310 mil dólares. E por aí vai. A briga entre o grego e a dupla Abramoff-Kidan chegou às vias de fato. Boulis e Kidan trocaram socos em dezembro de 2000.

No fim da tarde de 6 de fevereiro de 2001, Gus Boulis saiu do escritório em Fort Lauderdale ao volante de sua BMW. O carro foi fechado por outros dois e o grego executado com um tiro na cabeça.

Passaram-se quatro anos e meio, e na semana passada a polícia de Fort Lauderdale finalmente anunciou a prisão de três mafiosos acusados de matar Boulis: Anthony "Big Tony" Moscatiello, o amigo de Kidan, preso em casa em Nova York; Anthony "Little Tony" Ferrari e James Fiorillo, presos na Flórida. A juíza não aceitou o pedido dos advogados para que os três fossem soltos sob fiança.

Adam Kidan jura que não tem nada a ver com a morte de Boulis. Mas, pouco antes do assassinato, a SunCruz pagou, a Big Tony e Little Tony, 250 mil dólares por serviços de "consultoria no ramo de alimentos". Os investigadores não encontraram provas de que esses "serviços" tenham sido prestados.

Por enquanto nem Kidan nem Abramoff foram indiciados na morte de Boulis. Mas os dois irão a julgamento, em janeiro, por terem forjado o documento que induziu os bancos a emprestarem dinheiro para comprar a empresa de cassinos. Aliás, pouco depois do assassinato de Boulis a SunCruz pediu concordata e a frota de barcos-cassino hoje pertence a outra empresa.

Essa história acaba de vir à tona. A imprensa americana mal começou a arranhar a superfície de todos esses casos entrelaçados. A impressão que se tem é de que, uma vez puxado o primeiro fio, toda a rede de negócios escusos e crimes será exposta. Um dos maiores interessados é o senador John McCain, que preside a comissão que fiscaliza os cassinos indígenas, tem uma relação de amor-e-ódio com Bush, e é um homem íntegro, até onde se sabe.

A Casa Branca não está envolvida em nada disso. Mas Tom DeLay e outros parlamentares republicanos estão. Dificilmente o caso Abramoff irá respingar em George Bush. Mas outra investigação paralela pode se tornar o Watergate de Bush. É a devassa, por um promotor especial, sobre a revelação à imprensa do nome de uma agente da CIA, Valerie Plame, em 2003. A Casa Branca queria se vingar do marido dela, o embaixador Joe Wilson, que revelou a mentira contida num discurso de Bush ao Congresso, no qual o presidente acusou Saddam Hussein de comprar urânio de um país africano.

O grande suspense do momento em Washington é: será que o promotor Patrick Fitzgerald vai acusar alguém na Casa Branca de ter passado aos jornalistas a identidade de Valerie, o que é crime? Da investigação, que levou à cadeia por três meses a repórter Judy Miller, do New York Times, por ter protegido a identidade confidencial de sua fonte, já veio a público que os principais assessores de Bush, Karl Rove, e do vice-presidente Dick Cheney, Scott Libby, falaram com vários repórteres sobre Valerie. Mas para indiciá-los é preciso provar que tinham a intenção de tornar público o nome da espiã.

Se Rove e Libby forem indiciados - e talvez condenados - Bush pode sair chamuscado. Todos esses personagens - Abramoff, Kidan, Safavian, Big Tony e Little Tony, Rove e Libby - poderão estar sendo julgados poucos meses antes das eleições para o Congresso em novembro do ano que vem. Na oposição, os democratas estão salivando com a possibilidade de faturar em cima desses escândalos e recuperarem a maioria na Câmara e no Senado. Ou, quem sabe, tudo acabará no ramo de alimentos, em pizza ou hamburguer.

Jack Abramoff

Saturday, October 01, 2005



Vi esta noite na TV o documentário de Martin Scorsese sobre Bob Dylan, No Direction Home, quatro horas, genial. Dylan reflete sobre a vida dele. "Eu nasci muito longe de onde eu queria chegar", ele diz, "por isso estou sempre a caminho de casa (on my way home)". O DVD já está à venda.

Rainy Day Women

Like a Rolling Stone

Don't think twice it's all right

Blowing in the wind



The times they are a'changin'

I want you

Just like a woman

Knocking on heaven's door

Hurricane



All along the watchtower

Lay lady lay

Everybody must get stoned

Mr. Tambourine man

It ain't me babe

Êxtase de São Francisco, Caravaggio


Está saindo aqui Caravaggio, biografia do pintor escrita pela romancista Francine Prose. Michelangelo Merisi da Caravaggio era escandaloso (hoje seria condenado como pedófilo), violento a ponto de cometer pelo menos um assassinato (suponho que seja o sonho de muitos tenistas: matou o oponente no fim da partida). Morreu em 1610 aos 39 anos. Injetou virilidade e realismo na pintura esclerosada da época.
Segundo Prose, "tendo gastado sua vida breve, trágica e turbulenta pintando milagres, ele conseguiu criar um - o milagre da arte, o milagre da maneira pela qual alguma tinta, poucos pincéis, um quadrado de tela, junto com o ingrediente mais essencial, gênio, pode produzir algo mais forte que o tempo e época, mais poderoso que a morte".

Mais Caravaggio aqui.

E para ouvir, do contemporâneo de Caravaggio, Claudio Monteverdi, Esurientes implevit bonis, com o coro de meninos da catedral de Salisbury, e Sicut locutus est, com a Orqeustra e Coro Monteverdi, maestro John Eliot Gardiner.