Thursday, June 23, 2005

O albatroz

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Ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

L'Albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


O Albatroz

Para se divertir, os marujos costumam
Pegar um albatroz, grande ave do mar,
Companheira indolente dos barcos que rumam
Para os mares do Sul, abismos a cruzar.

Fisgado pelo anzol, atirado ao convés,
Este rei do azul, triste, desajeitado,
Para fugir arrasta seus enormes pés
E deixa as asas brancas caídas de lado.

Aéreo viajante, tão fraco e nanico!
Antes belo, agora feioso bufão!
Alguém com um tição espicaça-lhe o bico;
Outro a mancar imita o alado aleijão.

O Poeta é igual ao rei do firmamento
Que ri da tempestade e das flechas no ar;
Exilado no chão, cercado de tormento,
As asas de gigante não o deixam andar

Wednesday, June 22, 2005

A CIDADE E O COSMOS

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Lee Smolin é um físico americano que agora é professor no Perimeter Institute no Canadá. Um dos livros dele, A Vida no Cosmos, é um dos melhores textos de ciência que eu já li. Segue o final do livro (que tal acompanhar com a Rapsódia em Blue do Gershwin?):

A velha imagem do universo Newtoniano era um relógio: pesado, insistente, estático; nesta metáfora sente-se a mão de ferro do determinismo e, por trás dela, a ameaça de que o relógio enguice. Ademais, esta sempre foi uma imagem religiosa pois o relógio exige o relojoeiro, que o construiu e pôs para funcionar. Contra isso, gostaria de propor uma nova metáfora para o universo, também baseada em algo construído por seres humanos.

Fui levado a concluir este livro aqui, na melhor cidade do planeta, meu primeiro lar. Algumas semanas atrás saí para andar, procurando uma metáfora para terminar este livro, uma metáfora para um universo construído não por um relojoeiro fora dele mas por seus elementos num processo de evolução, ou talvez de negociação. De repente percebi que, em sua infinita diversidade e variedade, o que eu amo na cidade é exatamente o modo como ela espelha a imagem do cosmos que estou tentando botar em foco. A cidade é o modelo; estava ao meu redor, o tempo todo.

A metáfora do universo que estou tentando agora imaginar, contra a imagem do universo como relógio, é a imagem do universo como uma cidade, uma negociação sem fim, uma construção infinita do novo a partir do velho. Ninguém fez a cidade, não há um fazedor-de-cidade, como há um relojoeiro. Se a cidade pode se fazer sozinha, sem um criador, por que o mesmo não pode ser verdade com o universo?

Além disso, a cidade é um lugar onde a novidade pode surgir sem violência, onde podemos imaginar um processo contínuo de melhoria sem revolução, e onde não precisamos respeitar nada acima de nós mesmos, e sim estamos continuamente confrontados uns com os outros como criadores do nosso mundo compartilhado. Todos nós a fazemos, não apenas um, e somos dela, e ser dela e ser um dos seus criadores é a mesma coisa.

Assim, nunca houve um Deus, um piloto que fez o mundo impondo a ordem ao caos e que permanece de fora, vigiando e prescrevendo. E Nietzche também morreu. O eterno retorno, a eterna morte do calor, não ameaçam mais, eles nunca virão, nem virá o paraíso. O mundo sempre será aqui, e será sempre diferente, mais variado, mais interessante, mais vivo, mas ainda assim sempre o mundo em toda a sua complexidade e incompletude. Tudo que existe na Natureza está em torno de nós. Tudo que existe do Ser é relação entre coisas reais e sensíveis. Tudo que temos da lei natural é um mundo que se faz sozinho. Tudo que podemos esperar da lei humana é o que podemos negociar entre nós, e o que tomamos como nossa responsabilidade. Tudo o que podemos ganhar de conhecimento deve vir do que vemos com nossos próprios olhos e o que os outros nos dizem que viram com seus próprios olhos. Tudo o que podemos esperar da justiça é compaixão. Tudo o que é possível da utopia é o que fazemos com nossas próprias mãos. Reze para que seja o bastante.


New York, 1997

Lee Smolin

Monday, June 20, 2005

MARGARET ATWOOD ON WRITING AND POLITICS

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"I radically consider women to be human beings"

"Brazil holds the key to the future of the world"

"a lot of us grew up with the idea of America as being the kind of beacon of promise and land of freedom, all of these wonderful things, and then you wake up and you think, what happened?"


Click here to read the interview in English

Sunday, June 19, 2005

OUT, OUT, BRIEF CANDLE!

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Georges de La Tour, Madalena arrependida

Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.


William Shakespeare, Macbeth, Ato V, cena V

Amanhã, amanhã e amanhã,
O passo vão rasteja dia a dia
Para a última sílaba do tempo,
E os dias idos deram luz aos tolos
Até virarem pó. Apaga, vela!
A vida é sombra solta, mau ator
Que infla e treme até deixar o palco
E nunca mais se ouve: é estória
De um idiota, muito som e fúria,
Sem nenhum sentido.

(minha iâmbica tradução)

Estou indo trabalhar, no metrô entupido de gente, e leio no cartaz intitulado Poetry in Motion o trecho célebre de Macbeth que inspirou o título do romance de Faulkner, The Sound and the Fury. Leio de novo voltando pra casa, e quase todo dia ele aparece na minha frente, já parte da paisagem urbana de New York.
Acabo guglando e aprendo que Macbeth, o déspota escocês assassino, reage assim ao saber do suicídio da mulher dele, Lady Macbeth. Vou à maior autoridade em Shakespeare que eu conheço, Harold Bloom, e constato que embora o personagem favorito dele seja Falstaff, Macbeth é a tragédia de Shakespeare que ele prefere.

"Of the aesthetic greatness of Macbeth there can be no question. The play can not challenge the scope and depth of Hamlet and King Lear, or the brilliant playfulness of Othello, or the world-without-end panorama of Anthony and Cleopatra, and yet it is my personal favorite of all the high tragedies. Shakespeare's final strength is radical internalization, and this is his most internalized drama, played out in the guilty imagination that we share with Macbeth. I do not know if God created Shakespeare, but I know that Shakespeare created us. Macbeth himself exceeds us, in energy and in torment, but he also represents us, and we discover him more vividly within us the more deeply we delve".
Harold Bloom, Shakespeare, the Invention of the Human

Na interpretação de Bloom, todos nós temos um Macbeth lá no fundo, essa sede de poder sem limites, uma fantasia assassina de eliminar todos os rivais. Tem um Macbeth dentro de todo político cheio de ambição de poder. Preciso resistir à tentação de compará-lo ao personagem da nossa política que mesmo deixando o governo diz que vai continuar governando...
Macbeth segundo Bloom é o mais humano de todos os personagens de Shakespeare. Não tem a inteligência de Hamlet, e de todos os protagonistas shakespeareanos ele é o menos livre. Mas é aquele com quem a gente mais se identifica.
E pra Macbeth, como pra cada um de nós, a grande tragédia é o tempo. O que é o nosso tempo de vida se não som e fúria sem sentido?

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Orson Welles no filme Macbeth

Friday, June 17, 2005

PELO ESPAÇO VAI... VAI... VAI...

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Inquietação, de Ary Barroso com Rosas Passos e Lula Galvão

Finalmente funciona! Clique no link acima e espere um minutinho. Mas antes, se ainda não tem, baixe o iTunes, é de graça.
Vermeer, Moça do chapéu vermelho

O quadro é mínimo, 23 cm por 18. Mas ampliado 20 vezes, num poster grande, fica ainda melhor. Nada se sabe sobre a moça, e alguns até teimam que seria um rapaz. A cadeira com cabeças de leões, os brincos de pérola e a tapeçaria no fundo são os mesmos de outros Vermeer. O jogo de luz também. Mas tem alguma coisa, nessa boca entraberta, no olhar, no vermelho do chapéu de plumas, alguma coisa ao mesmo tempo simples e sublime. É um quadrinho pouco maior que um cartão postal. Mas toda vez que eu vou a Washington tento arrumar um tempinho para visitar a moça do chapéu vermelho na National Gallery. E ela me olha com a mesma atração que eu sinto por ela.

Thursday, June 16, 2005

GREGORY CHAITIN, MATEMÁTICA E PRAZER

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Antes do nyontime , minha única entrevista impressa foi a transcrição de um Milênio com o matemático Gregory Chaitin. Argentino, naturalizado americano, Chaitin trabalha num laboratório de gênios da IBM ao norte de Nova York. Entre outras coisas, ele explora os limites da matemática, e ficou famoso por ter calculado o número Omega, que define o limite além do qual a matemática não pode ir. Chaitin gostou tanto da nossa conversa que publicou a entrevista num dos livros dele. Clique aqui para ler em inglês a entrevista, que ele intitulou "Matemática Sensual".

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Em 1970, no carnaval do Rio, Chaitin teve o insight que
levou ao número Omega e revolucionou a Matemática

Mr Sapo

Por que será que os sapos humanizados são tão simpáticos? Afinal os sapos de verdade são bem... nojentos. Feios. Sorumbáticos. Mas o fato é que tem um monte de sapos fofos por aí: o Hermit de Sesame Street, o Keroppi da Hello Kitty, o Michigan J. Frog da Warner Brothers, o australiano Freddo.
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Estou usando no meu browser um sapo boa-praça da maior simpatia e utilidade, o MrSapo. É um site de busca muito bem bolado. Numa única janela, escrevendo-se o termo buscado uma única vez, pode-se consultar um grande número de buscadores: Google, Yahoo, Ask Jeeves, Clusty, Lycos, etc, e comparar os resultados.

É muito fácil e não custa nada baixar a barra do MrSapo, que tem botões para dicionários, busca de imagens e videos, sites de notícias, blogs, uma infinidade de coisas. Fiquei sabendo do MrSapo pelo jornalista James Fallows que elogiou o site como o melhor para buscas na Web. E é mesmo.

Há um concorrente, até mais popular, o Dogpile, que também traz resultados de todos esses buscadores e apresenta tudo numa página só. O problema é que o Dogpile seleciona entre os resultados dos buscadores aqueles que considera os melhores. Com que critério? Se você pagar, seu site entra nos melhores. O critério é comercial.

Por isso é melhor usar o MrSapo, que traz os resultados de cada buscador sem selecionar. Você escolhe segundo os seus critérios.

Perguntei ao criador do MrSapo, Juan Sosa, de Atlanta, qual a origem do nome.

Ele respondeu que o sapo simboliza a curiosidade, e de fato o sapo está sempre vigiando o que acontece em volta, mesmo que pareça estar dormindo. Daí o verbo sapear, ou seja, ficar à espreita.

Pra ser perfeito, só falta agora o MrSapo encontrar o nyontime, o que ainda não aconteceu...


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