Thursday, January 24, 2008

Jake Gyllenhall e Heath Ledger em Brokeback Mountain


Depois da morte do Heath Ledger revi Brokeback Mountain e gostei mais. Da primeira vez não gostei tanto, ainda estava sob o impacto do conto de Annie Proulx que é bem mais duro e genuíno. O roteiro é fiel ao conto mas dilui e enfeita a crueza da história. O conto é terrível. O filme é bonito.
Desta vez prestei mais atenção ao trabalho de Heath Ledger e concordo com aqueles que viram nele algo à altura de Brando e outros grandes do cinema.
Numa entrevista à AP, Annie Proulx disse que Ledger "entrou na história mais do que eu... Ele entrou na pele do personagem". Poucos atores da geração de Ledger têm esse dom de desaparecer dentro do papel, a capacidade de introspecção para sentir o que o personagem sente e transmitir isso fisicamente, uma técnica que a maioria dos atores leva anos para dominar.
Nem sempre deu certo. Num dos filmes mais recentes do ator, ele fez o papel de Robbie Clark, uma das encarnações de Bob Dylan em I'm Not There. Robbie é conflituado, deprimido, insatisfeito com a vida, mas Ledger não consegue passar isso de um jeito interessante, parece perdido no filme.
No caso de Ennis Del Mar, o personagem de Brokeback Mountain, o conflito interior do personagem é muito mais claro e devastador. Ennis não consegue aceitar a atração dele por outro homem, o desinibido Jack Twist de Jake Gyllenhall. Quase sem dizer nada, com grunhidos reprimidos, boca fechada, Ledger consegue expressar toda a força do desejo de Ennis por Jack, e ao mesmo tempo a impossibilidade de exteriorizar esse desejo. Mas em vez de tentar escapar ao conflito, Ennis mergulha nele e acaba aceitando, tarde demais, o amor proibido. É o que dá ao filme a dimensão de tragédia, e deveria ter dado um Oscar a Ledger, se não fosse a concorrência de Phillip Seymour Hoffman, que levou o prêmio com Capote.
Por ter morrido tão novo, Ledger será sempre lembrado por esse papel e, na história do cinema, Brokeback Mountain é um filme infinitamente mais importante do que Capote. É o primeiro filme de grande público que trata o amor entre dois homens com profundo respeito e sem preconceitos.
Heath Ledger era uma figura calada, discreta, um australiano educadíssimo que não bebia álcool nem usava drogas (o que aumenta o mistério em torno da morte dele). Poderia ter seguido uma carreira previsível de astro de Hollywood, em filmes de ação e blockbusters. Preferiu escolher projetos independentes e arriscados. A morte prematura o eleva à esfera rarefeita de artistas como James Dean, que ficarão para sempre jovens e cercados de uma aura de mistério, do que poderia ter sido.

Sunday, January 20, 2008

Thomas Quasthoff


Fui ao Carnegie Hall para o concerto do trio Thomas Quasthoff (baixo-barítono), Ian Bostridge (tenor) e Dorothea Röschmann (soprano), cantando Schubert. Bostridge e Röschmann são ótimos e a tournée do trio pela Europa foi uma sensação. Mas o grande impacto é Quasthoff. Nascido na Alemanha, 48 anos, ele é uma vítima da Talidomida, o remédio que era dado para o enjôo das grávidas e fazia os bebês nascerem deformados. Ele mede 1,20, as mãos, uma com três dedos, a outra com quatro, saem diretamente dos ombros, e as pernas não têm joelhos. Quasthoff anda com dificuldade, mas anda. Ele escala uma plataforma onde se senta para a performance. E quando ele começa a cantar é uma revelação. Não é o chavão de dizer que "a gente esquece que ele é deformado". É que a grandeza dele como artista e pessoa transcende a aparência física. A voz é poderosa e vai do tenor ao baixo profundo. Mas ele valoriza mais a interpretação dramática do que a técnica. É um grande ator.
Achei o CD que ele gravou com canções românticas do repertório jazzístico americano e aqui vai My Funny Valentine.
E do Requiem Alemão de Brahms, Herr, lehre doch mich, com a Filarmônica de Berlim regida por Simon Rattle.

Thursday, January 17, 2008

FUÇANDO NO LIXO

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Nunca checo os emails que o filtro joga no lixo. Mas como estou esperando resposta para alguns emails importantes, pedindo entrevistas, resolvi checar se por acaso teriam ido parar lá no junk mail.
Nelson Snizore, da Costa do Marfim, pede ajuda porque "my parents are late", um hilariante erro de inglês. "Late parents" são pais falecidos (ele pede socorro porque é órfão) mas "my parents are late" quer dizer "meus pais estão atrasados". Estou lendo um livro delicioso do Steven Pinker (uma das entrevistas pedidas ainda sem resposta) sobre esses erros, que revelam o funcionamento da linguagem. No caso desse órfão, ele não está tão necessitado de socorro, pois diz ter herdado 2.350.000 dólares do pai. Ele me oferece um décimo se eu lhe mandar meu email e telefone.
A África deve estar nadando em dinheiro. O nigeriano Depreye Duke Francis anuncia que vai me mandar um cartão bancário com o qual vou poder retirar 20.000 dólares por dia de uma conta com 5,9 milhões de dólares, isso depois de me passar uma espinafração por não ter respondido aos seus emails anteriores (deve ter uma pilha deles no meu lixo). Tenho que lhe mandar nome e endereço.
Do Togo, outro país africano, Mademoiselle Karimatou Menssan me escreve em francês se apresentando como minha irmã (será que meu pai andou por lá? Quando era piloto ele fazia escala em Dakar, Senegal. É perto), pedindo que eu a ajude a transferir para a Espanha 46 milhões de dólares que recebeu do falecido amante, o ex-presidente do Togo! Eu fico com metade e distribuo o resto por orfanatos. Nada mal. Enquanto providencio minha ida à Espanha para retirar o dinheiro, Mlle Karimatou pede que eu reze por ela.
Kriss Moore da Austrália comunica que meu bilhete da loteria australiana foi PREMIADO!!! E eu nem sabia que tinha comprado esse bilhete. São 350 mil dólares. É só preencher um formulário e mandar por email para um tal de Viktor Klose.
Não encontrei nenhum anúncio de tratamentos para aumento do pênis. Será que sou um caso perdido? Mas de alguém chamado Lacerations Colvin recebi um email sobre "disfunção na erecção". O texto do email é um trecho de Guerra e Paz - que coincidência, acabo de ler o romance na nova tradução em inglês, uma maravilha. Não tinha me tocado de que além do êxtase literário Tolstoy também servia para isso. Vou experimentar.
Mais explícitos são vários emails de Thais, Luana Gata e Paulinha Levada, me mandando fotos de "nós dois juntinhos" no "reveiow"(sic). Wow. Não abri as fotos embora Paulinha prometa que não trazem vírus. Como ela é levada, não vou arriscar.
Juro que não passei o "reveiow" com elas. Me comportei muito bem. Aliás talvez eu aceite a oferta de Mr. Robin Benson, que em agradecimento ao meu "esforço, sinceridade, coragem e confiabilidade" está me mandando 1 milhão de dólares. É só eu ligar ou mandar email para o advogado dele.
E o que fazer com esse dinheiro todo? Outro email, este em português, oferece uma excursão a Dubai com guia brasileiro. Vou lá visitar o Paulo Coelho que ganhou uma mansão do emir de Dubai. Ou será que ele caiu num golpe das Arábias?

Friday, January 11, 2008

Renée Magritte, O Cheque em Branco

AUSÊNCIA

Transcrevo a fala da médica Melanie Maia na colação de grau, em dezembro.

"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim." (Drummond)

Inicio esta homenagem com um protesto, protesto contra sua denominação. Ausência, no dicionário, é sinônimo de afastamento, inexistência e falta - palavras que definitivamente não se aplicam àqueles que pretendo homenagear hoje. Afinal, se chegamos até aqui e reservamos um espaço para homenageá-los, é porque foram, de alguma forma, fundamentais para esta conquista.

Peço licença para falar um pouco da minha experiência, e estou certa de que todos aqueles que tenham vivenciado situações parecidas se reconhecerão em minha saudade. Perdi meu pai há um ano, e não consigo tratá-lo como um ausente nesta noite. Não falo isso por achar que ele está aqui em cima, em uma nuvenzinha, me olhando e vibrando por mim – não acredito em nada disso... Acredito, sim, na força das pessoas, no pensamento positivo, na energia de um abraço. Acredito que cada um dos presentes que saiba de minha história trouxe para cá um pedacinho de meu pai, e é capaz de representá-lo muito bem, tornando-o também um presente.

É esse o espírito de minha homenagem: trazer os ausentes para junto de nós esta noite, lembrando de sua importância em nossa trajetória, e da vontade que um dia tiveram de compartilhar conosco esse momento. Escolho uma oração para finalizar meu discurso - não por uma questão de crença, mas pela sua beleza e relevância de sua mensagem - a oração de Santo Agostinho.

"A morte não é nada
apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu.
Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou,
continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe,
somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem...
Redescobrirás meu coração.
E nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e,
se me amas,
não chores mais."

Tuesday, December 04, 2007

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I'm Not There, Não Estou Aí, é o filme de Todd Haynes sobre Bob Dylan que divide opiniões entre quem ama e quem odeia. Ou quem, como eu, ama e odeia ao mesmo tempo. Tremendamente irritante e apaixonante. Adoro Bob Dylan, e ouvir as canções dele por duas horas é um prazer, mesmo que o filme seja longo demais - daria para cortar pelo menos meia hora sem perder nada.
Pra nós, que conhecemos Fernando Pessoa e seus heterônimos, a premissa do filme não tem nada de novo. Em vez de um Bob Dyan, são seis, cada um com seu nome, personalidade, e pouco a ver com o original.

Marcus Carl Franklin

O primeiro é pra mim o melhor do filme, o menino negro que diz se chamar Woody Guthrie e faz de conta que vive nos anos 30, como o verdadeiro Woody, pegando carona em trens e cantando folk songs. O ator, Marcus Carl Franklin, no primeiro trabalho dele no cinema, é maravilhoso. E o menino canta e toca violão muito bem.
When the ship comes in (Bob Dylan), Marcus Carl Franklin
Pena que Marcus só apareça na primeira metade do filme, antes de sumir sem explicação. Este é um dos maiores problemas (e são muitos). O roteiro de Haynes não consegue explorar bem a idéia dos heterônimos de Bob Dylan, alguns ótimos, outros ridículos, e se perde sem que os pedaços do quebra-cabeças cheguem a fazer sentido.
Um dos problemas é que o filme se dedica a contar a vida de cada heterônimo, raramente tão interessante quanto a de Dylan.


Wishaw, Ledger, Bale, Gere, Franklin, Blanchett.

São seis: o menino Woody, que é o Dylan garoto, se fazendo passar por herdeiro do grande Woody Guthrie; o cantor Jack Rollins (Christian Bale, ótimo), o Dylan que conquista Greenwich Village e o amor da estrela da folk music Joan Baez (interpretada com muito sarcasmo por Julianne Moore) e depois vira evangélico; o ator de cinema Robbie Clark (Heath Ledger, totalmente perdido), um Dylan na intimidade, em crise conjugal com a mulher (a francesa Charlotte Ginsburg, ainda mais perdida); Arthur Rimbaud (Ben Wishaw, muito bem num papel desperdiçado), Dylan como poeta maldito; Billy the Kid (Richard Gere, horrível), um Dylan fora-da-lei num faroeste mítico (Dylan fez uma ponta e a trilha sonora no filme Pat Garrett and Billy the Kid de Sam Peckinpah); e Jude Quinn (Cate Blanchett, divina como sempre), o Dylan que abandona a folk music para se tornar rock star.
O filme cresce muito, lá pela metade, quando Cate Blanchett finalmente aparece, incrivelmente parecida com Dylan aos 23 anos, numa refilmagem em preto-e-branco do documentário Don't Look Back, o clásico de D.A. Pennebaker sobre a tournée de Dylan na Inglaterra em 1965. Michelle Williams faz com brilho o papel de Marianne Faithfull, assim como David Cross o de Allen Ginsberg. O canadense Bruce Greenwood quase rouba o filme como o jornalista que entrevista Dylan (o elenco é gigantesco).
Dá pra ver que o filme é um caos. E não há nada, além da música de Dylan, para juntar os cacos. Pode ser descrito como um sonho ou um pesadelo (uma bad trip de ácido, das longas).
O que derruba o projeto é que essa divisão de Dylan em heterônimos passa de arbitrária. Não corresponde à obra dele, ao contrário dos heterônimos de Pessoa, cada um com seu estilo bem definido. Dylan sempre foi e continua sendo um artista de múltiplas facetas, mas elas coexistem na vida dele e nas canções. A separação em personagens diferentes não faz nenhum sentido.



O pior é o longo e tolo episódio de Richard Gere como um patético Billy the Kid, num parque de diversões do velho oeste. Tão ruim quanto a interminável crise conjugal entre Heath Ledger e Charlotte Gainsburg, que Haynes diz ter baseado no casamento de Dylan com sua primeira mulher, Sara Lownds.
Fica óbvio o motivo pelo qual Dylan concordou com o projeto de Todd Haynes. Ele sempre resistiu a ser rotulado, desde a época de folk singer, e conseguiu manter a vida pessoal e a família longe da curiosidade do público. Dylan construiu com muita competência uma aura de mistério, de artista que escapa a definições e retratos simplistas. Este filme torna Dylan ainda mais enigmático e impossível de classificar. Explode o mito sem revelar o que pode estar por trás, ou por dentro. O título é perfeito, Não Estou Aí, para descrever um filme no qual o artista retratado está ausente. Exatamente como Dylan deseja. O mistério continua.
Pra quem se contenta com a obra de Bob Dylan, pura e simples, o melhor ainda é o documentário No Direction Home, de Martin Scorcese.

Monday, December 03, 2007

O Escafandro e a Borboleta


Só agora estreou aqui O Escafandro e a Borboleta, o filme francês do pintor novaiorquino Julian Schnabel, em cartaz no Brasil desde outubro. Está cotado para o Oscar e merece (Schnabel levou Melhor Diretor em Cannes, foto no fim deste post).
Não li o livro do jornalista Jean-Dominique Bauby (foto abaixo), editor-chefe da revista Elle, publicado em 1997 e traduzido com sucesso no Brasil, e agora quero ler. Ele ficou paralisado depois de um derrame, com uma síndrome chamada locked-in, ou seja, trancado dentro. A pessoa permanece consciente mas sem qualquer atividade muscular voluntária, presa no próprio corpo. Paralisado, Jean-Dominique não fala mas movimenta a pálpebra esquerda (a direita foi costurada porque o olho poderia infeccionar). Com a ajuda de uma terapeuta da fala, ele aprende a piscar o olho para ditar letra a letra, um processo demorado e exasperante, e assim ele consegue ditar o livro.
Jean-Dominique Bauby ditando O Escafandro e a Borboleta

Contado desse jeito, parece um filme deprimente. Mas não é. Schnabel faz da camera o olho de Jean-Dominique. A gente vê o que ele vê, por esse único olho. Quando ele chora a camera fica embaçada. A gente ouve a voz de Jean-Dominique, mas é só o pensamento dele. As pessoas que estão em volta, que aparecem diante do olho, não sabem o que ele pensa. Aos poucos, piscando - e a camera também pisca - ele consegue se comunicar com as terapeutas, a ex-mulher, os filhos, os amigos. Não sai do hospital da Marinha, situado numa cidade de praia e especializado em reabilitação. Mas descobre a liberdade na memória e na imaginação.
Schnabel encena os sonhos, devaneios e fantasias de Jean-Dominique, imagens que o mantêm vivo. Nos outros filmes dele, Basquiat e Antes que Anoiteça , Schnabel mostrou seu estilo visual mais ligado à pintura do que ao cinema contemporâneo. Não tem nada a ver com os efeitos especiais de Hollywood. Lembra às vezes Glauber Rocha e o cinema dos anos 60, ou o cinema surrealista de Jean Cocteau. Mas nada é gratuito ou experimental. Suas imagens surpreendentes são vitais para a história de Jean-Dominique, são a expressão visual dos textos que ele dita ao longo do filme.
Tive um médico que recomendava como tratamento para depressão visitar doentes terminais no hospital. Segundo ele, nada como a desgraça alheia para alegrar a gente. Ainda bem que me livrei dele a tempo. O filme de Julian Schnabel é ótimo para curar depressão, mas não por esse motivo torpe. É que para não sucumbir ao escafandro (a prisão dentro do próprio corpo), Jean-Dominique voa com os borboletas da memória, da imaginação e da fala - mesmo sem voz. A voz, a fala, transcendem o corpo. Basta uma pálpebra para falar e escrever.
Numa das melhores cenas do filme, a logoterapeuta Henriette (a maravilhosa atriz Marie-Josée Croze, foto abaixo) anota as primeiras letras ditadas por Jean-Dominique e compõe a frase dele: "Quero morrer". Ela se rebela, não aceita que ele se entregue, não lhe dá esse direito. Nós estamos vendo a cena pelo olho de Jean-Dominique e é incrível como ele reage, exatamente como nós, diante da avalanche emocional de Henriette.
O que salva Jean-Dominique é a decisão que ele toma a partir daí: não vai mais sentir pena de si mesmo. Se fazer de vítima seria fatal.
Marie-Josée Croze no papel de Henriette

O humor de Jean-Dominique, a graça que ele vê nas mínimas coisas, sobretudo no próprio sofrimento físico ("Limpam o meu bumbum como o de um bebê"), é uma experiência comum vivida pelas pessoas em situações extremas, diante da morte. E o roteiro de Schnabel permite que esses momentos de grande humor surjam naturalmente, o que faz desse filme um dos mais alegres e otimistas que vi nos últimos tempos. Um exemplo: dois homens da companhia telefônica vêm instalar um telefone pedido por Jean-Dominque para se comunicar com a família. Eles se surpreendem ao ver que o paciente não pode falar e um deles não resiste, pergunta se ele é daqueles tarados que gostam de dar trotes arfando ao telefone. A acompanhante fica indignada com a falta de respeito. Mas Jean-Dominique, em silêncio, dá gargalhadas. E nós, que ouvimos o pensamento dele, rimos junto.
O ator Mathieu Amalric (foto abaixo), que foi o ótimo Louis do filme Munique de Spielberg, é um achado como Jean-Dominique. O papel seria do grande Johnny Depp, que acabou deixando Schnabel na mão para filmar Os Piratas do Caribe III. Não fez falta. A leveza e a irreverência de Amalric, com cara de menino encapetado, são perfeitas para o personagem. Uma das características de Jean-Dominique é a irreligiosidade ("Milagres não!", ele implora quando todo mundo começa a rezar em volta dele). Outra, a paixão pelas mulheres ("Essas gatas dando sopa e eu aqui paralítico!"). E ainda, o amor pelos três filhos pequenos, que o visitam mas com quem não pode mais brincar. Há também a reconcilicação com o pai (o genial Max von Sidow), uma figura distante e autocentrada, que finalmente tenta se aproximar do filho. Sem pieguice nem chavões, em poucas pinceladas Schnabel constrói o protagonista como um sujeito decente, gostável. É bom estar dentro da cabeça dele, vendo o mundo por aquele olho.
Mathieu Amalric

Uma das graças do filme é ver como os médicos e as pessoas em geral tratam o doente indefeso (no caso, totalmente, pois sequer pode falar), visto como criança, incompetente, totalmente passivo. Os médicos dizem a Jean-Dominique como ele deve estar se sentindo péssimo (ele agradece), falam barbaridades, e as pessoas em volta tendem a tratá-lo como se ele não estivesse presente. É como os bebês e os velhos são tratados, como se não tivessem vontade própria, não são pessoas. É incrível estar na pele de Jean-Dominique, dentro da cabeça dele, e ver como essas coisas acontecem, sem que ninguém se dê conta, a não ser a vítima. É extraordinário. Ele está vendo um jogo de futebol na TV, torcendo por um gol que não vem, quando o enfermeiro entra, apaga a TV e sai. Não tem conversa, nem piedade. O mundo é assim. São esses detalhes do cotidiano que fazem do filme um relato comicamente e dolorosamente real. Como a vida.
Julian Schnabel recebendo o prêmio de melhor diretor em Cannes

O filme já entrou em muitas listas de favoritos para o Oscar mas há quem diga que não pode concorrer por ser uma produção americana (ou franco-americana) falada em francês. A França escolheu outro filme, o longa de animação Persépolis, para concorrer ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira. Mesmo que não concorra a melhor filme, podem sair indicações para melhor diretor (Schnabel), melhor ator (Mathieu Amalric), melhor roteiro (Ronald Harwood, O Pianista)e Janusz Kaminski (o diretor de fotografia de muitos filmes de Spielberg).

Sunday, December 02, 2007

Bryn Terfel
Anja Harteros

A Metropolitan Opera está com uma temporada brilhante. Vi ontem Le Nozze de Figaro. Não é minha ópera de Mozart preferida (prefiro Die Zauberflöte e Don Giovanni) mas chega perto. A montagem do Met é do grande diretor inglês Sir Jonathan Miller (foto abaixo). Cruzei com ele aqui há alguns anos quando estava preparando essa mise-en-scène e Miller me disse que Le Nozze é a favorita dele. Miller é um verdadeiro Rennaissance man, além de um dos maiores diretores de teatro e ópera da atualidade, destacado defensor do ateísmo (com uma série de TV na BBC), e respeitado psiquiatra, além de humorista, escultor, e que sei mais. Um gênio do nosso tempo.
Como todas as produções de Miller, esta é límpida, tradicional, sem as interpretações grotescas que muitos diretores contemporâneos gostam de impor aos clássicos, desfigurando-os.
Esta montagem (foi a última apresentação nesta temporada) trouxe Bryn Terfel (foto acima) como Fígaro, e Anja Harteros (idem) como a Condessa, ambos excepcionais. Muito bons também Simon Keenlyside como o Conde e Ekaterina Siurina como Susanna. O maestro, Philippe Jordan, é o novo diretor da Ópera de Paris. Noite inesquecível.
Quando Harteros cantou a grande ária Dove Sono, o Met veio abaixo. Segue a interpretação de Margaret Price de 1987.

Dove Sono, Margaret Price

Jonathan Miller

Saturday, December 01, 2007

Gustavo Dudamel

Gustavo Dudamel

Fui ver a nova sensação da música clássica, o maestro venezuelano Gustavo Dudamel, 26 anos, regendo pela primeira vez a New York Philarmonic. Ele arrasou. Levantou o astral de todo mundo, orquestra e público, aplaudido de pé aos gritos de Bravo!
Lavou a alma.
Coisa inédita, a orquestra deixou que ele usasse uma das batutas de Leonard Bernstein. Quando Gustavo tinha quatro anos, no interior da Venezuela, brincava de ser maestro e regia os brinquedos dele ao som de gravações de Bernstein.
Em 2009, Dudamel vai assumir a Filarmônica de Los Angeles. Atualmente ele rege uma orquestra sueca e a Orquestra Jovem Simon Bolivar em Caracas.
Ele é a jóia da coroa de uma das mais fabulosas experiências educacionais do mundo, o Sistema de Educação Musical da Venezuela, criado pelo maestro e economista José Antonio Abreu em 1975. Hoje, graças ao apoio do governo Chavez, o sistema atende a 250 mil estudantes de música, que ganham do estado seus instrumentos e eduçação gratuita e tocam em 125 orquestras, das quais 30 são profissionais. São na maioria (90%) crianças pobres, meninos de rua, delinquentes que em países como o Brasil estariam na Febem ou na rua. A orquestra Simon Bolivar esteve recentemente no Carnegie Hall, trazida pela Filarmônica de Berlim, regida por Gustavo, e deslumbrou público e crítica. Não fica nada a dever às melhores orquestras do mundo.
Ver Gustavo Dudamel reger é um prazer. A alegria e o entusiasmo dele são contagiantes. Tive a sorte de conseguir um lugar lateral perto da orquestra e pude ver as mãos e o rosto dele. Sei que é clichê mas não resisto: é um maestro que vive a música que rege. Ele "toca" a orquestra como um instrumento, com gestos precisos, de uma variedade e uma beleza impressionantes. E a batuta de Lenny Bernstein na mão dele flutuava, dançava sobre a orquestra. No fim, enquanto o público aplaudia de pé sem parar, Gustavo entrou pela orquestra cumprimentando os músicos um a um. Nunca vi isso antes.
Para completar, a pièce de résistance do concerto foi minha sinfonia favorita, a Quinta de Prokofiev. É o ponto máximo da música no século XX. Profundamente otimista, alegre, grandiosa. Escrita no fim da Segunda Guerra, quando os soviéticos deram a virada que derrotou o nazismo, é a sinfonia da vitória, embora tenha estreado poucos meses antes do fim dos combates na Europa.
A interpretação de Dudamel é como a de Bernstein, perfeita, empolgante, e dava vontade de aplaudir a cada movimento, como faziam antigamente (agora não é mais de bom tom). É a expressão em música daquilo que a União Soviética, apesar de Stalin, simbolizou por muito tempo: um futuro heróico, fraternal, cheio de esperança e alegria.
Aí vai, na versão de Seiji Ozawa com a Filarmônica de Berlim, o segundo movimento, Allegro Marcato:

Prokofiev, Sinfonia n. 5, Allegro Marcato