Saturday, September 24, 2005



Acabei de aprender que vlog é um video log (que nem o Primado do Opinante, cheio de videos sensacionais) e achei num vlog chamado Karmagrrrl um trabalho genial da vlogueira Zadi Diaz. Ela editou imagens do furacão Katrina com a música Wake me up when September ends
e ficou perfeito, além de muito forte.
Clique aqui pra descer o video e tenha paciência porque demora, é muito grande mas vale a pena. Tem que ter o Quicktime.

Friday, September 23, 2005

Pascal Bruckner

Entrevistei hoje para o Milênio da Globo News o escritor e filósofo francês Pascal Bruckner. Temos a mesma idade (eu sou um mês mais velho). Quisera eu ser como ele, um gênio. Que lucidez, que poder de análise. Além de crítica da modernidade e das hipocrisias da vida contemporânea (A Tentação da Inocência, A Miséria da Prosperidade, O Soluço do Homem Branco e outros) ele é romancista. O filme Bitter Moon de Roman Polanski, um filme absolutamente genial, é tirado do romance Lua de Fel de Bruckner.
Ele passou por New York para duas palestras, ambas brilhantes e cheias de humor e ironia. Fiquem de olho na programação do Milênio porque Pascal Bruckner é imperdível.

Frases de Bruckner:

O milagre do amor é fechar o mundo em torno de um ser que nos encanta, o horror do amor é fechar o mundo em torno de um ser que nos acorrenta.

Aos vinte anos a beleza é uma evidência, aos trinta e cinco uma recompensa, aos cinquenta um milagre.

Chamo de inocência essa doença do individualismo que consiste em querer escapar às consequências de seus atos, essa tentativa de gozar dos benefícios da liberdade sem sofrer nenhum dos seus inconvenientes. Ela se desdobra em duas direções, o infantilismo e a vitimização, duas maneiras de fugir da dificuldade de ser, duas estratégias de irresponsabilidade feliz.

Se a pobreza, segundo São Tomás, é a falta do supérfluo e a miséria é a falta do necessário, somos todos pobres na sociedade de consumo: tudo nos falta porque tudo é excesso.

O consumo é uma religião degradada, a crença na ressurreição infinita das coisas, na qual o supermercado é a igreja e a publicidade o evangelho.

A televisão só exige um ato de coragem do espectador - um ato sobre-humano - apagá-la.

Amar é viver a aliança indissolúvel do terror e do milagre.

A obscenidade da guerra é a inevitável cumplicidade que ela acaba tecendo entre inimigos que crêem não ter nada em comum e se parecem cada vez mais.

A economia deveria nos libertar da necessidade. Quem nos libertará da economia?

A beleza da existência é escapar de si mesmo, abrir-se à multidão dos destinos possíveis que trazemos em nós. Em vez de ser alguém, por que não querer ser muitos? Conhecer-se, só é útil para melhor se esquecer de si mesmo, não estar mais enrolado em si mesmo, tornar-se disponível ao esplendor do mundo.

Ser bárbaro é se acreditar civilizado, rejeitar os outros ao nada. Enquanto que ser civilizado, é se saber bárbaro, conhecer a fragilidade das barreiras que nos separam da nossa própria ignominia e que o mesmo mundo traz em si a possibilidade da infâmia e do sublime.

Wednesday, September 21, 2005

Tuesday, September 20, 2005

Manet, retrato de Jeanne Duval, amante de Baudelaire, para quem este poema foi escrito

Le Possédé

Le soleil s'est couvert d'un crêpe. Comme lui,
Ô Lune de ma vie! emmitoufle-toi d'ombre;
Dors ou fume à ton gré; sois muette, sois sombre,
Et plonge tout entière au gouffre de l'Ennui;

Je t'aime ainsi! Pourtant, si tu veux aujourd'hui,
Comme un astre éclipsé qui sort de la pénombre,
Te pavaner aux lieux que la Folie encombre,
C'est bien! Charmant poignard, jaillis de ton étui!

Allume ta prunelle à la flamme des lustres!
Allume le désir dans les regards des rustres!
Tout de toi m'est plaisir, morbide ou pétulant;

Sois ce que tu voudras, nuit noire, rouge aurore;
II n'est pas une fibre en tout mon corps tremblant
Qui ne crie: Ô mon cher Belzébuth, je t'adore!

O Possuído

O sol já se cobriu de luto. Age igual,
Luar da minha vida! cobre-te de lama;
Dorme ou fuma; mas sem levantar dessa cama
Arrasta tua náusea ao fundo do Mal;

Eu te amo assim! Porém se queres, afinal,
Como um astro esquecido à procura da fama,
Passear por aí, onde a Loucura inflama,
Que bom! Sai da bainha, encantador punhal!

Acende o teu olhar à luz dos lampadários!
Acende a excitação nos olhos dos otários!
Tudo em ti me seduz: o mórbido e o vivaz;

Quer sejas noite negra ou sangüínea aurora
Não há um fio só do meu corpo voraz
Que não proclame, ó meu Belzebu, que te adora!




Remords posthume

Lorsque tu dormiras, ma belle ténébreuse,
Au fond d'un monument construit en marbre noir,
Et lorsque tu n'auras pour alcôve et manoir
Qu'un caveau pluvieux et qu'une fosse creuse;

Quand la pierre, opprimant ta poitrine peureuse
Et tes flancs qu'assouplit un charmant nonchaloir,
Empêchera ton coeur de battre et de vouloir,
Et tes pieds de courir leur course aventureuse,

Le tombeau, confident de mon rêve infini
(Car le tombeau toujours comprendra le poète),
Durant ces grandes nuits d'où le somme est banni,

Te dira: "Que vous sert, courtisane imparfaite,
De n'avoir pas connu ce que pleurent les morts?"
-- Et le vers rongera ta peau comme un remords.

Remorso póstumo

Quando dormires, minha bela tenebrosa,
Numa campa de mármore cor de nanquim
E em lugar de alcova, leito e baldaquim
Tiveres uma cripta úmida e musgosa,

Quando a pedra pesar na ossada medrosa,
Nos quadris que venceu o abandono sem fim,
Deixando o coração silencioso enfim
E os pés sem o prazer da corrida fogosa,

A tumba, confidente do meu ideal
(E a tumba sempre há de entender o poeta),
Durante a noite eterna, insone, sempre igual,

Dirá: "De que serviu, cortesã incorreta,
Teres negado o amor que faz chorar os mortos? "
-- E o verme vai roer, roer como um remorso.


La Vie antérieure

J'ai longtemps habité sous de vastes portiques
Que les soleils marins teignaient de mille feux,
Et que leurs grands piliers, droits et majestueux,
Rendaient pareils, le soir, aux grottes basaltiques.

Les houles, en roulant les images des cieux,
Mêlaient d'une façon solennelle et mystique
Les tout-puissants accords de leur riche musique
Aux couleurs du couchant reflété par mes yeux.

C'est là que j'ai vécu dans les voluptés calmes,
Au milieu de l'azur, des vagues, des splendeurs
Et des esclaves nus, tout imprégnés d'odeurs,

Qui me rafraîchissaient le front avec des palmes,
Et dont l'unique soin était d'approfondir
Le secret douloureux qui me faisait languir.

A Vida anterior

Vivi há muito tempo num palácio alto
Salpicado de fogo pelo sol do mar,
Onde a beleza reta de cada pilar
Lembrava, à tarde, negra torre de basalto.

Rolavam pelas ondas imagens do céu,
Combinando de forma mística e perene
Os acordes de sua música solene
Ao poente espelhado em meu olhar sem véu.

Foi lá que eu conheci doces volúpias calmas
Rodeado de azul, de água e esplendor,
E de escravos nus, pele de fino odor,

Que me deixavam fresco, abanando palmas,
E só se dedicavam a aprofundar
Esta dor do segredo que me faz penar.



Friedrich



Je t'adore à l'égal de la voûte nocturne,
Ô vase de tristesse, ô grande taciturne,
Et t'aime d'autant plus, belle, que tu me fuis,
Et que tu me parais, ornement de mes nuits,
Plus ironiquement accumuler les lieues
Qui séparent mes bras des immensités bleues.

Je m'avance à l'attaque, et je grimpe aux assaults,
Comme après un cadavre un choeur de vermisseaux,
Et je chéris, ô bête implacable et cruelle!
Jusqu'à cette froideur par où tu m'es plus belle!






Eu te adoro sim, como adoro o céu noturno,
Ó vaso de tristeza, ó anjo taciturno,
E amo ainda mais quando desapareces,
Ornamento das minhas noites, e pareces
Com tamanha ironia aumentar os espaços
Que, do imenso azul, separam os meus braços.

Eu avanço no ataque, e entro na liça
Como um coro de vermes cercando a carniça
E venero, ó fera cruel, implacável,
Até tua frieza, que acho adorável!

Monday, September 19, 2005

Munch, La Chevelure

La Chevelure

Ô toison, moutonnant jusque sur l'encolure!
Ô boucles! Ô parfum chargé de nonchaloir!
Extase! Pour peupler ce soir l'alcôve obscure
Des souvenirs dormant dans cette chevelure,
Je la veux agiter dans l'air comme un mouchoir!

La langoureuse Asie et la brûlante Afrique,
Tout un monde lointain, absent, presque défunt,
Vit dans tes profondeurs, forêt aromatique!
Comme d'autres esprits voguent sur la musique,
Le mien, ô mon amour! nage sur ton parfum.

J'irai là-bas où l'arbre et l'homme, pleins de sève,
Se pâment longuement sous l'ardeur des climats;
Fortes tresses, soyez la houle qui m'enlève!
Tu contiens, mer d'ébène, un éblouissant rêve
De voiles, de rameurs, de flammes et de mâts:

Un port retentissant où mon âme peut boire
À grands flots le parfum, le son et la couleur;
Où les vaisseaux, glissant dans l'or et dans la moire
Ouvrent leurs vastes bras pour embrasser la gloire
D'un ciel pur où frémit l'éternelle chaleur.

Je plongerai ma tête amoureuse d'ivresse
Dans ce noir océan où l'autre est enfermé;
Et mon esprit subtil que le roulis caresse
Saura vous retrouver, ô féconde paresse,
Infinis bercements du loisir embaumé!

Cheveux bleus, pavillon de ténèbres tendues,
Vous me rendez l'azur du ciel immense et rond;
Sur les bords duvetés de vos mèches tordues
Je m'enivre ardemment des senteurs confondues
De l'huile de coco, du musc et du goudron.

Longtemps! toujours! ma main dans ta crinière lourde
Sèmera le rubis, la perle et le saphir,
Afin qu'à mon désir tu ne sois jamais sourde!
N'es-tu pas l'oasis où je rêve, et la gourde
Où je hume à longs traits le vin du souvenir?


A Cabeleira

Ah, tosão se enroscando no seio! Tonteira!
Ah, ondas! Ah, perfume bom de embriagar!
Fonte! Gozo! Amando na alcova inteira,
Acordando lembranças tuas, cabeleira,
Quero como bandeira girar-te no ar!

África de suor, Ásia de almofada,
Toda terra distante, sonho de além-mar,
Vivem no fundo teu, floresta perfumada!
Se outro coração sobre música nada,
O meu, amor, no teu aroma quer nadar.

Quero ir onde gente e flor cheios de luz
Se espreguiçam sem fim nos climas tropicais;
Trança forte, és a onda que lá me conduz!
Mar de ébano, és um sonho que reluz,
De velas e marujos, mastros e fanais,

Um porto deslumbrante onde a alma leda
Vem sorver o perfume, o som e a cor,
Onde as naus deslizando no ouro e na seda
Abrem os amplos braços para a labareda
Do céu puro onde freme o eterno calor.

Vou meter a cabeça que o amor enfeitiça
Neste negro oceano onde há outro a viver;
Minha mente sutil que o marulhar atiça
Saberá encontrar a fecunda preguiça,
Infinito balanço cheirando a prazer!

Cabeleira azulada, o céu curvado e fundo
Condensas no teu tom, escuro pavilhão;
Na penugem dos cachos do teu vasto mundo
Fico tonto com tantos cheiros e confundo
Odor de óleo de coco, almíscar, alcatrão.

Agora, sempre, minha mão na tua crina
Semeará safiras, pérolas e jade
Para que meu desejo aceites, ó divina!
Pois não és o oásis onde minha sina
É aspirar bem fundo o vinho da saudade?