Tuesday, July 12, 2005

Dor e sofrimento



Recebi este texto do amigo Joaquim Assis. Foi publicado no site da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro, SPCRJ.

Pequeno diário de um doente terminal

15 de Maio / Domingo

Na semana passada, o médico da manhã – o nome, embora na ponta da língua não me vem à cabeça - sugeriu que eu escrevesse para me distrair. Gostei do conselho, provavelmente por conta da simpatia do rapaz, muito mais atencioso que o médico da tarde, sujeito desagradável e sombrio, do qual não me interessa saber nada. Lembrei-me, o médico da manhã chama-se Ademar, doutor Ademar Pertan. Pelo modo de sentar à cabeceira da cama, pelo sorriso franco, pela maneira concentrada como examina, pelo toque suave das mãos, já dá para perceber a pessoa que é. Podia ser meu neto, e me agrada pensar nele assim, como o neto querido que não tive. Sempre me pergunta onde dói e parece que só de ouvir sua voz as dores diminuem, submissas. Cessar, elas não cessam nunca, as dores. Hoje fazem parte de mim, do que eu sou, daquilo que sobrou do que eu era. Sei perfeitamente que o Ademar, como eu, não alimenta qualquer esperança de cura para o meu caso. Justamente por isto é notável o tempo gasto comigo por um homem tão ocupado, com três empregos e um consultório, segundo ele mesmo me disse. No dia seguinte àquela sugestão, ele me trouxe este caderno e a caneta com que escrevo. Mas escrever o quê doutor? - Qualquer coisa, lembranças, desejos, pensamentos, o que lhe der vontade, quando lhe der vontade.

16 de Maio / 2a feira

Odete, minha filha, veio com o marido, ao anoitecer. Trouxeram maçãs e ficaram quarenta minutos. Falou-se pouco. Ela sorriu para mim no meio de um longo silêncio, e fingiu não perceber quando disfarcei a emoção. Escrever realmente me faz bem, embora me canse. Antes pouco do que nada.

18 de Maio / 4a feira

Se não estivesse doente, teria ido cantar no coro, com sempre fiz às quartas-feiras, durante mais de vinte anos. Eu sou tenor e canto bem, cantava. Pensar nisto me causou uma dor fina, aguda, esguia, quase elegante.

19 de Maio / 5a feira

Um pensamento estranho me chegou de madrugada: eu sei sofrer com dor e sei sofrer sem dor, sendo que sem dor é mais doloroso, por ser essencial. Na verdade não é um pensamento, é uma constatação, e nada tem de estranha. Mais tarde, mostrei ao Ademar isto que escrevi acima, e ele gostou. Gostei dele ter gostado e, aproveitando, parei de sofrer, apesar das fortes dores no estômago.

23 de Maio / 2a feira

Enquanto fazia minha higiene matinal, a enfermeira gorda disse ter visto em sua agenda que hoje é o Dia Internacional das Comunicações Sociais. Por que diabo esta mulher resolveu me dizer isso? O fato é que ela me fez pensar, e agora me faz escrever. Nunca fui internacional, sob nenhum ponto de vista, inclusive jamais botei os pés fora do país. Quanto às comunicações sociais, não faço uma idéia precisa do que venham a ser. Dei por mim sorrindo, ao pensar que qualquer conversa durante uma festa pode ser considerada comunicação social. Há muito que eu não sorria espontaneamente. Há anos não sei o que é uma festa. Há quanto tempo me sinto socialmente incomunicável? Tudo isto também dói.

24 de Maio / 3a feira

Doeu quando não me deixaram jogar no time de futebol do colégio. Sobretudo pela explicação dada pelo capitão, na frente dos outros: você é lerdo e medroso. Sempre fui lerdo e medroso desde que me entendo, ou me desentendo, por gente. Minha dúvida é se isto se deve a algo genético ou se foi alguma coisa que me aconteceu, sabe-se lá quando. No berçário? No parto? Na barriga de mamãe? Nem ela e nem papai eram lerdos ou medrosos. É coisa minha.

25 de Maio / 4a feira

Dia de coro. Eu não estarei lá, mas certamente vão ensaiar. Tive um pesadelo horrível esta noite. Eu estava no berço, fascinado por um chocalho multicor, suspenso, oscilante, e ainda não sabia falar. De repente, o rosto de minha mãe baixou sorridente sobre mim, enorme. Eu quis demonstrar minha alegria e com grande esforço consegui pronunciar gu-gu. Era o exato som que eu queria emitir. Imediatamente a mão direita de mamãe varreu o ar junto a meu rosto, pra lá e pra cá, indicador em riste, enquanto ela dizia não, neném, não. Depois, apontou para si mesma e falou: mamã. Eu insisti: gu-gu. Ela insistiu: mamã. Por mais duas vezes a coisa se repetiu, até que eu me rendi e disse mamã, sentindo que algo em mim havia se quebrado para sempre. Acordei suando, apavorado, e toquei a campainha. Veio a enfermeira magra. Eu menti que estava com muita dor. Ela me aplicou morfina e consegui dormir novamente. Posso quase jurar que o pesadelo foi uma lembrança. Eu vivi aquilo. Ou seja, minha memória está se aguçando. Talvez pelo hábito de escrever.

28 de Maio / Sábado

Doeu demais, doutor, quando soube que minha mulher, única pessoa na vida em quem eu confiei totalmente, minha cúmplice, minha amante, meu porto seguro, meu anjo da guarda, havia me traído com um amigo nosso, de uma maneira muito feia que prefiro não comentar aqui. Eu soube com três anos de atraso, numa tarde ensolarada, no meio de um jogo de futebol na televisão. A empregada pegou o envelope na caixa de correio. Havia dentro um bilhete anônimo com letras recortadas de revista, assinado uma amiga, que até hoje desconfio ter sido ela mesma, para se livrar da culpa e ao mesmo tempo se livrar de mim, porque sabia que eu iria embora. Ao ler o bilhete, senti um gosto ruim no cérebro e daquele momento em diante, nada, absolutamente nada, permaneceu no lugar. Eu inclusive. Foi o jeito que encontrei para suportar a dor: mudei o mundo. Mudei as cores, os gostos, os sons, o céu, o mar, a chuva, o vento, mudei a natureza toda. Doeu a traição e, tanto quanto, doeu e assustou saber que tamanha dor podia ser causada, com retardo, por duas pessoas que, na realidade concreta dos fatos, ao me apunhalar - digamos assim para benefício do drama -, nada fizeram diretamente comigo, não me encostaram um dedo. Nem sequer se aproximaram de mim. Que misterioso e arrasador poder é este que uns têm sobre os outros?

02 de Junho / 5a feira

A quem interessar possa, atesto que em certos casos é claramente perceptível a aproximação do fim. É o que está acontecendo comigo. Posso garantir que não viverei o dia de amanhã, três de junho, sexta-feira. Mas hoje ainda estou vivo e tenho algo a dizer, a declarar, a escrever neste caderno quase vazio, dado a mim pelo meu querido doutor Ademar, o qual arrisco classificar de amigo, e a quem, daqui a pouco, entregarei estas poucas páginas escritas. É o seguinte: consegui finalmente a separação completa e perfeita entre dor e sofrimento. Está doendo muito neste momento e, no passado, foram incontáveis as grandes e pequenas dores, do corpo e da alma, cuja lembrança por sua vez também dói. Mas eu nada mais sofro. Da dor, meu caro Ademar, não há vivente que escape. Sofrer, no entanto, agora compreendo, não é obrigatório. Sofre quem assim o deseja. Eu sei: como moribundo sou suspeito para afirmar qualquer coisa. A suspeição é lamentável, porque seria bom que pudessem acreditar. Estou em paz, numa enorme paz que ousarei chamar de felicidade. Uma felicidade de pouca duração, devido às circunstâncias, porém intensa o suficiente para compensar todos os trancos e barrancos com que a ela cheguei.

***

Este pequeno diário escrito ao longo de pouco mais de uma quinzena, me foi entregue por um paciente do Hospital São Francisco, poucas horas antes de sua morte. Digitado por Joaquim Assis, meu amigo, o encaminho à publicação respeitando o desejo do paciente de permanecer incógnito, bem como de ser lido pelo maior número possível de pessoas.

Rio de janeiro. 07 de Junho de 2005

Ademar R. Pertan

Cancerologista

- Texto escrito por Joaquim Assis, cineasta,

- dramaturgo e músico.

A chanchada continua

Oscarito (esq), Zezé Macedo e Afonso Stuart em Esse Milhão é Meu, 1959


Meu amigo Sergio Flaksman acordou com a música na cabeça. Marchinha de carnaval. Carnaval de 59. Veio a letra toda e até a cena da Dircinha Batista cantando numa chanchada da Atlântida. Sergio entrou em contato com o Franklin Martins, nosso colega do Colégio de Aplicação (UFRJ) que tem um ótimo blog de música e política chamado Som na Caixa, e o Franklin desencavou a gravação original que você ouve aqui em primeira mão.
Segue a letra atualíssima, os autores são Valter Levita e Oldemar Magalhães.

Minha Terra Tem Palmeiras

Minha terra tem palmeiras/ minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá./ Tem cachaça, tem mulata/ tem também muita mamata/ mas dá galho se falar (BIS)

Segunda: Tem tubarão à toa/ Mamando pra valer/ Eu também vou/ entrar no jabaculê!!! (BIS)

É isso, curto e grosso. No blog do Franklin tem todo um tesouro de sambas e marchas que comentam a política brasileira. Não sei se serve de consolo ou desespero pensar que afinal o que está acontecendo não tem nada de novo.

POster de Esse Milhão é Meu

Monday, July 11, 2005

night flight over Macondo, by Nemo Nox

Já sei que blog não atualizado, ninguém mais visita... Então vou encher linguiça enquanto não faço o podcast (será que faço?) e continuo a transcrever a tão prometida entrevista do Mandelbrot (parece obra de igreja).
Então lá vai mais uma coleção de fractais pra vocês se distrairem e não ficarem com raiva de mim.
Esse aí de cima me foi graciosamente cedido pelo Nemo Nox, o gênio da Internet brasileira, cuíca do mundo (eu soube dele pela Laura). Nemo Nox criou a imagem, intitulada night flight over Macondo.
Os outros eu peguei por aí.
E para ouvir algo bem anos 60/70, embora o grupo ainda exista, Incredible String Band. A faixa é Worlds They Rise and Fall.
Quase levei meus pais à loucura ouvindo os discos do ISB até furar.

Saturday, July 09, 2005

Podcast

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Baixei o iTunes 4.9 e entrei no mundo do podcasting, por enquanto como ouvinte. Ainda não achei os meus podcasts - queria ouvir mússica clássica, coisa pra coroas feito eu, e até agora só ouvi música barulhenta, muito bla-bla-bla da garotada, mas as possibilidades do podcasting são incríveis. Acho que vou fazer um podcast também, quem sabe. Na lista de brazilian podcasts no iTunes tem apenas 16 e não gostei de nenhum (sou muito chato). O melhorzinho é na verdade de Portugal, O Armário das calças e é engraçado ouvir o sotaque e a gíria dos portugas. Enfim, queridos blogueiros, podcast é um blog com audio, e basta um microfone pra começar. O que é que vocês estão esperando? Tem uma lista um pouquinho maior de 19 podcasts brasileiros no site EuPodo (que nome infame).

Friday, July 08, 2005

Baudelaire e as drogas

Baudelaire, autoretrato sob o efeito do haxixe

Os Paraísos Artificiais de Baudelaire é o melhor estudo que eu conheço sobre o efeito moral e espiritual das drogas, seja o álcool ou os derivados do ópio e da maconha. É a mais profunda e convincente argumentação contra o uso de drogas, escrita há 145 anos por alguém que sabia do que estava falando. Baudelaire usou haxixe quando jovem e tornou-se dependente de um derivado de ópio, o láudano, que usava para aliviar as dores da sífilis. Os trechos que seguem são da conclusão da primeira parte, O Poema do Haxixe.

Aquele que recorre a um veneno para pensar em breve não poderá pensar sem veneno. Dá para imaginar o destino horrível de um homem cuja imaginação paralisada não funciona mais sem o haxixe ou o ópio?

(...) Mas o homem não está tão abandonado, tão privado de meios honestos de ganhar o céu, a ponto de ser obrigado a invocar a farmácia e a feitiçaria; não precisa vender a alma para comprar o paraíso. Que paraíso é esse, comprado ao preço da salvação eterna?

(...) Nós, poetas e filósofos, regeneramos nossa alma pelo trabalho e a contemplação. Pelo exercício assíduo da vontade e a nobreza permanente da intenção, criamos para nosso uso um jardim de verdadeira beleza. Confiantes na palavra de que a fé remove montanhas, realizamos o único milagre que Deus nos concedeu.


Baudelaire

Baudelaire conta uma historinha curiosa sobre Balzac:

Balzac pensava que não há para o homem maior vergonha nem sofrimento mais intenso do que abdicar da vontade. Eu o vi uma vez, numa reunião onde se falava dos efeitos prodigiosos do haxixe. Ele ouvia e questionava com uma atenção e uma vivacidade divertidas. As pessoas que o conheceram sabem que ele deveria estar interessado. Mas a idéia de não controlar seu pensamento o chocava intensamente. Ofeceram-lhe dawamesk (pasta de haxixe); ele examinou, cheirou e devolveu sem provar. A luta entre sua curiosidade quase infantil e sua repugnância pela abdicação era visível no rosto expressivo, de maneira notável. O amor da dignidade venceu. De fato é difícil imaginar o teórico da vontade consentindo em perder uma parcela dessa preciosa substância.

Honoré de Balzac

A morte da imprensa liberal


O cartum mostra como a direita retrata a imprensa liberal: ela usa o escândalo da tortura em Abu Ghraib para atacar Tio Sam pelas costas

Daniel, do Blog do Daniel, sugere que eu escreva sobre a chamada imprensa liberal nos Estados Unidos; lembra que o símbolo dos jornalistas liberais, Dan Rather, fechou com Bush depois de 11 de Setembro (é verdade).
Segundo o jornalista Mark Herstsgaard, citado pelo Daniel, "a maior piada política nos Estados Unidos é que nós temos uma imprensa liberal".

Imprensa liberal é um xingamento inventado no governo Nixon para atacar os jornais e TVs que criticavam a condução da guerra do Vietnam. Na época o ícone do jornalismo era Walter Cronkite, o âncora da rede de TV CBS, que ousou concluir um telejornal dando a opinião dele a favor da retirada das tropas americanas do Vietnam. Segundo a direita, foi exatamente aí que a guerra começou a ser perdida. Uma traição.

Desde então a direita - o partido Republicano, a Coalizão Cristã e grupos de interesse ligados a ambos - passou a usar esse bicho-papão para assustar o americano médio. A imprensa liberal virou o símbolo de tudo que apavora a baixa classe média: drogas, homossexualismo, esquerdismo, adoração pela França, feminismo, multiculturalismo, arte de vanguarda, decadência do patriotismo americano.

Por trás da imprensa liberal estariam as "elites" antiamericanas e globalizantes: bilionários como George Soros e Bill Gates, os astros multimilionários de Hollywood, como Steven Spielberg e Barbara Streisand, os âncoras e magnatas das redes de TV, como Dan Rather e Ted Turner, gente que usa seu poder financeiro para controlar o partido democrata e que teve Bill Clinton como líder.

George W. Bush foi eleito como um "homem do povo", um cowboy autêntico para derrubar essa "cabala de judeus e estrangeiros" que traiu a América profunda. E foi reeleito pelo mesmo motivo, para manter longe do poder os "liberais" como John Kerry e Jane Fonda, mais conhecida como Hanói Jane, a traidora.

O melhor livro político do ano passado foi What's Wrong With Kansas? do jornalista Thomas Frank. Ele mostra que os democratas perderam o poder porque foram derrotados na batalha cultural, deixaram que os republicanos se apoderassem dos valores do americano médio - religião, moralismo, família - para se tornarem o partido do "homem comum" contra o partido das "elites urbanas", os democratas "liberais".

Tiveram tanto sucesso, que o homem comum elegeu e reelegeu Bush, mesmo sabendo que ele tornaria os ricos muitíssimo mais ricos e a classe média muito, mas muito mais pobre. A superestrutura ideológica venceu o interesse econômico desses eleitores. Para eles é Bush quem vai impedir a dissolução dos costumes e desfazer a revolução dos anos 60.

No fundo, é verdade que os jornalistas crucificados como "liberais" não são muito diferentes dos "conservadores", mas por simpatizarem com os democratas viraram os bodes-expiatórios da direita cristã. Estive num subúrbio de Atlanta entrevistando uma família típica, para o Globo Repórter, e o nome de Dan Rather, na época o âncora da CBS que substituiu Cronkite, causava tanto horror quanto Satanás, até pior. Apoiar Bush era só fingimento do tinhoso.

Piadinha dos blogueiros de direita: a cabeça de Dan Rather como troféu, abatido pela Blog Machine

Desde que o escândalo Watergate criou a ficção de que a imprensa seria o Quarto Poder, a direita vem preparando o contraataque, agora consumado. A queda de Dan Rather, apanhado numa armadilha obviamente montada pela direita - documentos falsos "provando" que Bush não prestou o serviço militar - foi uma entre muitas vitórias recentes dos conservadores contra a imprensa liberal. O escândalo anterior no jornal The New York Times, traído por um repórter mentiroso, foi outra. Essa mesma turma está comemorando a prisão da repórter Judy Miller. Serviu, segundo eles, para mostrar que a imprensa liberal não está "acima da lei".

Jornalistas como Mark Hertsgaard, que escreve para um dos poucos órgãos de esquerda, a revista The Nation, que não vende em banca e tem menos de 200 mil assinantes, são minoria neste país, uma honrosa e batalhadora minoria que se refugia na Internet. Mas até na blogosfera a direita ocupou os espaços, assim como no rádio, e foram os blogueiros de direita que derrubaram Dan Rather e quase derrubaram Clinton.

Só que é schadenfreude, rir da desgraça alheia, e rir até da própria desgraça, dizer que a imprensa liberal mereceu sucumbir sob os ataques do governo Bush, ao qual ela já se rendeu. O escândalo da tortura de presos pelos americanos no Afeganistão e no Iraque é um bom exemplo. Foi levantado pela grande imprensa mas já sumiu do noticiário. Acabou o pouquinho de independência que a mídia ainda possuía, o que criou uma situação nova. Como escreveu o jornalista James Pinkerton, "o governo está maior e mais forte do que nunca. A mídia está despedaçada. É uma fórmula perfeita para a estratégia do governo, de dividir para conquistar. O estado pode fechar o punho o quanto quiser, confiante em poder esmagar cada um de nós, um a um a um".

Vão continuar existindo jornalistas como Mark Herstgaard, valorosos paladinos da esquerda. Mas sem acesso à grande imprensa, que atinge as massas, serão apenas vozes clamando no deserto. Ainda vamos chorar a morte da imprensa liberal.

O liberal Dan Rather virou o Ás de paus no baralho dos traidores da América

Thursday, July 07, 2005

Spleen

Baudelaire, Jardin du Luxembourg

Spleen

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.

Un gros meuble à tiroirs encombré de bilans,
De vers, de billets doux, de procès, de romances,
Avec de lourds cheveux roulés dans des quittances,
Cache moins de secrets que mon triste cerveau.
C'est une pyramide, un immense caveau,
Qui contient plus de morts que la fosse commune.
-- Je suis un cimetière abhorré de la lune,
Où comme des remords se traînent de longs vers
Qui s'acharnent toujours sur mes morts les plus chers.
Je suis un vieux boudoir plein de roses fanées,
Où gît tout un fouillis de modes surannées,
Où les pastels plaintifs et les pâles Boucher
Seuls, respirent l'odeur d'un flacon débouché.

Rien n'égale en longueur les boiteuses journées,
Quand sous les lourds flocons des neigeuses années
L'ennui, fruit de la morne incuriosité
Prend les proportions de l'immortalité.
-- Désormais tu n'es plus, ô matière vivante!
Qu'un granit entouré d'une vague épouvante,
Assoupi dans le fond d'un Sahara brumeux
Un vieux sphinx ignoré du monde insoucieux,
Oublié sur la carte, et dont l'humeur farouche
Ne chante qu'aux rayons du soleil qui se couche.

Spleen

São tantas lembranças, que sinto ter mil anos.

Gavetas entupidas de notas e planos,
promissórias, poemas, cobranças, canções,
e mechas de cabelo entre intimações,
guardam menos segredos que o meu triste cérebro.
É uma pirâmide, um gigantesco féretro
mais pesado de mortos que a vala comum.
-- Sou cemitério sem lua, cafarnaum
onde rastejam vermes longos e gulosos
que devoram sempre meus mortos mais saudosos.
Sou um velho boudoir com mofados buquês,
roupas fora de moda sobre os somiês,
onde só as ninfas nos pastéis desbotados
aspiram o odor dos frascos destapados.

Não há nada mais longo que os trôpegos dias
debaixo do inverno das neves mais frias,
quando o tédio, fruto da morna indiferença,
ganha imortalidade e onipresença.
-- Agora não és mais, ó ser superior,
que um granito cercado de um vago pavor,
dormindo no fundo do deserto à socapa,
velha esfinge esquecida, perdida no mapa,
mas que não perde o brio e ainda faz farol,
cantando seus versos à luz do pôr-do-sol.






Spleen no vocabulário do romantismo é sinônimo de melancolia, tédio profundo. A palavra inglesa vem do grego splenikos, o baço, que era considerado pela medicina antiga como uma das sedes dos humores, das emoções. Os românticos fizeram do spleen um estado de espírito. Mas niguém usou tanto a palavra quanto Baudelaire, no título de uma seção de As Flores do Mal, Spleen e Ideal, de quatro poemas, e do livro de poemas em prosa, Spleen de Paris.
Spleen no sentido baudelairano continua em uso na França. O cantor/compositor Léo Ferré tem uma canção chamada Paris-Spleen, que ainda não encontrei, quem tiver por favor mande. Por enquanto vai a versão de Ferré para o grande poema de Baudelaire, L'Invitation au Voyage.

Quixote

Picasso, Don Quixote e Sancho Pança

Revi este desenho maravilhoso do Picasso num blog muito gostoso, o Canoa furada do Marcus. É a imagem querida do Marcus e já foi a minha também - desde pequeno sempre tive uma reprodução que meu avô me deu. Por onde será que anda? Já tem tanto tempo. Trouxe lembranças boas.
Aproveito para desovar mais um texto do meu atual guru, Antonio Muñoz Molina, sobre o Quixote, neste ano em que se comemoram os 400 anos da obra prima de Cervantes. O texto se encaixa no tema da entrevista que Muñoz me deu e que vai ao ar em breve no Milênio da Globo News. O tema é o exílio, e o Quixote, por íncrível que pareça, é um livro exilado dentro da literatura espanhola.

Antonio Muñoz Molina

El Quijote es nuestra novela nacional, nuestra biblia laica, nuestra Eneida, el mejor tesoro que hemos dado al mundo. Ninguna de las muchas tiranias que han asolado nuestro país se ha molestado en proscribir el Quijote. Incluso el negro patriotismo franquista exaltaba la heroicidad militar de Cervantes en la batalla de Lepanto. Pero esa presencia retórica ha sido perfectamente falsa, y no sólo por el efecto intimidatorio que suelen tener las Grandes Obras Maestras de la Humanidad sobre los lectores comunes. En la admirable letanía de nuestro señor don Quijote el gran Ruben Darío reclamaba la liberación del hidalgo y del libro de la cárcel de monumentalismo polvoriento en que los tenían secuestrados. Cervantes y don Quijote eran pretextos para erigir estatuas y proferir discursos, pero no tenían la menor influencia sobre la literatura española, y éste es otro de los malentendidos, otra de las anomalías de nuestra tradicíon... En España, misteriosamente, el único heredero obvio de Cervantes es don Benito Pérez Galdós, el primer heredero que al cabo de tres siglos se molesta en examinar el tesoro insondable que le ha tocado poseer. Así que puede decirse que el Quijote, en España, ha sido un libro casi tan secreto como la Biblia erasmista del siglo XVI, y que la ironía de Cervantes y su invención radical de eso que llamamos la novela pertenecen más a la tradición inglesa que a la española. Cervantes, como habría dicho su enemigo, Lope, resulta ser un peregrino en su patria. Pero es que algunos de los mejores españoles han sido peregrinos y expulsados, traidores a España.

L'Homme de la Mancha, adaptação de Jacques Brel

Jacques Brel

Ouça Jacques Brel no papel de Quixote na adaptação francesa de O Homem de la Mancha, 1969.