Friday, January 11, 2008

Renée Magritte, O Cheque em Branco

AUSÊNCIA

Transcrevo a fala da médica Melanie Maia na colação de grau, em dezembro.

"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim." (Drummond)

Inicio esta homenagem com um protesto, protesto contra sua denominação. Ausência, no dicionário, é sinônimo de afastamento, inexistência e falta - palavras que definitivamente não se aplicam àqueles que pretendo homenagear hoje. Afinal, se chegamos até aqui e reservamos um espaço para homenageá-los, é porque foram, de alguma forma, fundamentais para esta conquista.

Peço licença para falar um pouco da minha experiência, e estou certa de que todos aqueles que tenham vivenciado situações parecidas se reconhecerão em minha saudade. Perdi meu pai há um ano, e não consigo tratá-lo como um ausente nesta noite. Não falo isso por achar que ele está aqui em cima, em uma nuvenzinha, me olhando e vibrando por mim – não acredito em nada disso... Acredito, sim, na força das pessoas, no pensamento positivo, na energia de um abraço. Acredito que cada um dos presentes que saiba de minha história trouxe para cá um pedacinho de meu pai, e é capaz de representá-lo muito bem, tornando-o também um presente.

É esse o espírito de minha homenagem: trazer os ausentes para junto de nós esta noite, lembrando de sua importância em nossa trajetória, e da vontade que um dia tiveram de compartilhar conosco esse momento. Escolho uma oração para finalizar meu discurso - não por uma questão de crença, mas pela sua beleza e relevância de sua mensagem - a oração de Santo Agostinho.

"A morte não é nada
apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu.
Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou,
continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe,
somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem...
Redescobrirás meu coração.
E nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e,
se me amas,
não chores mais."

5 comments:

Anonymous said...

Jorge, fiquei emocionada com a reprodução do texto de Melanie. Já avisei a ela que está na Bahia na praia de Iatacaré, onde não tem internet. Disse que vai tentar ver de algum lugar em que tenha conexão. Ela também ficou emocionada. Beijos Dora

Iza said...

Se bem do que está falando. Perdi meu pai aos 18, hoje tenho 42 e ssa ausência ainda é presença.
linda oração
Um abraço amigo
Iza

Nando said...

"Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo."

"Seca tuas lágrimas e,
se me amas,
não chores mais."

um grande e saudoso abraço,
Nando

Ritoca said...

Oi Jorge!

Linda e emocionante esta oração. Eu não a conhecia. Parabéns à Melanie pela escolha.

Emocionou-me especialmente porque perdi uma pessoa querida em 2006.

Abraço

Laura said...

triste...