Monday, November 28, 2005

Fritz Utzeri

Veja aqui como é fácil assinar e pagar o Montbläat
Basta efetuar o depósito num dos bancos e mandar um e-mail informando o valor, o número da operação e o Banco em que foi feito o depósito. Só isso. Um abraço, Fritz.
Circula as terças e sextas-feiras
Assinaturas: Anual - R$ 95,00
Semestral - R$ 50,00
Trimestral R$ 25,00
e Mensal - R$ 10,00
Os pagamentos devem ser feitos em nome de:
Federico Carlo Utzeri - CPF 160155767-15, nos seguintes bancos:
CEF - agência 0211 CC. - 00887174-0
Banco do Brasil - agência 0087-6 CC. - 19.836-6
Banco Itaú - agência 0706 CC. - 61801-4
Os depósitos no Bradesco serão feitos em nome de:
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Bradesco – agência 1444 CC . – 030527-8

Saturday, November 26, 2005

Pensando Euboldina



Pensando Euboldina
Anna Maria Ribeiro

Acordei com uma zoeira não habitual. Parecia vir do prédio ao lado. Corri para o escritório e abri a janela. O que eu vinha temendo, há já algum tempo, estava acontecendo. A mangueira e o abacateiro, que vinham se estranhado, estavam passando da intenção à ação. Galhos de ambos, de uma forma grosseira, estavam empenhados numa luta para ver quem conseguia entrar primeiro pela janela do escritório. A mangueira, marota, havia produzido uma manga na ponta do galho mais dianteiro, numa tentativa de me subornar. Isto enfureceu o abacateiro que, mais ágil, passou a golpear a infeliz para fazê-la cair. Fiz que não vi. Como tomar partido? Minha relação com as duas árvores era íntima e antiga. Quando nos conhecemos nenhuma das duas havia se aproximado da janela e eu ainda conseguia ver o Cristo, agora encoberto pela mangueira. A mangueira já era velha, o abacateiro mais jovem e eu uma jovem senhora. Pelo rabo do olho acompanhei a disputa me perguntando o porquê desta minha ligação tão forte com árvores.



Fui interrompida por um telefonema de minha neta informando que precisava urgente do Lego que constrói um sítio. E o mistério das árvores se revelou: os fícus do sítio! Eram seis,numa fileira que ia da janela da cozinha até as cocheiras. Já adulta os vi ser abatidos. Estavam levantando, com suas raízes, a casa, o paiol, o quarto de arreios, as cocheiras. Quem sabe por vingança de minha ausência. Quase chorei. Aquelas árvores haviam sido tudo em minha infância. Nelas eu subia para escapar de qualquer coisa desagradável e ficava escondida entre os galhos enquanto adultos ensandecidos gritavam meu nome. Impossível me localizar porque elas eram da maior lealdade: sempre proviam um emaranhado de galhos onde eu me colava abraçada sem que pudessem me ver. Mãe, tias e avó ficavam gritando em vão, em tons ternos ou ameaçadores dependendo do locutor. Mas o que mais me encantava eram as raízes. Saindo da terra rugosas e fortes, formavam desenhos incríveis. Ali construí meu mundo. Os espaços de terra por elas delimitados eram para mim cidades, fazendas, ruas, estradas, casas e que mais sei eu. Cada árvore era um país. A primeira, perto da cozinha, era o Brasil, ou pelo menos era minha terra e os habitantes falavam português. A segunda era a França onde só era permitido o francês. As outras quatro eram países encantados já que aos cinco anos meu mundo não ia além do Brasil e da França. Numa delas – a terceira - as raízes formavam uma mini-caverna onde eu guardava tesouros de valor incalculável. Eram pequenos objetos surrupiados com maestria nas barbas dos adultos. O mais extraordinário e poderoso era uma caixa de Euboldina. Achei o nome lindo quando o escutei, receitado por um dos tios médicos que atendiam de graça, nos meses de férias, num ambulatório improvisado perto da porteira. Vai daí que irresistivelmente seduzida roubei uma caixa de amostra grátis. Pode nome mais bonito? Decretei que tinha um efeito mágico: o de me tornar invisível. Era a pura expressão da verdade. Ninguém conseguia me achar quando eu ingeria uma cápsula. Porque eu o fazia! Euboldina, fui saber anos mais tarde, era remédio para rins. Anjos da guarda devem existir: as cápsulas ingeridas não causaram qualquer efeito negativo. Só mesmo a minha invisibilidade. Dei também para meu cavalo – o primeiro que tive e que se chamava Coringa. E ele passou a desaparecer como eu. Euboldina tinha outros atributos poderosos: se concentrada em seu nome, conseguia fazer com que desistissem de me fazer comer espinafre e exorcizava diversos fantasmas que habitavam a casa do sítio à noite. Era só pensar Euboldina e eles fugiam com o rabo entre as pernas. Nunca mais tive medo. Protegia também meu irmão, que só tinha um ano e que eu adorava. Se ele chorava, o poder de Euboldina fazia com que voltasse a sorrir. Não me lembro se também ministrei este medicamento a ele. É bem provável. Mas como ocorreu comigo nenhum dano foi verificado. Está ele por aqui firme e forte aos mais de 70!



O som raivoso dos galhos em disputa me fez voltar ao presente. Estava ficando feia a coisa. Iam acabar perdendo um galho como já estavam perdendo folhas. Impossível continuar a fingir que não estava percebendo. Vai daí que pensei: quem sabe? Fui até a janela e encarei as duas árvores com firmeza. Severa, mesmo. Por um instante aquietaram-se esperando, quem sabe, que eu tomasse algum partido. Olharam-me desconfiadas. Eu sempre tão afável parecia zangada. E estava mesmo. Aquilo era jeito?! Foi aí que eu murmurei, olhos nos galhos: Euboldina. Surpresas, elas me encararam. Eu repeti firme: Euboldina! Encantada, vi que se afastavam uma da outra, com delicadeza. A mangueira avançou a manga em minha direção e com um outro galho apontou para um projeto de abacate exibido pelo outra. Sorriam ambas. Euboldina restabelecera a paz e a ordem com a mesma eficiência de então. Não sei se ainda existe o remédio. Mas a velha magia de seu nome, que não constava da bula, certamente ainda existe. Preciso pensar Euboldina com mais freqüência, nos tempos que correm.

Magritte

Friday, November 25, 2005



Ontem fizemos o jantar de Thanksgiving. Foi um sucesso. Eram 12 pratos na mesa, para 11 convivas, 10 brasileiros e dois americanos.
Lá vão algumas das coisas que Sergio Flaksman, meu parceiro de cozinha (ele se declarou meu sous-chef, mas é um chefe inteiro) e eu fizemos. O resultado é uma combinação gostosa de sabores, alguns pratos bem gordos e salgados, outros leves, outros doces, alguns um pouco amargos ou picantes:



Capão - como contei num post anterior, botei a ave (quatro quilos) na salmoura por sete dias. Poderia ter sido menos, quatro ou cinco dias. A carne ficou bem macia e molhada. Mas esse processo de curar a carne (serve para qualquer uma) a deixa com um gosto que lembra presunto. Nem todo mundo gosta. Eu não gosto. Valeu como experiência, mas não vou fazer de novo essa salmoura tão prolongada.
Na manhã de ontem, tirei o bicho da salmoura, sequei bem, tirei os miúdos que estavam dentro (o capão descongelou na salmoura, por isso não consegui tirar os miúdos antes). Deixei chegar à temperatura ambiente. Enchi com cebola, ervas (tomilho e alecrim) e manteiga, fechei com grampos e barbante. Passei bastante sal e pimenta do reino, no galináceo todo.
Esquentei o forno a 500 graus Fahrenheit (o máximo). Botei o capão de peito pra cima na assadeira pra tostar a pele. Levou 25 minutos. Banhei com a própria gordura do capão (cortei uma pelanca de gordura que vem pendurada e Sergio derreteu essa gordura para fazer torresmo, deu uma xícara e meia de banha de frango).
Baixei o forno para 325 F e virei o capão de peito para baixo na assadeira. Assar qualquer ave assim, virada ao contrário, é a solução do eterno problema do peito seco. Com o peito para baixo, os líquidos da ave fluem para o peito, tornando-o úmido e suculento. Foi o que aconteceu. Aprendi isso no ótimo livro da Ruth Reichl, Gourmet.
Depois de 45 minutos, banhei o assado com manteiga derretida, onde fritei salsinha e alho.
Com duas horas de assamento comecei a testar a temperatura nas coxas. Virei o capão de peito pra cima para os finalmentes. Quando o termômetro deu 160 F na parte mais gorda da coxa, tirei do forno, passei para a travessa e cobri com papel laminado para terminar de assar fora do forno.
Na hora de servir (três horas depois), botei no forno baixinho só pra esquentar.
A amiga Elaine Louie (vem aí o livro dela com as receitas do Shun Lee Palace, o melhor restaurante chinês de New York segundo o guia Zagat, receitas que nos convidou a testar na casa dela, um assombro e fáceis de fazer) trinchou a ave, arrumando os pedaços na travessa, com a pele crocante e a carne rosada e molhada. A fome era tanta que esquecemos de fotografar...

castanha

Recheio - Tem esse nome mas não esteve dentro do capão, é um acompanhamento. O capão é um frangão gordo, não cabe muita coisa dentro. Se fosse um peru dos grandes caberia. Mas não há necessidade nenhuma de encher a ave com o recheio.
A base do meu recheio é castanha. Na verdade seria uma farofa de castanha. Já comprei as castanhas descascadas e cozidas, são francesas e vêm em vidros de meio quilo, usei dois. Poderia ter comprado as castanhas para descascar e cozinhar mas dá um trabalho danado.
Botei as castanhas já cozidas e descascadas num caldo de peru que comprei pronto, bem gelatinoso e escuro (turkey stock). Levei ao forno baixo com raminhos de tomilho por uns 20 minutos. Com cuidado pra não deixar queimar, até secar o caldo. Depois de esfriar, esfarinhei as castanhas na mão.
Levei ao forno pedacinhos de abóbora descascada regadas com um fio de azeite e salpicadas de sal, até ficarem douradas.
Caramelizei meio quilo de cebolinhas brancas descascadas, cozinhando em pouca água, sal e açúcar.
Os croutons, cubinhos de pão tostados no azeite e ervas, comprei prontos. Também dá muito trabalho.
Fritei meio quilo de cubinhos de toucinho até virarem torresminho.
Sergio fritou a gordura do capão até virar torresmo e fritou os miúdos bem picados.
Deixei as nozes (poucas) descascadas no vapor, até amolecerem.
Misturei tudo isso, castanhas, abóbora, torresmos, miúdos, cebolas, croutons e nozes, e levei ao forno depois de regar com o caldo que ficou no fundo da assadeira do capão. Uma farofa bem molhada. Levei ao forno baixo a 325 F, por uns 40 minutos, até escurecer em cima, com cuidado para não queimar. Escorri o excesso de gordura e transferi para uma travessa grande.



Lombinho com ameixas pretas - Essa é do livro Pig Perfect, uma ode ao porco. Fiz um lombinho pequeno, quilo e meio. Deixei marinando algumas horas no vinho branco com sal e ervas.
As ameixas pretas sem caroço (duas dúzias, cortadas em pedaços se forem grandes, as minhas eram enormes) são cozidas em meia xícara de Cognac ou Armagnac. Deixei o álcool evaporar (cuidado por que entra em ignição de repente e a chama é alta) antes de acrescentar as ameixas à panela (usei uma panelinha francesa de cobre ccm aço por dentro) já fora do fogo.
Dourei o lombinho até ficar bem tostadinho por todos os lados, em óleo super quente numa panela de ferro esmaltado, pesada. Tirei o lombinho e no mesmo óleo dourei duas cebolas grandes cortadas em rodelas, depois acrescentei caldo (usei o caldo de peru que comprei pronto, uma xícara), vinho branco (xícara e meia), Cognac ou Armagnac (xícara e meia), oito folhas de sálvia, ramos de tomilho. Quando esse molho ferveu, levei o lombinho de volta à panela, tampei e botei no forno a 325 F. Me distraí e deixei tempo demais, quando vi o lombinho já estava ultracozido. Deveria testar a temperatura mais cedo, enfiando o termômetro no lombinho. Mas quando fiz isso já estava a 170 F, o ideal é no máximo 160 F para um lombinho suculento. Ficou esfarinhado, mas gostoso assim mesmo por causa do molho.
Tirei o lombinho do molho, separei as ervas e botei as ameixas cozidas no Armagnac para cozinhar mais um pouco no molho do lombinho, até ficarem quase desmanchando. Cobri o lombinho numa travessa com o molho até a hora de servir, sob papel laminado. O certo seria cortar o lombinho em rodelas, mas como ficou cozido demais só consegui quebrá-lo em pedaços. O molho é quase preto, por causa das ameixas, e cobre inteiramente a carne branca do lombinho. Não foi o ideal, pelo cozimento excessivo, mas ficou bem gostoso. Especialmente para quem gosta de carne de porco bem passada, o que não é o meu caso.

batata doce

Batata doce - Sergio descascou as batatas doces (seis, grandes), cozinhou em água e sal até enfiar o garfo (demora), e cortou em rodelas grossas. Depois de pronto o capão, antes de usar o caldo que sobrou para molhar o recheio, ele acabou de cozinhar a batata doce nesse caldo, em forno baixo, uns 30 minutos. Ficou um assombro. As rodelas foram servidas numa travessa à parte.

Farofa de milho - Comprei meio quilo de milho verde congelado, refoguei num pouco de manteiga até ficar macio. Fritei alho picado no azeite e refoguei uma cebola picada até dourar. Acrescentei o milho e depois a farinha de mandioca. Delícia, foi o gosto brasileiro da festa.

pé de quiabo

Quiabo indiano - Inspirado nas receitas de Kerala, sul da Índia (colonizada pelos portugueses) de um livro trazido pelo amigo Manoel de Almeida e Silva, que era um dos comensais desta festa. Fritei os quiabos inteiros (usei quiabo congelado, meio quilo) em azeite e alho. Acrescentei uma lata de leite de coco e cozinhei o quiabo até ficar macio mas não desmanchado. Levei ao forno quente dois pimentões coloridos para tostar a casca. Descasquei, piquei e acrescentei ao quiabo. Temperei com flocos de pimenta vermelha seca (chili). Ficou bem picante e gostoso. E sem gosma.

baby bok choy

Baby bok choy - É um legume chinês, uma espécie de... não sei! O baby é pequeninho e muito gostoso. Cozinhei oito deles em água fervendo e sal, dois minutos. Escoei bem, cortei cada um ao meio, tirei o excesso de folhas e fritei os bulbos verdeclaros em óleo bem quente e muito alho picado. É receita da Elaine. Espetacular. Crocante e um pouquinho amargo.

yams

Purê de yam - O Houaiss traduz yam como inhame mas está errado, é completamente diferente do nosso inhame. Aqui confundem com batata doce (vendem como batata doce!) mas também é totalmente diferente. Acho que no Brasil não existe esse tubérculo, típico do Sul dos Estados Unidos. Diz a Ruth Reichl que o yam foi trazido para as Américas pelos portugueses. Não sei. O fato é que os americanos só comem yam no Thanksgiving, é tradicional. O yam é cor de abóbora.
Sergio descascou seis yams grandes e cozinhou em água e sal até ficar bem macio. É rápido. Escoou e amassou com garfo para virar purê. Acrescentou duas colheres de sopa de manteiga, sal, pimenta do reino, bastante noz moscada moída na hora, e cebolinha bem picada. Espalhou num pratão raso e enfeitou com cebolinha, ficou lindo e delicioso, doce e salgado ao mesmo tempo.

No mais, Sergio fez uma bela salada, servimos arroz branco, vagem francesa no vapor, o molho de peru comprado pronto (gravy), molho de cranberry. La grande bouffe.



Em tempo: Thanksgiving, ou dia de ação de graças, apesar do nome NÃO é um feriado religioso aqui. O presidente Lincoln criou esse feriado nacional como uma festa de congraçamento para unir o país depois da Guerra Civil. A Constituição americana proíbe feriados religiosos, a separação entre estado e religião é levada a sério (ainda).

Tuesday, November 22, 2005

Toots Thielemans

Sonhei com os anjos e de noite fui ver e ouvir um deles: Toots Thielemans, o gaistista gênio, 83 anos. Ele tira da gaita um som de sax, uma maravilha. Tocou no Blue Note com Oscar Castro Neves, violão, Aírto Moreira, bateria, e Kenny Werner, piano.
Oscar deixou todo mundo emocionado com uma linda interpretação de Águas de Março, com a letra que o próprio Tom escreveu em inglês.

Do disco de Toots com Werner:

Sicilienne (J.S. Bach) (quero dedicar esta ao amigo Guilherme)
When you wish upon a star/ One day my prince will come (essa é pra você Anna!)
What a wonderful world (pra todo mundo que visita este blog e sempre deixa mensagem, como o DO)

Kenny Werner, Toots Thielemans, Oscar Castro Neves


Quem afirma que hoje os Estados Unidos controlam a Internet ainda não entendeu o que é essa rede.
A Internet tornou-se o fenômeno que é exatamente porque, por enquanto, ninguém a controla. Quando um computador se liga à rede, ele se torna por definição mais um nó dessa teia, tão central quanto qualquer outro.
Essa é a idéia dos cientistas que criaram nos anos 60 a Arpanet, a primeira versão da Internet, sob os auspícios do departamento de defesa americano, o Pentágono. O objetivo era descentralizar a rede, para que ela pudesse sobreviver em caso de guerra nuclear.
A rede é caótica exatamente porque não tem centro, não é hierárquica. O poder é redistribuído do centro para a periferia.
Não há dúvida de que esta é uma idéia tipicamente americana. Vem do conceito fundador dos Estados Unidos, de uma comunidade de cidadãos livres para enfrentar o poder do governo.
Se tivesse nascido na China, no Irã ou em Cuba, certamente a Internet seria bem diferente, rigidamente comandada por um governo central.
A Internet funciona porque cada computador ligado recebe um número, o chamado protocolo de Internet, IP. Para garantir que, ao digitar um endereço, o usuário só se conecte a um determinado número de IP, o cientista americano Jon Postel criou o DNS, o Sistema de Nome de Domínio, que ele mesmo administrou durante muitos anos, por contrato com o departamento de comércio dos Estados Unidos.
Quando Postel morreu em 1998 foi criada a ICANN, Corporação da Internet para Conferir Nomes e Números, que assumiu a função.

Jon Postel

A ICANN é uma empresa sem fins lucrativos, financiada pelo departamento de comércio mas não controlada por ele. Sua função é puramente técnica: garantir que a Internet funcione. É como uma torre de controle de tráfego. Sem ela, o usuário poderia digitar um endereço e ir parar em outro lugar completamente diferente do desejado.
A ICANN inclui representantes de mais de cento e cinquenta países e sua eficiência é apontada como uma das razões do crescimento vertiginoso da Internet nos últimos anos.
As organizações de defesa de direitos humanos aplaudem a supervisão técnica da ICANN, uma entidade não politizada, para manter a Internet a salvo de governos autoritários que desejam controlar a rede. Preocupa aos defensores dos direitos humanos a perseguição aos dissidentes através da censura às comunicações via Internet.
As redes de transmissão de dados dentro de cada país podem ser facilmente grampeadas pelos governos, o que acontece na China, no Irã, na Tunísia, em Cuba, na Coréia do Norte, no Zimbabwe e muitos outros lugares, onde o acesso à Internet não é livre. Mas pelo menos estes governos não conseguiram ainda criar suas próprias redes, separadas da Internet. O sistema administrado pela ICANN garante que a Internet seja uma só.
Foram justamente esses países que tomaram a iniciativa de propor um novo sistema para gerir a Internet supervisionado pela ONU. Sob pretexto de tirar a Internet do controle dos Estados Unidos, o que esses governos propõem seria a politização da rede. Sob o controle da ONU, onde uma ditadura como a Líbia consegue presidir a comissão de direitos humanos, é fácil imaginar qual seria o destino da liberdade na Internet.

internautas presos na Tunísia

Um bom exemplo é a Tunísia, onde dissidentes são presos por usarem email para criticar o governo. O país sede da conferência da ONU sobre o controle da Internet é um dos que impedem o livre acesso à rede.
Do outro lado, o governo Bush não ajuda em nada a defesa da Internet livre. Os representantes americanos partiram para uma retórica ultranacionalista, do gênero: a Internet é nossa, ninguém tasca. Causa preocupação a possibilidade de que o governo americano venha a intervir na ICANN para fazer o mesmo que os governos da China, do Irã ou de Cuba sonham, que é controlar a Internet. Nada garante que a ICANN esteja a salvo de uma intervenção americana no futuro.
Os defensores da liberdade na Internet se vêm numa situação difícil: de um lado, ditaduras querendo legitimar seu controle local sobre a Internet. Do outro, o governo americano, que pode acabar com a liberdade da Internet se quiser.
A decisão tomada na Tunísia, de deixar tudo como está, e apenas criar mais um órgão de debates sobre o assunto, somente adia o problema. A Internet só existe se for livre, mas essa liberdade é frágil e ninguém parece ter a solução para garantir que ela continue assim no futuro.

Friday, November 18, 2005

Wim Wenders

Acabo de entrevistar Wim Wenders para o Milênio da Globo News e tenho que contar para alguém! Estou que nem aquele cara da piada que come a Sharon Stone numa ilha deserta e manda ela se vestir de homem porque ele precisa ter alguém pra contar. Eu tenho o blog...
Ele contou que teve um sonho esta noite. Sonhou que estava acontecendo uma revolução aqui na América, todo mundo na rua. O povo americano tinha acordado de repente para o fato de que não tinha mais nenhum poder e resolvido acabar com isso. E ele estava no meio. Mas de repente se tocou que só podia ser um sonho e acordou.
Contou que quando era garoto na Alemanha, os outros meninos tinham no quarto posters de cinema. E ele tinha posters de Brasília. Achava que a construção de Brasília era a maior aventura da história da humanidade. O sonho dele era conhecer Brasília, o que finalmente conseguiu. Não entende porque os brasileiros não gostam de Brasília. Ele continua adorando.
Perguntei por que ele gosta tanto de Portugal: por causa da inocência dos portugueses.
Disse que agora que fez 60 anos está curtindo voltar aos lugares onde se sente em casa. O problema é que são muitos. Um deles é a Bahia.
Fazer cinema, disse, não é profissão, é privilégio. Se emocionou falando de como o filme dele, Buena Vista Social Club, mudou a vida daqueles abuelos que estavam esquecidos em Cuba.
Disse que o cinema tem que filmar o invisível, o transcendente. Limitar-se a filmar o que pode ser visto é muito pouco.



Depois, muito simpático, tirou fotos com a equipe da Globo aqui (a entrevista foi no escritório) e autografou um poster de Paris Texas do produtor David Presas, que nasceu no Texas (mas, segundo Wenders, tem sotaque brasileiro). O poster, que é enorme, tem uma foto grande da Nastassja Kinski. Wenders desenhou uma imensa asa de anjo nela e assinou embaixo. Ficou deslumbrante.
A entrevista completa vem aí no Milênio, em dezembro. Stay tuned.

Wim Wenders

Thursday, November 17, 2005



Comecei a preparar o capão para o Thanksgiving. Encomendei pelo Fresh Direct o bicho congelado, quatro quilos. O Fresh Direct entrega em casa, os caminhões deles já fazem parte da paisagem aqui. Ninguém tem tempo de fazer compra em supermercado, então é um belo negócio. Também trouxeram a batata doce, a castanha, a abóbora, os cogumelos selvagens, tudo.
Resolvi seguir a técnica de Judy Rodgers no livro Zuni Café (é o restaurante dela em San Francisco), a tradicional salmoura. Num recipiente de plástico grande dissolvi duas xícaras de sal grosso (kosher salt) em quatro litros de água, e juntei temperos: ramos de aneto (dill) e tomilho (thyme) e especiarias moídas no pilão especial que Zenaidinha me deu (bem vinda ao blog querida! você e Clara!). Moí grãos de junípero, pimenta da Jamaica e pimenta do reino. Ficou tão cheiroso! Botei o pássaro dentro e tampei. De vez em quando vou virá-lo.

quando chuvisca ele pisca

Ele ficará assim na geladeira por seis dias. Vai descongelar e enquanto isso a salmoura (em inglês: brine) agirá. A salmoura torna a carne mais molhada, suculenta e saborosa, especialmente em se tratando de aves, que em geral ficam secas quando cozidas. Vamos ver, é a primeira vez que faço isso.
Saiu um roteiro no New York Times do que fazer a cada dia. Você cozinha um prato por dia e congela. Amanhã vou fazer o pudim de batata doce. Depois, um recheio com castanhas, toucinho, miúdos, pão de milho e cogumelos selvagens. Um purê de abóbora com chouriço espanhol. Alguma coisa com milho, ainda não sei o quê. Teremos o tradicional molho de cranberries, aquela frutinha vermelha. Segundo Houaiss, em português cranberry é oxícoco. Deve ser por isso que não tem essa festa no Brasil. Não dá pra dizer: "Passa o oxícoco, por favor" ...

oxícocos

Ah, e vou fazer também um lombinho na panela, depois conto. É que seremos 11 e teremos alguns limpa-trilhos desses que raspam a travessa, o capão sozinho não dá conta.
No dia da festa, quinta que vem, estará tudo pronto e o capão vai cedo para o forno. Levará umas três horas assando, primeiro em forno bem quente, depois em forno brando, virando de cada lado, e só no fim com o peito pra cima, pra não secar demais o peito. Tenho um termômetro de carne. Quando der 155 graus Fahrenheit na coxa, está pronto.

171 histórico. A cena não aconteceu

Essa festa seria uma reprodução da refeição em que os peregrinos (pilgrims), os colonos ingleses em Massachusetts, agradeceram a Deus a primeira colheita que deu certo, em 1621. Um congraçamento com os índios, que teriam trazido para a festa o peru selvagem, batata doce, abóbora, milho e cranberry. Por isso a janta tem que ter isso tudo. Mas como peru é muito sem graça, substitui pelo capão, o galináceo de carne mais saborosa. É um frango capado e engordado.
Essa história dos índios é pura lenda inventada no século XIX. Na verdade, naquele dia de ação de graças, os puritanos agradeceram a Deus por ter mandado uma epidemia de varíola que dizimou os índios. Poucos anos depois, os índios da região já tinham sido exterminados. A festa é tão fake quanto o Natal e Papai Noel. Mas é a festa nacional, o maior feriado-família aqui, mais que Natal, Ano Novo e Páscoa. E como não tem nenhum conteúdo religioso, apesar do nome e da origem, os judeus também fazem, assim como todas as outras etnias que vivem aqui. Para ser americano tem que ter Thanksgiving. Só os índios não comemoram...

Capon Rouge

Tuesday, November 15, 2005



O que é milonga? Não tenho a menor idéia. Não é tango, mas parece. Dizem que é anterior ao tango, é rural, e a palavra milonga tem origem afrobrasileira. Pra mim milonga é uma música melosa, sentimental, gostosa de ouvir e dançar, mais sensual que o tango. Mas posso estar errado. Lá vai milonga!



Milonga sentimental, Carlos Gardel
Milonga para Gardel, Angel Vargas
Milonga triste, Astor Piazzola
Milonga del Angel, Piazzola, com Yo-Yo Ma

Jorge Drexler

Muito bom o show de Jorge Drexler aqui no Joe's Pub. Ele é aquele uruguaio que ganhou o Oscar com a canção Al otro lado del rio do filme Diários da Motocicleta. A produção do Oscar não acreditou nele como intérprete e deu a canção a Antonio Banderas, acompanhado por Santana. Banderas assassinou a música e causou estranheza batendo o ritmo nas coxas (literalmente). Drexler se apresenta solo com guitarra e sampler. Um show.
Esta semana vai ser boa aqui. Sexta tem Luciana Souza no mesmo Joe's Pub. E domingo vamos ver Toots Thielemans no Blue Note com Oscar Castro Neves e Airto Moreira.

Jorge Drexler no Oscar

Jorge Drexler:

Al otro lado del río

Todo se transforma

Samba del olvido

Milonga del moro judio

Jorge Drexler

Monday, November 14, 2005

Peter Braunstein na capa do jornal mais lido de New York

O grande assunto nos blogs e nas redações aqui não é Bush, nem Iraque, nem terrorismo: é o repórter tarado Peter Braunstein, o homem mais procurado pela polícia de New York.
Todo mundo está comentando a coluna que saiu hoje no New York Times escrita por David Carr, reclamando da obessão com o caso e, principalmente, do prazer macabro dos blogs e tablóides em fazer piadas com essa história. Exemplo, no blog Jossip: "Estupro não tem graça, mas Peter Braunstein é hilariante".

Peter Braunstein

Braunstein é acusado de ter atacado uma mulher na noite do Halloween, 31 de outubro. Ele ateou fogo a uma cesta de papéis no prédio da moça e bateu na porta dela vestido de bombeiro, dizendo que tinha vindo apagar o incêndio. Ela o deixou entrar. O tarado amarrou a vítima, e durante 13 horas, além de currá-la, fez fotos dela com vários pares de sapatos de designers como Manolo Blahnik e Salvatore Ferragamo. Se fosse cena da série Sex and the City, ninguém estranharia.
No dia seguinte, Braunstein foi flagrado pelas câmeras do hotel onde pernoitou no mesmo bairro, Chelsea, carregando uma sacola com os sapatos. Ele teria sido identificado depois disso pela vítima, uma ex-colega de trabalho.
Braunstein, 41 anos, é jornalista freelancer e escreve para revistas femininas e jornais alternativos como o Village Voice.
A polícia já descobriu que ele comprou o uniforme de bombeiro no eBay e tinha no computador um texto descrevendo o ataque à mulher em detalhes. Além disso, Braunstein tinha um blog no qual contava fantasias sexuais sadomasoquistas. Em algumas das reportagens que publicou, o tema era o sadomasoquismo em fotos de moda.
O repórter, segundo a polícia, se dedicou nos últimos meses a estudar as táticas policiais em New York, gravando em video cenas de policiamento e arquivando material sobre o assunto. Por isso ele estaria conseguindo escapar à prisão, sempre se antecipando aos policiais.
O fato é que o crime ocorreu há duas semanas e Braunstein continua solto, sendo visto por toda a cidade, inclusive no bairro, Chelsea, onde cometeu o crime. A polícia avisou a modelo Kate Moss para tomar cuidado porque ela está numa lista de mulheres encontrada no computador de Braunstein, junto com o nome da vítima.
Esta é uma mulher de 34 anos que, segundo os tablóides, foi demitida da revista W por ter se apropriado de sapatos usados para fotos de moda. Recentemente, ela teria perdido um novo emprego numa joalheria por ter feito o mesmo com jóias.
Braunstein escreveu um romance não publicado, Paparazzi, sobre uma celebridade que se apaixona pelo tarado que a persegue. Segundo a coluna de gossip do New York Post, o romance é "brilhante".

Peter Braunstein

O blog Gawker está fazendo uma pesquisa de cunho humorístico perguntando: onde está Braunstein? A resposta mais votada: na porta da sede do Gawker.
As mulheres de New York estão evitando andar na rua à noite, com medo do tarado. Algumas que trabalham em revistas de moda e conhecem Braunstein estão deixando a cidade para se esconder em lugares seguros.
Os tablóides e blogs estão fazendo a festa, com manchetes e "furos" de mau gosto em torno de cada detalhe do caso e cada ínfima informação relacionada com Braunstein. Como ele era relativamente conhecido no meio das revistas de moda, não faltam fofocas apimentadas. O nome da namorada que o processou por persegui-la já foi publicado, o que é antiético. Os blogs de fofocas Gawker e Jossip lideram, com seções inteiras dedicadas a Braunstein.
A manchete acima do jornal mais lido na cidade, o New York Post de Rupert Murdoch, é irônica: "SICK GAME", jogo doente, se refere à brincadeira de gato-e-rato que Braunstein está jogando com a polícia. Mas também pode se aplicar à cobertura que o próprio Post, os outros tablóides e os blogs estão dando ao caso. Brausntein tem ligado para passar notas sobre ele mesmo aos redatores da Page Six, a coluna de fofocas do Post, lida por absolutamente todo mundo na cidade.
Parece história de filme de Hollywood, com certeza será filmada em breve, e é o primeiro grande caso policial que envolve diretamente a Internet e a imprensa, na cidade onde tudo o que acontece nesse meio tem repercussão mundial.
David Carr tem razão, a exploração desse caso é grotesca e antiética, mas não adianta reclamar. Esse é o novo mundo da mídia no qual vivemos, descontrolado, desmiolado, obsessivo e sem qualquer escrúpulo. Um mundo no qual a morte, o crime, o macabro, são fonte de entretenimento. Um grand guignol da era da informação, eletrônico, digital e imediato. E o público consumidor (nós) adora.

Capas do Post sobre o caso nos últimos dias:





Friday, November 11, 2005



Está chegando o maior feriado daqui, o Thanksgiving, quando todas as famílias se reúnem em torno de um peru. É um holocausto perual, matam 50 milhões de perus. Eu vou fazer um capão, um frango capado e gordo, mais gostoso que peru, depois conto. Aqui os politicamente corretos e vegetarianos não comem peru, eles adotam perus... E fazem festas onde os perus é que comem. Uma das cenas mais ridículas aqui é o perdão presidencial dado a um peru, escolhido para ser salvo. Foi num desses perdões que fizeram um dos flagrantes mais hilariantes de Bush, quando ele foi atacado pelo peru.



Em 2003, Bush subiu nas pesquisas de opinião quando apareceu de surpresa numa base americana no Iraque para servir o peru aos soldados. Depois a mídia descobriu que o peru era de plástico, preparado para sair bem na foto e não ser pesado demais para Bush carregar.



Para comemorar a data, nada melhor que o texto abaixo de Arundhati Roy, o discurso que ela fez na abertura do Forum Social Mundial em Mumbai no ano passado.


Arundhati Roy

Do turkeys enjoy thanksgiving?
By Arundhati Roy, 2004

LAST JANUARY thousands of us from across the world gathered in Porto Allegre in Brazil and declared — reiterated — that "Another World is Possible". A few thousand miles north, in Washington, George Bush and his aides were thinking the same thing.
Our project was the World Social Forum. Theirs — to further what many call The Project for the New American Century.
In the great cities of Europe and America, where a few years ago these things would only have been whispered, now people are openly talking about the good side of Imperialism and the need for a strong Empire to police an unruly world. The new missionaries want order at the cost of justice. Discipline at the cost of dignity. And ascendancy at any price. Occasionally some of us are invited to `debate' the issue on `neutral' platforms provided by the corporate media. Debating Imperialism is a bit like debating the pros and cons of rape. What can we say? That we really miss it?
In any case, New Imperialism is already upon us. It's a remodelled, streamlined version of what we once knew. For the first time in history, a single Empire with an arsenal of weapons that could obliterate the world in an afternoon has complete, unipolar, economic and military hegemony. It uses different weapons to break open different markets. There isn't a country on God's earth that is not caught in the cross hairs of the American cruise missile and the IMF chequebook. Argentina's the model if you want to be the poster-boy of neoliberal capitalism, Iraq if you're the black sheep.
Poor countries that are geo-politically of strategic value to Empire, or have a `market' of any size, or infrastructure that can be privatized, or, god forbid, natural resources of value — oil, gold, diamonds, cobalt, coal — must do as they're told, or become military targets. Those with the greatest reserves of natural wealth are most at risk. Unless they surrender their resources willingly to the corporate machine, civil unrest will be fomented, or war will be waged. In this new age of Empire, when nothing is as it appears to be, executives of concerned companies are allowed to influence foreign policy decisions. The Centre for Public Integrity in Washington found that nine out of the 30 members of the Defence Policy Board of the U.S. Government were connected to companies that were awarded defence contracts for $ 76 billion between 2001 and 2002. George Shultz, former U.S. Secretary of State, was Chairman of the Committee for the Liberation of Iraq. He is also on the Board of Directors of the Bechtel Group. When asked about a conflict of interest, in the case of a war in Iraq he said, " I don't know that Bechtel would particularly benefit from it. But if there's work to be done, Bechtel is the type of company that could do it. But nobody looks at it as something you benefit from." After the war, Bechtel signed a $680 million contract for reconstruction in Iraq.
This brutal blueprint has been used over and over again, across Latin America, Africa, Central and South-East Asia. It has cost millions of lives. It goes without saying that every war Empire wages becomes a Just War. This, in large part, is due to the role of the corporate media. It's important to understand that the corporate media doesn't just support the neo-liberal project. It is the neo-liberal project. This is not a moral position it has chosen to take, it's structural. It's intrinsic to the economics of how the mass media works.
Most nations have adequately hideous family secrets. So it isn't often necessary for the media to lie. It's what's emphasised and what's ignored. Say for example India was chosen as the target for a righteous war. The fact that about 80,000 people have been killed in Kashmir since 1989, most of them Muslim, most of them by Indian Security Forces (making the average death toll about 6000 a year); the fact that less than a year ago, in March of 2003, more than two thousand Muslims were murdered on the streets of Gujarat, that women were gang-raped and children were burned alive and a 150,000 people driven from their homes while the police and administration watched, and sometimes actively participated; the fact that no one has been punished for these crimes and the Government that oversaw them was re-elected ... all of this would make perfect headlines in international newspapers in the run-up to war.
Next we know, our cities will be levelled by cruise missiles, our villages fenced in with razor wire, U.S. soldiers will patrol our streets and, Narendra Modi, Pravin Togadia or any of our popular bigots could, like Saddam Hussein, be in U.S. custody, having their hair checked for lice and the fillings in their teeth examined on prime-time TV.
But as long as our `markets' are open, as long as corporations like Enron, Bechtel, Halliburton, Arthur Andersen are given a free hand, our `democratically elected' leaders can fearlessly blur the lines between democracy, majoritarianism and fascism.
Our government's craven willingness to abandon India's proud tradition of being Non-Aligned, its rush to fight its way to the head of the queue of the Completely Aligned (the fashionable phrase is `natural ally' — India, Israel and the U.S. are `natural allies'), has given it the leg room to turn into a repressive regime without compromising its legitimacy.
A government's victims are not only those that it kills and imprisons. Those who are displaced and dispossessed and sentenced to a lifetime of starvation and deprivation must count among them too. Millions of people have been dispossessed by `development' projects. In the past 55 years, Big Dams alone have displaced between 33 million and 55 million people in India. They have no recourse to justice.
In the last two years there has been a series of incidents when police have opened fire on peaceful protestors, most of them Adivasi and Dalit. When it comes to the poor, and in particular Dalit and Adivasi communities, they get killed for encroaching on forest land, and killed when they're trying to protect forest land from encroachments — by dams, mines, steel plants and other `development' projects. In almost every instance in which the police opened fire, the government's strategy has been to say the firing was provoked by an act of violence. Those who have been fired upon are immediately called militants.
Across the country, thousands of innocent people including minors have been arrested under POTA (Prevention of Terrorism Act) and are being held in jail indefinitely and without trial. In the era of the War against Terror, poverty is being slyly conflated with terrorism. In the era of corporate globalisation, poverty is a crime. Protesting against further impoverishment is terrorism. And now, our Supreme Court says that going on strike is a crime. Criticising the court of course is a crime, too. They're sealing the exits.
Like Old Imperialism, New Imperialism too relies for its success on a network of agents — corrupt, local elites who service Empire. We all know the sordid story of Enron in India. The then Maharashtra Government signed a power purchase agreement which gave Enron profits that amounted to sixty per cent of India's entire rural development budget. A single American company was guaranteed a profit equivalent to funds for infrastructural development for about 500 million people!
Unlike in the old days the New Imperialist doesn't need to trudge around the tropics risking malaria or diahorrea or early death. New Imperialism can be conducted on e-mail. The vulgar, hands-on racism of Old Imperialism is outdated. The cornerstone of New Imperialism is New Racism.
The tradition of `turkey pardoning' in the U.S. is a wonderful allegory for New Racism. Every year since 1947, the National Turkey Federation presents the U.S. President with a turkey for Thanksgiving. Every year, in a show of ceremonial magnanimity, the President spares that particular bird (and eats another one). After receiving the presidential pardon, the Chosen One is sent to Frying Pan Park in Virginia to live out its natural life. The rest of the 50 million turkeys raised for Thanksgiving are slaughtered and eaten on Thanksgiving Day. ConAgra Foods, the company that has won the Presidential Turkey contract, says it trains the lucky birds to be sociable, to interact with dignitaries, school children and the press. (Soon they'll even speak English!)
That's how New Racism in the corporate era works. A few carefully bred turkeys — the local elites of various countries, a community of wealthy immigrants, investment bankers, the occasional Colin Powell, or Condoleezza Rice, some singers, some writers (like myself) — are given absolution and a pass to Frying Pan Park. The remaining millions lose their jobs, are evicted from their homes, have their water and electricity connections cut, and die of AIDS. Basically they're for the pot. But the Fortunate Fowls in Frying Pan Park are doing fine. Some of them even work for the IMF and the WTO — so who can accuse those organisations of being anti-turkey? Some serve as board members on the Turkey Choosing Committee — so who can say that turkeys are against Thanksgiving? They participate in it! Who can say the poor are anti-corporate globalisation? There's a stampede to get into Frying Pan Park. So what if most perish on the way?
Part of the project of New Racism is New Genocide. In this new era of economic interdependence, New Genocide can be facilitated by economic sanctions. It means creating conditions that lead to mass death without actually going out and killing people. Dennis Halliday, the U.N. humanitarian coordinator in Iraq between '97 and '98 (after which he resigned in disgust), used the term genocide to describe the sanctions in Iraq. In Iraq the sanctions outdid Saddam Hussein's best efforts by claiming more than half a million children's lives.
In the new era, Apartheid as formal policy is antiquated and unnecessary. International instruments of trade and finance oversee a complex system of multilateral trade laws and financial agreements that keep the poor in their Bantustans anyway. Its whole purpose is to institutionalise inequity. Why else would it be that the U.S. taxes a garment made by a Bangladeshi manufacturer 20 times more than it taxes a garment made in the U.K.? Why else would it be that countries that grow 90 per cent of the world's cocoa bean produce only 5 per cent of the world's chocolate? Why else would it be that countries that grow cocoa bean, like the Ivory Coast and Ghana, are taxed out of the market if they try and turn it into chocolate? Why else would it be that rich countries that spend over a billion dollars a day on subsidies to farmers demand that poor countries like India withdraw all agricultural subsidies, including subsidised electricity? Why else would it be that after having been plundered by colonising regimes for more than half a century, former colonies are steeped in debt to those same regimes, and repay them some $ 382 billion a year?
For all these reasons, the derailing of trade agreements at Cancun was crucial for us. Though our governments try and take the credit, we know that it was the result of years of struggle by many millions of people in many, many countries. What Cancun taught us is that in order to inflict real damage and force radical change, it is vital for local resistance movements to make international alliances. From Cancun we learned the importance of globalising resistance.
No individual nation can stand up to the project of Corporate Globalisation on its own. Time and again we have seen that when it comes to the neo-liberal project, the heroes of our times are suddenly diminished. Extraordinary, charismatic men, giants in Opposition, when they seize power and become Heads of State, they become powerless on the global stage. I'm thinking here of President Lula of Brazil. Lula was the hero of the World Social Forum last year. This year he's busy implementing IMF guidelines, reducing pension benefits and purging radicals from the Workers' Party. I'm thinking also of ex-President of South Africa, Nelson Mandela. Within two years of taking office in 1994, his government genuflected with hardly a caveat to the Market God. It instituted a massive programme of privatisation and structural adjustment, which has left millions of people homeless, jobless and without water and electricity.
Why does this happen? There's little point in beating our breasts and feeling betrayed. Lula and Mandela are, by any reckoning, magnificent men. But the moment they cross the floor from the Opposition into Government they become hostage to a spectrum of threats — most malevolent among them the threat of capital flight, which can destroy any government overnight. To imagine that a leader's personal charisma and a c.v. of struggle will dent the Corporate Cartel is to have no understanding of how Capitalism works, or for that matter, how power works. Radical change will not be negotiated by governments; it can only be enforced by people.
This week at the World Social Forum, some of the best minds in the world will exchange ideas about what is happening around us. These conversations refine our vision of the kind of world we're fighting for. It is a vital process that must not be undermined. However, if all our energies are diverted into this process at the cost of real political action, then the WSF, which has played such a crucial role in the Movement for Global Justice, runs the risk of becoming an asset to our enemies. What we need to discuss urgently is strategies of resistance. We need to aim at real targets, wage real battles and inflict real damage. Gandhi's Salt March was not just political theatre. When, in a simple act of defiance, thousands of Indians marched to the sea and made their own salt, they broke the salt tax laws. It was a direct strike at the economic underpinning of the British Empire. It was real. While our movement has won some important victories, we must not allow non-violent resistance to atrophy into ineffectual, feel-good, political theatre. It is a very precious weapon that needs to be constantly honed and re-imagined. It cannot be allowed to become a mere spectacle, a photo opportunity for the media.
It was wonderful that on February 15th last year, in a spectacular display of public morality, 10 million people in five continents marched against the war on Iraq. It was wonderful, but it was not enough. February 15th was a weekend. Nobody had to so much as miss a day of work. Holiday protests don't stop wars. George Bush knows that. The confidence with which he disregarded overwhelming public opinion should be a lesson to us all. Bush believes that Iraq can be occupied and colonised — as Afghanistan has been, as Tibet has been, as Chechnya is being, as East Timor once was and Palestine still is. He thinks that all he has to do is hunker down and wait until a crisis-driven media, having picked this crisis to the bone, drops it and moves on. Soon the carcass will slip off the best-seller charts, and all of us outraged folks will lose interest. Or so he hopes.
This movement of ours needs a major, global victory. It's not good enough to be right. Sometimes, if only in order to test our resolve, it's important to win something. In order to win something, we — all of us gathered here and a little way away at Mumbai Resistance — need to agree on something. That something does not need to be an over-arching pre-ordained ideology into which we force-fit our delightfully factious, argumentative selves. It does not need to be an unquestioning allegiance to one or another form of resistance to the exclusion of everything else. It could be a minimum agenda.
If all of us are indeed against Imperialism and against the project of neo-liberalism, then let's turn our gaze on Iraq. Iraq is the inevitable culmination of both. Plenty of anti-war activists have retreated in confusion since the capture of Saddam Hussein. Isn't the world better off without Saddam Hussein? they ask timidly.
Let's look this thing in the eye once and for all. To applaud the U.S. army's capture of Saddam Hussein and therefore, in retrospect, justify its invasion and occupation of Iraq is like deifying Jack the Ripper for disembowelling the Boston Strangler. And that — after a quarter century partnership in which the Ripping and Strangling was a joint enterprise. It's an in-house quarrel. They're business partners who fell out over a dirty deal. Jack's the CEO.
So if we are against Imperialism, shall we agree that we are against the U.S. occupation and that we believe that the U.S. must withdraw from Iraq and pay reparations to the Iraqi people for the damage that the war has inflicted?
How do we begin to mount our resistance? Let's start with something really small. The issue is not about supporting the resistance in Iraq against the occupation or discussing who exactly constitutes the resistance. (Are they old Killer Ba'athists, are they Islamic Fundamentalists?)
We have to become the global resistance to the occupation.
Our resistance has to begin with a refusal to accept the legitimacy of the U.S. occupation of Iraq. It means acting to make it materially impossible for Empire to achieve its aims. It means soldiers should refuse to fight, reservists should refuse to serve, workers should refuse to load ships and aircraft with weapons. It certainly means that in countries like India and Pakistan we must block the U.S. government's plans to have Indian and Pakistani soldiers sent to Iraq to clean up after them.
I suggest that at a joint closing ceremony of the World Social Forum and Mumbai Resistance, we choose, by some means, two of the major corporations that are profiting from the destruction of Iraq. We could then list every project they are involved in. We could locate their offices in every city and every country across the world. We could go after them. We could shut them down. It's a question of bringing our collective wisdom and experience of past struggles to bear on a single target. It's a question of the desire to win.
The Project For The New American Century seeks to perpetuate inequity and establish American hegemony at any price, even if it's apocalyptic. The World Social Forum demands justice and survival.
For these reasons, we must consider ourselves at war.

©Arundhati Roy

Arundhati Roy
Portinari

É HORA DE RESSUSCITAR DOM QUIXOTE
Anna Maria Ribeiro

Sinto que é hora de ressuscitar Dom Quixote. Mas não o Sancho! Este está vivo. Vivíssimo. Clonado em sua racionalidade em milhares de cidadãos, sobretudo naqueles que deveriam nos orientar para um mundo melhor. Dirão-me que é necessário ser racional.
Mas, cá do meu lado, o que ando sentindo e querendo – querendo muito – é sonhar o sonho impossível. É preciso, necessário, imprescindível que meio a tanta feiúra sejamos capazes de, loucos, identificar o inimigo nos moinhos de vento. Porque o inimigo real não está valendo uma luta racional, dentro dos conformes. Talvez estes – os moinhos – tão belos em sua postura, tão poderosos em sua capacidade de domar o vento e torná-lo seu escravo, sejam exatamente aqueles que nos fazem tanto mal e que, camuflados, tentam impedir que sejamos capazes de identificá-los.
Sejamos poetas em nossa revolta. Heróicos em nossa postura diante do impossível. Deixemos que em vão os Sanchos tentem nos explicar o que vai por aí. Vamos ver o que nossa loucura enxerga. Num corcel pífio, porque outro não temos, e que seremos capazes de ver como lindo, vamos cavalgar por este país afora pregando a luta mágica, porque a real já não surte efeito. E Rocinante nos levará às pequenas cidades, às pequenas vilas e nós soltaremos o brado: Vocês foram enganados. Sancho dirá que é assim mesmo. Mas não vamos escutá-lo. Ou melhor, vamos dar a ele a explicação mágica na qual ele não vai acreditar, mas o que importa? Sancho é assim
mesmo. Tanto os de esquerda quanto os de direita. Proliferam, dão explicações, razões, motivos. Falam demais. Explicam, esquadrinham, investigam e chegam... ao nada. A fome, a injustiça, o desânimo, a dor, explicados e esquadrinhados, objeto de projetos, leis, intenções, discussões, propostas, tudo muito racional e até posto no papel timbrado e com fé pública, permanecem nas esquinas das cidades e nos rincões longínquos onde esquina não há.



Vamos nos perder de amores por Dulcinéia que “teve assomos de dama, de Dom Quixote foi chama e glória de sua aldeia”. Importa lá se estes assomos de dama não são vistos, reconhecidos e louvados naquelas que habitam estes rincões tão longínquos? O que vamos sentir será real e nos trará momentos de ardor. Não de raiva, não de desânimo, não de impotência. Por que estes já nos cansam sentir. Não que Sancho seja mau, ou mesmo desonesto. Não! É apenas conformado com o que existe. E isto é terrível. Me vem, de longe, a voz doce de Seu Teófilo, sábio caipira de muita saudosa memória: “Devêra de ser assim mesmo...” Não! Não devêra. Nada deve ser assim mesmo. Dom Quixote não deixaria que assim fosse. Iria lutar. Esbravejar. Gritar e avançar valoroso, incitando Rocinante a que o levasse à batalha. Debalde? Até pode ser... Mas como tentar valeria a pena! Justificaria uma vida como ocorreu com ele – Dom Quixote. Valeu para ele que até hoje vive em sua história que sabemos, lemos, compreendemos, admiramos, nos emocionamos, mas somos incapazes de repetir.
Vamos nos tornar surdos aos apelos de Sancho que nos chama à razão.
Razão que impede que dentro de nós a indignação que existe, se mostre, tome corpo e torne-se ação perdendo o início da palavra que a impede, sufoca e faz mal. Porque faz. Muito mal. Indignação sem ação “é maus” como diriam meus mais jovens conhecidos. E é, sobretudo, a estes jovens que falo. Vocês, na coragem e na falta de prudência que é própria, são capazes de mudar o sentido da palavra “quixotada” e torná-la significativa de uma ação de dar gosto. Esta ação pode começar por um simples plástico colado a um carro, a uma moto, a uma bicicleta. Estes carros, estas motos, estas bikes, fazendo o papel de Rocinante, percorrerão esta cidade, e outras e mais outras e quem sabe até aqueles rincões longínquos onde a esperança há muito deixou de existir porque o “devêra de ser assim mesmo” instalou-se pra ficar. Nestes rincões seria melhor que ao invés de plástico o grito, o alerta, o chamamento tomasse corpo nos pára-choques dos caminhões que por lá passam carregados de comidas, frutas e até flores, informando a todos que deles só aproveitam a poeira, que em algum lugar neste País chegam bens que garantem a vida e a beleza do viver. E os olhos dos que não têm mais esperança desviariam o olhar da lona que cobre a carga, símbolo do impossível alcançar que diariamente os massacra, para a frase que resgata esta esperança:
QUE SE VAYAM TODOS!

Jacques Brel como Dom Quixote

Tuesday, November 08, 2005

Moquecá

dendê, fonte do azeite mais saudável que existe

Minha amiga bahiana Angela Mariani diz que a minha moqueca é boa mas não é moqueca, é moquecá, afrancesada. Na Bahia, segundo ela, não faria sucesso.

Bem, eu dispenso o que todo bahiano faz, quebrar o coco seco pra tirar o leite. Uso o leite de coco em garrafa ou em lata. Fora isso, não vejo muita diferença entre a minha moqueca e a deles, mas enfim...

Primeiro faço o molho, refogando no azeite (de oliva, que os bahianos chamam de azeite doce) muita cebola picada, pimentão e tomate. Acrescento coentro, salsa e cebolinha. Deixo esse molho cozinhar um tempão até ficar uniforme. Dependendo das cores do pimentão, o molho fica mais claro ou mais escuro. Uma vez eu levei os pimentões ao forno antes, pra queimar a pele e apurar o gosto. Ficou ótimo, mas a cor da moqueca acabou sendo escura demais. Assim mesmo o presidente Fernando Henrique, que comeu essa moqueca aqui em New York, adorou e repetiu três vezes.

Pronto o molho, acrescento rodelas de pimentão de várias cores e deixo cozinhar uns 20 minutos, sem deixar desmanchar. É pra enfeitar.

Adoro siri mole, daquele pequeno, difícil de achar. É mais saboroso. Então depois de bem limpinho é só botar no molho até ficar avermelhado. Pronto.

Também costumo botar carne de caranguejo, daquela da pata, que já vem solta. Também leva só uns dois minutos se tanto pra ficar pronto, senão desmancha.

Se for peixe (adoro o Chilean sea bass, mas é espécie ameaçada, então ficou difícil achar), leva uns 10 minutos pra cozinhar no molho, sem deixar desmanchar.

Por fim, a moqueca pode ser de camarão, que também leva um minuto mais ou menos pra ficar cozido no molho.

Simples, não? Da última vez juntei tudo: primeiro o peixe, depois o caranguejo, o siri mole e por fim o camarão. Ficou divina, a moquecá.

Ah, quase esqueço. Depois de pronta, fora do fogo, acrescenta-se o leite de coco e o azeite de dendê, a gosto (uso uma garrafinha de leite de coco para uma moqueca grande, e uma colher ou duas de dendê). O dendê vem da fazenda da Angela, um luxo.

Sirvo com molho de pimenta, arroz branco. E farofa de dendê: refogo a cebola no azeite, depois vou jogando a farinha sem deixar ficar seca, e por fim o dendê pra ficar bem amarelinha. E quem disser que azeite de dendê não é saudável vá se informar no site PalmOilWorld.org. Dendê faz bem à saúde, reduz o colesterol e é riquíssimo em vitaminas antioxidantes.
babuínos como este e macacos em geral dormem mais de 10 horas por dia

Boa reportagem no caderno de ciências do Times sobre o sono dos animais. Estão estudando como eles dormem pra tentar entender pra que serve o sono. A conclusão inicial do estudo não poderia ser mais acaciana: o sono serve para o cérebro recarregar os neurônios que trabalharam demais durante o dia. Em outras palavras, o sono serve para descansar. Puxa, é mesmo?!
Mas o bacana é ler sobre como os diferentes animais dormem.
Os patos, por exemplo, dormem com um olho aberto, o olho que está virado para o lado de onde pode vir o perigo. Depois de um tempo, levantam, viram do outro lado e aí é o olho oposto que passa a ficar aberto. Tem outros pássaros que fazem isso, como a galinha, o pinguim e a coruja, e muitos répteis também. É só a metade do cérebro correspondente ao olho fechado que dorme, a outra metade fica numa semivigília para despertar o animal em caso de perigo.
O tempo de sono dos animais varia muito.
O sapo, por exemplo, não dorme nada.
Já o camundongo dorme 20 horas por dia.
A girafa precisa de apenas duas horas de sono por dia.
O cão tem que dormir 10 horas, e a galinha 11.
A mosca, 10 horas.
O cavalo, três. A vaca, quatro.

clique no gráfico para ver ampliado

Monday, November 07, 2005

Tom Anderson

O rapaz da foto é descrito pela revista Wired como a pessoa mais popular do mundo. Afinal, Tom Anderson tem, no momento em que começo a escrever, 36 795 251 amigos, número que cresce ao ritmo de 140 mil por dia.
Tom, 29 anos, criou o maior fenômeno do momento na Internet, a rede social MySpace.com, que completou dois anos no fim de outubro. Quando você entra para a rede, o que leva só um minuto, de cara já ganha um amigo, Tom.
Em julho, o mogul da mídia Rupert Murdoch comprou MySpace por 580 milhões de dólares. Mas deixou Tom no comando, com sua equipe de 140 pessoas, em Santa Monica, Califórnia.

Murdoch, que não dá ponto sem nó, acertou na mosca. De julho para cá MySpace já conquistou mais 9 milhões de integrantes, na maioria jovens.
MySpace tem mais hits por dia do que o Google. Só perde para Yahoo! e eBay. Bem que o Google tentou com a rede Orkut, mas por algum motivo inexplicável 80% dos 10 milhões de usuários do Orkut estão no Brasil, e o que interessa ao mercado é o jovem norte-americano...
Tom Anderson tinha uma banda de rock chamada Swank, que durou pouco. Aborrecido com a dificuldade de divulgação de novas bandas, ele criou MySpace como um lugar para os músicos entrarem em contato com o público. Hoje, 400 mil bandas têm blogs em MySpace. A rede tornou-se o mais importante meio para o marketing de música.
Esta semana, Anderson abre sua própria gravadora, o selo MySpace, para lançar CDs das bandas que fazem parte da rede.
Em torno do objetivo inicial, ouvir música nova, My Space foi crescendo como rede social, com todo tipo de grupos e interesses.
Por enquanto MySpace não é rentável e tem poucos anúncios. Mas já está todo mundo de olho no potencial. Já imaginou, uma rede que ganha 3 milhões de novos usuários por mês, na faixa etária que mais interessa aos anunciantes, sendo que cada um passa em média duas horas ali por dia?
MySpace é o que há de mais quente no momento. Até que outro jovem tenha uma nova idéia e MySpace vá se juntar ao Orkut e ao Friendsters, como coisa do passado.
E agora, passados alguns minutos, Tom já tem 36 804 231 amigos...

Charles Darwin

Vem aí uma grande exposição sobre Darwin no American Museum of Natural History aqui em New York. Abre dia 19 de novembro. É ao mesmo tempo uma apresentação didática da teoria da evolução e um mergulho na vida do cientista. Foram recriados ambientes onde ele trabalhou, como o navio Beagle, no qual passou pelo Brasil a caminho das ilhas Galápagos. Entre outras raridades, há o manuscrito no qual Darwin anotou o momento do Eureka!, quando ele intuiu a idéia da seleção natural. Imperdível.

Mas é triste ver que os americanos entraram em franca regressão intelectual e não acreditam na teoria de Darwin, como se ela fosse uma crença religiosa e não Ciência, a base de toda a biologia e de outros ramos científicos. Segundo pesquisa recente da rede CBS, 51% dos americanos acreditam que todas as espécies foram criadas por Deus, tal qual existem, e que a evolução não existe. E 38% gostariam que em vez da teoria da evolução as escolas ensinassem o creacionismo, a doutrina de que a Terra e a vida foram criadas por Deus exatamente como a Bíblia descreve, há 6 mil anos.

Está correndo na Pennsylvania um processo, em tribunal federal, de um grupo de pais contra um distrito escolar que obrigou os professores de ciências a incluir no currículo a advertência de que a teoria da evolução não está provada e que há outras explicações para a vida na Terra. Uma delas, o mais recente disfarce do criacionismo, é chamada de "intelligent design", mais sutil porque admite que a Terra e a vida existem há mais tempo do que a Bíblia afirma, mas insiste que as formas de vida são complexas demais para terem surgido espontaneamente, só podem ter sido criadas por uma inteligência superior.

A mesma direita cristã evangelica e fundamentalista que constitui a base política do partido republicano e do governo Bush pressiona para que a "teoria" do intelligent design seja ensinada nas escolas, e conta até com "especialistas", professores universitários e "cientistas" que refutam Darwin e a teoria da evolução. O presidente Bush chegou ao cúmulo de dizer que "os dois lados da questão" deveriam ter a mesma chance de ser ouvidos e ensinados.

os dois lados de Bush, prova de que Darwin estava certo

O museu de história natural preparou seu pessoal para responder a críticas do público e teve a coragem de incluir na exposição sobre Darwin a afirmação de que a tal "teoria" do intelligent design não passa de um truque para reintroduzir o criacionismo, que a Suprema Corte proibiu que seja ensinado nas escolas públicas, em decisão de 1987 (mas que pode ser revista, nunca se sabe), por ser uma doutrina religiosa. Lembra também que os mesmos ataques foram feitos a Darwin quando publicou A Origem das Espécies há quase 150 anos. Os críticos da época se diziam indignados com a idéia de que o homem descenderia do macaco...

A campanha contra Darwin acontece ao mesmo tempo em que os Estados Unidos afundam na educação básica. Muitas universidades aqui são centros de excelência, mas recrutam cada vez mais estrangeiros, porque o ensino primário e secundário no país (mesmo que ainda ensine a teoria da evolução) caiu para níveis jurássicos. Em comparação com os outros países desenvolvidos, especialmente da Ásia, os estudantes americanos têm as piores performances em testes, seja em ciências, matemática, história, ou geografia.

Este país tornou-se a maior potência do planeta graças à engenhosidade e empenho de muitas gerações. Mas desde que se tornou o centro do Império, rico demais para seu próprio bem, o povo americano sentou-se sobre os louros, ligou a TV, abriu a cerveja e desligou o cérebro.


exposição Vozes do Sul das Nuvens


No mesmo museu que vai trazer Darwin de volta, há outra exposição pequena e instingante, Vozes do Sul das Nuvens. São fotos feitas por camponeses chineses de uma região montanhosa da província de Yunnan. Uma ong americana, a Nature Conservancy, distribui cameras simples e rolos de filme colorido entre os moradores das aldeias, e eles fotografam seu dia-a-dia e a natureza deslumbrante do lugar. São fotos de nível profissional. Mostram a dureza do cotidiano e a beleza da vida. E a criatividade do povo chinês. Com o declínio do império americano, a China vem aí! É a evolução natural... ou foi Deus quem assim quis?


Vozes do Sul das Nuvens - mulher ofertando sangue de galinha ao deus da terra


Vozes do Sul das Nuvens - segundo o fotógrafo a geleira está cada vez menor e o lago maior

Alguns dos camponeses-fotógrafos chineses foram trazidos a New York para a abertura da exposição. Não ficaram deslumbrados com a cidade. "Os prédios são muito altos", disse um deles ao New York Times, "mas nenhum é tão alto quanto nossa montanha mais baixa".


Vozes do Sul das Nuvens

Sunday, November 06, 2005

O velhinho sempre vem



Vem aí um texto genial da Anna Maria sobre Papai Noel, aguardem. Enquanto isso, já que Papai Noel não se esquece de ninguém, aí vai acima o Jake Gyllenhaal no filme Jarhead.

Gumbobó na abóbora



Me perdoem a aliteração, mas deu certo.

Eu tinha congelado o que sobrou daquele gumbo do outro dia. E também o pirão de mandioca (tipo pirão para bobó). Aí chegou o Halloween. Abóboras pululam. Então resolvi juntar tudo, acrescentar camarões, e inventar o Gumbobó na abóbora.

Primeiro escolhi uma abóbora grande, redonda, bonitona. É do tipo que só serve de enfeite. No caso, de "sopeira" para o gumbobó. Abri a tampa com uma faca grande bem afiada, retirei todos os caroços e a fibra, besuntei por dentro e por fora com azeite e levei a abóbora ao forno em banho maria, de cabeça pra baixo, até ficar dourada, uma meia hora ou mais. Retirei do forno e deixei a abóbora, com a tampa de volta, descansar de pé (estava firme na vertical, se não estivesse teria que cortar um pouco o pé para equilibrar).

Enquanto isso, descongelei no microwave o gumbo e o pirão. Na cocotte, panelão de ferro esmaltado, botei duas latas de creme de abóbora, sem açúcar, e derreti meio quilo de mascarpone, o catupiry italiano. Salguei.

Nesse molho de abóbora e queijo acrescentei o gumbo (cerca de um quilo) e o pirão (pouco mais de meio quilo). Mexi bem até tudo incorporar num caldo bem grosso. Provei e precisei salgar de novo.

Por fim acrescentei uma dúzia e meia de camarões (podia ser mais, eram 10 convidados, mas tínhamos outros pratos, então deu) e apaguei o fogo. Os camarões cozinharam no calor da panela.

Na hora de servir, esquentei a panela, botei folhinhas de coentro e virei tudo com uma concha dentro da abóbora. Servi em prato fundo com arroz branco. Uma délícia. Cada um acrescenta sal e pimenta a gosto.

Mau negócio



Mau negócio
Jorge Pontual

Não sei se a imprensa brasileira deu o devido destaque à performance lamentável do Brasil no último relatório do Banco Mundial sobre a facilidade (no caso dificuldade) em fazer negócios em cada país. Mas vi que, em resposta a esse estudo, o prefeito de São Paulo, José Serra, fez um convênio com o Banco Mundial para enfrentar o problema, pelo menos na cidade. Bom para os paulistanos, que sabem votar.

O estudo cobre 155 países e avalia coisas como o tempo que se leva para abrir uma empresa, a facilidade em contratar e despedir empregados, registro de propriedade, pagamento de impostos, etc.

No ranking geral o Brasil ficou em 119. Como diz o Boris Casoy, é uma vergonha.

E não pensem que esse relatório não tem importância. É usado pelas empresas para avaliar em que países farão seus investimentos.

Na sexta-feira, o Wall Street Journal mencionou a posição preocupante do Brasil nesse ranking, associando esse fato à queda nos investimentos externos no país. Seria o caso de o governo federal, e não apenas a prefeitura de São Paulo, acordar para o problema.

Segundo o Banco Mundial, abrir um negócio no Brasil leva em média 152 dias. E é necessário passar por 17 etapas. O custo disso equivale a 10,1% do PIB.

O item em que o Brasil tem a pior performance é a facilidade em contratar e demitir funcionários. Nosso país está em 144 no ranking de 155 países. Fora alguns países miseráveis da África, neste ponto o Brasil só perde para Portugal e Espanha. Sinal de que o corporativismo ibérico está entranhado na nossa legislação trabalhista.

O Brasil também vai mal na carga tributária. Isso a gente sempre soube, mas o que assusta é descobrir que estamos em 140 no ranking mundial. Uma empresa média no Brasil, segundo o relatório do Banco Mundial, tem que pagar 23 impostos diferentes, gastar nisso 2 600 horas e pagar 147% do lucro.

Enquanto o Chile está muito bem no item impostos e todos os outros, sendo o melhor país para fazer negócios na América Latina, na região nós só perdemos para a Venezuela. Está aí um alerta para os incautos que se deixam seduzir pela Revolução Bolivariana de Hugo Chavez. Em todo o continente, só a Venezuela é pior do que o Brasil para se fazer negócios. É esse o modelo que estão querendo copiar?

O mais preocupante é que todos os 36 países piores que o Brasil nesse ranking são economias pequenas, nações de quase nenhum peso. Não há como justificar que uma das maiores economias do mundo, com a população e extensão do Brasil, esteja tão atrasada. O alto custo de investir na nossa economia explica o baixo índice de crescimento e o alto desemprego, entre muitas outras coisas.

Simplificar as leis e regulamentos, reduzir a carga de impostos, tornar a burocracia menos emperrada, será que é tão difícil assim? Ou será que gostamos de estar na companhia de Burkina Faso, Congo, Camarões, Serra Leoa e Burundi, entre os países onde só os loucos têm a coragem de abrir um negócio?

Espere um segundo



ESPERE UM SEGUNDO
Jorge Pontual

Uma decisão que será tomada esta semana por um grupinho de burocratas em Genebra pode acabar com o costume milenar de associar a contagem do tempo à rotação da Terra.

A União Internacional de Telecomunicações, órgão da ONU, se reúne para considerar a proposta dos Estados Unidos de acabar com o “segundo extra” (em inglês, leap second) que vem sendo acrescentado ao tempo contado pelos relógios atômicos desde 1972. Vinte e dois segundos extras já foram incluídos desde então, e mais um vem aí em 31 de dezembro de 2005.

O segundo extra é necessário para ajustar o tempo dos relógios atômicos ao tempo da rotação da Terra. Estabeleceu-se que um segundo é o tempo de uma rotação completa do planeta dividido por 86 400 (um dia tem 86 400 segundos). A partir daí, calculou-se que este segundo, esta duração de tempo, era exatamente equivalente a 9 192 631 770 ciclos da frequência de radiação do átomo do césio. Esta é fixa, e garante a precisão dos relógios atômicos.

relógio atômico


Mas a rotação da Terra não é fixa. A ação do Sol e da Lua sobre os oceanos que cobrem 70% do nosso planeta aquático – impropriamente chamado Terra – funciona como um freio, e a rotação dura um infinitésimo mais, a cada dia. Ao fim de um ano, o tempo contado a partir da rotação da Terra, o tempo astronômico também chamado Tempo Universal, pode chegar a um segundo a mais do que o tempo contado pelos relógios atômicos. Decidiu-se então acrescentar um segundo extra, toda vez que essa diferença chegar a um segundo, como já aconteceu 22 vezes.

Para todos que dependem do TAI, Tempo Atômico Internacional, o segundo extra é um inferno. O sistema que controla o posicionamento por satélite, o GPS, tem que ser ajustado toda vez que se introduz o segundo extra. Isso já levou a erros e danos consideráveis. Daí a pressão do poderoso setor de software, e de toda a área tecnológica, para que o governo americano leve a UIT a acabar com o segundo extra. A solução proposta é parar de introduzir o segundo extra a partir de 2007. Daqui a mais ou menos 360 anos, quando a diferença entre o tempo atômico e o tempo astronômico chegar a uma hora, essa hora extra seria introduzida, de uma só vez.

relógio atômico

A UIT vinha discutindo essa mudança em segredo quando alguém decidiu vazar o debate para a imprensa há poucos meses. Os astrônomos reagiram com indignação, liderados pela Royal Astronomical Society da Grã-Bretanha (a qual vai perder a hegemonia do tempo de Greenwich, que deixaria de ser preciso). Se o segundo extra for eliminado, os astrônomos é que vão ter que ajustar seus equipamentos para que o tempo medido por eles não fique defasado em relação ao resto. O custo disso é incalculável.

O fato é que a decisão está para ser tomada sem consulta aos interessados – todos nós. Será que é o desejo da humanidade desvincular, pela primeira vez na História, a nossa contagem do tempo e a rotação da Terra, que é o que nos conecta ao movimento dos astros e ao Universo?



Do ponto de vista da alta tecnologia, não há dúvida. Dane-se o tempo astronômico. O que conta é a precisão do tempo atômico. Afinal, há décadas a ciência e a tecnologia abandonaram a evidência do bom senso e dos sentidos e mandaram às favas a “realidade cotidiana”. O tempo, para a ciência einsteiniana, é tão relativo quanto tudo o mais.

Mas a passagem do tempo é algo real e fundamental para as nossas vidas. Mal ou bem, somos animais e vivemos sobre as poucas partes secas deste planeta aquático – e mesmo essas placas sólidas flutuam sobre magma líquido, como os terremotos nos lembram de vez em quando – e desde sempre nos guiamos pelo nascer e o pôr do sol, ilusão que se deve à rotação da Terra em torno do seu eixo.



O próprio conceito de Tempo surgiu da observação da regularidade desses fenômenos astronômicos: o dia solar, o mês lunar, os solstícios e equinócios que marcam a sequência das estações do ano. Como escreveu Jorge Luis Borges, o tempo é a substância de que somos feitos. E o universo que observamos com nossos olhos é real e temporal.

O tempo dos nossos antepassados sobrevive nos relógios de ponteiros e faces circulares, de rodas e pêndulos, na imprecisão dos relógios solares que acompanham a sombra do sol. Já o novo tempo tecnológico é digital, atômico, implacável. É, como virou moda dizer, um novo paradigma.

O segundo extra foi inventado como uma forma de ajustar os dois mundos, o astronômico, analógico, ao atômico, digital. Um jeitinho engenhoso de aderir ao novo sem sacrificar o velho. Será que está na hora de deixar que uma pequena elite, por pressão das empresas de alta tecnologia, tome uma decisão que representará o rompimento irreversível com o passado e com o universo real que nos cerca?



Enquanto ponderamos o problema, vale a pena reler o poema de Baudelaire, O Relógio, que traduzi para o português.

Thursday, November 03, 2005

o computador de Susan Sontag onde ela procurou na Internet tudo sobre o câncer dela

December 4, 2005
Illness as More Than Metaphor
By DAVID RIEFF
My mother, Susan Sontag, lived almost her entire 71 years believing that she was a person who would beat the odds. Even during the last nine months of her life, after she was discovered to have myelodysplastic syndrome, or M.D.S., a particularly virulent blood cancer, she continued to persevere in the belief that she would be the exception. M.D.S. is technically a precursor to acute myeloid leukemia. On average, its survival rates across the generational cohorts are no better than 20 percent, and far worse for a woman in her early 70's who had had cancer twice before. It wasn't that she didn't know that the biological deck was stacked against her; as someone who prided herself on her ability to grasp medical facts, she knew it only too well. In the immediate aftermath of her diagnosis, she went online to learn all she could about M.D.S. and despaired as the fact of its lethality sank in. But that despair was almost the flip side of a lifelong confidence in her ability to defy the odds. "This time, for the first time," she told me, "I don't feel special."
Remarkably, in only a few weeks she had righted herself psychologically and was gearing up, just as she had done during her successful fights to survive two previous cancers, to find the doctors and the treatments that seemed to offer her some hope of defying those terrifyingly long odds and once more becoming the exception. How she did this, I don't know. Perhaps it was the spirit that had led her, when she recovered from her first cancer, to write a little proudly in her book "AIDS and Its Metaphors" of "confounding my doctors' pessimism." Perhaps she was able, somehow, to confound her own as well. What I do know is that the panic attacks that had overwhelmed her after her diagnosis began to lessen, and in the M.D.S. literature that she found on the Web she began to find reasons for hope rather than despair. She even began to work again, writing a fiery piece on the Abu Ghraib torture photographs for this magazine at the same time she was readying herself to become a patient at the Fred Hutchinson Cancer Research Center in Seattle, where the bone-marrow transplant that was her only realistic hope of cure had been pioneered.
Her "positive denial," as I always thought of it, whether with regard to her health, her work as a writer or her private life, had not been extinguished by the hard facts of M.D.S. after all. On her 70th birthday, 15 months before she found out she was ill again, she talked to me at length and with the characteristic passion she brought to her work about how she was only now starting a new and, she thought, the best phase of her writing life. Leaving for Seattle, she began speaking again of projects she would undertake - above all the novel she had been outlining - after her return to New York and even to speculate about whether she would feel strong enough to write during her treatment.
Was it bravado? Doubtless it was, but not bravado alone. During the two years of chemotherapy she underwent in the mid-1970's to treat her first cancer - Stage 4 breast cancer that had spread into 31 of her lymph nodes - she managed to publish a book on photography and, a year later, her book "Illness as Metaphor." That time, she had beaten the odds. William Cahan, then her principal doctor at Memorial Sloan-Kettering Cancer Center in New York, told me at the time that he saw virtually no hope. (Those were the days when doctors often told patients' relatives things they did not disclose to the patients themselves.) But as her friend Dr. Jerome Groopman, chief of experimental medicine at the Beth Israel Deaconess Medical Center in Boston, told me a few months after her death: "The statistics only get you so far. There are always people at the tail of the curve. They survive, miraculously, like your mother with breast cancer. Her prognosis was horrific. She said: 'No, I'm too young and stubborn. I want to go for it"' - meaning treatment. "Statistically, she should have died. But she didn't. She was at the tail of that curve."
"We tell ourselves stories in order to live." The line is Joan Didion's, and looking back on my mother's life, I've been wondering lately if we don't tell them to ourselves in order to die as well. In retrospect, I realize that death was never something my mother talked about much. But it was the ghost at the banquet of many of her conversations, expressed particularly in her single-minded focus on her own longevity and, as she got older, by her frequent voicing of the hope of living to be 100. She was no more reconciled to extinction at 71 than she had been at 42. After her death, a theme in many of the extremely generous and heartfelt letters of condolence I received from her friends puzzled me: it was surprise - surprise that my mother hadn't beaten M.D.S. as she had beaten both breast cancer and the uterine sarcoma that struck her in her mid-60's.
But then, she, too, was surprised when the doctors in Seattle came in to tell her the bone-marrow transplant had failed and her leukemia was back. She screamed out, "But this means I'm going to die!"
I will never forget that scream, or think of it without wanting to cry out myself. And yet, even that terrible morning, in a pristine room at the University of Washington Medical Center, with its incongruously beautiful view of Lake Union and Mount Rainier in the background, I remember being surprised by her surprise. I suppose I shouldn't have been. There are those who can reconcile themselves to death and those who can't. Increasingly, I've come to think that it is one of the most important ways the world divides up. Anecdotally, after all those hours I spent in doctors' outer offices and in hospital lobbies, cafeterias and family rooms, my sense is that the loved ones of desperately ill people divide the same way.
For doctors, understanding and figuring out how to respond to an individual patient's perspective - continue to fight for life when chances of survival are slim, or acquiesce and try to make the best of whatever time remains? - can be almost as grave a responsibility as the more scientific challenge of treating disease. In trying to come to terms with my mother's death, I wanted to understand the work of the oncologists who treated her and what treating her meant to them, both humanly and scientifically. What chance was there really of translating a patient's hope for survival into the reality of a cure? One common thread in what they told me was that interpreting a patient's wishes is as much art as science. Dr. Stephen Nimer, my mother's principal doctor, heads the division of hematologic oncology at Memorial Sloan-Kettering and is also one of America's foremost researchers in the fundamental biology of leukemia. As he explained it to me: "The fact is that people are never as educated as the doctor. You have to figure out something about the patient" - by which he meant something that takes both patient and physician beyond the profound, frustrating and often infantilizing asymmetry between the patient's ability to comprehend the choices to be made and the doctor's.
Still, the doctor's task here is not impossible. As Nimer put it: "There are risk takers and risk-averse. There are those who say, you know: 'I'm 70 years old. If I get another four or five months, that would be fine.' Others say, 'You do everything you can to save my life.' Then it's easy. You can go straight into a discussion of what a patient wants."
For Nimer, as for Jerome Groopman, the ethical challenge, vital for a doctor to recognize and impossible (and ethically undesirable) to deal with formulaically, comes not with the 30 percent of patients Nimer estimates know for certain whether they want aggressive treatment or not, but with the "undecided" 70 percent in the middle. As Nimer told me somewhat ruefully, the doctor's power to influence these patients, one way or the other, is virtually complete. "There are ways to say things," he said. "'This is your only hope.' Or you could say, 'Some doctors will say it's your only hope, but it has a 20 times better chance of harming you than helping you.' So I'm pretty confident I can persuade people." Groopman, in his clinical practice with patients like my mother, patients for whom, statistically, the prognosis is terrible, at times begins by saying, "There is a very small chance, but it comes with tremendous cost."
In these situations, doctors like Groopman and Nimer see their job as, in effect, parsing the patient's response and trying to determine a treatment plan that is responsive to the patient's wishes but is also not what physicians refer to as "medically futile" - that is, offering no real chance for cure or remission. That is hard enough. What makes the doctor's decision in such situations even more painful is that "medically futile" means different things to different physicians. After my mother's transplant failed and she was medevacked from the University of Washington hospital back to Memorial Sloan-Kettering, Nimer tried one last treatment - an experimental drug called Zarnestra that had induced remission in some 10 percent of the small number of patients to whom it had been administered. I would learn from the nurses' aides who attended my mother in the last weeks of her life that some of the doctors and nurses on the transplant floor were uncomfortable with the decision, precisely because they saw my mother's situation as hopeless, that is, medically futile. As division head, in consultation with Dr. Marcel van den Brink, the hospital's chief of bone-marrow transplantation, Nimer could overrule these objections. But neither man would have denied the difficulty of drawing a clear line between what is and is not medically futile.
My mother was determined to try to live no matter how terrible her suffering. Her choices had been stark from the outset. Unlike some other cancers that can be halted for years through treatment, there are few long-lasting remissions in M.D.S. Her only real chance of survival lay in the possibility of an outright cure offered by an adult-blood-stem-cell transplant. Otherwise, to quote from one of the medical Web sites my mother visited repeatedly during the first weeks after her diagnosis, treatment offered her only an "alleviation of symptoms, reduction in transfusion requirements and improvement of quality of life." During their second meeting, Nimer offered her the option of treatment with a drug called 5-azacitidine, which gave many M.D.S. patients some months during which they felt relatively well. But the drug did little to prolong life. My mother replied, with tremendous passion, "I am not interested in quality of life!"
What Nimer knew with the horrified intimacy of long clinical practice, but what my mother could not yet know, was just how agonizing the effects of an unsuccessful stem-cell transplant can be: everything from painful skin rashes to inordinately severe diarrhea to hallucinations and delirium. To me, torture is not too strong or hyperbolic a word. After my mother's declaration, Nimer only nodded and began talking about where the best place might be for her to have the stem-cell transplant, going over with her the variations in different medical research centers' approaches to transplantation. After the transplant failed, and my mother returned from Seattle, Nimer obviously knew how long the odds were against an experimental drug like Zarnestra inducing even a brief extension of her life. But he said he felt that he had to try, both because the drug had had some success and because my mother had told him (and me) from the outset that she wanted her doctors to do everything possible, no matter how much of a long shot it was, to save or prolong her life.
"Always assuming it's not medically futile," he told me a few weeks before her death, "if I can carry out my patients' wishes, I want to do that."
My mother could express herself only with the greatest of difficulty in the last weeks of her life. "Protective hibernation" was how one Sloan-Kettering psychiatrist described it. Like most people who have lost someone dear to them, I would say that one of my dominant emotions since my mother's death has been guilt - guilt over what I did and failed to do. But I do not regret trying to get her to swallow those Zarnestra pills even when her death was near, for I haven't the slightest doubt that had she been able to make her wishes known, my mother would have said she wanted to fight for her life to the very end.
But this does nothing to change the fact that it seems almost impossible to develop a satisfactory definition of what is and is not medically futile. What is the cutoff? A 10 percent chance of success? Five percent? One percent? When does the "very small chance" my mother's doctors bought at the "tremendous cost" in suffering that Groopman described for me become so infinitesimal as to make it no longer worth trying?
I have found no consensus among the oncologists I have spoken with in the aftermath of my mother's death, and I don't believe there is one. There are those who take a strong, consistent stance against not just such treatments but also against the general orientation of American medicine, particularly oncology, toward doing everything possible to save individual patients, no matter how poor their chances. These doctors seem inspired by a public-health model based on better health outcomes for communities rather than individuals, viewing it as the most moral and the only cost-effective way of practicing medicine. This view, often associated with the work of the medical ethicist Daniel Callahan, is increasingly influential.
One reason for this is that the current American medical system is breaking down. Several physicians with little sympathy for Callahan's approach pointed out to me that, like it or not, American society either can't afford or no longer chooses to afford to underwrite the kind of heroic care people like my mother, whose prognoses are obviously poor, still receive in the United States. Dr. Diane E. Meier, a palliative-medicine specialist at Mount Sinai Hospital in New York, remarked that if we as a society spent the sort of money on medical care that we spend, say, on the military, the challenge facing physicians would be very different. But neither Meier nor any other doctor I spoke to seemed to believe that there is much chance of that. If anything, medical financing has moved and is likely to continue to move entirely in the opposite direction. As Meier put it to me, "The cost crisis facing Medicare will lead to substantial and real reductions in access to care."
One illustration of Meier's point is that Memorial Sloan-Kettering already treats, through funds received from private philanthropists, many patients whose treatment is not covered by Medicare or who have had their applications for treatment at major cancer centers refused by their insurance companies. But it is one of only a few cancer centers in a position to do so. (Even more sobering is the statistic that only a small percentage of Americans with cancer are treated in a cancer center.) Philanthropy aside - and even the most generous philanthropy can never make up the shortfall the continuing cuts in federal financing are likely to produce - it may well be, as Meier suggests, that we are rapidly moving toward a health care system in which "only the rich will be able to choose the treatment they want."
In a sense, the financial background of my mother's treatment prefigured the world Meier was describing. Once she and Nimer agreed that she would have a bone-marrow transplant at the Hutchinson Center, and she was accepted as a patient there, she applied to Medicare - her primary insurance - for coverage of the treatment. Medicare refused, saying that coverage could begin only once her M.D.S. had "converted" to full-blown leukemia; in other words, when she was far sicker. My mother then applied to her private insurance company. The response was that her coverage did not extend to organ transplants, which was what it considered a bone-marrow transplant to be. Later, my mother's insurance company relented but still refused to allow her to go "out of network" to the Hutchinson Center, even though Nimer was convinced that the doctors there stood the best chance of saving her life. Instead, the insurer proposed four "in network" options - hospitals where it would pay for the transplant to be done. But three out of the four said they would not take a patient like my mother (because of her age and medical history). The fourth did agree to take her but admitted, frankly, that it had little experience with patients of her age.
My mother was determined to get the best treatment possible, and Nimer had told her that treatment was to be found in Seattle. So she persevered. She was admitted to the Hutchinson Center as a so-called self-pay patient and had to put down a deposit of $256,000. Even before that, she had to pay $45,000 for the search for a compatible bone-marrow donor.
The knowledge that she was getting the best treatment available, both at Sloan-Kettering and at Hutchinson, was a tremendous consolation to my mother. It strengthened her will to fight, her will to live. But of course she was getting that treatment only because she had the money to pay for it. To be sure, as she was doing so, her doctors both in Seattle and New York very generously helped with her appeal of her insurance company's decision - calling and writing letters providing documentation and expert opinions explaining why the only viable treatment option was the one they had recommended. But both she and they knew that whatever hope she had of cure depended on moving rapidly toward the bone-marrow transplant. This would have been impossible had she not had the money to in effect defy her insurer's verdict, even as she was appealing it legally.
Let me state the obvious: The number of Americans who can do what she did is a tiny percentage of the population, and while I shall always be thankful beyond words for the treatment she received, and believe that she and her doctors made the right choice, I cannot honestly say that there was anything fair about it.
ow or whether the realities of the health care system in America today can be reconciled with the fundamental aspiration of science, which is discovery, and the fundamental aspiration of medicine, which is to cure disease, is impossible for me to say. But if the time I have spent in the company of oncologists and researchers convinces me of anything, it is that these aspirations are almost as fundamental in serious doctors as the will to live is in cancer patients. The possibility of discovery, of research, is like a magnet. Marcel van den Brink, the Sloan-Kettering bone-marrow chief, who is Dutch, told me that one of the main reasons he is in the United States is that here, unlike in the Netherlands or, he thought, in the other major Western European countries, there is money for his research. For his part, Jerome Groopman emphasized the overwhelming number of foreign researchers in his lab. He described it as "the opposite of outsourcing - it's insourcing."
Researchers find inspiration in the example of AIDS research, an almost paradigmatic example of heroic, cost-indifferent medicine. By public-health standards, AIDS has received a big share of the nation's medical resources, in large measure thanks to the tireless campaigning of gay Americans who have had the economic clout and cultural sophistication to make their voices heard by decision-makers in the medical establishment and in government. As Dr. Fred Appelbaum, clinical-research director of the Hutchinson Center, pointed out to me, understanding AIDS and then devising treatments for it at first defied the best efforts of research scientists. And though a cure has not yet been found, effective treatments have been - albeit, extremely expensive ones.
If there is a difference between AIDS research and cancer research, it is that while advances in AIDS came relatively quickly, advances in cancer treatment and, indeed, in the fundamental understanding of how cancer works have come far more slowly than many people expected. Periodically since 1971, when President Nixon declared his war on cancer, the sense that the corner is about to be turned takes hold. We appear to be in such a moment today. The National Cancer Institute has recently put forward ambitious benchmarks for progress in cancer research and treatment. As its director, Dr. Andrew von Eschenbach, a respected surgeon and a cancer survivor himself (he is also acting head of the Food and Drug Administration), put it recently: "The caterpillar is about to turn into a butterfly. I have never known more enthusiasm among cancer researchers. It's a pivotal moment." The suffering of cancer, he argued, will be well on its way to being alleviated by 2015.
The media have mostly echoed this optimism. It is not unusual to read about the latest "breakthrough" in cancer treatment, both in terms of understanding the basic biological processes involved and with regard to innovative new drug therapies. On the level of research, there is no doubt that significant progress has been made. Dr. Harold Varmus, the Nobel laureate who now heads Memorial Sloan-Kettering, is emphatic on the subject. "Fifty or 60 years ago," he told me, "we didn't know what genes were. Thirty or so years ago we didn't know what cancer genes were. Twenty years ago we didn't know what human cancer genes were. Ten years ago we didn't have any drugs to inhibit any of these guys. It seems to me we've made an awful lot of progress in one person's lifetime."
Other research scientists seemed far more pessimistic when I spoke with them. Dr. Lee Hartwell, also a Nobel laureate, is president and director of the Hutchinson Center. He has urged that the focus in cancer treatment shift from drug development to the new disciplines of genomics and, above all, proteomics, the study of human proteins. Though he acknowledged the profound advances in knowledge made over the past two decades, Hartwell emphasized a different question: "How well are we applying our knowledge to the problem? The therapy side of things has been a pretty weak story. There have been advances: we cure most childhood leukemias with chemotherapy, for one thing. But the progress has been surprisingly weak given the huge expenditures that we've made. We're spending over $25 billion a year improving cancer outcomes, if you include the spending of the pharmaceutical companies. So you've got to ask yourself whether this is the right approach."
The focus needs to be on "diagnostics rather than therapeutics," Hartwell said. "If you catch a cancer at Stage 1 or 2, almost everybody lives. If you catch it at Stage 3 or 4, almost everybody dies. We know from cervical cancer that by screening you can reduce cancer up to 70 percent. We're just not spending enough of our resources working to find markers for early detection."
Some researchers are even more skeptical. Mark Greene, the John Eckman professor of medical science at the University of Pennsylvania and the scientist whose lab did much of the fundamental work on Herceptin, the first important new type of drug specifically designed to target the proteins in the genes that cause cells to become malignant, agrees with Hartwell. The best way to deal with cancer, he told me, is to "treat early, because basic understanding of advanced cancer is almost nonexistent, and people with advanced cancer do little better now than they did 20 years ago."
Varmus, who appears to be somewhere in the middle between the optimists and the pessimists, told me that so far the clinical results are mixed. As he put it: "Many cancers are highly treatable. I am optimistic, but I'm not saying, 'Here's when."'
The irreducible fact is that failure is the clinical oncologist's constant companion. Each of those who treated my mother seemed to have evolved a strategy for coping with this. Stephen Nimer said: "I'd have to be an idiot to think everything I do works. I mean, where have I been the last 20 years? I'm not afraid to fail." Fred Appelbaum put it still more plainly. "You get victories that help balance the losses," he said. "But the losses are very painful."
Appelbaum's almost studied understatement brought home a question that had recurred through the savage months of my mother's illness and also after her death. I kept wondering how the doctors who were treating her with such determination, against all the odds, could possibly stand swimming in this sea of death that they confronted every day, since they did not have the luxury of pretending, at least to themselves, that they didn't know which of their patients were likely to make it and which were not.
The question made sense to some. For Nimer, though, it did not. "I prefer 'swimming in a sea of life,"' he said, adding: "I know I'm not going to save everyone, but I don't think of myself as swimming in a sea of death. People who have congestive heart failure, their outcomes are like the worst cancers. People think of it as a cleaner death and cancer as a dirtier death, but that's not the case. I approach things with the question 'What would it be like if I were on the other side?' The first thing is being dependable. I give people a way to always reach me. They're not going to call me frivolously. There's a peace of mind that comes with knowing you can reach a doctor. I think if you have one of these diseases, you know you can die. Before people get to the time of dying, people want to have some hope, some meaning, that there's a chance things can get better."
And when they don't, Nimer continued, "whatever happens is going to happen. But how about the ride? How rough will it be? If I were dying, the thing I'd worry about most is how much I'm going to suffer. I've had a lot of people die over the years. One thing is to reassure people, 'Look, I'm going to do whatever is humanly possible so that you don't suffer.' We're all going to die, but I'm going to spend just as much time paying attention to your last days as I do at the beginning."
And with my mother, that is exactly what he did in the moment of her death - one of the many, too many, Nimer has seen. With all due respect to him, if that's not swimming in a sea of death...
If my mother had imagined herself special, her last illness cruelly exposed the frailty of that conceit. It was merciless in the toll of pain and fear that it exacted. My mother, who feared extinction above all else, was in anguish over its imminence. Shortly before she died, she turned to one of the nurses' aides - a superb woman who cared for her as she would have her own mother - and said, "I'm going to die," and then began to weep. And yet, if her illness was merciless, her death was merciful. About 48 hours before the end, she began to fail, complaining of generalized low-grade pain (possibly indicating that the leukemia was in her bloodstream). Shortly after, she came down with an infection. Given the compromised state of her immune system, the doctors said, there was little chance that her body could stave it off. She remained intermittently lucid for about another day, though her throat was so abraded that she could barely speak audibly and she was confused. I feel she knew I was there, but I am not at all sure. She said she was dying. She asked if she was crazy.
By Monday afternoon, she had left us, though she was still alive. Pre-terminal, the doctors call it. It was not that she wasn't there or was unconscious. But she had gone to a place deep within herself, to some last redoubt of her being, at least as I imagine it. What she took in I will never know, but she could no longer make much contact, if, indeed, she even wanted to. I and the others who were at her side left around 11 p.m. and went home to get a few hours' sleep. At 3:30 a.m. on Tuesday, a nurse called. My mother was failing. When we arrived in her room, we found her hooked up to an oxygen machine. Her blood pressure had already dropped into a perilous zone and was dropping steadily, her pulse was weakening and the oxygen level in her blood was dropping.
For an hour and a half, my mother seemed to hold her own. Then she began the last step. At 6 a.m., I called Nimer, who came over immediately. He stayed with her throughout her death.
And her death was easy, as deaths go, in the sense that she was in little pain and little visible anguish. She simply went. First, she took a deep breath; there was a pause of 40 seconds, such an agonizing, open-ended time if you are watching a human being end; then another deep breath. This went on for no more than a few minutes. Then the pause became permanence, the person ceased to be and Nimer said, "She's gone."
A few days after my mother died, Nimer sent me an e-mail message. "I think about Susan all the time," he wrote. And then he added, "We have to do better."

David Rieff is a contributing writer for the magazine.

Wednesday, November 02, 2005

Vendendo saracura



Anna Maria Ribeiro

Ando tendo saudades do futuro. Este – o futuro – até então só entrava em minhas cogitações no que toca a rápida perda do poder aquisitivo dos proventos da aposentadoria. Mas este pensamento sempre descartei pela inevitabilidade da perda total, inegável pelas projeções matemáticas, caso eu tenha a ousadia de viver mais do que devo. Mas de uns tempos para cá se iniciou insidioso o pensar o futuro a partir da conjuntura atual. Como sempre acontece em previsões futuras, é difícil ser honesta. O desejo de que boas coisas aconteçam invade a técnica e, sem querer, a gente dá uma pequena ajuda, aqui e ali, tornando a visualização da situação futura mais agradável, ou pelo menos mais palatável. Mas as coisas andam confusas demais e para partir do que está acontecendo – condição indispensável para qualquer projeção - é necessário saber-se o que está acontecendo. E isto está se revelando impossível: situações invertem-se em dias e mesmo horas. As coisas são ditas, desditas e não ditas numa rapidez e desfaçatez impressionantes. E durma-se com um barulho destes! Vai daí que passo a construir cenários sem me valer da técnica mais me escudando no desejo imenso de que as coisas cheguem a bom termo. Não para mim, é claro, o INSS não vai permitir futuro que se preze, qualquer que seja o cenário resultante. Mas para meus filhos e netas. E aí bate a saudade! Saudade de um futuro a que me levava a análise da conjuntura que se apresentava no momento e que me conduzia a paragens possíveis de se viver. Umas mais atrativas, outras menos, mas todas “vivíveis”. Lembro-me que logo após o impeachment do Collor um amigo e eu fizemos uma séria análise da conjuntura que se apresentava na época. Nos dedicamos pra valer. Examinamos os cenários, o comportamento dos atores, os fatos reais, enfim tudo que nos pudesse levar a projeções futuras. E nelas – todas - encontramos a esperança de dias melhores. E deu no que deu! Furiosamente desabei, semana passada, todas as prateleiras de cima dos armários onde guardo minha vida pregressa. Precisava conferir onde e porque erramos. Quais as premissas falsas que nos haviam levado a este horror. Nesta busca me caiu nas mãos uma foto antiga e desbotada da casa do sítio de minha avó, em Miguel Pereira. Estávamos todos na varanda cercando a nobreza de minha avó. E a luz se fez! Desisti da busca do futuro e voltei-me para a certeza do passado. Tinha eu uns 10 anos. A família reunida, tarde da noite, conversava na enorme sala. Nós, as crianças, estávamos espalhadas aleatoriamente nos colos de mães, pais, mães, tios e tias, quase dormindo embaladas por assuntos que às vezes entendíamos, às vezes não, mas que nos davam uma enorme sensação de conforto e proteção. Chovia muito. Era daquelas chuvas de verão que de tão fortes impede a visão do lá fora. Ainda não havia luz por lá. E a do lampião enorme que pendia do teto convidava a fechar os olhos e apenas ouvir. Eis que de repente, os cães começaram a latir furiosamente. Pais e tios vestem seus ponchos e munidos de lanternas saem a cata do que quer que fosse. Não havia grandes ameaças, naquele tempo. Mas o palmito e as frutas, vez por outra, sofriam alguns ataques. Excitados, abrimos os olhos e corremos para as janelas, buscando uma brecha entre mães e tias procurando ver, através da chuva, a luz bruxuleante das lanternas. De repente todas convergiram para um só ponto e para o alto. Ouvimos as vozes irritadas dos pais e tios ordenando: desce daí! Alguém havia se encarrapitado em uma árvore, acuado pelos cães. As luzes das lanternas foram descendo e pouco depois se dirigiram em grupo para a casa. Corremos para a varanda e reconhecemos Seu Dezinho, conhecido surrupiador de palmitos, escoltado pelos varões da família para ser submetido ao julgamento de minha avó, como era devido. No silêncio que sempre se estabelecia em situações graves como esta, minha avó adiantou-se para cobrar a justificativa esperada. E, entre divertidos e espantados todos ouvimos o extraordinário motivo da intrusão:
- ‘Noite, Dona Maria Clara!
- Boa noite, seu Dezinho. E então?! O que faz aqui por estas horas?
- Dona Maria Clara! Eu tava vindo pela estrada e pensei assim: e se eu vendesse uma saracura para Dona Maria Clara?
O dito perdura até hoje na família e é usado todas as vezes que alguém para justificar-se do injustificável parte para o absurdo. Entendo agora porque não consigo formular qualquer projeção lógica a partir do que ocorre hoje em dia. Todos os atores que podem me fornecer informações que permitam elaborar um raciocínio lógico estão querendo me vender saracura!

Tuesday, November 01, 2005

O Watergate de George W.



Eu era quase um foca quando vim aos EUA, com Heron Domingues, cobrir para a Globo a eleição presidencial de 1972. Em junho, os trapalhões que arrombaram o escritório do partido democrata no prédio Watergate tinham sido presos. Era uma história difícil de cobrir para a TV, não havia imagens. Assim mesmo consegui botar no ar algumas matérias sobre o assunto. O caso Watergate estava no começo, a Casa Branca ainda podia negar que tivesse qualquer coisa a ver com os arrombadores. Nixon foi reeleito com uma avalanche de votos, esmagando o candidato democrata George McGovern, até hoje visto como tudo o que há de errado com o partido - estigmatizado como um político "de esquerda" incapaz de atrair os eleitores centristas. Uma síndrome que até hoje imobiliza os democratas, incapazes de ousar, por medo do estigma de McGovern.

Em novembro de 1972, ainda estava no início a investigação dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal Washington Post, os quais seguiam a pista do Garganta Profunda (hoje se sabe que ele era o segundo homem do FBI, Mark Felt) que dizia: "Follow the money!". Pista que levou ao Salão Oval da Casa Branca. Nixon, ameaçado de impeachment, só renunciaria quase dois anos depois, em agosto de 1974.

Ainda é cedo para prever se o escândalo que levou ao indiciamento do chefe de gabinete do vice Dick Cheney, Scooter Libby, pode se tornar o Watergate de George W. Bush. Mas há paralelos. Nos dois casos, o poder executivo mentiu para encobrir ações ilegais ou impróprias. No caso de Nixon, o uso de "dirty tricks", golpes sujos, contra a oposição. No caso de Bush, algo muito mais grave: o uso deliberado de falsidades para levar o país à guerra.

No caso Watergate, o jogo só virou contra Nixon em abril de 1973, quando o assessor legal de Nixon, John Dean, passou a colaborar com a investigação do Senado, e assim não ir para a cadeia (acabou sendo condenado mas teve a pena reduzida). O mesmo John Dean agora publica um livro afirmando que os segredos do governo Bush são piores do que Watergate. A partir da colaboração de Dean, os dominós foram caindo. O vice-presidente Spiro Agnew renunciou em outubro. Em maio de 1974, foi aberto o processo de impeachment do presidente por obstrução da justiça. Nixon renunciou em 8 de agosto.

No caso atual, o promotor especial Patrick Fitzgerald foi encarregado de investigar, a pedido da CIA, quem revelou o nome da agente Valerie Wilson à imprensa, o que é crime. Valerie é casada com o diplomata Joe Wilson, que em maio de 2003 denunciou uma das mentiras da Casa Branca, a acusação de que Saddam Hussein estava comprando urânio na África, mentira que estava no discurso do presidente Bush ao Congresso em janeiro de 2003, e que foi usada para justificar a invasão do Iraque em março daquele ano. O nome de Valerie foi dado aos jornalistas por algum alto funcionário da Casa Branca como retaliação contra Wilson.

O que o promotor já descobriu é que Scooter Libby, o assessor do vice presidente, mentiu para proteger o chefe e encobrir o autor do crime. O promotor ainda não sabe quem revelou o nome de Valerie, mas continua investigando. As suspeitas apontam para o principal assessor de Bush, o chefe da Casa Civil, Karl Rove. É possível que, como aconteceu com John Dean no caso Watergate, Scooter Libby decida falar para não ir parar atrás das grades. Os crimes de obstrução de justiça e perjúrio, pelos quais ele será julgado em breve, podem levar a 30 anos de prisão.

Mas pode ser que Libby prefira não falar. E está sendo muito difícil para o promotor reunir provas sólidas contra Karl Rove. Se tudo acabar em pizza, Bush sairá chamuscado mas chegará ao fim do mandato.

O economista Paul Krugman, colunista do New York Times, acha que Bush vai sair dessa. Afinal, os trapalhões de Nixon eram um bando de amadores comparados com a turma de Bush, que não brinca em serviço. Mas Krugman pergunta se não seria o caso de a imprensa fazer um mea culpa. Afinal, Krugman foi nos últimos cinco anos uma voz solitária clamando no deserto, denunciando desde o início as mentiras descaradas do governo Bush. Por que a mídia - inclusive o New York Times - permitiu a Bush construir uma fachada fraudulenta de líder patriótico, quando no fundo os jornalistas poderiam ver claramente o que a Casa Branca estava armando nos bastidores?

No caso Watergate, a imprensa foi fundamental para derrubar Nixon - e por isso ganhou o apelido de "o Quarto Poder". Mas no caso do governo Bush, a mídia tem se mostrado complacente e cúmplice, ou no mínimo preguiçosa. Joe Wilson veio a público para mostrar que Bush mentira à nação. Mas por que nenhum jornalista fez o mesmo que Wilson, que foi à África - a pedido da CIA - para checar a acusação falsa a Saddam Hussein? Os documentos sobre a compra de urânio pelo Iraque no Niger eram uma falsificação tosca. Mas isso só apareceu na mídia depois da denúncia de Wilson. Desde 11 de Setembro, a grande imprensa pintou Bush como um grande líder, o que permitiu que ele fosse reeleito. Mas nunca é tarde para chorar sobre o leite derramado.

O próprio New York Times acaba de fazer seu mea culpa. O editor Bill Keller reconheceu ter errado ao deixar passar mais de um ano sem investigar as matérias em que a repórter Judy Miller deu o "furo" de que as armas de destruição em massa de Saddam tinham sido achadas. Era "barriga", Judy se baseou numa fonte mentirosa, o vigarista iraquiano Ahmed Chalabi. Pior, Keller deixou que Judy posasse de mártir da liberdade de imprensa, quando ela foi para a cadeia, por 85 dias, para não depor na investigação do promotor Fitzgerald. Hoje se sabe que Judy estava protegendo as mentiras de Libby. Agora, ela está negociando seu desligamento do jornal.

Por que será que Scooter Libby mentiu tão descaradamente ao promotor (por cinco vezes!), afirmando que soube do nome de Valerie através dos jornalistas, quando bastou a Fitzgerald ouvir os repóteres e assim desmontar o álibi do assessor de Cheney? É claro que Libby apostou que todos os repórteres fariam o que Judy fez: ir para a cadeia, mas não revelar a fonte. Só que, em vez disso, seis repórteres depuseram, entregando a farsa de Libby. O gesto de Judy ficou sem sentido, e ela também acabou falando ao promotor.

Eu confesso ter aplaudido a decisão de Judy Miller de ir para cadeia em nome do direito a preservar sua fonte. É um princípio importante para a liberdade de imprensa. Mas quando o silêncio do repórter na verdade protege um criminoso, como foi o caso, isso não se justifica.

Onde vai parar esse escândalo? O colunista Nicholas Kristof pediu que o vice-presidente Dick Cheney renuncie. Afinal, o promotor descobriu que quem deu o nome da agente da CIA a Libby foi o próprio Cheney. O vice não falou com os jornalistas, portanto não cometeu nenhum crime. Mas obviamente ele está por trás do complô para castigar o marido de Valerie, Joe Wilson. O próprio Cheney foi à TV várias vezes para dizer que Saddam estava prestes a explodir uma bomba atômica. Ou seja, mentiu descaradamente. Por enquanto, Cheney está tranquilo. Mas se Libby falar, ou outras provas surgirem, a situação do vice pode ficar insustentável.

Nixon, durante o escândalo Watergate, se livrou dos assessores mais comprometidos, sacrificados para tentar salvar sua presidência. Não deu certo, mas pelo menos Nixon não se comportou como se estivesse vivendo num mundo de fantasia. Ele sabia do perigo que corria. Já Bush parece estar vivendo em outro planeta, como se nada o afetasse. Até quando ele vai continuar dentro dessa "bolha", cercado por bajuladores que lhe dizem o quanto ele é brilhante e poderoso?


ENQUANTO AINDA É POSSÍVEL



Elis Regina, Como os nossos pais