Wednesday, October 12, 2005



Ed Murrow não tem equivalente no jornalismo brasileiro. Nos Estados Unidos, entre os jornalistas, ele é um mito: o correspondente da rádio CBS que trouxe a Segunda Guerra, e a destruição de Londres pelos ataques nazistas, para dentro de cada lar americano com o som das bombas caindo e uma narração circunspecta, clara e lúcida. Depois disso, foi o inventor do telejornalismo, à frente de programas de análise e entrevistas. Aquele que todo repórter de rádio e TV sonha ser quando crescer.

O grande público não tem idéia de quem foi Ed Murrow, que morreu em 1965 aos 57 anos. Daí a importância do filme recém-lançado Good Night, and Good Luck, dirigido por George Clooney, com David Strathairn no papel de Murrow, e Clooney no de Fred Friendly, mão-direita de Murrow desde os tempos do rádio.

Senador Joe McCarthy. Ao fundo seu assessor Roy Cohn

O filme focaliza o período 1953-54, no auge da caça às bruxas, a perseguição aos suspeitos de simpatizar com o comunismo, conduzida pelo senador Joe McCarthy. O McCarthyismo foi um dos pontos mais baixos da democracia americana e até hoje é sinônimo de perseguição ideológica. Ed Murrow botou no ar em seu programa See it Now, em abril de 54, uma devastadora crítica a McCarthy usando apenas falas do senador e cenas de seus interrogatórios à frente do Comitê sobre Atividades Antiamericanas no Senado.

McCarthy e Roy Cohn

A esquerda e os liberais, que passaram dois anos sendo esmagados por McCarthy, ganharam em Murrow um aliado de centro, não-ideológico, e com grande prestígio e penetração popular. Daí pra frente McCarthy foi ladeira abaixo, até ser afastado do comitê, no fim de 1954. Morreu três anos depois de cirrose. Era alcóolatra e gay enrustido, embora perseguisse também os homossexuais. O principal assessor dele, Roy Cohn, outro enrustido, morreu de AIDS nos anos 80. O papel dele no filme Angels in America foi feito por Al Pacino. O diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que fornecia informações à dupla, também era dessa turma de enrustidos anticomunistas.

Cena do filme

No filme, Murrow e seu time de craques são representados por atores, mas McCarthy é ele mesmo, em filmes da época. É preto e branco, tudo filmado num set que reproduz os estúdios da CBS. Canções de jazz interpretadas pela cantora negra Dianne Reeves servem para costurar e comentar a história. É um filme brilhante, aplaudido no final, o que é raro aqui.

George Clooney no festival de Veneza este ano; ganhou melhor roteiro

George Clooney, o ator, é o único hoje que lembra os grandes astros do passado, Clark Gable, Cary Grant, Gary Cooper: bonito, inteligente, suave, elegante. Surpreende que ao mesmo tempo ele seja um diretor tão ousado. O filme não tem nada de comercial, é uma falação constante, e no entanto prende e emociona do início ao fim pelo trabalho minucioso e profundo dos atores, entre os quais se destaca o sempre ótimo Robert Downey Jr.
David Strathairn como Murrow é de uma intensidade e concentração impressionantes, dizendo tudo no olhar. Candidato sério ao Oscar de melhor ator, prêmio que já conquistou no festival de Veneza com este filme.

David Strathairn, ganhou melhor ator este ano em Veneza

O filme começa e termina com um discurso que Murrow fez ao ser homenageado pela associação dos diretores de rádio e telejornalismo, em 1958, discurso que foi um alerta para os perigos que cercam a televisão e presságio do abismo em que a mídia eletrônica iria mergulhar. O texto completo em inglês está aqui. Traduzo alguns trechos:

Ed Murrow na Segunda Guerra

"Se ainda houver historiadores daqui a 50 ou 100 anos e tiverem sido preservados filmes de uma semana de nossas três redes, eles encontrarão ali gravadas em preto e branco, ou cor, as provas da decadência, escapismo e alheamento da realidade do mundo em que vivemos. "

"Estou inteiramente convencido de que o público americano é mais sensato, contido e mais maduro do que todos os programadores da televisão acreditam. Eles têm medo de controvérsia, mas isto não se baseia em fatos. Tenhos motivos para saber, como muitos de vocês, que quando os fatos de um assunto controvertido são apresentados de modo equilibrado e calmo, o público reconhece o esforço para iluminar, em vez de agitar".

Ed Murrow

"Qual é a resposta? Meramente continuarmos nos nossos ninhos confortáveis, concluindo que cumprimos com nossas obrigações quando o que fazemos é informar o público num tempo mínimo? Ou acreditarmos que a preservação da república é um trabalho de sete dias por semana, exigindo mais consciência, melhores habilidades e mais perseverança?"

"Me assusta o desequilíbrio, o constante empenho em atingir a maior audiência possível a qualquer preço; a ausência de um estudo contínuo do estado da nação. Heywood Brown disse que "nenhum corpo político é saudável até começar a coçar". Gostaria que a televisão produzisse alguma pílula de coceira em vez do interminável eflúvio de tranquilizantes. Pode ser feito. Talvez não seja, mas pode".

Ed Murrow

"Se continuarmos como estamos, protegeremos a mente do público americano de qualquer contato real com um mundo ameaçador que nos cerca. Estamos engajados num grande experimento para descobrir se uma opinião pública livre pode criar e dirigir métodos para administrar os negócios da nação. Podemos falhar. Mas não devemos nos sabotar sem necessidade".

"Somos ricos, gordos, confortáveis e complacentes. Temos uma alergia inata à informação desagradável ou perturbadora. Nossos meios de comunicação de massa refletem isso. Mas a não ser que levantemos nossos gordos excedentes e reconheçamos que a televisão tem sido usada para nos distrair, iludir, divertir e alhear, um dia a televisão e quem a financia, quem assiste e quem trabalha nela, poderão ver tarde demais um quadro totalmente diferente... Se continuarmos assim, a história vai se vingar, e o castigo não demorará a nos alcançar".

Ed Murrow

"Gostaria de ver a televisão refletir de vez em quando as realidades duras, resistentes, do mundo em que vivemos... Para aqueles que dizem que as pessoas não assistiriam, não se interessariam, que são muito complacentes, indiferentes e alienadas, só posso responder: há na opinião deste repórter muitas provas do contrário. Mesmo que estejam certos, o que têm a perder? Porque se estiverem certos, e este instrumento não servir para nada a não ser entreter, divertir e alienar, então o tubo já está falhando e em breve toda a luta estará perdida".

"Este instrumento pode ensinar, pode iluminar, sim, e pode até inspirar. Mas só na medida em que seres humanos estejam decididos a usá-lo para tal. De outro modo, são só fios e luzes numa caixa. Há uma grande batalha, talvez decisiva, a ser travada contra a ignorância, a intolerância e a indiferença. Esta arma, a televisão, pode ser útil. Stonewall Jackson, que sabia algo sobre o uso de armas, teria dito, "quando a guerra chega, é preciso empunhar a espada e jogar fora a bainha". O problema da televisão é que está enferrujando na bainha durante a batalha pela sobrevivência".

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