Tuesday, October 04, 2005

Poeta olhando cerejeiras


Sempre simpatizei com haiku, aquele poema japonês Zen de três linhas com um total de 17 sílabas, mas nunca tentei escrever. Millor Fernandes é o mestre brasileiro da forma, que ele chama de haicai. Um exemplo do Millor:

Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua.


Hoje leio no Wall Street Journal que os jovens japoneses estão usando o celular para escrever e divulgar outra forma de poema curto, tanka. Vale a pena ler a matéria do WSJ aqui.
Tanka é um poema em cinco linhas com 31 sílabas, distribuídas em 5-7-5-7-7. Em japonês tanka é escrito numa única linha vertical.



Não sei japonês mas, se entendi bem, na ilustração acima cada linha vertical seria um tanka.
Não sabia que tanka é muito mais antigo que haiku. Começou no século VII, ou seja, há 14 séculos.
Haiku tem três séculos, e são só os três primeiros versos do tanka. É um poema mais conciso que se libertou da segunda parte, as duas últimas linhas. Nem haiku, nem tanka têm rimas porque rimar para os japoneses é um recurso fácil demais.
Tradicionalmente, no primeiro dia do ano, os japoneses, a começar pelo Imperador, escrevem tanka sobre o novo ano.

Trinta e seis poetas imortais

Os tradicionalistas estão furiosos com a popularidade do tanka entre os jovens. O tanka se presta ao celular porque os cinco versos curtos cabem na telinha. Isso quebra a linha única vertical. Pior ainda, os jovens não seguem as regras rígidas do tanka tradicional, aprendidas ao longo de muitos anos nas sociedades de escritores de tanka. Acontece que os membros dessas sociedades têm em média 80 anos. Graças ao celular, essa forma tradicional, que estava morrendo, ganhou vida nova.

exemplo de keitai tanka, pelo celular

Hoje há na TV japonesa concursos de keitai tanka, tanka enviado por celular. E em vez de se limitar a imagens convencionais da natureza, como reza a tradição, os novos poemas falam do cotidiano dos jovens.
No Brasil, Paulo Leminski escreveu tanka mas não achei nenhum.
É complicado adaptar a forma para outra língua. As sílabas japonesas são mais concisas do que as nossas. Um tanka é dito em duas respirações, uma para as três primeiras linhas, outra para as duas últimas. Nos Estados Unidos, onde o tanka está ficando popular entre os poetas, muitos abandonam a sequência 5-7-5-7-7, porque o poema fica longo demais para ser um tanka, e em vez disso escreve-se curto-longo-curto-longo-longo, sendo o curto de uma a três sílabas, e o longo de três a cinco.
Ao contrário do haiku, que contem uma única imagem ou idéia, o tanka articula duas ou três imagens ou idéias. É emocional, enquanto o haiku é cerebral.

De brincadeira, tentei meu primeiro tanka. Mandem seus tanka para o nyontime!

Toca o celular
mas eu estou no blogue
não posso atender.
Por estar tão ligado
perdi sua ligação.

Para ouvir: música da corte imperial japonesa (uso esse CD quando a festa já acabou mas tem sempre alguns que não vão embora. É botar o disco e todos saem correndo, é o equivalente musical de uma visita ao dentista)

3 comments:

Alexis Prappas said...

Achei incrível sua materia sobre o Tanka.

Parabens pela pesquisa. Realmente icrível! ME deixou profundamente curioso para ouvir um recital de tanka, e compreender o significado.

Grande abraço

ALexis Prappas
alexis@prappas.com.br

luiz gustavo pires said...

era uma lágrima
como a ressaca do mar
uma lágrima explícita


por detrás das cortinas
o céu me alumbra em silêncio

luiz gustavo pires said...

suspensos jardins
sob as brumas da manhã
rompe o céu o monte

encontro um manto de seda
enredando-me em silêncio


www.mantodeplumas.blogspot.com