Sunday, August 14, 2005



O pai espiritual de Baudelaire é Edgar Allan Poe.
Apenas 12 anos separam os dois, mas a descoberta dos contos e poemas de Poe foi uma revelação para o jovem Baudelaire. O poeta de Paris e o poeta de New York nunca se encontraram ou sequer se corresponderam, mas talvez não haja afinidade maior na história da literatura.
Baudelaire encontrou em Poe o seu lado escuro, a lucidez diante do Mal, o mergulho nas profundezas do Inconsciente.
A mãe de Baudelaire foi criada na Inglaterra e ensinou inglês ao filho. Baudelaire traduziu os contos de Poe para o francês e até hoje Poe é mais conhecido e lido na França do que nos Estados Unidos. Eu posso ser suspeito, mas concordo com a opinião de muitos, de que a tradução de Baudelaire é melhor que o original.
Mas Baudelaire não traduziu os poemas de Poe. Achava impossível traduzir poesia.
Em homenagem ao dia dos pais, vou me arriscar a traduzir um poema de Poe, um dos melhores, Um sonho dentro de um sonho, escrito quando Poe tinha 18 anos.

Sonho dentro de um sonho (1827)

Na testa toma o meu beijo!
E, agora que eu te deixo,
Confessar é meu desejo -
Não, não erras ao julgar
Que vivo só a sonhar;
Mas se a esperança voou
Na noite, no dia ou
Numa visão, ou nenhuma,
Não ficaria alguma?
Tudo o que vejo ou sonho
É sonho dentro de um sonho.

Estou de pé frente ao mar
Batendo no quebra-mar
E tenho nas minhas mãos
Areia que sinto em grãos -
Tão poucos! Mas como vão
Por meus dedos para o vão,
E choro em vão - choro em vão!
Ó Deus! como segurar
O que não posso agarrar?
Ó Deus! não posso salvar
Um grão desse cruel mar?
Será o que vejo ou sonho
Um sonho dentro de um sonho?


A Dream Within a Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
This much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

4 comments:

Lilian said...

Maravilhosa escolha. Lindo poema.
Poe não se discute. É realmente muito bom. Creio que ainda não li tanto de Poe quanto vc, mas já o admiro por empatia.
Saúde e Paz.
Lilian

Lilian said...

Maravilhosa escolha. Lindo poema.
Poe não se discute. É realmente muito bom. Creio que ainda não li tanto de Poe quanto vc, mas já o admiro por empatia.
Saúde e Paz.
Lilian

Sissa Jacoby said...

Caro Jorge,
uma paixão em comum me levou ao seu blog,tempos atrás: Baudelaire. Por tabela, quem ama o poeta francês é, primeiramente, um amante de Poe. Hoje li sua tradução do belíssimo A dream within a dream e gostei. Transmite muito bem a sensação de impotência e angústia de Poe nesse poema. Parabéns pelo blog, também, que é de extremo bom gosto.
Sissa Jacoby

Anonymous said...

Excelente tradução
capturou o espirito do poema sem modificar o que o Poe disse... obrigada