Sunday, August 14, 2005

Monumento a Baudelaire, Cemitério Montparnasse

Charles Baudelaire é um caso clássico de complexo de Édipo. O pai, ex-padre e muito mais velho que a mãe, morreu quando o menino estava com seis.
Os dois anos em que teve a mãe só para ele viraram na imaginação do poeta um paraíso de prazer.
Mas a jovem viúva casou-se com um militar, o capitão Aupick, e Charles foi despachado para um colégio interno numa cidade distante.
Aos 21, tornou-se maior e recebeu a herança deixada pelo pai, uma fortuna. Em dois anos, torrou metade, em mulheres, obras de arte, bebida, drogas (haxixe, ópio).
Aupick, já então general, conseguiu que Charles fosse interditado. O poeta voltou a ser menor perante a lei, com um tutor que administrava o que sobrou da herança. Baudelaire recebia uma pequena mesada, com a qual viveu, praticamente na miséria, até morrer aos 46 anos. A herança permaneceu intacta e foi para uma sobrinha qualquer.
Em 1848, quando os revolucionários ergueram barricadas em Paris, o general Aupick comandou a dura repressão ao movimento. Baudelaire, que nunca se interessou por política, foi visto nas ruas gritando: "Temos que fuzilar o General Aupick!"
Só depois que o padrasto morreu, em 1857, Baudelaire finalmente publicou seu livro de poemas, As Flores do Mal.
Quando Baudelaire morreu, a mãe enterrou-o ao lado do general, onde está até hoje, no cemitério Montparnasse. E ela se juntou aos dois, quando morreu, 20 anos depois.

Monumento a Baudelaire, cemitério Montparnasse

Triste andarilha
Charles Baudelaire, tradução, Jorge Pontual

Teu coração, Ágata, costuma voar?
Longe do negro mar da imunda cidade,
Para um outro oceano de esplendor sem par,
Azul, claro, profundo como a virgindade,
Teu coração, Ágata, costuma voar?

O mar, o vasto mar consola nossas dores!
Que demônio deu à fala rouca do mar,
Ao som do imenso órgão dos ventos cantores
Esta missão sublime de nos embalar?
O mar, o vasto mar consola nossas dores!

Seqüestra-me, fragata! leva-me, vagão!
Para longe! Aqui o choro vira lama!
Será de Ágata o triste coração
Que diz: longe das dores, dos crimes, do drama,
Seqüestra-me, fragata, leva-me, vagão?

Como estás longe, paraíso perfumado,
Onde só um amor feliz pode viver,
Onde o que se ama merece ser amado,
Onde a alma se afoga no puro prazer!
Como estás longe, paraíso perfumado!

Mas o paraíso da primeira paixão,
As festas, os buquês, os beijos, as canções,
Violinos vibrando à tarde no verão,
À noite, nos bosquinhos, vinho aos borbotões
-- Mas o paraíso da primeira paixão,

O paraíso infantil do prazer furtivo
Estará mais longe que a Índia e o Nepal?
Pode chamá-lo nosso choro convulsivo
Para ressuscitá-lo com voz de cristal,
O paraíso infantil do prazer furtivo?


Esse "paraíso infantil" está na abertura do filme Édipo Rei de Pasolini, imagens da mãe, Silvana Mangano, brincando com o filho no campo. Para completar o clima, Pasolini usou como fundo musical o adagio do Quinteto para Cordas em Sol Menor de Mozart.

Pasolini com a mãe dele

1 comment:

Thiers R> said...

Putz fiquei encantado.. eu sou apaixonado por Baudelaire, Rimbaud e outros mais. escrevo poemas como se fossem diálogos com esses poetas.
Putz maravilha o seu blog.
Parabéns