Thursday, June 30, 2005

Fractais

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Enquanto transcrevo a entrevista do Mandelbrot, inventor dos fractais (é um texto enorme, em francês, ele tem sotaque de polonês e o assunto é complicado) para abrir o apetite estou postando 11 fractais que encontrei no site Sprott's Fractal Gallery.
E para ouvir, Janis Joplin, Summertime, e Pink Floyd, Shine on you crazy diamond.

http://www.softlab.ece.ntua.gr/miscellaneous/mandel/gallery/fractal.726.3.gif

Wednesday, June 29, 2005

Frida Kahlo, Coluna rota, 1944

Tem dias que dá aquela vontade de chorar... Dói, dói tanto... Nem adianta tentar cultivar a arte de perder, que nem a Elizabeth Bishop - nem ela deu conta.
E a arte de rir da dor - não levá-la tão a sério?
Frida Kahlo é uma que sabia rir quando mais doía.
Sábia...
Então lá vai a canção do filme dela, La Llorona, a chorona, com Chavela Vargas - pra rir depois de dar aquela choradinha gostosa. Canção que Chavela regravou para a trilha do filme.

Frida Kahlo, 1907-1954

Chavela, 86 anos, é a maior cantora do México, assídua nos filmes de Almodóvar. Esta canção, En el último trago ela canta no filme La flor de mi secreto.
Era a cantora favorita de Frida. As duas tiveram um caso. Desde os anos 50 usa roupas masculinas e aos 81 anos decidiu se assumir como lésbica. No filme de Julie Taymor e Salma Hayek, Chavela Vargas aparece cantando só o finzinho da canção.

Chavela Vargas

Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.

Ay de mí, Llorona Llorona,
Llorona, llévame al río
Tápame con tu rebozo, Llorona
Porque me muero de frió

Si porque te quiero quieres, Llorona
Quieres que te quieres más
Si ya te he dado la vida, Llorona
¿Qué mas quieres?
¿Quieres más?

Frida Kahlo, 1907-1954

Monday, June 27, 2005

Rocinha, 27/6/05, foto Bruno Domingos/Reuters

Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

São milhares, são milhões,
São aves de arribação,
Que constróem ninhos frágeis
De madeira e papelão.

Parecem tão leves que um sopro
Os faria desabar
Porém grudam feito líquens
Sempre a se multiplicar,

Pois cada vez vem mais gente.
Tem o morro da Macumba,
Tem o morro da Galinha,
E o morro da Catacumba;

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.

Assim começa, na tradução de Paulo Henriques Britto, o poema O Ladrão da Babilônia de Elizabeth Bishop. Leitura obrigatória, agora que as favelas do Rio voltam a viver a tragédia cotidiana que Bishop retratou com tanta precisão há... 42 anos.

Sunday, June 26, 2005

Lota de Macedo Soares, Portinari


Acabo de ler o livro Flores Raras e Banalíssimas de Carmen Lúcia Oliveira. É a história de Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares, muito bem contada. A história de Bishop e Lota é intensa, o encontro de dois gênios, uma das maiores poetas da língua inglesa e a criadora do Aterro do Flamengo, modernista e carioca apaixonada.
Gostei de saber que Bishop escreveu um de seus melhores poemas, The Burglar of Babylon, quando morava com Lota no Leme. Enquanto a companheira lutava pelo Aterro - e acabou derrotada, deprimida e empurrada para o suicídio - Bishop ficava sozinha em casa, bebendo. Gostava de olhar pelo binóculo o morro da Babilônia. E foi assim que viu toda a cena da caçada ao bandido Micuçú descrita no poema.
Parece letra de Woody Guthrie ou Bob Dylan, tem a força e o ritmo de uma folk song, um rock, um blues. Me parece intraduzível, mas incluí a tradução de Paulo Henriques Britto, um esforço louvável.
Além do extraordinário poema, que reflete a relação ambivalente de amor/ódio que Bishop tinha com o Rio e com o Brasil, com a desigualdade da sociedade brasileira, coloco aqui a canção que Bishop adorava ouvir, Não Identificado de Caetano Veloso, com Gal Costa.

Elizabeth Bishop

Saturday, June 25, 2005

O frasco



ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Le Flacon

II est de forts parfums pour qui toute matière
Est poreuse. On dirait qu'ils pénètrent le verre.
En ouvrant un coffret venu de l'Orient
Dont la serrure grince et rechigne en criant,

Ou dans une maison déserte quelque armoire
Pleine de l'âcre odeur des temps, poudreuse et noire,
Parfois on trouve un vieux flacon qui se souvient,
D'où jaillit toute vive une âme qui revient.

Mille pensers dormaient, chrysalides funèbres,
Frémissant doucement dans les lourdes ténèbres,
Qui dégagent leur aile et prennent leur essor,
Teintés d'azur, glacés de rose, lamés d'or.

Voilà le souvenir enivrant qui voltige
Dans l'air troublé; les yeux se ferment; le Vertige
Saisit l'âme vaincue et la pousse à deux mains
Vers un gouffre obscurci de miasmes humains;

II la terrasse au bord d'un gouffre séculaire,
Où, Lazare odorant déchirant son suaire,
Se meut dans son réveil le cadavre spectral
D'un vieil amour ranci, charmant et sépulcral.

Ainsi, quand je serai perdu dans la mémoire
Des hommes, dans le coin d'une sinistre armoire
Quand on m'aura jeté, vieux flacon désolé,
Décrépit, poudreux, sale, abject, visqueux, fêlé,

Je serai ton cercueil, aimable pestilence!
Le témoin de ta force et de ta virulence,
Cher poison préparé par les anges! liqueur
Qui me ronge, ô la vie et la mort de mon coeur!


O Frasco

Para certos perfumes, qualquer material
É poroso. Penetram até no cristal.
Ao abrir uma caixa vinda do Oriente,
De fecho enferrujado a ranger estridente,

Ou na casa deserta um antigo armário
Recendendo a passado, a pó e sacrário,
Pode haver lá um frasco que ainda recorda,
De onde escapará uma alma que acorda.

Idéias a dormir, crisálidas primevas,
Vibrando levemente no fundo das trevas,
Abrem asas e voam colorindo o ar
De rosa-aurora, ouro-sol, azul-luar.

São lembranças inebriantes que se erigem
No ar turvo; os olhos fecham; a Vertigem
Toma conta da alma e a empurra com gana
Para o abismo escuro da essência humana;

No fundo desse abismo ela vê num ossário,
Qual Lázaro pungente rasgando o sudário,
Mover-se ao acordar a carcaça espectral
De um velho amor rançoso, doce e sepulcral.

Assim, quando eu estiver perdido na memória
Dos homens, num porão, numa arca simplória,
Quando estiver jogado fora, reles frasco
Troncho, feio, rachado, sujo, sebo, asco,

Serei teu ataúde, amável pestilência!
Guardião da tua força, tua virulência,
Veneno filtrado pelos anjos! Licor
A me queimar, vida e morte do meu amor!

A giganta

Fernando Botero

ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

La Géante

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J'eusse aimé vivre auprès d'une jeune géante,
Comme aux pieds d'une reine un chat voluptueux.


J'eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement dans ses terribles jeux;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s'étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l'ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d'une montagne.


A Giganta

No tempo em que a Natura, com verve e poder,
Criava, a cada dia, um filho monstruoso,
Amara com u’a jovem giganta viver,
Como aos pés da rainha o gato prazeroso.

Amara ver-lhe o corpo e a alma florir,
E crescer livremente em seu terrível jogo;
Na úmida neblina do olhar descobrir,
Fundo no coração, algum sombrio fogo;

Nas majestosas formas à-toa flanar,
Os joelhos enormes sem pressa galgar,
E quando no verão, debaixo de um sol feio,

Cansada, ela deitasse ao longo do país,
Dormir para sonhar à sombra de um seio,
Como ao pé da montanha, o ninho feliz.

A beleza

Manet,

ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

La Beauté

Je suis belle, ô mortels! comme un rêve de pierre,
Et mon sein, où chacun s'est meurtri tour à tour,
Est fait pour inspirer au poète un amour
Éternel et muet ainsi que la matière.

Je trône dans l'azur comme un sphinx incompris;
J'unis un coeur de neige à la blancheur des cygnes;
Je hais le mouvement qui déplace les lignes,
Et jamais je ne pleure et jamais je ne ris.

Les poètes, devant mes grandes attitudes,
Que j'ai l'air d'emprunter aux plus fiers monuments,
Consumeront leurs jours en d'austères études;

Car j'ai, pour fasciner ces dociles amants,
De purs miroirs qui font toutes choses plus belles:
Mes yeux, mes larges yeux aux clartés éternelles!


A Beleza

Sou bela, ó mortais, um sonho de cristal,
E meu seio onde todos imploram favor
Nasceu para inspirar ao poeta um amor
Assim como a matéria, mudo e imortal.

Indecifrada esfinge, ao azul subi;
Neve no coração, a brancura é minha;
Odeio o movimento que desfaz a linha,
Sou a que nunca chora, a que nunca ri.

O poeta, diante do meu ar severo
De estátua altiva sobre o pedestal,
Consumirá seus dias em estudo austero;

Tenho para encantar este amante leal
Um espelho que faz cada coisa mais terna:
Meu olhar, puro olhar de claridade eterna.

Triste andarilha

Toulouse Lautrec, Montrouge

ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Moesta et errabunda

Dis-moi, ton coeur parfois s'envole-t-il, Agathe,
Loin du noir océan de l'immonde cité,
Vers un autre océan où la splendeur éclate,
Bleu, clair, profond, ainsi que la virginité?
Dis-moi, ton coeur parfois s'envole-t-il, Agathe?

La mer, la vaste mer, console nos labeurs!
Quel démon a doté la mer, rauque chanteuse
Qu'accompagne l'immense orgue des vents grondeurs,
De cette fonction sublime de berceuse?
La mer, la vaste mer, console nos labeurs!

Emporte-moi, wagon! enlève-moi, frégate!
Loin! loin! ici la boue est faite de nos pleurs!
-- Est-il vrai que parfois le triste coeur d'Agathe
Dise: Loin des remords, des crimes, des douleurs,
Emporte-moi, wagon, enlève-moi, frégate?

Comme vous êtes loin, paradis parfumé,
Où sous un clair azur tout n'est qu'amour et joie,
Où tout ce que l'on aime est digne d'être aimé,
Où dans la volupté pure le coeur se noie!
Comme vous êtes loin, paradis parfumé!

Mais le vert paradis des amours enfantines,
Les courses, les chansons, les baisers, les bouquets,
Les violons vibrant derrière les collines,
Avec les brocs de vin, le soir, dans les bosquets,
-- Mais le vert paradis des amours enfantines,

L'innocent paradis, plein de plaisirs furtifs,
Est-il déjà plus loin que l'Inde et que la Chine?
Peut-on le rappeler avec des cris plaintifs,
Et l'animer encor d'une voix argentine,
L'innocent paradis plein de plaisirs furtifs?


Triste andarilha

Teu coração, Ágata, costuma voar?
Longe do negro mar da imunda cidade,
Para um outro oceano de esplendor sem par,
Azul, claro, profundo como a virgindade,
Teu coração, Ágata, costuma voar?

O mar, o vasto mar consola nossas dores!
Que demônio deu à fala rouca do mar,
Ao som do imenso órgão dos ventos cantores
Esta missão sublime de nos embalar?
O mar, o vasto mar consola nossas dores!

Seqüestra-me, fragata! leva-me, vagão!
Para longe! Aqui o choro vira lama!
Será de Ágata o triste coração
Que diz: longe das dores, dos crimes, do drama,
Seqüestra-me, fragata, leva-me, vagão?

Como estás longe, paraíso perfumado,
Onde só um amor feliz pode viver,
Onde o que se ama merece ser amado,
Onde a alma se afoga no puro prazer!
Como estás longe, paraíso perfumado!

Mas o paraíso da primeira paixão,
As festas, os buquês, os beijos, as canções,
Violinos vibrando à tarde no verão,
À noite, nos bosquinhos, vinho aos borbotões
-- Mas o paraíso da primeira paixão,

O paraíso infantil do prazer furtivo
Estará mais longe que a Índia e o Nepal?
Pode chamá-lo nosso choro convulsivo
Para ressuscitá-lo com voz de cristal,
O paraíso infantil do prazer furtivo?

As jóias

Ingres, Odalisca

ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Les Bijoux

La très-chère était nue, et, connaissant mon coeur,
Elle n'avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l'air vainqueur
Qu'ont dans leurs jours heureux les esclaves des Mores.

Quand il jette en dansant son bruit vif et moqueur,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me ravit en extase, et j'aime à la fureur
Les choses où le son se mêle à la lumière.

Elle était donc couchée et se laissait aimer,
Et du haut du divan elle souriait d'aise
À mon amour profond et doux comme la mer,
Qui vers elle montait comme vers sa falaise.

Les yeux fixés sur moi, comme un tigre dompté,
D'un air vague et rêveur elle essayait des poses,
Et la candeur unie à la lubricité
Donnait un charme neuf à ses métamorphoses;

Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses reins,
Polis comme de l'huile, onduleux comme un cygne,
Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins;
Et son ventre et ses seins, ces grappes de ma vigne,

S'avançaient, plus câlins que les Anges du mal,
Pour troubler le repos où mon âme était mise,
Et pour la déranger du rocher de cristal
Où, calme et solitaire, elle s'était assise.

Je croyais voir unis pour un nouveau dessin
Les hanches de l'Antiope au buste d'un imberbe,
Tant sa taille faisait ressortir son bassin.
Sur ce teint fauve et brun le fard était superbe.

-- Et la lampe s'étant résignée à mourir,
Comme le foyer seul illuminait la chambre,
Chaque fois qu'il poussait un flamboyant soupir,
Il inondait de sang cette peau couleur d'ambre!



As Jóias

A bem amada, nua, sabe o que quero eu.
Despiu-se, mas deixou as jóias musicais
Que lhe dão o esplendor, o ar de quem venceu,
Da escrava mourisca que rege as bacanais.

Quando lança ao dançar seu timbre sedutor,
Esse mundo vivo de pedra e de metal
Deixa-me em êxtase, e eu amo com furor
As coisas em que o som e a luz vibram igual.

Ela estava deitada e se deixava amar
E do alto do divã sorria de tocaia
Ao meu amor profundo e doce como o mar,
Que até ela subia como numa praia.

Olhos fixos em mim como um tigre domado,
Ela ensaiava poses com um ar sonhador;
E a inocência unida ao jeito debochado
A essas posições dava um novo sabor.

E o braço e a perna, e a coxa e os quadris,
Lisos como cetim, cisnes a ondular,
Enchiam os meus olhos sábios e gentis;
E o ventre e os seios, frutos do meu pomar,

Vinham mais tentadores que os anjos do Mal
Para abalar a paz em que estava minh'alma
E desalojá-la da torre de cristal
Onde ela se abrigara, solitária e calma.

Parecia-me que um novo traço unia
Suas ancas largas ao busto de um menino,
Tanto o corpo esguio realçava a bacia.
No seu rosto mestiço, o ruge era divino!

E a lâmpada de óleo já tendo morrido,
Como só a lareira iluminava a cena.
Cada vez que de lá vinha um rubro gemido,
Inundava de sangue essa pele morena!

Cézanne e Pissarro

Cézanne, Pont Maincy

O MOMA está abrindo uma exposição que fica até setembro com 80 quadros de Camille Pissarro e Paul Cézanne. Ainda mais interessante do que as obras dos dois é a história de como Pissarro se tornou o mentor de Cézanne e ajudou-o a se tornar um gênio da pintura.
Os dois tinham uma história parecida. Romperam com famílias burguesas e foram para Paris pintar. Pissarro, de uma família de comerciantes judeus das Antilhas, Cézanne filho de banqueiro em Aix no sul da França. Pissarro era um dos fundadores do movimento impressionista. Mas nunca chegou perto da genialidade de Monet. Cézanne, sete anos mais novo, começou com quadros estranhos, explosivos, altamente eróticos. Foi execrado. Só Pissarro sacou o potencial de Cézanne. Por sugestão de Pissarro, Cézanne saiu do estúdio e de Paris e foi para o campo pintar na natureza. A paleta dele, que era escura, se tornou clara e simples. Os dois passaram 20 anos pintando juntos. Muitos quadros da exposição são quase idênticos. Mas depois de um certo tempo dá para ver a diferença de estilo: Pissarro, mais naturalista, Cézanne já procurando se livrar do excesso de detalhes e prenunciando as composições geométricas e abstratas que iriam provocar o surgimento da arte do século XX, cubismo, abstracionismo.
Entrevistei o curador da mostra, o francês Joachim Pissarro, bisneto do pintor. Ele chamou-me a atenção para a influência mútua. Através de Pissarro, Cézanne sublimou sua explosão de sensações, criou uma linguagem formal. Mas Pissarro ganhou de Cézanne a intensidade, a expressividade que ele não tinha.
A exposição é um pouco monótona, porque os quadros são todos muito parecidos, paisagens que se repetem nas mesmas cores, predominando os tons de verde. E a melhor produção de Cézanne é posterior à fase Pissarro. Mas se você tiver tempo para olhar os quadros demoradamente, estudar detalhes, se perder nas formas e cores, pode ser uma experiência deliciosa.

Pissarro, La Côte des Boeufs

Friday, June 24, 2005

A uma passante

Edouard Manet, Berthe Morisot


ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!


A uma passante

O alarido da rua me ensurdecia.
Longa, magra, enlutada, altaneira dor,
Ela passou, com um gesto superior,
Balançando os punhos de passamanaria,

Ágil e nobre, no caminhar de vestal.
E eu bebia, como quem mal se agüenta,
No seu olhar, céu negro prenhe de tormenta,
O afeto que fascina e o prazer mortal.

Um raio... e logo o breu! Fugidia beldade,
Cujo olhar me fez renascer de uma só vez,
Só poderei rever-te na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Jamais talvez!
Não sabes onde vou e não sei onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que o sabias!

O Sol




ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Le Soleil

Le long du vieux faubourg, où pendent aux masures
Les persiennes, abri des sécrètes luxures,
Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés
Sur la ville et les champs, sur les toits et les blés,
Je vais m'exercer seul à ma fantasque escrime,
Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,
Trébuchant sur les mots comme sur les pavés
Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés.
Ce père nourricier, ennemi des chloroses,
Éveille dans les champs les vers comme les roses;
II fait s'évaporer les soucis vers le ciel,
Et remplit les cerveaux et les ruches le miel.
C'est lui qui rajeunit les porteurs de béquilles
Et les rend gais et doux comme des jeunes filles,
Et commande aux moissons de croître et de mûrir
Dans le coeur immortel qui toujours veut fleurir!

Quand, ainsi qu'un poète, il descend dans les villes,
II ennoblit le sort des choses les plus viles,
Et s'introduit en roi, sans bruit et sans valets,
Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais.

O Sol

Pela velha ruela onde, sob os tetos,
Persianas abrigam prazeres secretos,
Quando o sol tão cruel lança raios iguais
Sobre cidade e campo, casas e trigais,
Vou só, a praticar minha excêntrica esgrima,
Em tudo farejando os acasos da rima,
Tropeçando em palavras e no lajeado,
Achando o verso há tanto tempo sonhado.

Este pai que alimenta, inimigo do alvor,
Desperta no jardim o verme e a flor,
Faz com que se evaporem as tristes idéias,
Enche de mel os cérebros e as colméias;
Remoça os que sofrem de doenças antigas,
Tornando-os alegres como raparigas,
E manda a plantação crescer e produzir
No imortal coração que sempre quer florir!

Quando, igual ao poeta, ele desce à cidade,
Até às coisas vis ele dá majestade,
E entra como um rei, sem pompa ou serviçal,
Em cada palácio e em cada hospital.

A você de Malabar

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ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

À une malabaraise

Tes pieds sont aussi fins que tes mains, et ta hanche
Est large à faire envie à la plus belle blanche;
À l'artiste pensif ton corps est doux et cher;
Tes grands yeux de velours sont plus noirs que ta chair.
Aux pays chauds et bleus où ton Dieu t'a fait naître,
Ta tâche est d'allumer la pipe de ton maître,
De pourvoir les flacons d'eaux fraîches et d'odeurs,
De chasser loin du lit les moustiques rôdeurs,
Et, dès que le matin fait chanter les platanes,
D'acheter au bazard ananas et bananes.
Tout le jour, où tu veux, tu mènes tes pieds nus,
Et fredonnes tout bas de vieux airs inconnus;
Et quand descend le soir au manteau d'écarlate,
Tu poses doucement ton corps sur une natte,
Où tes rêves flottants sont pleins de colibris,
Et toujours, comme toi, gracieux et fleuris.
Pourquoi, l'heureuse enfant, veux-tu voir notre France,
Ce pays trop peuplé que fauche la souffrance,
Et, confiant ta vie aux bras forts des marins,
Faire de grands adieux à tes chers tamarins?
Toi, vêtue à moitié de mousselines frêles,
Frissonnante là-bas sous la neige et les grêles,
Comme tu pleurerais tes loisirs doux et francs,
Si, le corset brutal emprisonnant tes flancs,
Il te fallait glaner ton souper dans nos fanges
Et vendre le parfum de tes charmes étranges,
L'oeil pensif, et suivant, dans nos sales brouillards,
Des cocotiers absents les fantômes épars!

A você de Malabar

Seus pés são tão finos... Finas as mãos; a anca
É larga, de matar de inveja qualquer branca.
O corpo é um manjar e nele, o que se vê?
Olhos de veludo, mais negros que você.
No país quente-azul onde um deus lhe deu nicho,
Vive para atender do seu mestre o capricho:
Acender o cachimbo, pôr nos frascos perfumes
E água, enxotar da cama os vagalumes
E, quando a manhã faz cantar os manguezais,
Ir comprar no bazar banana e ananás.
Todo dia, onde vai, anda sempre descalça
E murmura baixinho alguma velha valsa.
Quando descem as tardes de manto escarlate,
Deita bem de mansinho o corpo chocolate
Onde os sonhos tremulantes de colibris
São como quem sonha, alegres e febris.
Por que quer ver nosso país, feliz criança,
A superpovoada e sofredora França?
Por que se entrega a marinheiros mal-avindos
E se despede pra sempre dos tamarindos?
Lá, tremendo de frio sob gelo e neve,
Tendo por agasalho só a tanga leve,
Ah, como você choraria de saudade
Da vida doce e franca da sua cidade,
Quando tiver que achar jantar no nosso lixo
E precisar vender seu estranho feitiço,
O olhar perdido no bulevar, a buscar
De ausentes coqueiros o fantasma no ar!

Spleen

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Ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Spleen

Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
Sur l'esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
Et que de l'horizon embrassant tout le cercle
Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

Quand la terre est changé en un cachot humide,
Où l'Espérance, comme une chauve-souris,
S'en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris;

Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D'une vaste prison imite les barreaux,
Et qu'un peuple muet d'infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrément.

-- Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme; l'Espoir,
Vaincu, pleure, et l'Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir.


Spleen

Quando o céu baixo cai, pesado como tampa,
Sobre a mente que sofre a dor de um longo açoite,
Toldando do horizonte sua inteira rampa,
Fazendo o dia negro, mais triste que a noite,

Quando a terra se torna uma gelada cela,
Lugar onde a Esperança, imitando o morcego,
Vai roçando no muro a asa com cautela,
Ferindo-se no teto podre sem sossego;

Quando a chuva desdobra cortinas enormes,
De uma vasta prisão imitando a muralha,
E um povo calado de aranhas disformes
No fundo da cabeça tece sua malha,

Badaladas de sino irrompem com furor
E lançam para o céu um urro de heresia,
Almas penadas sem volta e sem amor,
A gritar e gemer de pé, por teimosia.

-- E um longo funeral, sem música ou tambor,
Desfila devagar na alma; a Esperança
Vencida chora e a Angústia carniceira
Finca no crânio meu sua negra bandeira.

Elizabeth Bishop por Luciana Souza

The poems of Elizabeth Bishop and other songs

Luciana Souza gravou em 2000 o disco "The poems of Elizabeth Bishop and other songs", escolhido como um dos 10 melhores do ano pelo New York Times. São 13 composições de Luciana, com arranjos dela.
Ouça a faixa 11, Sonnet.
Luciana Souza, voz; Chris Cheek, sax; Bruce Barth, piano; John Lockwood, baixo; Marlon Browden, bateria e percussão.

Sonnet

I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling finger-tips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!

There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep.

Elizabeth Bishop, 1928

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Soneto

Eu preciso de música que flua
nas pontas finas, frágeis dos meus dedos,
nos meus lábios amargos de segredos,
com melodia líquida e nua.
Ah, a antiga ginga sã e crua
de uma canção que aos mortos dê guarida,
água que me cai sobre a testa erguida,
o corpo febril, um brilho de Lua!

A melodia pode enfeitiçar:
magia calma, respiração pura,
um coração que afunda no abandono
da mansa, escura imensidão do mar
e flutua pra sempre na verdura,
amparado no ritmo e no sono.

tradução, Jorge Pontual

Uma arte, Elizabeth Bishop

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A arte da perda é fácil ter;
por tanta coisa cheia de intenção
de ser perdida não dá pra sofrer.

Perca algo todo dia. Perder
chaves aceite, junto com a aflição.
A arte da perda é fácil ter.

Treine perder muito sem se deter:
lugares, e nomes, a comichão
de viajar. Nada fará sofrer.

Perdi jóias da mamãe. E dizer
que perdi casas que amei de paixão.
A arte da perda é fácil ter.

Perdi duas cidades. E o prazer
de um continente na palma da mão.
Sinto falta mas não dá pra sofrer.

- Até perder você (a voz, o ser
que eu amo) não devia mentir. Não,
a arte da perda se pode ter
embora pareça (diga!) sofrer.

tradução, Jorge Pontual

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One art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop, 4 de novembro de 1975

Ouça o poema na voz da atriz Blythe Danner com um video de imagens de lugares onde Bishop viveu no Brasil
Esse video é o final de um programa de uma hora, One Art, sobre a poeta. Mas para ver o programa todo, que é ótimo, antes inscreva-se no site www.learner.org. A inscrição é gratuita.

Bishop em Ouro Preto com o gato Tobias

Thursday, June 23, 2005

Pai e filha

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Luciana Souza acaba de ser escolhida melhor cantora de jazz de 2005 pela associação dos jornalistas de jazz. A cantora que vive há quase 20 anos nos Estados Unidos está no momento em tournée pelo país. Em 13 julho canta no Madison Square Park aqui em New York. Luciana é compositora, cantora lírica (contralto) e uma das melhores da MPB, embora ainda pouco conhecida no Brasil. É filha do músico Walter Santos que a acompanha ao violão nesta faixa.

Suas mãos, Antonio Maria

Janelas de Manhattan

Edward Hopper, Nighthawks


Antonio Muñoz Molina é um dos melhores escitores espanhóis contemporâneos. Mora em New York, onde dirige o Instituto Cervantes. O texto que segue é do livro Ventanas de Manhattan. Curta ouvindo My Song com Keith Jarret:

Edward Hopper, Early sunday morning


Para una mirada europea, española, Edward Hopper es un pintor de figuras hieráticas y lugares neutros o abstractos, de extrañas habitaciones con muebles rudos y grandes y ventanas enormes que dan a edificios de ventanas idénticas o a paisajes despoblados, bosques oscuros o colinas peladas y bajas como dunas. En sus cuadros se ven escenas nítidamente recortadas y al mismo tiempo veladas de misterio, figuras detenidas en gestos, ensimismadas en tareas que parecen poseer una significación muy profunda, completa en si misma, pero también inaccesible, como fotogramas aislados de películas cuyo argumento es desconocido.

Edward Hopper, Room in New York


Pero ésa es la visión de quien se pasea de noche por un barrio tranquilo de Nueva York, por las calles residenciales de Chelsea o del Upper West Side, y mira desde la acera en sombras las ventanas de comedores o bibliotecas o de pequñas oficinas escenas fragmentarias en las vidas de los desconocidos, gente que lee el periodico junto a una lámpara encendida, en un sillón tan rojo y ancho como ciertos sillones de Hopper, o que en mitad de una habitación se queda pensando, queriendo recordar algo que iban a hacer o buscar y que han olvidado.

Edward Hopper, Night window


Entonces el recuadro de la ventana es el marco exacto de una pintura, y ese hombre o esa mujer que están haciendo o pensando algo vulgar y que no son más ricos o más atractivos ni llevan vidas más memorables que la nuestra adquieren a la luz de la lámpara, en la distancia y la sombra que las separan de la calle, el enigma de algo que nos gustaría saber y no descubriremos nunca, el prestigio de una existencia armoniosa, protegida, serena, quizás demasiado reflexiva y un poco melancólilca, más sustancial que la nuestra.

Edward Hopper, Room in Brooklyn


Daríamos qualquer cosa por vivir en esa habitación que vemos desde la acera, por llevar esa vida que nos parece tan hecha de costumbres sólidas, rodeada de objetos valiosos y ennoblecidos por el uso, esos cuadros que apenas acertamos a distinguir, con sus marcos quizás dorados, esos libros de tapas oscuras que sin duda son obras maestras y en cuya lectura nos gustaría sumergirnos, a la luz de esa lámpara y en ese sillón junto a la ventana, en esa calma y ese silencio que apenas interrumpen los pasos de un desconocido que cruza por la calle.

Edward Hopper, Morning sun


En Hopper también está esa figura, la que ve alguien desde su ventana, alguna vez en un contrapicado como de película policial en blanco y negro, el hombre con el rostrotapeado por un sombrero que pasa muy abajo por la acera, alumbrado de espaldas por la farola de la calle que proyecta ante él su sombra larga y amenazadora.

Edward Hopper, August in the city


Los ventanales americanos de Edward Hopper están en algunas de las mejores películas de Alfred Hitchcock, que nunca dejó de mirar los Estados Unidos con una mirada de forastero que observa lugares y costumbres siempre ajenas a él, exóticas en su cotidianidad, como los moteles de carretera en la literatura americana de Nabokov. Toda Psicosis procede de una escena que podía haber estado en un cuadro de Hopper; empieza en una ventana elegida como al azar entre centenares de ventanas iguales, que están en Phoenix, Arizona, pero que podrían estar en uno de eses hoteles de la parte media de Manhattan, como los que frequentaba yo em mis primeros viajes:

Edward Hopper, House by the railroad


una habitación, una cama, un aparador grande, una mujer sobre la cama y un hombre de pie junto a ella, o sentado a sus pies, unidos por algo que intuimos pero que no se nos muestra, cómplices y a la vez cada uno apartado del otro en el silencio de sus cavilaciones. Hopper se interrumpe aquí y no cuenta nada más: las vidas del hombre y de la mujer acaban en ese instante, en esa habitación, en lo que podría vislumbrar o suponer de ellas un testigo que mirara hacia la ventana abierta, adviertendo el contraste entre la evidente luz diurna y la casi desnudez de los personajes.

Edward Hopper, Eleven AM


Edward Hopper, Autoretrato

O albatroz

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Ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

L'Albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


O Albatroz

Para se divertir, os marujos costumam
Pegar um albatroz, grande ave do mar,
Companheira indolente dos barcos que rumam
Para os mares do Sul, abismos a cruzar.

Fisgado pelo anzol, atirado ao convés,
Este rei do azul, triste, desajeitado,
Para fugir arrasta seus enormes pés
E deixa as asas brancas caídas de lado.

Aéreo viajante, tão fraco e nanico!
Antes belo, agora feioso bufão!
Alguém com um tição espicaça-lhe o bico;
Outro a mancar imita o alado aleijão.

O Poeta é igual ao rei do firmamento
Que ri da tempestade e das flechas no ar;
Exilado no chão, cercado de tormento,
As asas de gigante não o deixam andar

Wednesday, June 22, 2005

A CIDADE E O COSMOS

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Lee Smolin é um físico americano que agora é professor no Perimeter Institute no Canadá. Um dos livros dele, A Vida no Cosmos, é um dos melhores textos de ciência que eu já li. Segue o final do livro (que tal acompanhar com a Rapsódia em Blue do Gershwin?):

A velha imagem do universo Newtoniano era um relógio: pesado, insistente, estático; nesta metáfora sente-se a mão de ferro do determinismo e, por trás dela, a ameaça de que o relógio enguice. Ademais, esta sempre foi uma imagem religiosa pois o relógio exige o relojoeiro, que o construiu e pôs para funcionar. Contra isso, gostaria de propor uma nova metáfora para o universo, também baseada em algo construído por seres humanos.

Fui levado a concluir este livro aqui, na melhor cidade do planeta, meu primeiro lar. Algumas semanas atrás saí para andar, procurando uma metáfora para terminar este livro, uma metáfora para um universo construído não por um relojoeiro fora dele mas por seus elementos num processo de evolução, ou talvez de negociação. De repente percebi que, em sua infinita diversidade e variedade, o que eu amo na cidade é exatamente o modo como ela espelha a imagem do cosmos que estou tentando botar em foco. A cidade é o modelo; estava ao meu redor, o tempo todo.

A metáfora do universo que estou tentando agora imaginar, contra a imagem do universo como relógio, é a imagem do universo como uma cidade, uma negociação sem fim, uma construção infinita do novo a partir do velho. Ninguém fez a cidade, não há um fazedor-de-cidade, como há um relojoeiro. Se a cidade pode se fazer sozinha, sem um criador, por que o mesmo não pode ser verdade com o universo?

Além disso, a cidade é um lugar onde a novidade pode surgir sem violência, onde podemos imaginar um processo contínuo de melhoria sem revolução, e onde não precisamos respeitar nada acima de nós mesmos, e sim estamos continuamente confrontados uns com os outros como criadores do nosso mundo compartilhado. Todos nós a fazemos, não apenas um, e somos dela, e ser dela e ser um dos seus criadores é a mesma coisa.

Assim, nunca houve um Deus, um piloto que fez o mundo impondo a ordem ao caos e que permanece de fora, vigiando e prescrevendo. E Nietzche também morreu. O eterno retorno, a eterna morte do calor, não ameaçam mais, eles nunca virão, nem virá o paraíso. O mundo sempre será aqui, e será sempre diferente, mais variado, mais interessante, mais vivo, mas ainda assim sempre o mundo em toda a sua complexidade e incompletude. Tudo que existe na Natureza está em torno de nós. Tudo que existe do Ser é relação entre coisas reais e sensíveis. Tudo que temos da lei natural é um mundo que se faz sozinho. Tudo que podemos esperar da lei humana é o que podemos negociar entre nós, e o que tomamos como nossa responsabilidade. Tudo o que podemos ganhar de conhecimento deve vir do que vemos com nossos próprios olhos e o que os outros nos dizem que viram com seus próprios olhos. Tudo o que podemos esperar da justiça é compaixão. Tudo o que é possível da utopia é o que fazemos com nossas próprias mãos. Reze para que seja o bastante.


New York, 1997

Lee Smolin

Monday, June 20, 2005

MARGARET ATWOOD ON WRITING AND POLITICS

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"I radically consider women to be human beings"

"Brazil holds the key to the future of the world"

"a lot of us grew up with the idea of America as being the kind of beacon of promise and land of freedom, all of these wonderful things, and then you wake up and you think, what happened?"


Click here to read the interview in English

Sunday, June 19, 2005

OUT, OUT, BRIEF CANDLE!

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Georges de La Tour, Madalena arrependida

Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.


William Shakespeare, Macbeth, Ato V, cena V

Amanhã, amanhã e amanhã,
O passo vão rasteja dia a dia
Para a última sílaba do tempo,
E os dias idos deram luz aos tolos
Até virarem pó. Apaga, vela!
A vida é sombra solta, mau ator
Que infla e treme até deixar o palco
E nunca mais se ouve: é estória
De um idiota, muito som e fúria,
Sem nenhum sentido.

(minha iâmbica tradução)

Estou indo trabalhar, no metrô entupido de gente, e leio no cartaz intitulado Poetry in Motion o trecho célebre de Macbeth que inspirou o título do romance de Faulkner, The Sound and the Fury. Leio de novo voltando pra casa, e quase todo dia ele aparece na minha frente, já parte da paisagem urbana de New York.
Acabo guglando e aprendo que Macbeth, o déspota escocês assassino, reage assim ao saber do suicídio da mulher dele, Lady Macbeth. Vou à maior autoridade em Shakespeare que eu conheço, Harold Bloom, e constato que embora o personagem favorito dele seja Falstaff, Macbeth é a tragédia de Shakespeare que ele prefere.

"Of the aesthetic greatness of Macbeth there can be no question. The play can not challenge the scope and depth of Hamlet and King Lear, or the brilliant playfulness of Othello, or the world-without-end panorama of Anthony and Cleopatra, and yet it is my personal favorite of all the high tragedies. Shakespeare's final strength is radical internalization, and this is his most internalized drama, played out in the guilty imagination that we share with Macbeth. I do not know if God created Shakespeare, but I know that Shakespeare created us. Macbeth himself exceeds us, in energy and in torment, but he also represents us, and we discover him more vividly within us the more deeply we delve".
Harold Bloom, Shakespeare, the Invention of the Human

Na interpretação de Bloom, todos nós temos um Macbeth lá no fundo, essa sede de poder sem limites, uma fantasia assassina de eliminar todos os rivais. Tem um Macbeth dentro de todo político cheio de ambição de poder. Preciso resistir à tentação de compará-lo ao personagem da nossa política que mesmo deixando o governo diz que vai continuar governando...
Macbeth segundo Bloom é o mais humano de todos os personagens de Shakespeare. Não tem a inteligência de Hamlet, e de todos os protagonistas shakespeareanos ele é o menos livre. Mas é aquele com quem a gente mais se identifica.
E pra Macbeth, como pra cada um de nós, a grande tragédia é o tempo. O que é o nosso tempo de vida se não som e fúria sem sentido?

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Orson Welles no filme Macbeth

Friday, June 17, 2005

PELO ESPAÇO VAI... VAI... VAI...

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Inquietação, de Ary Barroso com Rosas Passos e Lula Galvão

Finalmente funciona! Clique no link acima e espere um minutinho. Mas antes, se ainda não tem, baixe o iTunes, é de graça.
Vermeer, Moça do chapéu vermelho

O quadro é mínimo, 23 cm por 18. Mas ampliado 20 vezes, num poster grande, fica ainda melhor. Nada se sabe sobre a moça, e alguns até teimam que seria um rapaz. A cadeira com cabeças de leões, os brincos de pérola e a tapeçaria no fundo são os mesmos de outros Vermeer. O jogo de luz também. Mas tem alguma coisa, nessa boca entraberta, no olhar, no vermelho do chapéu de plumas, alguma coisa ao mesmo tempo simples e sublime. É um quadrinho pouco maior que um cartão postal. Mas toda vez que eu vou a Washington tento arrumar um tempinho para visitar a moça do chapéu vermelho na National Gallery. E ela me olha com a mesma atração que eu sinto por ela.

Thursday, June 16, 2005

GREGORY CHAITIN, MATEMÁTICA E PRAZER

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Antes do nyontime , minha única entrevista impressa foi a transcrição de um Milênio com o matemático Gregory Chaitin. Argentino, naturalizado americano, Chaitin trabalha num laboratório de gênios da IBM ao norte de Nova York. Entre outras coisas, ele explora os limites da matemática, e ficou famoso por ter calculado o número Omega, que define o limite além do qual a matemática não pode ir. Chaitin gostou tanto da nossa conversa que publicou a entrevista num dos livros dele. Clique aqui para ler em inglês a entrevista, que ele intitulou "Matemática Sensual".

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Em 1970, no carnaval do Rio, Chaitin teve o insight que
levou ao número Omega e revolucionou a Matemática

Mr Sapo

Por que será que os sapos humanizados são tão simpáticos? Afinal os sapos de verdade são bem... nojentos. Feios. Sorumbáticos. Mas o fato é que tem um monte de sapos fofos por aí: o Hermit de Sesame Street, o Keroppi da Hello Kitty, o Michigan J. Frog da Warner Brothers, o australiano Freddo.
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Estou usando no meu browser um sapo boa-praça da maior simpatia e utilidade, o MrSapo. É um site de busca muito bem bolado. Numa única janela, escrevendo-se o termo buscado uma única vez, pode-se consultar um grande número de buscadores: Google, Yahoo, Ask Jeeves, Clusty, Lycos, etc, e comparar os resultados.

É muito fácil e não custa nada baixar a barra do MrSapo, que tem botões para dicionários, busca de imagens e videos, sites de notícias, blogs, uma infinidade de coisas. Fiquei sabendo do MrSapo pelo jornalista James Fallows que elogiou o site como o melhor para buscas na Web. E é mesmo.

Há um concorrente, até mais popular, o Dogpile, que também traz resultados de todos esses buscadores e apresenta tudo numa página só. O problema é que o Dogpile seleciona entre os resultados dos buscadores aqueles que considera os melhores. Com que critério? Se você pagar, seu site entra nos melhores. O critério é comercial.

Por isso é melhor usar o MrSapo, que traz os resultados de cada buscador sem selecionar. Você escolhe segundo os seus critérios.

Perguntei ao criador do MrSapo, Juan Sosa, de Atlanta, qual a origem do nome.

Ele respondeu que o sapo simboliza a curiosidade, e de fato o sapo está sempre vigiando o que acontece em volta, mesmo que pareça estar dormindo. Daí o verbo sapear, ou seja, ficar à espreita.

Pra ser perfeito, só falta agora o MrSapo encontrar o nyontime, o que ainda não aconteceu...


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Entre no MrSapo

BRUNO LATOUR, UMA NOVA POLÍTICA

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Poucas vezes entrevistei alguém tão brilhante quanto Bruno Latour.
É daqueles que pensam alto, e pensam comprido, derramando idéias num jorro que parece às vezes se perder mas sempre volta ao leito do pensamento inicial.
Confesso que a entrevista que foi ao ar no Milênio da Globo News não funcionou na TV.
É complexo demais para ser acompanhado na telinha, mesmo com legendas em português.
A leitora e o leitor atentos do nyontime têm agora a chance de ler e reler Latour até entender -- ou não -- por enquanto em francês. Um dia terei tempo de traduzir para o português e, quem sabe, para o inglês...
Latour passou por Harvard em março, quando estava a dias de abrir Fazer as Coisas Públicas em Karlsruhe na Alemanha, mais uma na série de exposições em que ele junta cientistas, artistas, pensadores, engenheiros, etc, para desenvolver um tema. No caso, as muitas formas de "fazer política" criadas ao longo da História e as novas que vêm por aí.
Latour é um antropológo das ciências. Começou investigando como a ciência é feita na prática dos laboratórios, e descobriu que é um processo de negociação, de investigação e debate coletivo, semelhante ao da política.
No livro Nunca Fomos Modernos, mostrou que a divisão feita pelos cartesianos e modernistas, entre cientistas que detêm o saber e políticos que decidem em nome da sociedade, é uma ficção que nunca funcionou na prática.
Nos problemas de hoje, seja o aquecimento da atmosfera, a manipulação genética, a transformação da sociedade pela alta tecnologia, não há mais como separar ciência e política.
No livro Política da Natureza, Latour propõe uma ecologia política com um caráter profundamente democrático, pois pressupõe a participação de todas as partes interessadas, até os não-humanos , como a floresta, os bichos, as minhocas (vers de terre) , representados por cientistas e defensores dos animais, ao lado dos índios, dos garimpeiros, dos economistas e dos artistas. "As decisões são importantes demais para serem deixadas só para os políticos", ele provoca.
Sempre com um sorriso maroto de quem sabe estar questionando todos os chavões da ciência, da ecologia e da política -- especialmente de esquerda -- Latour desafia modernistas e pósmodernistas, em busca do bom senso e da civilidade. "A maior qualidade na política", ele diz, "é a decência". Uma qualidade em falta. Mas Latour nos anima: "Em toda parte a política anda desanimadora, em crise. Mas é uma crise interessante".
Leia aqui a entrevista de Bruno Latour, por enquanto só em francês. É melhor fazer um copy/paste e imprimir pra ler na cama, porque são nove páginas...

APOCALIPSE EM INDAIATUBA

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Se o fim do mundo for bonito assim, eu topo!

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Em matéria de efeitos especiais chegamos ao primeiro mundo.

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Wednesday, June 15, 2005

SEGUIR EM FRENTE

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Entrevistei para o Sem Fronteiras que vai ao ar nesta quinta-feira, na Globo News, o jurista James Jacobs da New York University, autor do livro The Pursuit of Perfect Integrity, sobre os equívocos do combate à corrupção nos Estados Unidos.
O programa mostra como outros países enfrentam o problema da corrupção na política.
Nos Estados Unidos, políticos e grupos de interesse conseguem, dentro da lei, fazer com que o dinheiro influencie eleições e decisões políticas. Ou seja, vai ser preciso aprimorar a lei.
Mas Jacobs adverte para o perigo de que o combate à corrupção vire a prioridade número um, o que pode paralizar o governo e a nação.
"O governo tem muito o que fazer, e não vai ser bem sucedido se a única coisa que fizer for evitar escândalos de corrupção. Aqui nos Estados Unidos, foram introduzidos controles e mais controles, mas ainda há escândalos, ainda há corrupção. Infelizmente isso é parte da vida. Quando é descoberto, tem que ser processado, punido, mas é perigoso adotar um excesso de mecanismos preventivos".
E mais:
"Não há democracia que não enfrente esse problema, Japão, Índia, Estados Unidos, Reino Unido. Onde houver democracia haverá escândalos. Precisam ser enfrentados, mas temos que seguir em frente. É importante que as pessoas no Brasil não se tornem completamente cínicas em relação às falhas na sua democracia. Todos os sistemas de governo têm problemas e falhas e passam por períodos de corrupção, de crise. Estamos sempre tentando melhorar, corrigir os problemas, incentivar a honestidade, mas isso não tem fim, não há solução mágica".

Que tal cantar com Cartola: "Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar rir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver".
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Eu tive que ampliar a imagem do católogo da Christie's, por isso não está muito boa. É um Buda curvado para a frente, com a cabeça nas mãos, em madeira clara polida. Pertencia a Marlon Brando e vai ser leiloado com mais centenas de peças na quinta, dia 30.
Hoje eu estive lá para gravar reportagem que deve ir ao ar no Jornal da Globo na segunda. Me deixaram segurar e folhear a peça mais valiosa do leilão, o script do Poderoso Chefão anotado à mão por Brando. Deu um friozinho na barriga. Tem anotações incríveis, como quando ele escreve que Don Corleone teve o nariz quebrado quando jovem, e por isso tem dificuldade pra falar e respirar, o que Brando conseguiu fazer à perfeição. Era um gênio.
Mas dá pena ver todos esses objetos juntos pela última vez. Era a vida pessoal dele, que mantinha longe do olho dos curiosos, de repente exposta e esfacelada. Cada coisa irá para na mão de um colecionador. Inclusive o comovente Buda que parece estar chorando com a cara escondida.

Reality News

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Vamos agora a Brasília falar ao vivo com a repórter Vera Cidade.
Vera, qual é o balanço do dia aí em Brasília?

Pangloss, não faço a menor idéia. (pausa longa)

Desculpem a falha técnica tivemos um problema no audio em Brasília. Vera, qual é a sua análise do dia de hoje?

Não faço a mínima. E aliás não estou nem um pouco interessada. Para ser bem franca, Pangloss, estou por aqui com tudo isso. Mensalão, comissão, composição, estou com indigestão!

Calma, Vera, nós entendemos a sua irritação, todo mundo está se sentindo assim, não é só você. Mas nós temos que informar ao telespectador...

Que se dane o telespectador! Vá cuidar da sua vida, amigo ouvinte e vidente. Desligue a TV e vá para a rua. Vá andar, paquerar, tomar um sorvete, ou vá tomar...

Perdoem a falha técnica, nós voltamos já já com as últimas notícias. Você acompanha aqui os bastidores da crise política. Fique com a gente... Depois dos comerciais.

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sprott.physics.wisc.edu/ fractals.htm

Vive nas nuvens. Devaneia. Poeta. Anda um palmo acima da realidade. Não tem o pé no chão. Entrou em órbita. Pirou. Doido de pedra. Maluco beleza. Não bate bem. Insensato. Só pensa nesse tal de blog.

Pra você que é isso tudo e assume, lá vai a Fantasia do Caminhante de Schubert, 21 minutos, com o pianista Alfred Brendel. Enjoy!

Gosta de um fractal? Vem aí minha entrevista com o inventor dos fractais, Benoît Mandelbrot. Aguarde...

Fumaça

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Ele se aborrece por pouco. O motorista que avançou só para tentar atropelá-lo. A passageira do metrô que pisou no pé dele, de propósito. O chefe está de cara feia de novo, com certeza decidiu demiti-lo, afinal o vem perseguindo há tanto tempo, o pobre-coitado. Inveja. Porque afinal ele é um gênio, um talento enorme, incompreendido e ignorado. Mas esse mundo do jeito que está, é melhor mesmo não ser ninguém. Olha só as tais celebridades, que idiotas. Ele tem a cabeça cheia de idéias. Histórias... Deslumbrantes, que nem aquela do... Droga! Foi ou não foi por querer que esse garoto esbarrou nele? O que é que está olhando? Que gentinha. Melhor fugir pro seu mundo, tão cheio de poesia, música, arte.
Nossa, como o dia passou depressa, e ele ainda não terminou o relatório que o chefe pediu. Vai humilhá-lo, espera só, vai escrever um texto tão brilhante, tão arrasador, que o f.d.p... Não, o medíocre não merece tanto. Pérolas para porcos. Ahn? Sim senhor, já estou indo, claro, o senhor é quem manda...
Ai, como ele sofre, tanta humilhação. Mas um dia... Ele olha a fumaça do cigarro que sobe atravessada pelo sol da tarde e vê figuras coloridas, visões da glória que está ao alcance da mão. Amanhã.

Tuesday, June 14, 2005

São João Batista, Leonardo da Vinci

São João Batista, Leonardo da Vinci

Me redimindo da mancada, estou postando o santo certo, que é o São João Batista. O outro, o Evangelista, o da receita de vinho, volta no dia dele, 27 de dezembro (se até lá este blog ainda existir...).
O santo está mostrando qual é o blog favorito dele.

BOB GROSSMAN E A CENSURA

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Bob Grossman, além de ser meu amigo e de ter dois netos brasileiros, Miles e Dandara, é um dos melhores cartunistas americanos, colaborador do New York Times, do New York Observer, da revista The Nation e muitos outros.
Asim mesmo, Bob teve uma história em quadrinhos censurada porque incluía uma cena de Saddam Hussein na prisão sendo forçado a ter relações com um... bode. Ninguém teve coragem de publicar. Eu publiquei no Brasil no jornal Montblaat de Fritz Utzeri, que circula por email (assine o Montblaat, flordolavradio@uol.com.br).
E Bob foi alvo de ataques da turma politicamente correta por um cartum publicado em The Nation para ilustrar a resenha do livro The Intimate World of Abraham Lincoln, que levantou a lebre de que Lincoln era gay. Bob fez um cartum mostrando Lincoln como uma provocante garota (babe) no estilo do velho oeste. A revista recebeu uma enxurrada de cartas de protesto -- não por Lincoln ter sido mostrado como gay, mas por acharem o cartum ofensivo aos homossexuais!
Fui um dos poucos a mandar uma carta em defesa de Bob. Reclamei da ditadura do politicamente correto, que chega ao ridículo de condenar uma caricatura leve e até afetuosa como essa de Abe Lincoln, transformado por Bob em Babe Lincoln..
Para vocês julgarem, aqui está a história em quadrinhos, The Man who Bagged Bhagdad for Dad (O Homem que Papou Bagdá pro Papai).
E o cartum Babe Lincoln.

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XOXO

Custei a descobrir que diabos queria dizer XOXO no fim de uma carta ou email. Vergonha de perguntar... Tem uma rede de lanchonetes aqui chamada x and o. Pois eu lia "Xando", como se fosse em português. Só mesmo quando minha filha Teca, a mais americana da família, me corrigiu, é que eu descobri que o nome se lê Écs and O, xís e ó.
Mas nem assim aprendi o que o xís e o ó queriam dizer. Finalmente um dia perdi a vergonha e perguntei à minha amiga Elaine porque ela assinava os emails com XOXO. Surpresa com a minha ignorância ela explicou: "Hugs and kisses!" Abraços e beijos... Qualquer criança americana sabe. Tão óbvio...
Fui pesquisar no Google e acabei sabendo que existe até uma controvérsia: o xís representa o que? Beijo ou abraço? Uma corrente diz que o X representava a cruz de Cristo e por isso era beijado, dái veio a representar o beijo. E o O representaria os braços em torno de uma pessoa, o abraço. A corrente rival reza que o O imita a boca beijando e o X retrata o encontro, o cruzamento, portanto o abraço. Que polêmica hein?
Então aqui vai do fundo do coração para todos os leitores de nyontime: XOXO
Abraços e beijos pra todos vocês!

Sunday, June 12, 2005

Abel e Caim

William Blake, O corpo de Abel encontrado por Adão e Eva

Ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual


Abel et Caïn

I

Race d'Abel, dors, bois et mange;
Dieu te sourit complaisamment.

Race de Caïn, dans la fange
Rampe et meurs misérablement.

Race d'Abel, ton sacrifice
Flatte le nez du Séraphin!

Race de Caïn, ton supplice
Aura-t-il jamais une fin?

Race d'Abel, vois tes semailles
Et ton bétail venir à bien;

Race de Caïn, tes entrailles
Hurlent la faim comme un vieux chien.

Race d'Abel, chauffe ton ventre
À ton foyer patriarcal;

Race de Caïn, dans ton antre
Tremble de froid, pauvre chacal!

Race d'Abel, aime et pullule!
Ton or fait aussi des petits.

Race de Caïn, coeur qui brûle,
Prends garde à ces grands appétits.

Race d'Abel, tu croîs et broutes
Comme les punaises des bois!

Race de Caïn, sur les routes
Traîne ta famille aux abois.

II

Ah! race d'Abel, ta charogne
Engraissera le sol fumant!

Race de Caïn, ta besogne
N'est pas faite suffisamment;

Race d'Abel, voici ta honte:
Le fer est vaincu par l'épieu!

Race de Caïn, au ciel monte,
Et sur la terre jette Dieu!

Ticiano, Caim e Abel

Abel e Caim

I

Raça de Abel, dorme, bebe e come,
Satisfeita porque Deus te ama.

Raça de Caim, morre de fome,
Rasteja na miséria e na lama.

Raça de Abel, o teu sacrifício
Sobe às narinas do Serafim!

Raça de Caim, o teu suplício
Será que algum dia vai ter fim?

Raça de Abel, como sempre ganhas,
Com teu gado e tua plantação;

Raça de Caim, tuas entranhas
Ganem, uivam mais que um velho cão.

Raça de Abel, nina o corpanzil
No aconchego de um lar ancestral;

Raça de Caim, no teu covil,
Treme de frio, velho chacal!

Raça de Abel, procria e constrói!
Teu ouro também se reproduz.

Raça de Caim, coração dói;
Tanta fome, onde te conduz?

Raça de Abel, cresce e devora,
Engorda, parasita daninho!

Raça de Caim, estrada a fora,
Foge tua família sem ninho.

II

Ah! Raça de Abel, tua carniça
Adubará o solo a arder!

Raça de Caim, tua justiça
Ainda tem muito o que fazer;

Raça de Abel, teu fim é cruel:
Contra o ferro o cajado venceu!

Raça de Caim, conquista o céu
E sobre a terra, atira Deus!

O Gato



Canção de Henri Sauguet, Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual




Le Chat

Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux;
Retiens les griffes de ta patte,
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux,
Mêlés de métal et d'agate.

Lorsque mes doigts caressent à loisir
Ta tête et ton dos élastique,
Et que ma main s'enivre du plaisir
De palper ton corps électrique,

Je vois ma femme en esprit. Son regard,
Comme le tien, aimable bête,
Profond et froid, coupe et fend comme un dard,

Et, des pieds jusques à la tête,
Un air subtil, un dangereux parfum
Nagent autour de son corps brun.

Henri Matisse


O Gato

Vem, gato, no meu coração deitar,
Recolhe as garras da mão,
Deixa que eu mergulhe em teu olhar,
Metal e ágata em fusão.

Quando os dedos demoro a percorrer
A cabeça, o dorso elástico,
E a mão embriago no prazer
De apalpar teu corpo orgástico,

Minha mulher eu vejo. Seu olhar,
Belo gato, como o teu é
Profundo e frio, dardo a penetrar.

Da cabeça até o pé,
Um ar sutil, perfume de veneno,
Nada pelo corpo moreno.
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ouça Aznavour com fotos lindas de Veneza

Que c'est triste Venise...
au temps des amours mortes
que c'est triste Venise
quand on ne s'aime plus.

inutile beauté devant nos yeux déçus.

adieu tous les pigeons…
adieu rêves perdus...

on voudrait bien pleurer
mais on ne le peut plus.


A Bienal de Veneza começou dia 12 de junho. As fotos são do website da bienal.

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GARCIA LORCA EM NUEVA YORK

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LA AURORA

La aurora de Nueva York tiene
cuatro columnas de cieno
y un huracán de negras palomas
que chapotean las aguas podridas.

La aurora de Nueva York gime
por las inmensas escaleras
buscando entre las aristas
nardos de angustia dibujada.

La aurora llega y nadie la recibe en su boca
porque allí no hay mañana ni esperanza posible.
A veces las monedas en enjambres furiosos
taladran y devoran abandonados niños.

Los primeros que salen comprendem con sus huesos
que no habrá paraíso ni amores deshojados;
saben que van al cieno de números y leyes,
a los juegos sin arte, a sudores sin fruto.

La luz es sepultada por las cadenas y ruidos
en impúdico reto de ciencia sin raíces.
Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes
como recién salidas de um naufragio de sangre.

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autoretrato de Garcia Lorca em Nueva York

PLEASURE DOME

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No The New York Times deste domingo 12 de junho, o escritor Tom Wolfe escreve na página de opinião. Pediram a vários new yorkers para dizer o que a cidade deve fazer pra entrar nos eixos agora que perdeu, por decisão dos políticos do partido democrata, o estádio dos Jets que seria o estádio olímpico e portanto perdeu (para Paris ou Londres ou Madrid) a olimpíada de 2012.

A tese de Wolfe, que eu endosso, é que a única razão de ser de New York hoje em dia é ter se tornado o pleasure dome do mundo, o lugar onde as coisas acontecem e onde você não vai ao teatro, mas experimenta a Broadway, não apenas compra roupa e sim entra na Moda, mais do que ir aos museus, vive a Cultura, enfim, uma experiência intangível mas muito real. Ou seja, não há cidade mais cool, mais prazeirosa. O que depende inteiramente da imagem da cidade. Ele lamenta que New York tenha perdido o estádio e por isso a olimpíada. Uma perda que ameaça a imagem de pleasure dome.

Pleasure dome é uma invenção de Colerigde no poema Xanadu. Quem viu Citizen Kane lembra dos dois primeiros versos:

In Xanadu did Kubla Kahn
A stately pleasure-dome decree.

Passei no tradutor do google, só de chinfra, e saiu:

Em Xanadu feito Kubla Khan
Um estado prazer- catedral decreto.

Que beleza de tradução. Dome de fato é catedral, ou cúpula, domo, zimbório (!), campânula, abóboda. Estas traduções me foram dadas por um software de tradução gratuito que se chama.. Xanadu!

Mas é óbvio que no sentido do poema pleasure-dome é palácio. Seria então o palácio do prazer. Meio brega como tradução, e se você querida leitora ou leitor tiver idéia melhor por favor deixe no seu comment.

New York só se sustenta por ser o Palácio do Prazer, uma disneilândia de adultos, o parque de diversões dos ricos, o pleasure dome de Kubla Khan. E nós, estrangeiros e new yorkers, que nem Marco Polo, comemos nesse mingau pelas beiras.

LUXO, CALMA E PRAZER

Henri Matisse, Luxe, calme et volupté

L'Invitation au voyage, o convite à viagem, é o poema mais conhecido de Baudelaire. Inspirou o quadro de Matisse e pelo menos dois compositores. O poema está de volta com minha tradução e as duas canções na voz da soprano Felicity Lott, acompanhada ao piano por Graham Johnson.

Henri Duparc, L'Invitation au Voyage

Emmanuel Chabrier, L'Invitation au Voyage

Charles Baudelaire, foto Nadar, 1855

L'invitation au Voyage

Mon enfant, ma sœur
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble;
— Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre ;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
A l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde ;
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D'hyacinthe et d'or;
— Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.


Baudelaire, autoretrato

O Convite à viagem

Sonha, alma irmã,
A loucura sã
De termos lá nosso leito!
Amar sem correr,
Amar e morrer
No país que é do teu jeito!
O sol desses céus
Cintila entre véus
E tem pra mim o encanto
Do olhar de luz
Que trai e seduz
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é ordem, beleza,
Luxo, calma e prazer.

Móveis ancestrais,
Polidos metais
Emolduram nossa cama;
A mais rara flor
Casa seu odor
Ao leve aroma do âmbar;
Tetos de cetim,
Espelhos sem fim,
Esplendores do Oriente,
Tudo fala então
Rente ao coração
Na doce língua da gente.

Lá, tudo é ordem, beleza,
Luxo, calma e prazer.

Vês neste canal
Dormir esta nau
De coração vagabundo?
É para atender
Teu menor querer
Que ela vem do fim do mundo!
Ao entardecer,
O sol ao morrer
Tinge cais, cidade, nave
De ouro e açafrão.
Os dias se vão
Numa luz quente e suave.


Lá, tudo é ordem, beleza,
Luxo, calma e prazer.

tradução, Jorge Pontual

Baudelaire, por Matisse

O Resgate

Van Gogh, O Semeador

La Rançon, canção de Gabriel Fauré, Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

La Rançon

L'homme a, pour payer sa rançon,
Deux champs au tuf profond et riche,
Qu'il faut qu'il remue et défriche
Avec le fer de la raison;

Pour obtenir la moindre rose,
Pour extorquer quelques épis,
Des pleurs salés de son front gris
Sans cesse il faut qu'il les arrose.

L'un est l'Art, et l'autre l'Amour.
-- Pour rendre le juge propice,
Lorsque la stricte justice
Paraîtra le terrible jour,

Il faudra lui montrer des granges
Pleines de moissons, et des fleurs
Dont les formes et les couleurs
Gagnent les suffrage des Anges.


O resgate

Como preço da redenção,
o homem tem dois campos plenos
onde lavrar, limpar terrenos
com o arado da razão.

Pra colher uma rosa apenas
ou extrair um simples grão,
muita lágrima, nesse chão,
vai derramar, de suas penas.

Um é Arte, o outro, Amor.
-- Pra ter um juiz favorável
quando da justiça implacável
chegar o dia assustador,

terá que bendizer as granjas
cheias de espigas e de flores
ricas de formas e de cores
pra cabalar a voz dos Anjos.

Canto de Outono

Turner, Por do sol


Chant d'Automne, canção de Gabriel Fauré, Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual


Chant d'automne

I

Bientôt nous plongerons dans les froides ténèbres;
Adieu, vive clarté de nos étés trop courts!
J'entends déjà tomber avec des chocs funèbres
Le bois retentissant sur le pavé des cours.

Tout l'hiver va rentrer dans mon être: colère,
Haine, frissons, horreur, labeur dur et forcé,
Et, comme le soleil dans son enfer polaire,
Mon coeur ne sera plus qu'un bloc rouge et glacé.

J'écoute en frémissant chaque bûche qui tombe;
L'échafaud qu'on bâtit n'a pas d'écho plus sourd.
Mon esprit est pareil à la tour qui succombe
Sous les coups du bélier infatigable et lourd.

II me semble, bercé par ce choc monotone,
Qu'on cloue en grande hâte un cercueil quelque part.
Pour qui? - C'était hier l'été; voici l'automne!
Ce bruit mystérieux sonne comme un départ.

II



J'aime de vos longs yeux la lumière verdâtre,
Douce beauté, mais tout aujourd'hui m'est amer,
Et rien, ni votre amour, ni le boudoir, ni l'âtre,
Ne me vaut le soleil rayonnant sur la mer.

Et pourtant aimez-moi, tendre coeur! soyez mère,
Même pour un ingrat, même pour un méchant;
Amante ou soeur, soyez la douceur éphémère
D'un glorieux automne ou d'un soleil couchant.

Courte tâche! La tombe attend - elle est avide!
Ah! laissez-moi, mon front posé sur vos genoux,
Goûter, en regrettant l'été blanc et torride,
De l'arrière-saison le rayon jaune et doux!


Canto de outono

I

Na escuridão logo estaremos mergulhados;
adeus, luz viva do nosso curto verão!
Já ouço bater com o dobre de finados
a lenha que ressoa, jogada no chão.

Todo o inverno vai entrar em mim: odiar,
sofrer, tremer de raiva, trabalhar forçado,
e, tal como o sol no seu inferno polar,
meu coração ficará vermelho e gelado.

Escuto com temor cada tora que cai;
a construção do cadafalso soa igual.
Minha mente parece a torre que se vai
sob os golpes do aríete duro e brutal.

Sinto, ao som que fere os ouvidos meus,
que alguém com muita pressa martela o caixão.
De quem? -- Chegou o outono! Vai-se o verão!
O estranho refrão soa como um adeus.

II

Amo a luz esverdeada dos seus olhos longos,
doce beleza, mas nada vai me agradar;
nem o seu amor, nem a cama, nem os sonhos
valem pra mim o sol brilhando sobre o mar.

Ainda assim, me ame! Seja mãe, ternura,
mesmo para um ingrato, até para um malvado;
amante ou irmã, seja a breve doçura
de um outono ou de um pôr-de-sol afogueado.

Vai ser rápido! A tumba espera contente!
Ah, deixe-me deitar no seu colo adorado
e gozar, com saudade do verão fervente,
um brilho outonal, suave e dourado!


Chant d'automne

I

Bientôt nous plongerons dans les froides ténèbres;
Adieu, vive clarté de nos étés trop courts!
J'entends déjà tomber avec des chocs funèbres
Le bois retentissant sur le pavé des cours.

Tout l'hiver va rentrer dans mon être: colère,
Haine, frissons, horreur, labeur dur et forcé,
Et, comme le soleil dans son enfer polaire,
Mon coeur ne sera plus qu'un bloc rouge et glacé.

J'écoute en frémissant chaque bûche qui tombe;
L'échafaud qu'on bâtit n'a pas d'écho plus sourd.
Mon esprit est pareil à la tour qui succombe
Sous les coups du bélier infatigable et lourd.

II me semble, bercé par ce choc monotone,
Qu'on cloue en grande hâte un cercueil quelque part.
Pour qui? - C'était hier l'été; voici l'automne!
Ce bruit mystérieux sonne comme un départ.

II


J'aime de vos longs yeux la lumière verdâtre,
Douce beauté, mais tout aujourd'hui m'est amer,
Et rien, ni votre amour, ni le boudoir, ni l'âtre,
Ne me vaut le soleil rayonnant sur la mer.

Et pourtant aimez-moi, tendre coeur! soyez mère,
Même pour un ingrat, même pour un méchant;
Amante ou soeur, soyez la douceur éphémère
D'un glorieux automne ou d'un soleil couchant.

Courte tâche! La tombe attend - elle est avide!
Ah! laissez-moi, mon front posé sur vos genoux,
Goûter, en regrettant l'été blanc et torride,
De l'arrière-saison le rayon jaune et doux!
Ingres, A Fonte


Hymne, canção de Gabriel Fauré, Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual


Hymne

À la très-chère, à la très-belle
Qui remplit mon coeur de clarté,
À l'ange, à l'idole immortelle,
Salut en l'immortalité!

Elle se répand dans ma vie
Comme un air impregné de sel,
Et dans mon âme inassouvie
Verse le goût de l'éternel.

Sachet toujours frais qui parfume
L'atmosphère d'un cher réduit,
Encensoir oublié qui fume
En secret à travers la nuit,

Comment, amour incorruptible,
T'exprimer avec vérité?
Grain de musc qui gis, invisible,
Au fond de mon éternité!

À la très-bonne, à la très-belle,
Qui fait ma joie et ma santé,
A l'ange, à l'idole immortelle,
Salut en l'immortalite!


Hino

A tão querida, sem igual,
que me inunda de claridade,
o anjo, ídolo imortal,
saúdo na imortalidade!

Ela se espraia em minha vida
tal como um ar prenhe de sal
e põe na minha alma ferida
o gosto do eterno, afinal.

Bálsamo que sempre discreto
perfuma este ninho querido;
incenso queimando, secreto,
pela noite a dentro esquecido.

Como, amor, achar o verso
que te traduza com verdade?
Puro grão de almíscar imerso
no mar da minha eternidade.

A tão bela, a sem igual,
minha alegria e sanidade,
o anjo, ídolo imortal,
saúdo na imortalidade!

Baudelaire e Fauré

Charles Baudelaire, foto Nadar

O compositor francês Gabriel Fauré (não é meu parente, na França eu sou Georges Faure Pontual, sem acento no e) musicou três poemas de Baudelaire.
São mais três na coleção do nyontime, cantados por Feliticy Lott, soprano, acompanhada por Graham Johnson, piano.

L'Hymne

Chant d'Automne

La Rançon

Gabriel Fauré, John Singer Sargent

Margaret Atwood

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A escritora canadense (36 livros publicados!) esteve em Nova York em abril para um encontro de escritores do Pen American Center. Recebeu-me com carinho e humor afiado para uma entrevista que foi ao ar no Milênio da Globo News.

JP - The far right takes power in America and uses christian fundamentalism as a political tool. That's The Handmaid's Tale, the book you wrote 20 years ago. It could also be a headline in today's paper. And in your book the excuse for the coup is a terrorist attack by muslims.

MA - Isn't that odd? It's so peculiar.

JP - How could you be so clairvoyant?

MA - Well, I'm not really clairvoyant, of course, no one can predict the future, it's too complex, things can change at any moment, but just reading the signs, reading the signs that would be a probability, and I didn't put anything in the book that people hadn't done at some time, in some place, in the past. And studying coups throughout the ages, there's always an excuse of some kind, and people have some sort of righteous flag that they're waving around to justify their activities. So, that was just, let's say, an informed guess.
But we aren't there yet, let me hasten to add, because if we were there, you and I would not be in this room, having this conversation.

JP - But there's a danger because the right is growing and they're gaining political power.

MA - Countries don't usually come up with something entirely new. Even when there's a coup or a change, they're building on something that was there before, as the Aztecs and Mayans used to build temples on top of temples that were already there. So you have a kind of layer. And if you go back down through the layers of the United States, you find at the very beginning a puritan teocracy and then you have layers added to that. You have the eighteenth century enlightenment, you have the revolution, you have the declaration of independence, and the next reinvention would have been the civil war, North against South, again righteous flag (laughs), there's always one, another reinvention probably under Roosevelt, Franklin D., and now you're having another reinvention, but it's always on top of what was already there, there are roots to that culture.
So the question I asked myself was: if you were going to have a dictatorship in the United States, what would be the façade, what would be the ideology, the raison d'être, the justification. It wouldn't be, let's all become communists, not that, we don't want to be that. Just as Stalin was doing something quite different, he was just reinventing and augmenting the secret service of the czar who came before him. You would have in the United States not a communist pretense, and you couldn't say, alright we're going to have a dictatorship in the name of liberal democracy, you would think that would be a contradiction in terms. Although maybe not, maybe that's what we'll have. In the we-had-to-destroy-the-village-in-order-to-save-it mode of thinking. So what you would be more likely to have would be something with a religious stamp on it, because those are the roots, if you go way back those are the roots of this country. Puritan teocracy. The people at the top were the top religious people, the laws were very strict, for instance, it was against the law to point, point or smile too much, all these things were regulated. So it would be more likely to get something like that.

JP - And the coup that you imagined started by outlawing women at work and women having property.

MA - We've seen that, haven't we? We've seen that in other countries. But it wouldn't be a big step backwards in history to arrive at that situation. People living in a given period have a habit of taking it for granted, we've always had this freedom, we've always been the way we are now, but it's not true, ever. Just go back and back and you find that things were quite different. In the nineteenth century, for women, even in the so-called "western, liberal, demorcatic, free" countries, it was difficult for women to own property, especially if they were married, their property went to their husbands, there were laws governing what they could and couldn't do, they had the responsabilities of adults but the rights of children.

JP - Two years ago you wrote a letter to America...

MA - A little longer then that, it came out just before the invasion of Iraq.

JP - Were you channeling what many people in the world and even in the US are feeling?

MA - Was I channeling? Apparently so. I was asked to do a letter to America, it was part of a series for The Nation magazine, some time before Iraq was even mentioned publicly as something they were going to invade. So I said, sure, it's one of those situations where you're having lunch and somebody says, would you do this, and you say, sure, why not, and then you think, what am I going to write? Now what, now what do I say? Because the situation started changing very rapidly. So instead of addressing myself to, yes invade, no not invade, which was what people were talking about at the time, my worries were longer term. And they were more about the structure of America itself, the United States itself, and the changes that were happening to it. The freedoms and possibilities that were being rolled back. And that's what I wanted to write about because a lot of us grew up with the idea of America as being the kind of beacon of promise and land of freedom, all of these wonderful things, and then you wake up and you think, what happened? Where did that go? So that's what concerned me and apparently, because I got a lot of response from that, it concerned other people too, but I dind't interview anybody, I didn't say, what do you think?

JP - So what do you feel now, more than two years later?

MA - Well, the thing about the United States is that people who haven't spent much time in it think of it as all one homogeneous material, but in fact it's an extremely varied place, it's regionally varied, it's ideologically varied, there's a great deal of dialogue within it, amongst the people inside it, it's not some sort of monolith, and the part of it that I have always known and identified with is still there.

JP - The blue states.

MA - Well somebody said, let's join Canada and look what a big country we would have. But my family was originally from here. They were those very same teocratic puritans, so that's how I got to say things about them. And one family had to move to Canada, the rest stayed here, I've got a lot of relatives here, distant ones, but there they are and every once in a while someone will come up to me and say, I'm your relative. And it's true, they are. So I understand that part of it. And these are people of conscience, and they are people of tolerance, and they are people of faith in all kinds of things, including decent treatment of other people. And those people haven't disappeared, haven't gone away somewhere. They've been attacked a lot, and called this horrible thing, a liberal, when in our country a liberal is just the name of a political party. But they're still there, and I would say, don't give up.
The danger is, in all of these things, the danger comes back to money. Have they spent themselves into a hole in the ground so deep that they won't be able to get out of it? And if the economy starts collapsing, that's when people say, we need a strong leader and we're willing to give up our freedoms to have that. That's the danger. It's when society gets chaotic that you have the call for these Attila-the-hun-type people.

JP - I don't want our viewers to get the wrong impression that you are a political writer.

MA - I'm not a political writer of that kind, no.

JP - You write in a more intimate, personal level. But even at that level there's always politics at play, power.

MA - Because human beings are human beings, there is why. And human beings are social, they always have been, you can't talk about just one person in isolation, they always have relations to other people, and once you have relations to other people you have social structures, and when you have social structures you have social structures of a certain kind, in which some people are more respected perhaps then others, or possibly some people have lots more money than others, or possibly some people are considered to be divine, god-kings, so you always have a structure of some kind, and therefore it's intresting to examine: who's top dog, who's on the top, who's on the middle, who's on the bottom, there's always something like that, except in very early hunter-gatherer societies when people really had to cooperate on a pretty equal level. Even there, some had better skills at certain things than others and therefore their opinions were sought when it came to how to catch the bear.

JP - When 9/11 and the anthrax attacks ocurred you were writing "Oryx and Crake". Why did you stop writing for a while?

MA - Everybody stopped, glued themselves to the television to see what was going to happen next. Because this was not a story that we had seen before -- in the United States. We'd seen it in other places but not there. And it was pretty spectacular. And of course we all wanted to know what was behind it, what did happen, what was going to happen next.

JP - But there was something else related to what you were writing.

MA - Not the towers, that wasn't my story. The anthrax was very interesting to me. And it now appears that that was an inside job. So pretty close to the kind of scenario that I postulated. And that's very possible. You have a number and number of individuals who have a great deal of knowledge, knowledge as power, and we now have the capability, since we've opened the big box, the big pandora's box, we've opened that box. That box allows us to make new species. So, what will we make? We could easily make modified germs, we could do that. And when I say we I mean the human race, certain individuals. So all you would need is somebody with a grudge, or somebody who feels they can make things a lot better by killing numerous people. This is the problem with extreme utopian thinking.

JP - Some critics mistankenly read "Oryx and Crake" as an indictment of science. Isn't it rather a cautionary tale of how society misuses science and technology with unintended and catastrophic consequences?

MA - Absolutely. Science is merely a tool. It's one of the many many tools we have made over the years. You can make science do a very, very good thing -- the polio vaccine for instance. Or you can use to make a very, very bad thing. And because it's a tool, it's entirely dependent on how people use that tool. Just as you can take a hammer and build a house with it or you can take a hammer and murder your neighbor. But it's not the hammer doing it. I know that sounds a lot like, guns don't kill people, people kill people, which is true, and you can kill a lot of people with just machettes as far as that goes. But it's not the tool you have to look at, it's human nature.
And that's why the arts are important. Because the arts look at the human being in totality and we're now even deconstructing this fabrication called economic man. For a long time we've been getting leaders in society running the model of economic man, that people do things only for money. It's never been true. Money is quite down on the list of why people do things. So we need to know a lot more about why they do things and what they want. The list of what they want is quite long. And it hasn't changed for 10 thousand years.

JP - I suppose maybe it was random but you picked Brazil as the first country hit by the plague that wipes out the human species in "Oryx and Crake".

MA - Well, it is big, big, and it has very big cities in it. You'd need a lot of big cities with lots of people in them who interact a lot.

JP - But the virus was hidden in a pill sold as a sex-enhancer and tested in brothels. Was that a sly comment on Brazil's image as a sex haven?

MA - Not really. But now that you mention it. Let's say that such a pill would be quite popular in Brazil , to get enhanced sexual experiences, no consequences, protection against disease, who wouldn't want it. In Brazil especially, when you think about those bikinis.

JP - You were in Brazil for a writers meeting last year. What was the funniest thing that happened to you there, and the weirdest?

MA - That's a pretty tall order. I guess the funniest was: we're trying to get to the pantanal to watch birds and we couldn't land the plane, there was a fog, and the funniest thing that then happened was the revolution taking place right on the plane. People starting orating, accusing the stewards, luckily we had a nice girl sitting next to us who translated all that took place. It was a theatrical performance, it was just amazing. You never find this in North America, everybody would just sit quietly, eat their biscuit, but this was, how could this happen, how could you do this to us, what do you mean we have to get (lifts her arms), and looking around to see if everybody else in the plane was watching, listening to what they said, it was very out there. That was pretty good, we enjoyed that. It was almost better than really watching the birds. Now the weirdest would probably be the same thing.

JP - I heard a famous Brazilian writer here, recently, a man, say that he knows when a novel is written by a woman.

MA - He knows.

JP - According to him women write differently. And he cannot write a novel with a female narrator, it's impossible. What do you say to that?

MA - Mr. James Joyce would disagree. I don't know. I once did a study on this. A long long time ago, about 1972. I had some students and their task was to determine if there was a gender writing style. So we went through a lot of novels. And what we concluded -- and we also read a lot of newspapers, we read reviews to see how the reviewing was different, and in those days it was quite different, I think people are less blatant now -- but we decided that style was epoch specific, that is, people wrote in the style of their time. People writing in the nineteenth century, they wrote in a nineteenth century style, in the twentieth century it changes quite a lot. But if the subject matter could be placed on a scale of 10 to 0 and 0 to 10, with say, childbirth being an extreme 10 on the famele side, and slaughtering a lot of people with swords being 10 on the male side, the things could converge and you could get to practically a zero, it was fairly neutral, and George Eliott we put at about zero -- Middlemarch has got some female characters, some male characters, and just barely balanced. In the nineteenth century you could be like that because you were not allowed to write about sex anyway, nobody could put it in. She couldn't put that in. So therefore she could consider her characters as social characters, just observed in normal situations in which they had their clothes on. She didn't go into any whorehouses, she didn't go into any maternity wards, not in those extreme experiences.
So that's about what we concluded, that yes men can write woman characters quite plausibly as women can write man characters quite plausibly, as long as we didn't have to go to the extreme ends. But even so, if you look at Pat Barker in her trilogy about the first world war, the characters are pretty much all men and they do man things, what used to be man things anyway, killing people in wars, and they're very convincing to me, and I read a lot of novels by men about war.

JP - You have a counterpart in Brazil, Clarice LIspector. Same precision, a prose that sounds like poetry. And she was a poet like you. Being both a poet and a novelist, does it make one a better writer?

MA - No. In fact what you don't want to put on the jacket copy of a novel is, poetic prose, because what that means to people is, a lot of language they can do without. That's a wrong view of poetic. As you say, poetry ought to be the precise use of words, not the use of a lot of unnecessary words. But because we were taught poetry badly, we think that poetry means too many words. I was taught that way in high school, they used to make us write condensed versions in prose of poems, what was the poet trying to say, as if he had some sort of speech impediment and couldn't talk very well. The poet was trying to say, war is hell, the poet was trying to say, love is great. Why didn't he just say it? Why do we have to have a sonnet about this? So it gives the wrong impression of poetry. Anyway, there are lots of prose writers who write wonderful prose and they've probably never written a poem in their life.

JP - You collect news clippings, so you probably saw this one: some researchers found that women are more complex and have more genetic variety than men because of their extra chromosome X, which is full of genes that men don't have. A newspaper in Brazil headlined: "Science confirms, women are more complicated".

MA - (big laugh) What is true is that there's a bigger connection between the two halves of their brains, so that men are able to be very, very focused and of tuning out anything that is not related to what they're focusing on, whereas women tend to be receiving from all sides.

JP - But the question is, even if men are focused on women, is it hopeless for them to ever understand women?

MA - Why do you want to understand them? All you have to do is act correctly, that doesn't require understanding, it just requires a certain low cunning (big laugh). You just have to do things you know they like. And that list is fairly short, just as the list of things they do not like is very short. But everything is individual. But I'm not in favor of everybody trying to understand everything about everybody else. I think it can get pretty dismal. And I like surprises, I always like to have a man produce a new facet of himself that I haven't know about before. I don't want to know everything all at once.

JP - Opening "The Blind Assassin" at random -- it wasn't at random, I'm cheating...

MA - (huge laugh) Already you're telling too much truth...

JP - Yeah. I found this: In paradise there are no stories, because there are no journeys. Are writers forever in debt to Eve and the snake?

MA - I think so. Yes, because think about it, if no Eve and snake, if no expulsion from paradise, fruit in the morning, a nice nap, a little lunch, a banana maybe, a little nap, dinner, a little nap, what else to do? Think about it. No story.

JP - And this from Oryx and Crake: The Fall, is the fall from ignorance to knowledge.

MA - True.

JP - Is that our curse?

MA - One of them. What would you like to be, ignorant in bliss, or with knowledge and a more complicated story?

JP - Now a question that I think everyone who loves the work of a novelist would like to ask her. The passion, the rapture that I feel when I read you, is that what you feel when you write, or is it just a long, hard slog?

MA - Well, I was in the cafe the other day getting some take out coffee and a man who worked in the cafe was taking his coffee break and he said to me, you are the author, and I said, yes, he said, you're Margaret. He was from the Philippines. He said, is it a talent? And I said, yes it's a talent, bu then you have to work very hard. And he said, so you have to have the passion. I said, that's right, you have to have the talent, the hard work and also the passion. And if you only have two of any of these three things, you won't do it. And he said, I think it's the same with everything. And I said, so do I.

JP - You're involved in several different causes. For instance, in the fight against racism, and against torture, to help the victims of torture. Tell me about that.

MA - Oh that's just the beginning. In general I do three kinds of things. I do environmental work, and Brazil holds the key to the future of the world as you probably know, because twenty per cent more rain forest gone, there goes the thing and we all choke, so you have a lot of responsability. So environmental, human rights, and within human rights, because I radically consider women to be human beings, laugh at me if you like but I do think they're human beings, within that umbrella, women's human rights. So these are the three things in general that we can speak about, but each of those things may have little threads coming off it, made into another little pocket of concern. You can't do it all. I don't do hearts and kidneys because a lot of other people do that. But I do do these kinds of things. I've always done those kinds of things, I grew up in a family that did those kinds of things and I think it's part of wether or not you consider yourself a citizen. For me those are things that you do as a citizen. Am I saying that all artists should do them? No. Some artists cannot do them, they need all of their concentration for their art and they can't function if they do these other things. And I have to say that I did too many of them. They ate my life. But that's just the way I have been.

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Atwood tem um site delicioso, o nome é o anagrama O.W.Toad , onde você vai poder fuçar
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A Música

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ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

La Musique

La musique souvent me prend comme une mer!
Vers ma pâle étoile,
Sous un plafond de brume ou dans un vaste éther,
Je mets à la voile;

La poitrine en avant et les poumons gonflés
Comme de la toile,
J'escalade le dos des flots amoncelés
Que la nuit me voile;

Je sens vibrer en moi toutes les passions
D'un vaisseau qui souffre;
Le bon vent, la tempête et ses convulsions

Sur l'immense gouffre
Me bercent. D'autres fois, calme plat, grand miroir
De mon désespoir!

A Música

A música é um mar onde flutuo ao léu;
Rumo à estrela bela,
Sob um manto de bruma ou na amplidão do céu,
Eu enfuno a vela;

Peito cheio de ar, retesando os pulmões,
Estirada tela,
Quebrando as ondas vou, na espuma das monções
Que o luar revela;

Sinto vibrar em mim a fúria das paixões
De um veleiro aflito;
A brisa e o vento bom, tormentas e tufões

No mar infinito
Me embalam. Ou senão, calmaria, adágio
Deste meu naufrágio.


Mozart, Quinteto de Cordas n. 4 em Sol menor, Adagio ma non troppo, Budapest String Quartet

A Morte dos Amantes

Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev em Pelléas et Mélisande, balé baseado na ópera de Debussy

Canção de Debussy sobre este poema em duas versões:

Barbara Hendricks, soprano, Michel Béroff, piano

Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual


La Mort des amants

Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Écloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

A Morte dos Amantes

Vamos ter lençóis de aura ligeira,
profundo divã como um mausoléu,
e flores estranhas na prateleira
abertas pra nós sob um outro céu.

No fim da paixão, chama derradeira,
nossos corações, como um fogaréu,
irão refletir sua luz parceira
nas almas iguais, espelhos sem véu.

Numa tarde rosa e azul-desmaio,
nós vamos trocar um único raio,
um longo soluço cheio de adeus;

e depois um Anjo, ao abrir as portas,
dará vida novas aos teus e meus
espelhos sombrios e chamas mortas.

O Chafariz

 Pátio em Sevilha

Canção de Debussy sobre este poema em duas versões:

Barbara Hendricks, soprano, Michel Béroff, piano

Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Le Jet d'eau

Tes beaux yeux sont las, pauvre amante!
Reste longtemps, sans les rouvrir,
Dans cette pose nonchalante
Où t'a surprise le plaisir.
Dans la cour le jet d'eau qui jase
Et ne se tait ni nuit ni jour,
Entretient doucement l'extase
Où ce soir m'a plongé l'amour.

La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.

Ainsi ton âme qu'incendie
L'éclair brûlant des voluptés
S'élance, rapide et hardie,
Vers les vastes cieux enchantés.
Puis elle s'épanche, mourante,
En un flot de triste langueur,
Qui par une invisible pente
Descend jusqu'au fond de mon coeur.

La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.

Ô toi, que la nuit rend si belle,
Qu'il m'est doux, penché vers tes seins,
D'écouter la plainte éternelle
Qui sanglote dans les bassins!
Lune, eau sonore, nuit bénie,
Arbres qui frissonnez autour,
Votre pure mélancholie
Est le miroir de mon amour.

La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.


O Chafariz

Teus olhos cansados, amada,
não abras agora pra me ver
na pose despreocupada
em que te pegou o prazer.
A água a jorrar no jardim,
que murmura noite e dia,
mantém mansamente em mim
o gozo que o amor irradia.

Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.

Assim, tua alma incendiada
no clarão ardente do cio
voa no céu sem temer nada,
bem-aventurado vazio!
Depois, morrendo, se espraia,
onda de morna mansidão,
descendo a invisível praia
que vai dar no meu coração.

Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.

Quando a noite te faz mais terna,
como é doce, sobre os teus seios,
escutar a saudade eterna
que soluça nos lagos cheios!
Lua, noite, água sonora,
árvores de leve rumor,
vossa melancolia agora
é o espelho do meu amor.

Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.

A varanda

Varanda em Paris

Canção de Debussy sobre este poema, em duas versões:

Barbara Hendricks, soprano, Michel Béroff, piano

Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Le Balcon

Mère des souvenirs, maîtresse des maîtresses,
Ô toi, tous mes plaisirs! ô toi, tous mes devoirs!
Tu te rappelleras la beauté des caresses,
La douceur du foyer et le charme des soirs,
Mère des souvenirs, maîtresse des maîtresses!

Les soirs illuminés par l'ardeur du charbon,
Et les soirs au balcon, voilés de vapeurs roses.
Que ton sein m'était doux! que ton coeur m'était bon!
Nous avons dit souvent d'impérissables choses
Les soirs illumines par l'ardeur du charbon.

Que les soleils sont beaux dans les chaudes soirées!
Que l'espace est profond! que le coeur est puissant!
En me penchant vers toi, reine des adorées,
Je croyais respirer le parfum de ton sang.
Que les soleils sont beaux dans les chaudes soirées!

La nuit s'épaississait ainsi qu'une cloison,
Et mes yeux dans le noir devinaient tes prunelles,
Et je buvais ton souffle, ô douceur! ô poison!
Et tes pieds s'endormaient dans mes mains fraternelles.
La nuit s'épaississait ainsi qu'une cloison.

Je sais l'art d'évoquer les minutes heureuses,
Et revis mon passé blotti dans tes genoux.
Car à quoi bon chercher tes beautés langoureuses
Ailleurs qu'en ton cher corps et qu'en ton coeur si doux?
Je sais l'art d'évoquer les minutes heureuses!

Ces serments, ces parfums, ces baisers infinis,
Renaîtront-ils d'un gouffre interdit à nos sondes,
Comme montent au ciel les soleils rajeunis
Après s'être lavés au fond des mers profondes?
-- Ô serments! ô parfums! ô baisers infinis!

A Varanda

Mãe da recordação, amante das amantes,
tu, minha devoção! Tu, todo o meu prazer!
Sei que recordarás os mais belos instantes,
a quentura do lar, o tom do entardecer,
mãe da recordação, amante das amantes!

No fim da tarde, à luz das brasas do carvão
e na varanda escura em rósea sombra imersa
tão doce era tua voz! Tão bom teu coração!
Eternamente vou lembrar nossa conversa
no fim da tarde, à luz das brasas do carvão.

Como é bonito o sol na tarde acalorada!
Como é profundo o céu e forte o coração!
Curvado sobre ti, rainha adorada,
aspirava do sangue o perfume são.
Como é bonito o sol na tarde acalorada!

A noite se fechava assim como uma flor.
Meus olhos no escuro os teus adivinhavam
e eu bebia o teu ar, ó veneno! ó licor!
Nas minhas doces mãos os teus pés cochilavam.
A noite se fechava assim como uma flor.

Sei a arte de ter de volta esses momentos,
reviver o passado imerso em teu calor.
Para que procurar os teus encantamentos
longe do colo doce e do seio de amor?
Sei a arte de ter de volta esses momentos!

As juras, os perfumes e os beijos sem fim
poderão ressurgir das mais profundas mágoas
como os sóis que no céu renascem para mim
depois de se lavarem no fundo das águas?
-- Ó juras! ó perfumes! ó beijos sem fim!

Harmonia do anoitecer

Vincent van Gogh, Lilases

Canção de Debussy sobre este poema em duas versões:

Barbara Hendricks, soprano, Michel Béroff, piano

Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Harmonie du soir

Voici venir les temps où vibrant sur sa tige
Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir;
Valse mélancolique et langoureux vertige!

Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige;
Valse mélancolique et langoureux vertige!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.

Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige,
Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir;
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige.

Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,
Du passé lumineux recueille tout vestige!
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige...
Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir!


Harmonia do Anoitecer

Eis chegado o momento, entre luz e caligem,
cada flor se evapora, incenso a voar;
perfumes e canções, na tarde, a girar,
valsa desconsolada, lânguida vertigem!

Cada flor se evapora, incenso a voar;
vibram os violinos, corações se afligem;
valsa desconsolada, lânguida vertigem!
É belo e triste o céu, campo-santo no ar.

Vibram os violinos, corações se afligem,
suaves corações que a noite vem magoar!
É belo e triste o céu, campo-santo no ar;
o sol já se afogou no seu sangue de origem.

Suaves corações que a noite vem magoar
das luzes que se vão cada vestígio exigem!
O sol já se afogou no seu sangue de origem...
Tua lembrança em mim brilha como o luar!

CENTELHA DIVINA

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Franz Schubert

Impromptu op. 142 n.1 em Fá menor, Alfred Brendel

Primeira de uma série de quatro peças para piano, composto no fim de 1827, pouco antes da morte de Schubert aos 31 anos.

De Schubert, Beethoven disse que "tinha a centelha divina". Brahms, que era "um filho dos deuses". Lizt, "o músico mais poeta". E Schuman, que "seu nome só deve ser sussurrado à noite para as árvores e as estrelas".


Leia mais sobre Schubert no site do Schubert Institute

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A coreógrafa alemã Sasha Walz usou os Impromptus de Schubert para um ballet que será apresentado no festival Next Wave da Brooklyn Academy of Music, em dezembro. Em outubro o festival apresenta o Grupo Corpo.



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Leve

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Hoje comecei o dia leve, voando nas nuvens, zen depois de ver uma coisa deliciosa no Primado do Opinante (o blog realmente indispensável).

Então aí vão dus músicas deliciosas:

Let's Face the Music and Dance

My Funny Valentine

Dou um doce pra quem acertar o nome da cantora na última.
Meus amigos americanos adoram quando ouvem esta faixa e não acreditam que ela é brasileira e nunca saiu do Brasil.
Quem é? Não vale olhar os comments dos outros!

(em tempo: tem que ouvir em iTunes, sorry...)

E que tal reler Elevação do Baudelaire?
Rocinha, 27/6/05, foto Bruno Domingos/Reuters

The Burglar of Babylon

Elizabeth Bishop, Rio, 1963


On the fair green hills of Rio
There grows a fearful stain:
The poor who come to Rio
And can't go home again.

On the hills a million people,
A million sparrows, nest,
Like a confused migration
That's had to light and rest,

Building its nests, or houses,
Out of nothing at all, or air.
You'd think a breath would end them,
They perch so lightly there.

But they cling and spread like lichen,
And people come and come.
There's one hill called the Chicken,
And one called Catacomb;

There's the hill of Kerosene,
And the hill of Skeleton,
The hill of Astonishment,
And the hill of Babylon.

Micuçú was a burglar and killer,
An enemy of society.
He had escaped three times
From the worst penitentiary.

They don't know how many he murdered
(Though they say he never raped),
And he wounded two policemen
This last time he escaped.

They said, "He'll go to his auntie,
Who raised him like a son.
She has a little drink shop
On the hill of Babylon."

He did go straight to his auntie,
And he drank a final beer.
He told her, "The soldiers are coming,
And I've got to disappear."

"Ninety years they gave me.
Who wants to live that long?
I'll settle for ninety hours,
On the hill of Babylon.

"Don't tell anyone you saw me.
I'll run as long as I can.
You were good to me, and I love you,
But I'm a doomed man."

Going out, he met a mulata
Carrying water on her head.
"If you say you saw me, daughter,
You're as good as dead."

There are caves up there, and hideouts,
And an old fort, falling down.
They used to watch for Frenchmen
From the hill of Babylon.

Below him was the ocean.
It reached far up the sky,
Flat as a wall, and on it
Were freighters passing by,

Or climbing the wall, and climbing
Till each looked like a fly,
And then fell over and vanished;
And he knew he was going to die.

He could hear the goats baa-baa-ing.
He could hear the babies cry;
Fluttering kites strained upward;
And he knew he was going to die.

A buzzard flapped so near him
He could see its naked neck.
He waved his arms and shouted,
"Not yet, my son, not yet!"

An Army helicopter
Came nosing around and in.
He could see two men inside it,
but they never spotted him.

The soldiers were all over,
On all sides of the hill,
And right against the skyline
A row of them, small and still.

Children peeked out of windows,
And men in the drink shop swore,
And spat a little cachaça
At the light cracks in the floor.

But the soldiers were nervous, even
with tommy guns in hand,
And one of them, in a panic,
Shot the officer in command.

He hit him in three places;
The other shots went wild.
The soldier had hysterics
And sobbed like a little child.

The dying man said, "Finish
The job we came here for."
He committed his soul to God
And his sons to the Governor.

They ran and got a priest,
And he died in hope of Heaven
--A man from Pernambuco,
The youngest of eleven.

They wanted to stop the search,
but the Army said, "No, go on,"
So the soldiers swarmed again
Up the hill of Babylon.

Rich people in apartments
Watched through binoculars
As long as the daylight lasted.
And all night, under the stars,

Micuçú hid in the grasses
Or sat in a little tree,
Listening for sounds, and staring
At the lighthouse out at sea.

And the lighthouse stared back at him,
til finally it was dawn.
He was soaked with dew, and hungry,
On the hill of Babylon.

The yellow sun was ugly,
Like a raw egg on a plate--
Slick from the sea. He cursed it,
For he knew it sealed his fate.

He saw the long white beaches
And people going to swim,
With towels and beach umbrellas,
But the soldiers were after him.

Far, far below, the people
Were little colored spots,
And the heads of those in swimming
Were floating coconuts.

He heard the peanut vendor
Go peep-peep on his whistle,
And the man that sells umbrellas
Swinging his watchman's rattle.

Women with market baskets
Stood on the corners and talked,
Then went on their way to market,
Gazing up as they walked.

The rich with their binoculars
Were back again, and many
Were standing on the rooftops,
Among TV antennae.

It was early, eight or eight-thirty.
He saw a soldier climb,
Looking right at him. He fired,
And missed for the last time.

He could hear the soldier panting,
Though he never got very near.
Micuçú dashed for shelter.
But he got it, behind the ear.

He heard the babies crying
Far, far away in his head,
And the mongrels barking and barking.
Then Micuçú was dead.

He had a Taurus revolver,
And just the clothes he had on,
With two contos in the pockets,
On the hill of Babylon.

The police and the populace
Heaved a sigh of relief,
But behind the counter his auntie
Wiped her eyes in grief.

"We have always been respected.
My shop is honest and clean.
I loved him, but from a baby
Micuçú was mean.

"We have always been respected.
His sister has a job.
Both of us gave him money.
Why did he have to rob?

"I raised him to be honest,
Even here, in Babylon slum."
The customers had another,
Looking serious and glum.

But one of them said to another,
When he got outside the door,
"He wasn't much of a burglar,
He got caught six times--or more."

This morning the little soldiers
are on Babylon hill again;
Their gun barrels and helmets
Shine in a gentle rain.

Micuçú is buried already.
They're after another two,
But they say they aren't as dangerous
As the poor Micuçú.

On the green hills of Rio
There grows a fearful stain:
The poor who come to Rio
And can't go home again.

There's the hill of Kerosene,
And the hill of the Skeleton,
The hill of Astonishment,
And the hill of Babylon.

Rocinha, 27/6/05, foto Bruno Domingos/Reuters

O ladrão da Babilônia

Tradução de Paulo Henriques Britto


Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

São milhares, são milhões,
São aves de arribação,
Que constróem ninhos frágeis
De madeira e papelão.

Parecem tão leves que um sopro
Os faria desabar
Porém grudam feito líquens
Sempre a se multiplicar,

Pois cada vez vem mais gente.
Tem o morro da Macumba,
Tem o morro da Galinha,
E o morro da Catacumba;

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.

Micuçú era ladrão,
Assassino, salafrário.
Tinha fugido três vezes
Da pior penitenciária.

Dizem que nunca estuprava,
Mas matou uns quatro ou mais.
Da última vez que escapou
Feriu dois policiais.

Disseram: "Ele vai atrás da tia,
Que criou o sem-vergonha.
Ela tem uma birosca
No morro da Babilônia".

E foi mesmo lá na tia,
Beber e se despedir:
"Eu tenho que me mandar,
Os home tão vindo aí.

Eu peguei noventa anos,
Nem quero viver tudo isso!
Só quero noventa minutos,
Uma cerveja e um chouriço.

"Brigado por tudo, tia,
A senhora foi muito legal.
Vou tentar fugir dos home,
Mas sei que eu vou me dar mal".

Encontrou uma mulata
Logo na primeira esquina.
"Se tu contar que me viu
Tu vai morrer, viu, menina?"

Lá no alto tem caverna,
Tem esconderijo bom,
Tem um forte abandonado
Do tempo de Villegaignon.

Micuçú olhava o mar
E o céu, liso como um muro.
Viu um navio se afastando,
Virando um pontinho escuro,

Uma mosca na parede,
Até desaparecer
Por detrás do horizonte.
E pensou: "Eu vou morrer".

Ouvia berro de cabra,
Ouvia choro de bebê,
Via pipa rabeando,
E pensava: "Eu vou morrer".

Urubu voou bem baixo,
Micuçú gritou: "Péra aí",
Acenando com o braço,
"Que eu ainda não morri!"

Veio helicóptero do Exército
Bem atrás do urubu.
Lá dentro ele viu dois homens
Que não viram Micuçú.

Logo depois começou
Uma barulheira medonha.
Eram os soldados subindo
O morro da Babilônia

Das janelas dos barracos,
As crianças espiavam.
Nas biroscas, os fregueses
Bebiam pinga e xingavam.

Mas os soldados tinham medo
Do terrível meliante.
Um deles, num acesso de pânico,
Metralhou o comandante.

Três dos tiros acertaram
Os outros tiraram fino.
O soldado ficou histérico:
Chorava feito um menino.

O oficial deu suas ordens,
Virou pro lado, suspirou,
Entregou a alma a Deus
E os filhos ao governador.

Buscaram depressa um padre,
Que lhe deu a extrema-unção.
– Ele era de Pernambuco,
O mais moço de onze irmãos.

Queriam parar a busca,
Mas o Exército não quis.
E os soldados continuaram
A procurar o infeliz.

Os ricos, nos apartamentos,
Sem a menor cerimônia,
Apontavam seus binóculos
Pro morro da Babilônia.

Depois, à noite no mato,
Micuçú ficou de vigília,
De ouvido atento, olhando
Pro farol lá longe, na ilha,

Que olhava pra ele também.
Depois dessa noite de insônia
Estava com frio e com fome,
No morro da Babilônia.

O sol nasceu amarelo,
Feio feito um ovo cru.
Aquele sol desgraçado
Era o fim de Micuçú.

Ele via as praias brancas,
Os banhistas bem dormidos,
Com barracas e toalhas.
Mas ele era um foragido.

A praia era um formigueiro:
Toda a areia fervilhava,
E as pessoas dentro d'água
Eram cocos que boiavam.

Micuçú ouviu o pregão
Do vendedor de barraca,
E o homem do amendoim
Rodando sua matraca.

Mulheres que iam à feira
Paravam um pouco na esquina
Pra conversar com as vizinhas,
E às vezes olhavam pra cima.

Os ricos, com seus binóculos,
Voltaram às janelas abertas.
Uns subiam nos telhados
Para assistir mais de perto.

Um soldado – ainda era cedo,
Oito horas, oito e dez –
Fez mira no Micuçú
E errou pela última vez.

Micuçú ouvia o soldado
Ofegando, esbaforido,
Tentou se embrenhar no mato:
Levou uma bala no ouvido.

Ouviu um bebê chorando
E sua vista escureceu.
Um vira-lata latiu.
Então Micuçú morreu.

Tinha um revólver Taurus
E mais as roupas do corpo,
Com dois contos no bolso.
Foi tudo que acharam com o morto.

A polícia e a população
Respiraram aliviadas.
Porém na birosca a tia
Chorava desesperada.

"Eu criei ele direito,
Com carinho, com amor.
Mas não sei, desde pequeno
Micuçú nunca prestou.

"Eu e a irmã dava dinheiro,
Nunca faltou nada, não.
Por que foi que esse menino
Cismou de virar ladrão?

"Eu criei ele direito,
Mesmo aqui, nessa favela".
No balcão os homens bebiam,
Sérios, sem olhar pra ela.

Mas já fora da birosca
Comentou um dos fregueses:
"Ele era um ladrão de merda.
Foi pego mais de seis vezes".

Hoje está chovendo fino
E estão de volta os soldados,
Com fuzis metralhadoras
E capacetes molhados.

Vieram dar mais uma batida,
Só que é outro criminoso.
Mas o pobre Micuçú –
Dizem – era mais perigoso.

Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.

A Ladainha de Satã

El Angel Caído, foto Jorge Pontual, parque del Retiro, Madrid. Os espanhóis dizem que esta é a única estátua no mundo que homenageia Lúcifer

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Les Litanies de Satan

Ô toi, le plus savant et le plus beau des Anges,
Dieu trahi par le sort et privé de louanges,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Ô Prince de l'exil, à qui l'on a fait tort
Et qui, vaincu, toujours te redresses plus fort,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui sais tout, grand roi des choses souterraines,
Guérisseur familier des angoisses humaines,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui, même aux lépreux, aux parias maudits,
Enseignes par l'amour le goût du Paradis,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Ô toi qui de la Mort, ta vieille et forte amante,
Engendras l'Éspérance, - une folle charmante!

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui fais au proscrit ce regard calme et haut
Qui damne tout un peuple autour d'un échafaud.

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui sais en quels coins des terres envieuses
Le Dieu jaloux cacha les pierres précieuses,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi dont l'oeil clair connaît les profonds arsenaux
Où dort enseveli le peuple des métaux,
Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi dont la large main cache les précipices
Au somnambule errant au bord des édifices,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui, magiquement, assouplis les vieux os
De l'ivrogne attardé foulé par les chevaux,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui, pour consoler l'homme frêle qui souffre,
Nous appris à mêler le salpêtre et le soufre,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui poses ta marque, ô complice subtil,
Sur le front du Crésus impitoyable et vil,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Toi qui mets dans les yeux et dans le coeur des filles
Le culte de la plaie et l'amour des guenilles,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Bâton des exilés, lampe des inventeurs,
Confesseur des pendus et des conspirateurs,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!

Père adoptif de ceux qu'en sa noire colère
Du paradis terrestre a chassés Dieu le Père,

Ô Satan, prends pitié de ma longue misère!


Prière

Gloire et louange à toi, Satan, dans les hauteurs

Du Ciel, où tu régnas, et dans les profondeurs

De l'Enfer, où, vaincu, tu rêves en silence!

Fais que mon âme un jour, sous l'Arbre de Science,

Près de toi se repose, à l'heure où sur ton front

Comme un Temple nouveau ses rameaux s'épandront!

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A Ladainha de Satã

Anjo belo demais, tu, mais sábio dos anjos,
deus que a sorte traiu, deus sem louvor de arcanjos,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Príncipe do exílio, punido injustamente
e que mesmo vencido volta mais potente,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Ah, tu que tudo sabes, rei das catacumbas,
curandeiro habitual das angústias profundas,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Ah, tu que ao leproso, maldito, incréu,
ensinas pelo amor o gostinho do céu,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu que na Morte, tua amante confiável,
geras a Esperança, essa louca adorável,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Ah, tu que dás ao réu um olhar altaneiro
no cadafalso, a condenar um povo inteiro,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu que sabes onde, nas terras sequiosas,
Deus ciumento esconde as pedras preciosas,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu, olho azul que vê o profundo arsenal
onde dorme enterrado o povo do metal,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu, mão enorme a esconder o precipício
do sonâmbulo errante à beira do edifício,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu, que amoleces com magia a velha ossada
do bêbado que os cavalos pisam na estrada,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu, que enxôfre e salitre misturaste
pra consolar o homem fraco, esse traste,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu que pões tua marca, cúmplice sutil,
na testa do ricaço implacável e vil,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Tu que dás ao coração da mulher da vida
o amor pelos trapos e o culto da ferida,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Arma dos exilados, luz dos inventores,
confessor de enforcados e conspiradores,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!

Pai que adota quem do paraíso sai
expulso pela ira negra de Deus pai,

Ó Satã, tem piedade da minha miséria!


ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, nas alturas

do Céu onde reinaste e lá nas funduras

do Inferno onde vencido sonhas calado!

Que minha alma um dia repouse ao teu lado

quando sobre ti a Árvore do Saber

como um novo Templo vier a florescer!


Baudelaire

Baudelaire e Debussy

Debussy, Marcel Baschet

Claude Debussy musicou cinco poemas de Baudelaire entre 1887 e 1889. O estilo wagneriano da composição vai ter eco mais tarde na ópera Pélleas et Mélisande, de 1902. A coleção de poemas musicados é uma das obras-primas da canção lírica francesa.
Cada canção está casada ao seu poema. A soprano é Felicity Lott, o pianista, Graham Johnson.

Le balcon
Harmonie du soir
Le jet d'eau
Recueillement
La mort des amants

Baudelaire, Fantin-Latour

Os Faróis

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Les Phares

Rubens, fleuve d'oubli, jardin de la paresse,
Oreiller de chair fraîche où l'on ne peut aimer,
Mais où la vie afflue et s'agite sans cesse,
Comme l'air dans le ciel et la mer dans la mer;

Os Faróis

Rubens, rio de olvido, jardim da preguiça,
coxim de carne branca que não deixa amar,
mas onde a vida flui, se enfurece e atiça
-- é ar dentro do céu e mar dentro do mar;

Rubens, O Rapto de Ganimedes

Léonard de Vinci, miroir profond et sombre,
Où des anges charmants, avec un doux souris
Tout chargé de mystère, apparaissent à l'ombre
Des glaciers et des pins qui ferment leur pays;


Leonardo da Vinci, espelho profundo,
onde anjos sedutores, sorriso lunar
coalhado de mistério, afloram num mundo
de geleiras e bosques, sombrio lugar;

Da Vinci, Madona do Rochedo

Rembrandt, triste hôpital tout rempli de murmures,
Et d'un grand crucifix décoré seulement,
Où la prière en pleurs s'exhale des ordures,
Et d'un rayon d'hiver traversé brusquement;


Rembrandt, triste hospital, gemidos pelos cantos,
nas paredes apenas uma imensa cruz,
onde o lixo recende a orações e prantos
e entra só um raio gelado de luz;

Rembrandt, Filósofo meditando

Michel-Ange, lieu vague où l'on voit des Hercules
Se mêler à des Christs, et se lever tout droits
Des fantômes puissants qui dans les crépuscules
Déchirent leur suaire en étirant leurs doigts;


Michelangelo, vago lugar de gigantes
e Cristos que se erguem numa convulsão,
fantasmas do crepúsculo, corpos possantes
a rasgar o sudário, estendida mão;

Michelangelo, O Juízo Final


Colères de boxeur, impudences de faune,
Toi qui sus ramasser la beauté des goujats,
Grand coeur gonflé d'orgueil, homme débile et jaune,
Puget, mélancolique empereur des forçats;


Ira de lutador, fauno libidinoso,
tu que soubeste achar beleza nas ralés,
vaidoso coração, homem fraco e feioso,
Puget, imperador sombrio dos galés;

Puget, Milo de Crotona


Watteau, ce carnaval où bien des coeurs illustres,
Comme des papillons, errent en flamboyant,
Décors frais et légers éclairés par des lustres
Qui versent la folie à ce bal tournoyant;


Watteau, um carnaval onde seres ilustres,
borboletas flutuam a resplandecer,
leves alegorias e cenários, lustres
que inundam de loucura o baile do prazer;

Watteau, Prazeres do Amor

Goya, cauchemar plein de choses inconnues,
De foetus qu'on fait cuire au milieu des sabbats,
De vieilles au miroir et d'enfants toutes nues,
Pour tenter les démons ajustant bien leurs bas;


Goya, coisas jamais vistas num pesadelo,
fetos a cozinhar na fúria dos sabás
e bruxas ao espelho e meninas em pelo
rebolando os quadris pra tentar Satanás;

Goya, O Sabá das Bruxas

Delacroix, lac de sang hanté des mauvais anges,
Ombragé par un bois de sapins toujours vert,
Où, sous un ciel chagrin, des fanfares étranges
Passent, comme un soupir étouffé de Weber;


Delacroix, anjos maus entre lagos de sangue
sob a sombra de sempre verdes pinheirais,
onde, como de Weber um suspiro exangue,
passam pelo céu negro fanfarras fatais;

Delacroix, A Barca de Dante

Ces malédictions, ces blasphèmes, ces plaintes,
Ces extases, ces cris, ces pleurs, ces Te Deum,
Sont un écho redit par mille labyrinthes;
C'est pour les coeurs mortels un divin opium!

C'est un cri répété par mille sentinelles,
Un ordre renvoyé par mille porte-voix;
C'est un phare allumé sur mille citadelles,
Un appel de chasseurs perdus dans les grands bois!

Car c'est vraiment, Seigneur, le meilleur témoignage
Que nous puissions donner de notre dignité
Que cet ardent sanglot qui roule d'âge en âge
Et vient mourir au bord de votre éternité!



São maldições, blasfêmias, clamores famintos,
êxtase, repulsão, choro, pelo-sinal,
um eco repetido por mil labirintos,
ópio divino para o coração mortal!

É um grito ecoado por mil sentinelas,
Um canto retomado por mil menestréis,
Farol a iluminar mais de mil cidadelas,
Apelo de poetas sem voz nas babéis!

Este grito de dor que vai de era em era
E ao pé da eternidade vem morrer, Senhor,
Este soluço ardente, revolta sincera,
É a prova mais clara do nosso valor!
Jeanne Duval, amante de Baudelaire, Edouard Manet


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Réversibilité

Ange plein de gaieté, connaissez-vous l'angoisse,
La honte, les remords, les sanglots, les ennuis,
Et les vagues terreurs de ces affreuses nuits
Qui compriment le coeur comme un papier qu'on froisse?
Ange plein de gaieté, connaissez-vous l'angoisse?

Ange plein de bonté, connaissez-vous la haine,
Les poings crispés dans l'ombre et les larmes de fiel,
Quand la Vengeance bat son infernal rappel,
Et de nos facultés se fait le capitaine?
Ange plein de bonté connaissez-vous la haine?

Ange plein de santé, connaissez-vous les Fièvres,
Qui, le long des grands murs de l'hospice blafard,
Comme des exilés, s'en vont d'un pied traînard,
Cherchant le soleil rare et remuant les lèvres?
Ange plein de santé, connaissez-vous les Fièvres?

Ange plein de beauté, connaissez-vous les rides,
Et la peur de vieillir, et ce hideux tourment
De lire la secrète horreur du dévouement
Dans des yeux où longtemps burent nos yeux avide!
Ange plein de beauté, connaissez-vous les rides?

Ange plein de bonheur, de joie et de lumières,
David mourant aurait demandé la santé
Aux émanations de ton corps enchanté;
Mais de toi je n'implore, ange, que tes prières,
Ange plein de bonheur, de joie et de lumières!

Reversibilidade

Anjo da alegria, sabes que a desgraça,
O remorso, soluços, tédio e vergonha,
E o vago terror de uma noite medonha
Fazem do coração um papel que se amassa?
Anjo da alegria, sabes a desgraça?

Anjo da compaixão, conheces o rancor,
Os punhos que se fecham, lágrimas de fel,
Quando a vingança solta o infernal tropel
E nossas vidas doma, como um ditador?
Anjo da compaixão, conheces o rancor?

Anjo da salvação, conheces o delírio
Daqueles que têm febre e, como exilados,
Arrastam-se no hospício sobre os pés cansados
Movendo os lábios secos, implorando alívio?
Anjo da salvação, conheces o delírio?

Anjo da perfeição, as rugas não conheces?
O medo de ficar velho, a crueldade
De ler o horror secreto da piedade
No olhar onde o nosso bebia benesses?
Anjo da beleza, as rugas não conheces?

Anjo pleno de luz, gozo e seduções,
Davi agonizante pediria vida
Aos aromas da tua pessoa querida;
Mas a ti só imploro, anjo, orações,
Anjo pleno de luz, gozo e seduções!

Saturday, June 11, 2005

PASSEIOS AROUND NEW YORK

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Shadows de Andy Warhol no Dia Beacon

ANDY WARHOL NO DIA BEACON

Retrospectiva de litos desde a série Disasters de 1963. Pela primeira vez são abertas as Cápsulas do Tempo deixadas por Warhol, caixas onde ele colecionou um pouco de tudo, fechou e guardou -- são mais de 600. Todos os filmes de Warhol estão em exibição. O museu Dia Beacon, a uma hora de trem ao norte de New York, expõe também numa sala gigantesca (foto) a série Shadows, um dos melhores trabalhos do artista.

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Mark di Suvero no parque de esculturas Storm King

MARK DI SUVERO EM STORM KING

Uma hora e meia ao norte de New York, na mesma saída da estrada 87 onde fica o outlet Woodbury bem conhecido dos brasileiros, o parque de esculturas Storm King é um melhor lugares perto da cidade para passar o dia. Acaba de abrir uma exposição do escultor Mark di Suvero. As obras dele são monumentais, feitas com vigas de aço. Marco Polo di Suvero nasceu na China, de pais italianos, e cresceu nos Estados Unidos. Tem 72 anos. Aqui mesmo em Nova York criou o parque de esculturas Sócrates, no Queens, do outro lado do East River bem em frente a Manhattan, outro lugar bom para passar uma tarde.

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Escultura de Jacob Dyrenforth no parque Sócrates

Friday, June 10, 2005

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COCHICHANDO

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Tive o privilégio de ouvir Abel Ferreira tocar chorinhos na clarineta. Este de Pixinguinha, Cochichando, ele tocava baixinho no ouvido de cada um, nos saraus.
Para ouvir tem que baixar o iTunes da Apple, é de graça.

Sonnet

The poems of Elizabeth Bishop and other songs

Luciana Souza gravou em 2000 o disco "The poems of Elizabeth Bishop and other songs", escolhido como um dos 10 melhores do ano pelo New York Times. São 13 composições de Luciana, com arranjos dela.
Ouça a faixa 11, Sonnet.
Luciana Souza, voz; Chris Cheek, sax; Bruce Barth, piano; John Lockwood, baixo; Marlon Browden, bateria e percussão.

Sonnet

I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling finger-tips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!

There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep.

Elizabeth Bishop, 1928

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Soneto

Eu preciso de música que flua
nas pontas finas, frágeis dos meus dedos,
nos meus lábios amargos de segredos,
com melodia líquida e nua.
Ah, a antiga ginga sã e crua
de uma canção que aos mortos dê guarida,
água que me cai sobre a testa erguida,
o corpo febril, um brilho de Lua!

A melodia pode enfeitiçar:
magia calma, respiração pura,
um coração que afunda no abandono
da mansa, escura imensidão do mar
e flutua pra sempre na verdura,
amparado no ritmo e no sono.

tradução, Jorge Pontual

Flores raras

Lota de Macedo Soares, Portinari


Acabo de ler o livro Flores Raras e Banalíssimas de Carmen Lúcia Oliveira. É a história de Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares, muito bem contada. A história de Bishop e Lota é intensa, o encontro de dois gênios, uma das maiores poetas da língua inglesa e a criadora do Aterro do Flamengo, modernista e carioca apaixonada.
Gostei de saber que Bishop escreveu um de seus melhores poemas, The Burglar of Babylon, quando morava com Lota no Leme. Enquanto a companheira lutava pelo Aterro - e acabou derrotada, deprimida e empurrada para o suicídio - Bishop ficava sozinha em casa, bebendo. Gostava de olhar pelo binóculo o morro da Babilônia. E foi assim que viu toda a cena da caçada ao bandido Micuçú descrita no poema.
Parece letra de Woddy Guthrie ou Bob Dylan, tem a força e o ritmo de uma folk song, um rock, um blues. Me parece intraduzível, mas incluí a tradução de Paulo Henriques Britto, um esforço louvável.
Além do extraordinário poema, que reflete a relação ambivalente de amor/ódio que Bishop tinha com o Rio e com o Brasil, com a desigualdade da sociedade brasileira, coloco aqui a canção que Bishop adorava ouvir, Não Identificado de Caetano Veloso, com Gal Costa.

Elizabeth Bishop

La Musique

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Ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

La Musique

La musique souvent me prend comme une mer!
Vers ma pâle étoile,
Sous un plafond de brume ou dans un vaste éther,
Je mets à la voile;

La poitrine en avant et les poumons gonflés
Comme de la toile,
J'escalade le dos des flots amoncelés
Que la nuit me voile;

Je sens vibrer en moi toutes les passions
D'un vaisseau qui souffre;
Le bon vent, la tempête et ses convulsions

Sur l'immense gouffre
Me bercent. D'autres fois, calme plat, grand miroir
De mon désespoir!

A Música

A música é um mar onde flutuo ao léu;
Rumo à estrela bela,
Sob um manto de bruma ou na amplidão do céu,
Eu enfuno a vela;

Peito cheio de ar, retesando os pulmões,
Estirada tela,
Quebrando as ondas vou, na espuma das monções
Que o luar revela;

Sinto vibrar em mim a fúria das paixões
De um veleiro aflito;
A brisa e o vento bom, tormentas e tufões

No mar infinito
Me embalam. Ou senão, calmaria, adágio
Deste meu naufrágio.


Mozart, Quinteto de Cordas n. 4 em Sol menor, Adagio ma non troppo, Budapest String Quartet

Ventanas de Manhattan

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Edward Hopper, Nighthawks

Antonio Muñoz Molina é um dos melhores escitores espanhóis contemporâneos. Mora em New York, onde dirige o Instituto Cervantes. O texto que segue é do livro Ventanas de Manhattan. Curta ouvindo My Song com Keith Jarret:

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Edward Hopper, Early sunday morning

Para una mirada europea, española, Edward Hopper es un pintor de figuras hieráticas y lugares neutros o abstractos, de extrañas habitaciones con muebles rudos y grandes y ventanas enormes que dan a edificios de ventanas idénticas o a paisajes despoblados, bosques oscuros o colinas peladas y bajas como dunas. En sus cuadros se ven escenas nítidamente recortadas y al mismo tiempo veladas de misterio, figuras detenidas en gestos, ensimismadas en tareas que parecen poseer una significación muy profunda, completa en si misma, pero también inaccesible, como fotogramas aislados de películas cuyo argumento es desconocido.

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Edward Hopper, Room in New York

Pero ésa es la visión de quien se pasea de noche por un barrio tranquilo de Nueva York, por las calles residenciales de Chelsea o del Upper West Side, y mira desde la acera en sombras las ventanas de comedores o bibliotecas o de pequñas oficinas escenas fragmentarias en las vidas de los desconocidos, gente que lee el periodico junto a una lámpara encendida, en un sillón tan rojo y ancho como ciertos sillones de Hopper, o que en mitad de una habitación se queda pensando, queriendo recordar algo que iban a hacer o buscar y que han olvidado.

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Edward Hopper, Night window

Entonces el recuadro de la ventana es el marco exacto de una pintura, y ese hombre o esa mujer que están haciendo o pensando algo vulgar y que no son más ricos o más atractivos ni llevan vidas más memorables que la nuestra adquieren a la luz de la lámpara, en la distancia y la sombra que las separan de la calle, el enigma de algo que nos gustaría saber y no descubriremos nunca, el prestigio de una existencia armoniosa, protegida, serena, quizás demasiado reflexiva y un poco melancólilca, más sustancial que la nuestra.

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Edward Hopper, Room in Brooklyn

Daríamos qualquer cosa por vivir en esa habitación que vemos desde la acera, por llevar esa vida que nos parece tan hecha de costumbres sólidas, rodeada de objetos valiosos y ennoblecidos por el uso, esos cuadros que apenas acertamos a distinguir, con sus marcos quizás dorados, esos libros de tapas oscuras que sin duda son obras maestras y en cuya lectura nos gustaría sumergirnos, a la luz de esa lámpara y en ese sillón junto a la ventana, en esa calma y ese silencio que apenas interrumpen los pasos de un desconocido que cruza por la calle.

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Edward Hopper, Morning sun

En Hopper también está esa figura, la que ve alguien desde su ventana, alguna vez en un contrapicado como de película policial en blanco y negro, el hombre con el rostrotapeado por un sombrero que pasa muy abajo por la acera, alumbrado de espaldas por la farola de la calle que proyecta ante él su sombra larga y amenazadora.

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Edward Hopper, August in the city

Los ventanales americanos de Edward Hopper están en algunas de las mejores películas de Alfred Hitchcock, que nunca dejó de mirar los Estados Unidos con una mirada de forastero que observa lugares y costumbres siempre ajenas a él, exóticas en su cotidianidad, como los moteles de carretera en la literatura americana de Nabokov. Toda Psicosis procede de una escena que podía haber estado en un cuadro de Hopper; empieza en una ventana elegida como al azar entre centenares de ventanas iguales, que están en Phoenix, Arizona, pero que podrían estar en uno de eses hoteles de la parte media de Manhattan, como los que frequentaba yo em mis primeros viajes:

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Edward Hopper, House by the railroad

una habitación, una cama, un aparador grande, una mujer sobre la cama y un hombre de pie junto a ella, o sentado a sus pies, unidos por algo que intuimos pero que no se nos muestra, cómplices y a la vez cada uno apartado del otro en el silencio de sus cavilaciones. Hopper se interrumpe aquí y no cuenta nada más: las vidas del hombre y de la mujer acaban en ese instante, en esa habitación, en lo que podría vislumbrar o suponer de ellas un testigo que mirara hacia la ventana abierta, adviertendo el contraste entre la evidente luz diurna y la casi desnudez de los personajes.

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Edward Hopper, Eleven AM

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Edward Hopper, Autoretrato

Hopper e Manhattan

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Edward Hopper, Nighthawks

Antonio Muñoz Molina é um dos melhores escitores espanhóis contemporâneos. Mora em New York, onde dirige o Instituto Cervantes. O texto que segue é do livro Ventanas de Manhattan. Curta ouvindo My Song com Keith Jarret:

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Edward Hopper, Early sunday morning

Para una mirada europea, española, Edward Hopper es un pintor de figuras hieráticas y lugares neutros o abstractos, de extrañas habitaciones con muebles rudos y grandes y ventanas enormes que dan a edificios de ventanas idénticas o a paisajes despoblados, bosques oscuros o colinas peladas y bajas como dunas. En sus cuadros se ven escenas nítidamente recortadas y al mismo tiempo veladas de misterio, figuras detenidas en gestos, ensimismadas en tareas que parecen poseer una significación muy profunda, completa en si misma, pero también inaccesible, como fotogramas aislados de películas cuyo argumento es desconocido.

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Edward Hopper, Room in New York

Pero ésa es la visión de quien se pasea de noche por un barrio tranquilo de Nueva York, por las calles residenciales de Chelsea o del Upper West Side, y mira desde la acera en sombras las ventanas de comedores o bibliotecas o de pequñas oficinas escenas fragmentarias en las vidas de los desconocidos, gente que lee el periodico junto a una lámpara encendida, en un sillón tan rojo y ancho como ciertos sillones de Hopper, o que en mitad de una habitación se queda pensando, queriendo recordar algo que iban a hacer o buscar y que han olvidado.

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Edward Hopper, Night window

Entonces el recuadro de la ventana es el marco exacto de una pintura, y ese hombre o esa mujer que están haciendo o pensando algo vulgar y que no son más ricos o más atractivos ni llevan vidas más memorables que la nuestra adquieren a la luz de la lámpara, en la distancia y la sombra que las separan de la calle, el enigma de algo que nos gustaría saber y no descubriremos nunca, el prestigio de una existencia armoniosa, protegida, serena, quizás demasiado reflexiva y un poco melancólilca, más sustancial que la nuestra.

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Edward Hopper, Room in Brooklyn

Daríamos qualquer cosa por vivir en esa habitación que vemos desde la acera, por llevar esa vida que nos parece tan hecha de costumbres sólidas, rodeada de objetos valiosos y ennoblecidos por el uso, esos cuadros que apenas acertamos a distinguir, con sus marcos quizás dorados, esos libros de tapas oscuras que sin duda son obras maestras y en cuya lectura nos gustaría sumergirnos, a la luz de esa lámpara y en ese sillón junto a la ventana, en esa calma y ese silencio que apenas interrumpen los pasos de un desconocido que cruza por la calle.

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Edward Hopper, Morning sun

En Hopper también está esa figura, la que ve alguien desde su ventana, alguna vez en un contrapicado como de película policial en blanco y negro, el hombre con el rostrotapeado por un sombrero que pasa muy abajo por la acera, alumbrado de espaldas por la farola de la calle que proyecta ante él su sombra larga y amenazadora.

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Edward Hopper, August in the city

Los ventanales americanos de Edward Hopper están en algunas de las mejores películas de Alfred Hitchcock, que nunca dejó de mirar los Estados Unidos con una mirada de forastero que observa lugares y costumbres siempre ajenas a él, exóticas en su cotidianidad, como los moteles de carretera en la literatura americana de Nabokov. Toda Psicosis procede de una escena que podía haber estado en un cuadro de Hopper; empieza en una ventana elegida como al azar entre centenares de ventanas iguales, que están en Phoenix, Arizona, pero que podrían estar en uno de eses hoteles de la parte media de Manhattan, como los que frequentaba yo em mis primeros viajes:

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Edward Hopper, House by the railroad

una habitación, una cama, un aparador grande, una mujer sobre la cama y un hombre de pie junto a ella, o sentado a sus pies, unidos por algo que intuimos pero que no se nos muestra, cómplices y a la vez cada uno apartado del otro en el silencio de sus cavilaciones. Hopper se interrumpe aquí y no cuenta nada más: las vidas del hombre y de la mujer acaban en ese instante, en esa habitación, en lo que podría vislumbrar o suponer de ellas un testigo que mirara hacia la ventana abierta, adviertendo el contraste entre la evidente luz diurna y la casi desnudez de los personajes.

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Edward Hopper, Eleven AM

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Edward Hopper, Autoretrato

BOLÍVIA, EXPLOSÃO POPULAR

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A Bolívia é no momento um dos países mais interessantes da América do Sul, com uma revolução popular em curso que já derrubou dois presidentes e avança para a eleição de uma assembléia constituinte e a construção de um novo sistema político no qual a maioria de origem índigena, os cholos, finalmente poderá chegar ao poder.
O historiador americano Herbert Klein é uma das pessoas que mais conhecem a Bolívia (e o Brasil) aqui nos Estados Unidos. Entrevistei-o para o Sem Fronteiras da Globo News e aqui você encontra a íntegra da entrevista em português.

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Herbert Klein

Thursday, June 09, 2005

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Richard Serra, Guggenheim de Bilbao

Andei por dentro e em volta de esculturas de Richard Serra. Fiquei tonto, desorientado, perdido. Nunca tinha me acontecido antes. As chapas de aço muito grossas manchadas de ferrugem se inclinam para um lado e aos poucos vão virando para o lado oposto. Chegam muito perto uma da outra fazendo um corredor apertado que de repente se alarga e leva a um beco sem saída. Na volta, não se reconhece o caminho da vinda, tudo parece virado do avesso.
Cadê a saída, quero sair daqui. Alívio. E aí vem a vontade de voltar lá dentro. De ficar quieto, agachado lá no fim, protegido, encasulado. Entra gente, olha e vai embora. A multidão passa mas eu fico. Livre do meu lugar no espaço, no tempo, despido, novo.


Veja o trabalho de Richard Serra em Bilbao.
E Serra perto de New York no Dia Beacon.
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Baía da Traição
Estou escrevendo uma estória que começa na Baía da Traição na Paraíba, no século XVII. Uma história de judeus, holandeses, brasileiros, índios potiguaras e tapuias. Quatro séculos depois a baía continua de difícil acesso. Naquela ponta que se vê ao longe está a barra do rio Mamanguape, onde fica o único refúgio do peixe-boi marinho na costa brasileira. Mais pra dentro estão as aldeias potiguaras, última reserva indígena no nosso litoral. As ruínas do forte e da igreja de São Miguel, as falésias de onde se vê a chegada das caravelas que descem o Atlântico, coqueiros, canaviais, terra vermelha, areia branca, o vento e o mar forte, traiçoeiro, quase nada mudou.
Viajo pra lá na imaginação, noutro tempo, o meu tempo, e invento gente que existe, sonha, luta, vive e morre. Todos se traem, aos outros e a si mesmos. Certeiro só o horizonte, lá longe.

Mais Baía da Traição no site da Pousada Catumbaé.

Tuesday, June 07, 2005

O relógio

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Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

L'Horloge

Horloge! dieu sinistre, effrayant, impassible,
Dont le doigt nous menace et nous dit: "Souviens-toi!
Les vibrantes Douleurs dans ton coeur plein d'effroi
Se planteront bientôt comme dans une cible;

"Le Plaisir vaporeux fuira vers l'horizon
Ainsi qu'une sylphide au fond de la coulisse;
Chaque instant te dévore un morceau du délice
A chaque homme accordé pour toute sa saison.

"Trois mille six cents fois par heure, la Seconde
Chuchote: Souviens-toi! -- Rapide, avec sa voix
D'insecte, Maintenant dit: Je suis Autrefois,
Et j'ai pompé ta vie avec ma trompe immonde!

"Remember! Souviens-toi! prodigue! Esto memor!
(Mon gosier de métal parle toutes les langues.)
Les minutes, mortel folâtre, sont des gangues
Qu'il ne faut pas lâcher sans en extraire l'or!

"Souviens-toi que le Temps est un joueur avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup! c'est la loi.
Le jour décroît; la nuit augmente; souviens-toi!
Le gouffre a toujours soif; la clepsydre se vide.

"Tantôt sonnera l'heure où le divin Hasard,
Où l'auguste Vertu, ton épouse encor vierge,
Où le Repentir même (oh! la dernière auberge!),
Où tout te dira: Meurs, vieux lâche! il est trop tard!"


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O Relógio

Relógio, deus sinistro, alarmante, impassível,
Dedo ameaçador a dizer: "Lembra bem!
As dores vivas para o teu coração vêm
E logo o acertarão com mira infalível;

"Como ninfa subindo ao fundo do cenário,
Foge para o horizonte o Prazer vaporoso;
Cada instante devora tua parte do gozo
Que cabe a cada um no seu itinerário.

"Três mil seiscentas vezes por hora, o Segundo
Sussura: Lembra bem! -- Indo depressa embora,
Voz de inseto, Agora fala: sou Outrora
E suguei tua vida com meu bico imundo!

"Remember! Souviens-toi! Lembra bem, sumidouro!
(Minha garganta de metal é poliglota.)
Os minutos são a ganga, mortal idiota,
Que não deves largar sem extrair o ouro!

"O Tempo, lembra bem, joga com teimosia,
Ganha sem trapacear, toda vez! Amém.
O dia cai; a noite aumenta; lembra bem!
O abismo tem sede, a ampulheta esvazia.

"Logo virá a hora em que o Acaso, e mais
A Virtude, esta virgem casada contigo,
O próprio Remorso (ah! o último abrigo!)
Em que tudo dirá: Morre! Tarde demais!"


Monday, June 06, 2005

Embriague-se



Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Enivrez-vous

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: "Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise."

Embriague-se

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".

O ESTRANGEIRO

René Magritte, O Falso Espelho

Ouça o poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, tradução Jorge Pontual

L'Étranger

Qui aimes-tu le mieux, homme énigmatique, dis? ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis?
- Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or?
- Je le hais comme vous haïssez Dieu.
- Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!



Baudelaire por Nadar, 1855

O Estrangeiro

Quem amas mais, homem enigmático, anda? Teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Teus amigos?
- Utilisas uma palavra cujo sentido me é até hoje desconhecido.
- Tua pátria?
- Ignoro em que latitude ela se situa.
- A beleza?
- Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
- O ouro?
- Odeio-o como odeias Deus.
- Ora! Que amas então, extraordinário estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá longe... lá longe... as maravilhosas nuvens!

Recolhimento

Por-do-sol sobre o Sena, Paris

Canção de Debussy sobre este poema em duas versões:

Barbara Hendricks, soprano, Michel Béroff, piano

Felicity Lott, soprano, Graham Johnson, piano

Ouça o mesmo poema cantado por Léo Ferré

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Recueillement

Sois sage, ô ma Douleur, et tiens-toi plus tranquille.
Tu réclamais le Soir; il descend; le voici;
Une atmosphère obscure enveloppe la ville,
Aux uns portant la paix, aux autres le souci.

Pendant que des mortels la multitude vile
Sous le fouet du Plaisir, ce bourreau sans merci,
Va cueillir des remords dans la fête servile,
Ma Douleur, donne-moi la main; viens par ici,

Loin d'eux. Vois se pencher les défuntes Années,
Sur les balcons du ciel, en robes surannées;
Surgir du fond des eaux le Regret souriant;

Le Soleil moribond s'endormir sous une arche,
Et, comme un long linceul traînant à l'Orient,
Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche.



Recolhimento

Sossega, minha Dor, não desesperes não.
Reclamavas da luz; já se vai; finda o dia.
A cidade mergulha na escuridão
que alguns atormenta e outros alivia.

Enquanto dos mortais a reles multidão,
escrava do Prazer, carrasco sem perdão,
vai colhendo remorsos na mísera orgia,
aceita, minha Dor, esta mão que te guia

pra longe deles. Vê como os Anos finados
nos olham lá do céu com seus velhos brocados;
no fundo d'água, a Saudade sorridente;

o sol mortiço sob a ponte se deitar;
e, como mortalha que avança do Oriente,
ouve, cara, ouve a doce Noite chegar.

ENTREVISTA DE BRUNO LATOUR

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JP - Pour commencer, je voudrais vous proposer un test pour voir comment vos concepts fonctionnent: la question de l'Amazonie, qui tient si à coeur aux brésiliens, et qui est vraiment un mélange de nature, de politique, de science, cet imbroglio, ce noeud, comment pouvez-vous l'addresser par votre écologie politique?

BL - Est-ce que l'Amazonie d'abord est à tout le monde ou est-ce qu'elle est aux brésiliens? Les brésiliens considèrent qu'elle est à eux, mais en même temps c'est évident qu'elle s'étend beacoup plus largement, à la fois par la façon dont elle est étudiée par toutes les disciplines scientifiques et puis par l'énorme écho qu'elle a, à travers les ONGs, donc en un certain sens elle est déjà sur la place publique, elle n'appartient plus aux brésiliens.
La question c'est savoir qu'elles sont maintenant les ressources que l'on peut amener pour la rendre publique. Autrement dit, l'Amazonie est déjà sur la place publique, malgré la taille de l'Amazonie, et la question devient le Parlement qui tient en quelque sorte l'Amazonie. Ce Parlement il doit évidemment avoir des brésiliens dedans, probablement à une place très importante; les militaires brésiliens, c'est un problème très important de stratégie, mais il y a aussi les scientifiques, les scientifiques brésiliens et les scientifiques étrangers, j'ai un peu étudié ça autrefois. Et donc le partage des tâches n'est plus probablement national, ça c'est clair, mais il faut trouver une autre définition de la souveraineté, et la souveraineté définie par la politique au sens des humains est certainement differente de la souveraineté définie au sens des non-humains et des humains mêlés, ce qui est évidemment le cas de l'Amazonie.
Donc la difficulté est: qu'est-ce que c'est que cette nouvelle souveraineté. Cette souveraineté n'est pas la nature, comme le croient souvent les écologistes, on défend l'Amazonie parce que c'est naturel, alors qu'évidemment elle n'est pas naturelle, elle est le milieu de vie extraordinairement complexe de millions de gens, d'espèces qui ont des interêts complètement contradictoires. La question est, est-ce que ces interêts complètement contradictoires peuvent être manifestés ou representés à nouveau?
Et donc il faut éviter à la fois l'idée nationale, c'est-à-dire “ça appartient au Brésil parce que c'est la carte du Brésil” -- on a le même problème en France, n'est-ce pas, avec l'Europe qui aussi considère que la "nature" appartient plutôt à l'Europe et aux européens qu'aux français, ce qui choque beaucoup les français aussi, les français sont très furieux que l'Europe vienne leur donner des leçons, mais ça c'est la situation normale, le droit d'ingérence "humanitaire" est un droit d'ingérence écologique puisque le nouvel espace naturel, mais qui n'est plus que naturel, appartient en quelque sorte à tout le monde.
Il y a les problèmes politiques, il y a évidemment ce qui est très compliqué, la représentation de l'Amazonie par les scientifiques eux-mêmes, ils sont en quelque sorte des représentants des vers de terre, de la forêt, des espèces, etc, les antropologues, etc, et personne n'est d'accord. Donc il faut éviter à la fois le nationalisme, l'écologie fondamentale qui dit, “l'Amazonie c'est évidemment la nature avant tout, et donc les brésiliens doivent être en dehors de cette affaire parce que c'est la nature que nous protégeons”, et aussi la répresentation par les scientifiques qui sont, eux-mêmes, pas en accord les uns avec les autres. Ni la discipline qui doit étudier "les Amazonies", parce qu'il ya multiples Amazonies, ni évidemment la projection en quelque sorte mondiale de l'Amazonie.
Mais c'est un problème très difficile de représenter ces espaces politiques parce qu'ils ne ressemblent pas aux espaces politiques traditionels du tout. On ne va pas réunir un Parlement qui serait le Parlement de l'Amazonie. Mais en même temps la partie du Parlement de Brasilia qui représente l'Amazonie n'est pas non plus adaptée, parce qu'il y a beaucoup d'autres stakeholders et beaucoup d'autres parties prenantes dans cette affaire. Donc -- je ne suis pas du tout spécialista de l'Amazonie, j'ai été une seule fois à Manaus -- c'est un sujet très intéressant parce qu'on voit que ça dépasse complètement le cadre habituel de la politique et que ce n'est pas en basculant du côté de la nature qu'on va résoudre la question, ce n'est pas la nature contra la politique. C'est trouver l'assemblée, l'assemblage, qui est un hibride forcément, correspondant à ces nouveaux êtres qui sont des êtres, des imbroglios, des êtres de mélange, qui ne peuvent plus se résumer ni à la science, ni à la politique, ni à la nature.

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O filósofo alemão Peter Sloterdijk

JP - Qu'elle est votre critique du concept de démocratie? Maintenant on voit les États Unis, le président Bush, utiliser le concept de démocratie pratiquement comme une arme. Il faut renverser des régimes pour imposer la démocratie. Il y a même l'idée de votre collègue allemand Peter Sloterdijk. C'est quoi son idée?

BL - Peter Sloterdijk proposait un parlement gonfable, c'est à dire que les troupes américaines soient suivies par un avion et que du haut d'un avion descende un parachute qui développerait en quelque sorte un parlement automatique à l'intérieur duquel les iraquéens n'auraient plus qu'à renter en oubliant toutes les conditions "écologiques", au sens de la complexité, de faire vivre ensemble des habitudes de pensée tout à fait différentes. Donc si la démocratie c'est cette espèce d'automatisme, en plus de projection de la puissance américaine, évidemment ça lui donne très mauvais nom. Mais ce n'est pas du tout le sens auquel je le prends.
Même le mot démocratie c'est un mot que je n'utiliserai pas forcément. C'est la mise en politique, la mise en politique des êtres qui on toujours fait partie du monde politique mais qui ne sont pas représentés. Les rivières, les forêts, les animaux, la pollution, l'air, enfin, tous les êtres avec lesquels nous vivons, dont nous dépendons pour exister, mas qui sont mal représentés.
Donc la qualité de représantation c'est pas forcément tout le monde qui parle de tout, ce n'est pas forcément une multitude de gens qui s'assemblent pour discuter en permanence de toutes les questions, parce que il y a dans la démocratie, dans la tradition européene en tou cas, l'idée de participation, d'implication, c'est le citoyen rousseauiste transparent, qui s'intéresse à tout, et qui va se passioner un jour pour l'Iraq, le lendemain pour la forêt amazonienne, ensuite pour les questions de pollution, etc. C'est pas possible.
C’est pour ça que je suis beaucoup plus interessé par des gens comme la tradition américaine, non pas celle de monsieur Bush, mais la tradition d'avant, c'est à dire la grande tradition des pragmatistes américains, John Dewey, Walter Lippman et et tous ces gens là, parce qu'ils offrent de la démocratie une vision beaucoup plus réaliste en un certain sens. Ce n'est pas l'implication générale d'un citoyen transparent. mais c'est une procédure d'enquête, et de transformer la notion de démocratie en enquêtes, en tâtonnements à l'aveugle. Donc toutes les métaphores de la démocratie comme vision, connaissance, transparence, lutte contra l'opacité, sont un tout petit peu trompeuses. Et cette autre tradition américaine, qui n'est pas du tout en ce moment à la mode, mais à mon avis me paraît beaucoup plus riche, insiste au contraire sur le caractère aveugle de la politique. C'est une inversion un peu des métaphores si vous voulez,

JP – Ce serait un charactère experimental comme dans la science? Est-ce qu'il y a un rapport?

BL - Oui, parce que les sciences en quelque sorte ont toujours -- d'abbord parce que nous sommes tous une partie d'une expérience scientifique maintenant, donc les sciences sont elles-mêmes répandues partout, et qu'il s'agisse de sujets comme les médicaments, la dangereusité d'un médicament, la forêt amazonienne, la pollution, le réchauffement global, les ONGs, sont déjà parties d'une expérience, en grandeurs plus ou moins vastes, mais nous faisons partie déjà d'une expérience.
Donc nous sommes déjà des collaborateurs, non payés souvent, des activités scientifiques, et en même temps nous n'avons pris de la science que ce qui est la partie la plus datée, qui est la certitude des faits scientifiques, ou inversement l'ignorance. Mais en fait ce qui est intéressant dans la science, et c'est d'ailleurs exactement ce qui intéressait John Dewey, dans la procédure de l'enquête, c'est l'expérience collective. Donc le tâtonnement collectif qui permet de modifier en quelque sorte constamment les réponses et les questions qu'on se pose. Ce qui est bizarre c'est que la politique à toujours été à l'ombre de l'activité scientifique mais qu'on a finalement peu utilisé la recherche, on a utilisé la science, pas du tout pareil.

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John Dewey e Walter Lippman, o Pragmatismo

JP - Et comment ça se passerait dans la politique, votre idée de deux Chambres, une séparation de pouvoirs, un pouvoir de prendre-en-compte, et le pouvoir de mettre-en-ordre. C'est ça?

BL - Oui. Parce que, de toute façon, tout est invention politique, c'est un problème de checks and balances, de procédures pour éviter la tyrannie. Mais le système traditionel, tel que je le décris moi en tant qu'antropologue des sciences -- personne n'est d'accord avec cette façon de faire, n'est-ce pas -- c'est un système qui est impossible à gérer. C’est le système où on a les experts, qui s'occupent donc des sciences, et puis de l'autre côté on a la politique qui est toujours la combinaison, les arrangements, la colère, les passions, la réthorique. Démonstrations et réthorique. On voit bien maintenant que ce n'est pas ça du tout la situation. parce que les démonstrations ne sont pas si claires que ça, et la réthorique a besoin de sujets qui sont eux-mêmes des sujets techniques, dont la forêt amazonienne est un cas parmis beaucoup d'autres. Donc la question c'est: est-ce qu'on peut retrouver une réthorique, donc un sens des preuves? Mais ces preuves n'arrêtent pas la discussion.
Donc tout le problème actuellement de la démocratie c'est celui de retrouver le sens des preuves, mais de preuves qui ne sont pas des preuves qui fassent taire l'adversaire. On l'a très bien vu dans cette très belle dispute sur les armes de destruction massive, avec la question d'arriver à une preuve que monsieur Blix, envoyé par l'ONU, essayait d'obtenir, C'était une preuve fragile, mais discutable, collectivement discutable avec des enquêtes fréquentes, et ça a paru insuportable au vieux type de décision, dont monsieur Rumsfeld et monsieur Bush sont les répresentants. Donc la question c'est de trouver une autre façon de faire la combinaison.
Ma solution, que je propose, c'est que ce n'est pas du tout la division entre experts d'un côté, et politiques de l'autre, mais deux questions qui, elles, doivent être effectivement séparées. Elles sont séparées comme ça (à l'horizontale) et non come ça (verticale): la question du nombre d'êtres à prendre en compte, que ça soit les pauvres des favelas aussi bien que les gens du front pionnier, mais aussi les vers de terre de la forêt amazonienne et aussi les droits des scientifiques étrangers à faire des recherches, et aussi les droits des chercheurs brésiliens à garder les trésors, et aussi celui des indiens, etc. Donc la question du nombre à prendre en compte, qui ne doit pas être interrompue par aucune question de vraisemblance, ou de droit. Çá c'est une tâche d'enquête.
Et puis il y a une autre question qui, elle, doit être bien séparée de la première, qui est: est-ce qu'on peut vivre ensemble? Est-ce qu'il existe un monde où on peut avoir à la fois la forêt amazonienne, les vers de terre, les indiens, le front pionnier, les seringueiros, etc, est-ce que c'est possible?
C'est à dire que la hierarchie des êtres peut être composée, et la politique est l'art de la composition dans tous les sens du terme, la composition d'un monde commun. Si ce monde commun est nié, en disant, “il n'y a pas de monde commun possible”, on est dans la violence au sens classique. S'il est supposé d'avance, en disant, “il existe un monde commun, c'est la nature”, la politique est niée aussi. Puisqu'on organise les gens en disant, “il faut protéger la nature même si les humains doivent disparaître”, ce qui est une position de certains fondamentalistes écologiques profonds, en fait superficiels, mais ils s'appelent profonds.
Donc c'est ça que je propose, c'est à dire une réorientation de ce que c'est que la séparation des pouvoirs entre science et politique. C'est un point de vue inhabituel parce qu'on ne considère pas que la science est un pouvoir, on considère d'habitude qu'elle est justement ce qui est hors de la constitution politique. Mais je l'ai montré pluisieurs fois -- ça je crois que maintenant c'est assez bien compris -- l'idée que nous nous faisons de la science c'est une Chambre, on s'accorde à l'intérieur d'une Chambre qui est encore un peu virtuelle mais dont on comprend maintenant mieux comment elle est faite, où se fait l'accord des scientifiques d'un côté, et puis ensuite on passe à la politique en disant, “maintenant on va essayer de comprendre les applications de la certitude scientifique”. Et je pense que cette séparation des pouvoirs n'a plus de chances.

JP - Alors dans votre schéma, il y a, si je comprends bien, un mouvement de recherche, et d'un autre côté un travail de quoi, de décision?

BL - Eh bien, des fonctions qui sont des fonctions très habituelles, de hierarchisation: qui est-ce qui est le plus grand? Quels sont les êtres les plus grands?

JP - Qui déciderai?

BL - Aucun des problèmes de la politique n'est simplifié par mon argument, c'est simplement que les participants à cette tâche d'hierarchisation sont maintenant des porte-parolles, des représantants qui viennent de beaucoup d'autres sources que dans le système précédant. Donc ils viennent en partie, naturellement, des sciences, mais aussi de l'économie, aussi du droit, mais aussi de la politique au sens classique, parce que les tâches de hierarchisation sont très bien pratiquées par les politiques, et la tâche de décision, que j'appelle la tâche d'institution, c'est à dire de clôture de la controverse. Et ces tâches de clôture sont de nouveau celles, jointes, des scientifiques, des politiques, des économistes, naturellement.
Donc l'idée c'est qu’au lieu d'avoir une séparation entre les experts, qui nous disent ce qu'il faut faire, et les politiques, qui décident, la décision est une chose trop importante pour être laissée aux politiques. La souveraineté s'exerce auilleurs, maintenant, la souveraineté s'exerce quand on définit les faits aussi, une partie de la souveraineté c'est définir les faits, ce que sont les choses, c'est la définition même de la souveraineté. Donc cette tâche là, la tâche de décision, ou d'institution, elle doit être manifestée à la fois par les gens venant des sciences, par les gens venant des politiques et par les économistes, et par les juristes, et par les artistes.

JP - Est-ce que vous décrivez là une utopie ou est-ce que vous décrivez une chose qui arrive déjà?

BL - Ni l'un ni l'autre. Si on prend des sujets, comme la dispute mondiale au tour des organismes génétiquement modifies, on est dans une situation très hibride -- en fait tout ce que je dis est déjà là. On parle par exemple en Europe du principe de précaution qui est un des mots d'ordre qui organise un peu les grandes disputes écologiques en Europe. Le principe de précaution fait déjà ça en quelque sorte.
Mais là où on a du mal c'est que l'on reste à l'idée que la politique ce sont des humains qui sont en train de discuter à partir de faits qui sont, soit bien établis par des scientifiques et donc il n'y a plus qu'intervenir, soit mal établis et donc on attend qu'ils soient bien établis. C'est la position de Bush sur le réchauffement global, par exemple, on attend que les scientifiques soient sûrs, tant qu'ils sont pas sûrs à cent pour cent, l'action politique ne suit pas. Ou inversement ils sont sûrs à cent pour cent, donc la politique suit.
Dans tous les cas l'action politique est soumise à une espèce de verdict préalable qui est au fond un verdict venant des savants. Et bizarrement c'est cette idée là que les ecologists, qui croient à la "nature", réutilisent lorsqu'ils disent, “la nature étant connue par les sciences, donc il faut faire ça, pas toucher à l'Amazonie”, etc. Or, dans les deux cas c'est un modèle ou la politique n'a plus la souveraineté et au fond dans toute cette affaire il s'agit de récuperer la souveraineté pour la politique.
Mais évidemment c'est une souveraineté qui n'a plus la tête habituelle, parce que ce n'est plus le chef qui décide souverainement, c'est une souveraineté négociée, avec des checks and balances, c'est à dire la grande tradition de la démocratie révue par le pragmatisme. Et le pragmatisme lui-même étendu à des objets qui sont surprenants, des objets qu'on n'avait pas l'habitude de voir, qui sont les objets que nous offrent les crises écologiques, des objets échevelés, comme je l'écrit.

JP - Au Brésil comme ailleurs il y a beaucoup de découragement avec la politique, on a repris le processus démocratique il n'y a pas tellement longtemps, il y avait beaucoup d'espoir lors des dernières élections, mais les gens croient que la politique revient toujours au cynisme, à la corruption, business as usual. Quelle serait votre proposition pour renouveller la politique?

BL - (rires) La politique est dans un moment un peu décourageant, mais je pense que c'est aussi parce que c'est très largement à cause de la façon dont la gauche a compris la politique, elle-même d'ailleurs profondément influencée par une définition de la science, Après tout, il n’y a pas tellement longtemps qu’on imaginait encore, sous la rublique du marxisme, que la science économique ou la science de l'histoire allait en quelque sorte dicter de nouveau ses fonctions à la politique. Donc à gauche même, et en particulier à l'extrême gauche, encore la science règne.
Que cela soit à droite ou à gauche, ce que ça soit au Wall Street Journal, ce que j'appelle les marxistes de droite, ou les marxistes de gauche, l'idée d'une science qui règne sur la politique continue. On s'est peu préocuppé, depuis probablement Rousseau, depuis déjà deux bons siècles, de définir ce que la politique peu faire pour elle-même, et donc on lui demande des choses impossibles .
Une grande partie du désespoir ou du cynisme vient à mon avis du fait qu'on demande à la politique de transporter des capacités qu'elle ne peut pas faire, qui sont les unes de l'ordre du droit, les autres d'ordre religieux, les autres de l'ordre de la psychologie, les autres de l'ordre de la science, etc. Et donc un des moyens de redonner confiance dans les médiations de la politique, qui sont des médiations fragiles, c'est d'être pragmatiste dans le sens de la philosophie de Dewey, et de voir autour de quels objets tournent les passions politiques.
C'est ce que j'essaye de faire dans une exposition en ce moment, Rendre les Choses Publiques. Donc d'imaginer que la politique n'est pas ce qui tourne autour de positions morales, ce n'est pas forcément take a stand, avoir une opinion politique, mais tourner son attention vers des objets, ce que les anglais appellent issues, je ne sais pas quel est le mot en portugais.

JP - Questões.

BL - Et donc c'est très frappant de voir qu'on a moralisé beaucoup trop la politique, ou scientificisé la politique, et qu'on s'est peu intéressé à ce qu'elle est capable de faire.

JP - Ce serait la position pragmatique américaine traditionelle?

BL - Au sens fort du mot pragmata, c'est à dire au sens où la pragmatique n'était peut-être pas assez développée chez Dewey, mais certainement dévelopée chez Walter Lippman, dans lequel les pragmata c'est le mot grec, c'est celui des choses controversées. Et ces choses controversies, c'est autour de cela que la politique tourne. Ce que tout le monde sait, en un certain sens. Mais on a transformé un peu la politique en une attitude assez proche du moralisme, qui consiste à exprimer une opinion critique pour être d'accord avec les gens avec qui on est. Le plaisir d'être d'accord à remplacé l'attention aux objets, l'attention aux pragmata.
Une des directions de l'exposition que je prépare, que j'essaye de penser, c'est de revenir aux objets. Au fond la politique à toujours été à propos d'objets, d'objets controversés, objets scientifiques, d'objets qui sont des issues, des questions. Et ces objets, les représenter. Comment est-ce qu'ils sont représentés? Et on s'apperçoit que, bizarrement, ça intéresse assez peu à la philosophie politique, cette question. On s'intéresse beaucoup aux procédures, aux institutions, mais on s'intéresse assez peu à la représentation des sujets ou des objets de dispute.
Je pense qu'il ya un moyen de réintéresser , de repassioner les gens à la politique, mais ce n'est pas les mêmes passions, ce n'est pas les passions révolutionnaires. Se sont des passions, comme le dit très bien Peter Sloterdijk, des passions d'explicitation, ce sont des passions qui n'ont pas le panache qui a beaucoup inspiré la pensée républicaine, en France en particulier, la barricade, le drapeau sanglant, la défaite aussi, mais qui sont des choses beaucoup plus fragiles mais à mon avis beaucoup plus intéressantes.
Tourner la politique du côté des objets, et non pas du côté du stand, de la position qu'on prend. C'est très frappant de voir qu'`a droite la position maintenant, en particulier aux États Unis, quand vous dites, I'm convinced, c'est une position maintenant, mais, convinced by what?, on ne sait pas. Convinced, être convaincu, c'est une position, ou être critique, à gauche, c'est une position maintenant.

JP - Est-ce qu'il y a eu un renversement entre gauche et droite?

BL - Ah oui, c'est la droite qui est révolutionnaire maintenant, c'est la droite qui est radicale, on est en pleine révolution conservatrice. Et c'est très utile pour la gauche de voir que ce n'est pas très réjouissant de voir des révolutionnaires. C'est pas réjouissant du tout. Récemment je lisais dans le New York Times une citation d'un des fanatiques chrétiens qui disait "we want to be divisive in an age of tolerance".
Donc, maintenant qu'on voit ce que c'est, les passions "révolutionnaires" passer du côté du Wall Street Journal, on s'apperçoit qu'on a probablement une réaction d'horreur devant les habitudes de pensée qui étaient liées à ces passions politiques. Ce sont des passions de division, des passions d'intolérance, ce sont des passions de conviction, alors que la grande chose de la politique ce n'est pas d'être convaincu. Elle ment, elle change, parce qu'elle tâtonne et que la conviction ce n'est pas forcément une extraordinaire vertu.
Donc il y a à retrouver une espèce d'étologie des passions politiques, et je pense que l'expérience que nous soubissons tous, de voir la droite prendre le pouvoir un peu partout en volant les passions qui étaient les passions de la gauche, voire de l'extrême gauche, c'est une expérience très utile. Parce qu'on s'aperçoit qu'au fond il faut retrouver ce que les américains, les pragmatistes, appellaient decency, la décence, ou la civilité, qui sont au fond les grandes vertus politiques.

JP - Vous avez cité, dans votre introduction à l'exposition "Rendre les Choses Publiques", ces mots d'un aide de Bush à un journaliste: "Vous êtes basés sur la réalité, alors que nous créons l'Histoire pour que vous l'étudiez après". Comment réagir à cette hubris de "créer l'Histoire"?

BL - C'est une idée entièrement stalinienne. C'est une idée qu'un Trotsky, un Stalin aurait eu, c'est une idée entièrement de gauche qui est passée à droite. Il y a un très joli livre de Gracq sur la révolution totale, c'est l'idée de la révolution totale, c'est à dire l'idée que les humains ne sont pas capables d'avoir une vie politique subtile, et que c'est la révolution totale, donc apocalyptique, radicale -- ce que je dis paraîtra très réactionnaire, mais je pense qu'il faut apprendre à être bien réactionnaire, à la façon de Sloterdijk, s'intéresser non plus à la révolution mais à l'explicitation, le mouvement de l'histoire n'est pas un mouvement révolutionnaire, c'est un mouvement d'explicitation des conditions d'existence collective. Il y a quelque chose de très gênant à ce que la politique, au sens de ce qui reste quand même à gauche, la vision révolutionnaire, moderniste, gêne en quelque sorte, ralenti la compréhension que nous avons de cette nouvelle situation. Dont l'écologie d'ailleurs n'est qu'un exemple.
L'écologie c'est pas la nature, l'écologie c'est l'explicitation des conditions d'existence collective, que ça soit la nature, les rivières, le chômage, peu importe, c'est pas lié à la nature au sens extérieur, c'est lié aux enveloppes, encore un terme de Sloterdijk, aux enveloppes dont on à besoin pour exister. L'une de ces enveloppes probablement c'est aussi la decency, la civilité.

JP - Alors comme réagir ou résister à ce stalinisme de droite?

BL - Pas par le stalinisme de gauche. Il faut se réapproprier -- on est évidemment un peu démuni parce que la gauche à beaucoup donné en quelque sorte -- se réapproprier des vocabulaires pragmatiques. Justement c'est pour ça que ce n'est pas un problème d'opinion, la politique n'est pas un problème d'opinion. C'est un problème d'objets. La politique est "objective", si je peu dire ça, pas objective au sens des objets scientifiques, objective au sens qu'elle tourne autour des issues. Et la question, qui est la question clé de Dewey, est comment ces issues sont représentées. Comment on les re-présente au sens de les présenter à nouveau. Et là c'est un travail pour une exposition, des artistes, des journalistes, des télevisions, à l'intérieur du quel elles sont toujours engagées.

JP - Vous utilisez très souvent le concept de médiation. Qu'est-ce que ça veut dire pour vous et comment les média font partie de ces médiations?

BL - Les média sont des médiateurs parmi d'autres, mas la médiation c'est un terme plus général. Je lutte, avec ce terme, contre l'idée de direction, cést à dire qu'on sait "directement". En politique c'est très clair, la demande de transparence est une demande qui dit, “si on n'avait pas de médiations ça serait beaucoup mieux, si on n'avait pas tous ces comités, tous ces protocols, tous ces trucs là, on aurait directement accès à la représentation”. À quoi, on ne le sait pas. Et donc la médiation c'est toujours, que cela soit en science, en art, en religion, le moyen de lutter contra le fondamentalisme.
Il y a un fondamentalisme religieux, il y a un fondamentalisme scientifique, un fondamentalisme politique et un fondamentalisme artistique qui sont liés au fond au modernisme, aux différentes idées sur le modernisme. Et un des moyens de lutter contre le fondamentalisme c'est de dire que oui, il y a toujours des médiations, c'est toujours indirect, c’est toujours tâtonnant et donc la question clé c'est toujours qu'elle est la procédure d'enquête. C'est remplacer l'imédiat par le médiat ou le direct par l'enquête.

JP - Quand les modernes ont séparé la société de la nature, ils ont mis Dieu de côté. Où est-ce que vous mettez Dieu dans votre vision?

BL - Dieu joue un rôle fondamental, mais pas fondamentaliste. Donc on est revenu sur cette idée dont on s'était débarassé, c'était une histoire du passé. Dieu est en quelque sorte partout maintenant, à nouveau dans la politique, dans la science, aux États Unis en particulier, et de nouveau la lutte contre le fondamentalisme devient la grande question, avec beaucoup de liaisons entre science, politique, art et religion. Et c'est plus simple en religion, parce que la tradition veux qu'on ne puisse pas représenter, personne n'a le droit de prononcer à faux le nom de Dieu ou de parler en son nom sans tout un appareillage de civilité et de mediations, dont les diverses religions sont en désaccord, mais au fond il s'agit toujours de médiations.
Et donc de même qu'on ne peut pas parler au nom de Dieu directement, on ne peut parler au nom de la nature directement, personne ne peut parler au nom de la forêt amazonienne directement, personne ne peut parler au nom du droit directement, etc. Donc le respect des médiations que les modernes ont un peu oublié, à cause même de cette idée qu'on allait s'arracher au contraintes du passé, devient maintenant beaucoup plus clair.
Dans la vision moderne, on allait de l'attachement à l'émancipation. Donc c'était très difficile de respecter les mediations, parce qu’au fond, moins on en avait, plus on était scientifique, plus on était religieux, ou laïque, ça dépend, plus on était politique. Ce qui s'est passé, le grande renversement de la fin du modernisme, c'est qu'on est passé d'une théorie de l'émancipation, y compris l'émancipation de Dieu, à une théorie des attachements, et cette théorie des attachements demande un respect des médiations.
La lutte contre le fondamentalisme devient en quelque sorte tous azimuts, que ce soit en religion, en politique, ou en science. Mon exposition précédente, Iconoclash, était exactement là dessus: art, religion et science. Donc le respect des médiations me paraît un chemin vers la civilité, contre le modernisme. Et contre le post-modernisme.
Je crois que la politique commence. On est dans une situation de crise, mais intéressante. C'est le moment où, en voyant les ennemis se réapproprier les outils, il faut changer. Renouveller les passions politiques. Retrouver d'autres passions politiques que celles qui nous ont occupées depuis Rousseau. Mais il faut aussi accepter que nous n'avons jamais été modernes, ce qui n'est pas forcément universellement accepté. Au moment même, d'ailleurs, où un pays comme le vôtre, ou des pays comme la Chine retrouvent une autre histoire du modernisme.
C'est une responsabilité des européens maintenant, qui est devenu un des grands interêts de l'Europe, une des grandes aventures actuelles, qui est de réinventer un modernisme qui n'est plus le modernisme à l'ancienne, qu'ils ont imposé d'ailleurs au reste du monde. Un paradoxe, mais dont les brésiliens sont bien conscients.

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A Maldição

Flores do Mal, Michael Masur


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Baudelaire, foto Carjat

Le Guignon

Pour soulever un poids si lourd,
Sisyphe, il faudrait ton courage!
Bien qu'on ait du coeur à l'ouvrage,
L'Art est long et le Temps est court.

Loin des sépultures célèbres,

Vers un cimetière isolé,
Mon coeur, comme un tambour voilé,
Va battant des marches funèbres.

-- Maint joyau dort enseveli
Dans les ténèbres et l'oubli,
Bien loin des pioches et des sondes;

Mainte fleur épanche à regret
Son parfum doux comme un secret
Dans les solitudes profondes.

Baudelaire, autoretrato

A Maldição

Para uma carga tão pesada,
Sísifo, só o teu valor!
Não basta escrever com amor,
A Arte é longa, o Tempo é nada...

Sem a glória do Panteão,
Só, no cemitério isolado,
Em marcha de luto fechado
Vai batendo meu coração.

-- Quanto tesouro, escondido
Dorme na treva, esquecido,
Bem longe do céu e do chão.

Quanta flor chora no degredo
Perfumes bons como um segredo,
Na mais profunda solidão.

Sunday, June 05, 2005

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O HOMEM QUE PAPOU BAGDÁ PRO PAPAI
de Robert Grossman

Eu vivia feliz, agora estou no osso.
Derrubaram-me a estátua, cortaram o pescoço.
Me pegaram escondido no fundo de um poço.
Foi o filho do homem, George Bush, o Moço.

Aqui tem tanto óleo que onde fura sai.
No que o Ianque botou o olho, bye bye.
Embrulhado pra presente de bandeja vai
"Do homem que papou Bagdá, pro papai".

Ele voa nos céus e tristezas me dá,
O jovem valentão que papou Bagdá.
Com espanto e choque e fúria no ataque
Do meu querido Iraque ele fez pó--de-traque.

Com cara de pau e redobrada malícia
Explodiu-me o palácio e matou-me a milícia
(mas cadê as armas de destruição maciça?),
Esse filho do filho de uma meretrícia!

Agora ele me chama de amigo do Osama
Porque não está bem informado dos fatos
E eu aqui na prisão sem o meu pijama
Sou forçado a praticar os mais estranhos atos.

E ele voa nos céus com incrível destreza
Tendo como fluido do petróleo a riqueza.
Os bons republicanos lhe dão cama e mesa.
E o meu Iraque é a sua presa.

Ele tomou o Iraque e daqui por diante
Usará seus fantoches de terno e turbante
Pra fazer de conta que é bom governante
-- e eu sei como o poder é inebriante...

Mas a América vai precisar de músculos
Enquanto explodem um a um os filhos dela,
Vai ter que aprender a não ter mais escrúpulos
E a fatiar gente como mortadela.

Ó Bush, de Bagdá o Meliante-em-Chefe,
Elevado ao poder por uma fraude, um blefe,
Agora enfrentas outro milionário viril.
Por que não vão todos pra puta que os pariu?

Correspondências

Claude Monet, Nymphéas

Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.



Claude Monet, Nymphéas

Correspondências

Da Natureza, templo de vivos pilares,
Uma fala confusa muitas vezes sai;
Pela selva de símbolos o homem vai
Sob a contemplação de íntimos olhares.

Como ecos distantes que confundem tons
Numa crepuscular e profunda unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Conversam os perfumes, as cores, os sons.

Há cheiros frescos como dos recém-nascidos,
Doces como oboé, verdes como um jardim
-- e outros triunfais, ricos e corrompidos,

Com toda a expansão dessas coisas sem fim,
Como âmbar, almíscar, benjoim e incenso,
Que cantam os sentidos e a mente em ascenso.

KEITH HARING NO CÉU

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Entrei na catedral de St John the Divine, vazia, imensa e escura, para passar o tempo. Atrás do altar, na capela do fundo, fechada a grade, vi ao longe alguma coisa brilhando, um tríptico aberto sobre um altar lá no fundo. Os olhos vão se acostumando à escuridão e começam a adivinhar os traços quase imperceptíveis, como marcas de um dedo na areia, desenhando anjos. São anjos alados no céu sobre uma multidão que dança em êxtase. O traçado tem a marca inconfundível do grafiteiro Keith Haring. Não sei quanto tempo fiquei ali contemplando. Uma visão do Paraíso escondida num vão escuro de New York. Depois fiquei sabendo que foi uma das últimas obras de Keith Haring, terminada um mês antes da morte dele em 1990, de AIDS, aos 31 anos. O baixo-relevo é sobre metal, bronze coberto com folhas de ouro branco. Parece gesso de tão delicado. A Grace Cathedral em San Francisco também possui um tríptico de Haring, quase igual. Mas este não está escondido, fica sobre o altar principal. Foi completado duas semanas antes da morte dele. O grafiteiro subiu ao céu.

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O tríptico exibido no museu Whitney

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O nome de Haring no quilt das vítimas da Aids
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Baudelaire por Manet

Épigraphe
pour un livre condamné

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.

Si tu n'as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette! tu n'y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hystérique.

Mais si, sans se laisser charmer,
Ton oeil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m'aimer;

Âme curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi! ... Sinon, je te maudis!


Epígrafe
para um livro condenado

Leitor pacífico e bucólico,
Sóbrio, ingênuo homem de bem.
Larga este livro do Além,
Orgiástico e melancólico!

Se não tiveres estudado
Com Satã, mestre em malandragem,
Larga! Perderias a viagem
Ou me acharias tresloucado.

Mas se, sem se deixar levar,
Teu olhar mergulha no Inferno,
Lê-me, aprende a me amar,

Alma que sofre um mal moderno;
Busca teu paraíso, amigo.
Tem dó de mim!... Ou te maldigo!



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autoretrato sob efeito do haxixe

Os Gatos

Edouard Manet


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Baudelaire par Matisse

Les Chats

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté,
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin;

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

Os Gatos

Sóbrios doutores e loucos apaixonados
Têm em comum, ao fim de uma vida feliz,
O amor pelos gatos, altivos, gentis,
Como eles friorentos e sossegados.

Grandes amigos da volúpia e do saber,
Preferem o silêncio e o terror noturnos;
Seriam do demônio os corcéis soturnos
Se em seu orgulho pudessem se submeter.

Ajeitam-se cismadores nas poses raras
Das altas esfinges no fundo dos Saaras
Que num transe infinito parecem sonhar;

O dorso fértil magicamente cintila
E uma poeira fina de ouro, a brilhar,
Fulgura de leve nas místicas pupilas.

Vincent van Gogh

HERBERT KLEIN: BOLÍVIA, EXPLOSÃO POPULAR

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Herbert Klein é historiador especializado em Brasil e Bolívia. Entre seus livros estão Slavery and the Economy of São Paulo, African Slavery in Latin America and the Caribbean, The Atlantic Slave Trade e Bolivia: Evolution of a Multi-Ethnic Society. É professor das universidades Columbia e Stanford.

Entrevista para o Sem Fronteiras da Globo News em 15/6/2005:

JP - O que há de realmente novo na Bolívia? O surgimento de uma nova força política?

HK - É uma força política que não é nova, mas finalmente chegou ao primeiro plano. Desde 1952, as comunidades indígenas e a população mestiça têm sido parte do cenário político. Passaram a votar em 1952, quando permitiram que os analfabetos votassem, e todo mundo participou, houve uma reforma agrária, e houve um logo processo de maturação política.
As duas primeiras gerações se concentraram na reforma agrária, na prestação de serviços para as comunidades, e por isso eram grupos relativamente passivos. Entre 52 e 82, tanto governos de direita quanto de esquerda e até os militares basearam seu poder numa aliança com a classe camponesa, até o fim do regime de Hugo Banzer. Esta aliança significava que o governo central dava recursos às comunidades, dava terras, abriu o distrito de Chapati em Cochabamba onde toda a coca é cultivada, tudo isso foi subsidiado, migração, crédito rural, muito dinheiro foi para a educação pública e com isso a Bolívia se desenvolveu bastante.
Estamos agora na terceira geração de camponeses desde a revolução. Agora eles estão infinitamente mais urbanizados, hoje quase todos aqueles que falam aymara e quechua são grupos urbanos, e todos têm boa educação.
A Bolívia está melhor do que o Brasil em termos de taxa de analfabetismo e, embora seja um país muito pobre, está no meio entre os países da América Latina em termos de educação. A população é alfabetizada. Só nos últimos 20 anos o espanhol se tornou a língua dominante, antes era a língua da minoria. Agora é a língua dominante por causa dos índios e mestiços que aprenderam a falar espanhol. Eles são essa nova geração de grupos alfabetizados de camponeses, mestiços, chamados cholos, que estão surgindo com novas exigências políticas.
Toda esta mobilização popular que começou no final dos anos 90, com novos partidos e tudo mais, levou a uma quebra total do antigo sistema político, ao surgimento de novos agrupamentos, um monte deles. Fora o líder cocalero Evo Morales, não há um partido dominante. Há um monte de pequenos partidos.
Em 95, o presidente Sanchez de Losada, Goni, que foi expulso por esses movimentos populares, começou esta nova tendência quando foi criada a participacion popular. A Bolivia tinha 27 municipios antes disso e agora tem mais de 300. Os municípios agora elegem todos os prefeitos, têm assembléias, começou uma democracia participativa. E em 2002 houve uma emenda à constituição que reconheceu grupos civis, agrupaciones civiles de cidadãos e aldeias indígenas, como partidos políticos. Combinando isso tudo houve de repente a introdução maciça de novos grupos como organizações políticas e isso levou ao colapso dos velhos partidos.
De 82, quando começou o regime democrático estável, até a eleição presidencial de 2002, havia três partidos: direita, centro e esquerda. A esquerda era o MIR, o centro era o MNR e a ADN era a direita. E cada um só tinha um terço dos votos. Por isso sempre havia segundo turno. Tinham que ir para o congresso para eleger o presidente. Até Goni, da última vez que foi eleito, teve só 22% dos votos e Evo Morales teve 21%. Mas tudo isso desmoronou. A mobilização foi provocada por Goni, quando houve o primeiro controle de importação de gás butano para as cidades, o que levou à revolta de 2002 e à derrubada do presidente.
Seu vice, Carlos Mesa, tinha uma missão impossível. Não era um político popular, mas tem bom coração, então retirou as tropas, retirou a polícia, e a mobilização fugiu ao controle.
Primeiro, no altiplano todos os grupos indígenas, rurais e urbanos, tornaram-se altamente mobilizados em torno de questões como a guerra da água, em Cochabamba, o gasoduto para o Chile, a nacionalização do gás, e depois a grande luta sobre o fornecimento de água por uma empresa francesa em El Alto. E El Alto tornou-se um foco.

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El Alto em primeiroplano, La Paz ao fundo

El Alto não existia 20 anos atrás, agora é uma cidade de 700 mil habitantes. São todos índios ou cholos. Sendo que cholo é um termo cultural, não biológico. São todos aymaras e quechuas. E ali é o foco de tudo, inclusive das pequenas empresas que existem na Bolívia e também da mobilização.
E a mobilização agora é em torno de questões mais amplas. Não mais educação, saúde, e sim questões nacionais mais amplas. Por isso há todo tipo de partido, há partidos que aparecem e desaparecem em cinco anos, líderes políticos como Felipe Quispe que surgem e somem dois anos depois -- o partido dele cresceu, depois acabou.
Não é nada claro em que isso tudo vai dar. Há uma completa reorganização do cenário político, o surgimento de grupos étnicos com exigências que são em parte raciais, em parte por um sistema de quotas, em parte idéias nacionalistas vagas, seja o confisco do gás ou a nacionalização do gás, ou alguma outra coisa. Isso é só o início de um conjunto maior de questões, e o que realmente significa é que a classe cholo quer o poder. E quer o poder de uma forma tradicional, o que nunca conteceu em nenhum outro país latino-americano. Agora você vê mulheres vestidas de modo tradicional irem para a universidade. Vestidas não com roupas ocidentais mas roupas tradicionais indígenas. Muito bem vestidas, levando um laptop, mas se vestem assim. Isso é visto como uma provocação pelas velhas classes dominantes. Ou seja, há todo tipo de atividade política simbólica e não dá pra saber onde isso vai parar. É novo. Quanto a isso não dúvida.

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JP- O que é que Santa Cruz quer?

HK - Santa Cruz era uma comunidade branca isolada até os anos 50 e houve muita intervenção governamental para criar a agroindústria em grande escala. A fronteira da soja passou de Mato Grosso para a Bolívia. E está na esfera de influência do Brasil. Todos os cruzeños que vão para a universidade procuram universidades brasileiras. A velha elite costumava ir para universidades no Chile, agora a maioria vai para o Brasil. Você encontra em Santa Cruz muita gente que se formou no Brasil.
Em segundo lugar, eles têm o gás e o petróleo. E estão exigindo maior percentagem de participação. É uma exigência que provoca conflito, porque o estado vai querer ter o controle sobre todos os recursos e aí redistribui-los.
Outra coisa que eles exigiram, em 2003 e 2004, em meio a tudo isso que estava acontecendo no altiplano, os cruzeños tiveram um cabildo abierto e exigiram autonomia. A Bolívia é um país centralizado e o que eles querem é um estado federal com uma legislatura em Santa Cruz, um governo em Santa Cruz, eleito pela população local. Agora eles estão sendo chamados de "pessoal do consenso de Washington", mas são na essência uma classe comercial muito ativa numa grande fronteira agrícola que tem muito em comum com o Brasil, e muito ligada à economia brasileira. Eles têm interesses um pouco diferentes dos da população do altiplano. Mas não acho que exista qualquer possibilidade de separação, só autonomia. Eles estão usando toda a atividade no altiplano em proveito próprio.

JP - Pode haver um terreno comum entre o altiplano e os cruzeños?

HK - Não sei. É uma política irracional e não surgiram líderes. Por exemplo, no último mês na Bolívia a pergunta era: será que Evo Morales vai atrair a classe média? Se não atrair a classe média ele terá só 20% dos votos. Ele é o candidato mais provável à presidência. A questão é: será que ele pode expandir sua base? Hugo Chavez ligou pra ele e disse: negocie. Empurrou-o para finalmente negociar. Um conflito interminável sem negociações poderia provocar uma contra-revolução. Isso é o que parecia perto de acontecer com os militares inquietos e a necessidade de que o estado-maior dissesse que não queria intervir.

JP - Alguém estaria querendo chamar os militares?

HK - Não, não creio. Eles tiveram um longo período de conflito com os militares. Nenhum grupo chamaria os militares, até o momento. Os militares poderiam tentar um golpe sozinhos mas não acho que os movimentos populares negociarão com os militares. Os militares concordaram em apoiar o atual governo de Rodriguez e não intervir. Mas sempre é possível...

JP - E é possível que Rodriguez estabilize o país?

HK - Ninguém sabe. Ficou claro que Evo Morales queria Rodriguez, Carlos Mesa quando saiu do governo declarou que queria Rodriguez, ele era o terceiro na linha de sucessão, é uma figura do judiciário, não tem partido político, concordou que seu governo seja transitório, está organizando as eleições. As eleições devem acontecer em outubro, novembro, e há um debate sobre se deve haver uma constituinte, que nem no Brasil em 1988. O congresso se tornaria a constituinte, portanto mais conservadora, ou ela seria eleita independentemente? No caso boliviano será eleita. Portanto será mais radical.

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O líder cocalero Evo Morales pode ser o próximo presidente

JP - Evo Morales é o único que os cholos reconhecem como líder?

HK - Sim, ele teve sucesso em combinar os migrantes para Chapati, os cocaleros, com as exigências do altiplano. Ele combinou as forças de um grande leque de grupos e agora surgiu como o político mais poderoso na Bolívia.

JP - Qual é a ideologia dele?

HK - O partido é o MAS, um partido socialista. É uma volta ao antigo MNR. Nacionalização dos recursos básicos, alguma representação simbólica para todos os grupos étcnicos, hostilidade em relação ao FMI e o Banco Mundial, e claramente hostilidade quanto aos Estados Unidos, em termos da política antidrogas.

JP - Existe algo de real nas acusações de ingerência externa na Bolívia?

HK - Não. É tão óbvio que todos esses acontecimentos vêm de uma longa evolução de muito tempo. Os índios se mobilizaram até antes de 1952, houve rebeliões indígenas constantes até 1952. Eles tendiam a ser um grupo isolado e passivo, agora são mais articulados. Para começar, já há uma classe média entre os índios, que não existia antes. Em El Alto há uma classe média. E alguns desses índios de classe média estão morando em Calacoto, o bairro rico de La Paz. Há uma estratificação mais complexa acontecendo. Já há homens de negócio nessa comunidade indígena, opostos a uma desorganização maciça.
As exigências agora são excessivas. Para onde isso vai levar ninguém sabe e vai depender de quão negociáveis essas exigências serão. E quando Mesa simplesmente retirou as tropas para os quartéis isso quis dizer que novos elementos de todo tipo puderam surgir. Surgiram e a pergunta agora é quão poderosos eles são. E ninguém saberá até as eleições.
Nas últimas eleições municipais apareceu um monte de partidos políticos mas muitos eram liderados por políticos antigos. Agora a velha classe política foi destruída. Os velhos partidos foram destruídos. A pergunta é se vão se integrar a novas coalizões ou se, como nas últimas eleições municipais, haverá grupos regionais. Um prefeito local extremamente capaz pode de repente emergir como um poder regional. Se tiverem, como é provável, eleições para governadores locais, poderá ser possível ver uma estrutura política mais coerente. A questão é que agora está tudo um caos. Não acho que seja guerra civil. Mas é uma situação política caótica.
A elite avançou para se tornar muito mais aberta do que antes, diante dessas reivindicações, mas só até certo ponto. Se a vida da elite for ameaçada, numa situação como a do Chile, pode ser que ela se volte para o exército e diga "agora basta e vamos reprimir os grupos indígenas". Mas é tão complicado.
E lá está La Paz com um milhão de habitantes e El Alto em cima de La Paz, com 750 mil, então não é um pequeno grupo que possa ser controlado.

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